Belchior vive: uma homenagem póstuma

ARTIGO

Belchior vive: uma homenagem póstuma

Cantor e compositor faleceu no dia 30 de abril

Por Tribuna do Ceará em Opinião

3 de maio de 2017 às 14:15

Há 2 anos

Por Mailton Nogueira

belchior

Cantor e compositor faleceu no dia 30 de abril (FOTO: Reprodução)

Aquele domingo amanheceu mais angustiado que um goleiro na hora do gol, quando a notícia entrou em mim como sol no quintal. Há tempo muito tempo, você demorou longe de casa e, entre essas idas e vindas cheias de distância, muito aqui se especulou.

Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia nem no algo mais, apenas no porquê. Por que de forma repentina? Apesar do teu coração selvagem ter profetizado que talvez morresse jovem, pensei que o tivesse feito ano passado e que, neste ano, você não morreria. Por quê? Tivera pressa de viver? Alguma curva no caminho? Algum punhal de amor traído? Estas indagações são como os casos de família e de dinheiro que nunca entendemos bem. Ao menos procurasse, antes de partir, as frases que guardamos pra ti dentro das nossas canções.

Em tempos difíceis, nos quais o real desgosto social transpõe muito além do que é passado como crise, recorremos aos teus escritos que soam como cânticos de luta. Entretanto e paradoxalmente, tu me respondes: “Isto é somente uma canção, a vida, a vida realmente é diferente… quer dizer, a vida é muito pior”. Este canto vem feito faca e corta-me a carne, mas talvez minha maior dor seja perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Pergunto-me se meu diploma de sofrer de uma universidade me permitirá viver as coisas novas que também são boas, como o amor/humor das praças cheias de pessoas. Ah, Belchior, eu quero tudo, tudo alguma vez, pois minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais.

Tua poesia atemporal nos mostra que sou eu quem ama o passado e não ver que o novo sempre vem. O que nos resta por aqui é viver a divina comédia humana tendo a certeza de que nada é eterno.

Mestre Bel, teu principal ensinamento foi amar e mudar as coisas. Será por que “no presente a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais”? Ou por que tu eras alegre como um rio, um bicho, ou um bando de pardais?

Sim, você sonhou e escreveu em letras grandes pelos muros do país e nunca foi um “cantador” das coisas do porão. O tempo mexe com a gente sim, mas, diferente dos comentários a respeito de John, não saia do nosso caminho, pois hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude está agora em casa guardado por Deus, que abre os braços como no Corcovado.

Desculpe, mas ainda pergunto o porquê. É que eu sou bem moço para tanta tristeza, mas deixemos de coisa e cuidemos da vida… Se o teu lugar é onde eu quero que ele seja, eu digo: aqui! Mas tu não queres o que a cabeça pensa, queres o que a alma deseja… conheces bem o teu lugar.

Hoje, na parede do meu quarto (in memoriam) essa lembrança é o quadro que dói mais. Tua alma transcende e tua poesia transborda e, é claro, não preciso te dizer de que lado nasce o sol, porque bate lá (você sabe), bate lá o teu e o nosso coração.

Sem resposta! Gostaria de encontrar aquele passarinho e perguntar: Black Bird, Assum Preto, o que se faz? Enfim… “a noite fria me ensinou a amar mais o meu dia e pela dor eu descobri o poder da alegria e a certeza que tenho coisas novas, coisas novas para dizer”.

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte, porque apesar de muito novo vivi tua arte, vida e obra. Não posso dizer se foste feliz, mas tenho certeza que nunca foste mudo e hoje tu cantas muito mais.

Eu sou como você! Eu sou como você! Eu sou como você, que me ouve agora. Nós somos como você, Belchior. Somos muito mais do que apenas simples rapazes e moças latino-americanos vindos do interior.

* Mailton Nogueira é geógrafo e professor

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Belchior vive: uma homenagem póstuma

Cantor e compositor faleceu no dia 30 de abril

Por Tribuna do Ceará em Opinião

3 de maio de 2017 às 14:15

Há 2 anos

Por Mailton Nogueira

belchior

Cantor e compositor faleceu no dia 30 de abril (FOTO: Reprodução)

Aquele domingo amanheceu mais angustiado que um goleiro na hora do gol, quando a notícia entrou em mim como sol no quintal. Há tempo muito tempo, você demorou longe de casa e, entre essas idas e vindas cheias de distância, muito aqui se especulou.

Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia nem no algo mais, apenas no porquê. Por que de forma repentina? Apesar do teu coração selvagem ter profetizado que talvez morresse jovem, pensei que o tivesse feito ano passado e que, neste ano, você não morreria. Por quê? Tivera pressa de viver? Alguma curva no caminho? Algum punhal de amor traído? Estas indagações são como os casos de família e de dinheiro que nunca entendemos bem. Ao menos procurasse, antes de partir, as frases que guardamos pra ti dentro das nossas canções.

Em tempos difíceis, nos quais o real desgosto social transpõe muito além do que é passado como crise, recorremos aos teus escritos que soam como cânticos de luta. Entretanto e paradoxalmente, tu me respondes: “Isto é somente uma canção, a vida, a vida realmente é diferente… quer dizer, a vida é muito pior”. Este canto vem feito faca e corta-me a carne, mas talvez minha maior dor seja perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Pergunto-me se meu diploma de sofrer de uma universidade me permitirá viver as coisas novas que também são boas, como o amor/humor das praças cheias de pessoas. Ah, Belchior, eu quero tudo, tudo alguma vez, pois minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais.

Tua poesia atemporal nos mostra que sou eu quem ama o passado e não ver que o novo sempre vem. O que nos resta por aqui é viver a divina comédia humana tendo a certeza de que nada é eterno.

Mestre Bel, teu principal ensinamento foi amar e mudar as coisas. Será por que “no presente a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais”? Ou por que tu eras alegre como um rio, um bicho, ou um bando de pardais?

Sim, você sonhou e escreveu em letras grandes pelos muros do país e nunca foi um “cantador” das coisas do porão. O tempo mexe com a gente sim, mas, diferente dos comentários a respeito de John, não saia do nosso caminho, pois hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude está agora em casa guardado por Deus, que abre os braços como no Corcovado.

Desculpe, mas ainda pergunto o porquê. É que eu sou bem moço para tanta tristeza, mas deixemos de coisa e cuidemos da vida… Se o teu lugar é onde eu quero que ele seja, eu digo: aqui! Mas tu não queres o que a cabeça pensa, queres o que a alma deseja… conheces bem o teu lugar.

Hoje, na parede do meu quarto (in memoriam) essa lembrança é o quadro que dói mais. Tua alma transcende e tua poesia transborda e, é claro, não preciso te dizer de que lado nasce o sol, porque bate lá (você sabe), bate lá o teu e o nosso coração.

Sem resposta! Gostaria de encontrar aquele passarinho e perguntar: Black Bird, Assum Preto, o que se faz? Enfim… “a noite fria me ensinou a amar mais o meu dia e pela dor eu descobri o poder da alegria e a certeza que tenho coisas novas, coisas novas para dizer”.

Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte, porque apesar de muito novo vivi tua arte, vida e obra. Não posso dizer se foste feliz, mas tenho certeza que nunca foste mudo e hoje tu cantas muito mais.

Eu sou como você! Eu sou como você! Eu sou como você, que me ouve agora. Nós somos como você, Belchior. Somos muito mais do que apenas simples rapazes e moças latino-americanos vindos do interior.

* Mailton Nogueira é geógrafo e professor