Dez anos depois, Orkut tem morte decretada e milhões de usuários se perderão no ciberespaço


RIP Orkut: 10 anos depois, milhões de usuários se perderão no ciberespaço

Usuário desde 2006, sentirei falta da minha primeira rede social que me propiciou boas experiências on line

Por Renato Ferreira em Tecnologia

24 de julho de 2014 às 18:44

Há 5 anos

O fim de uma era já tem data para acabar. Diferente do suposto fim do mundo no dia 21 de dezembro de 2012, a rede social usada por milhões de pessoas, o Orkut, acabará no dia 30 de setembro de 2014, e excluirá todos os perfis que não migrarem para o Google+. Usuário desde 2006 (anos de ouro), para minha tristeza, minha rede será fechada um dia antes do meu aniversário. Será que alguém além de mim sentirá falta?

Eu já possuo o Google+ no meu e-mail atual e infelizmente não haverá integração entre duas contas que têm dois endereços eletrônicos diferentes. À época, para entrar na rede era necessário receber um convite de outro usuário. Foi moda ter um Orkut.

Perfil do Orkut

Perfil do Orkut

Aderir a rede, unir pessoas e tribalizar jovens

Com uma metodologia jamais vista em outra rede, já que à época o MSN Messenger era o mais usado, o Orkut catalisou pessoas a conversarem mais on line e permanecerem mais tempo na frente das telas de computador. Houve um vício social e cada dia um amigo, um parente ou um desconhecido entrava na rede (ou todos ao mesmo tempo). Quem nunca ficou vendo quem visitava seu perfil…

Um espaço breve para se descrever e uma possibilidade infinita de entrar em comunidades eram possíveis. Por meio delas, uma teia de novas amizades circundava e se formava um novo capital social. Sem generalizar, amigos (que se conheciam pessoalmente) deixaram de se encontrar para conversar e se comunicavam por meio eletrônico. Nas comunidades, as interações inteligentes e sagazes uniam a cumplicidade entre membros, e uma novo pessoa era adicionado a sua rede.

Comunidade "Madonna - Fãs do Brasil", com discussões a todo instante no fórum

Comunidade “Madonna – Fãs do Brasil”, com discussões a todo instante no fórum

Hip-hoppers, hardcores, emocores, indie-rockers, rockers, poppers e clubbers se descobriram nesse meio interacional. Esta tribalização até hoje é mal vista. Posteriormente veio a criação de um segundo perfil (já que o primeiro foi lotado com mil amigos), os fakes e a linguagem “tiopês“. O Orkut viveu bons momentos, mas hoje é visto de maneira aversa, brega e antiquada. No começo do Facebook inclusive, os usuários eram vistos como pessoas menos instruídas, “desprovidas de personalidade”, inclusive utilizando a expressão “orkutizar” para se diminuir usuários.

Comunidades engraçadas e cheias de estilo, como a Eu odeio a Segunda-Feira, Não fui eu, foi meu eu lírico, Eu sou mais indie que você, Hoje sentarei no preferencial, Black Bitch Moves e Bette Davis também se diverte não falavam nada sobre você, mas você não se envergonhava por estar nelas: pelo contrário, era muito engraçado.

Assim, fiz algumas amizades que sobreviveram e migraram comigo até o Facebook, o Twitter, o Instagram, o Foursquare e o WhatsApp Messenger. Outros se perderam no tempo por não entrarem mais no Orkut (embora eu esteja continuamente lá).

[silver][b] Oi, posso te add? 🙂 [/silver][/b]/Só add com scrap

Se enganam aqueles que pensam que não aprenderam nada no Orkut. O mínimo que todos saíram foi sabendo um pouco das abreviações mais loucas da internet e uma noção básica do BBCCode (aquele usado para negritar e colorir textos). Sua popularização nos deixou uma “herança” aplicada até hoje no uso de emoticons e uma infinidade de termos usados frequentemente.

Afinal, hoje a gente se “add” no face, depois “vc” fala “cmg”, a gente combina alguma coisa e com “ctz” esse encontro terá muitos “rs”, “kkk”.

Pós-habituação e conhecimento, novas modalidades de comunicação também foram exploradas por mim e outros usuários, como os depoimentos. Pra não “apagar minha história orkutiana”, eu resolvi fechar um arquivo PDF com todas estas declarações que me envolviam. Os enviados renderam 45 páginas e os recebidos 93. Tive uma vida ativa na rede social de logomarca roxa e fundo azul, reconheço. Convenhamos ainda que eu estou há oito anos na rede (embora toda a interação tenha entrado em coma por volta de 2011).

Lembranças contínuas e não muito boas

Relacionamentos de namoro via web nunca foram muito legais nem muito bem vistos, mas cada um tem seu ponto de vista e maneira singular de se envolver com outras pessoas. Assim, a rede reuniu diversos casais enamorados e ciumentos que renderam um “leio, respondo e apago” na seção de recados.

Depois disso, já com uma plataforma Web 2.0, era possível implementar vídeos, fotos e gifs animados nas conversas. A cada passo, uma nova integração era possível, e com isso, as pessoas começaram a exagerar nas conversas multimidiáticas e vírus sociais começaram a aparecer. Lembranças que não merecem ser lembradas.

Descanse em Paz, velho Orkut

E-modinhas lançadas no Orkut foram se desviralizando na rede do Mark Zuckerberg. Eu entrei no meio de 2011, junto com outros colegas de faculdade que também iam se desgarrando da ferramenta social. Nunca deixei de entrar no Orkut pelas comunidades, que reúnem muita informação sobre os artistas que eu mais gosto e algumas dicas de leituras e festas.

As maiores comunidades são até hoje atualizadas com downloads e conversas sobre o assunto referente ao grupo. Quando eu preciso baixar alguma coisa, é para lá que eu recorro e sempre encontro o que preciso, mas isso vai acabar. E vai ser daqui dois meses para deixar muitas saudades a mim.

Fim já tem data decretada (Arte: Tiago Leite)

Fim já tem data decretada (Arte: Tiago Leite)

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RIP Orkut: 10 anos depois, milhões de usuários se perderão no ciberespaço

Usuário desde 2006, sentirei falta da minha primeira rede social que me propiciou boas experiências on line

Por Renato Ferreira em Tecnologia

24 de julho de 2014 às 18:44

Há 5 anos

O fim de uma era já tem data para acabar. Diferente do suposto fim do mundo no dia 21 de dezembro de 2012, a rede social usada por milhões de pessoas, o Orkut, acabará no dia 30 de setembro de 2014, e excluirá todos os perfis que não migrarem para o Google+. Usuário desde 2006 (anos de ouro), para minha tristeza, minha rede será fechada um dia antes do meu aniversário. Será que alguém além de mim sentirá falta?

Eu já possuo o Google+ no meu e-mail atual e infelizmente não haverá integração entre duas contas que têm dois endereços eletrônicos diferentes. À época, para entrar na rede era necessário receber um convite de outro usuário. Foi moda ter um Orkut.

Perfil do Orkut

Perfil do Orkut

Aderir a rede, unir pessoas e tribalizar jovens

Com uma metodologia jamais vista em outra rede, já que à época o MSN Messenger era o mais usado, o Orkut catalisou pessoas a conversarem mais on line e permanecerem mais tempo na frente das telas de computador. Houve um vício social e cada dia um amigo, um parente ou um desconhecido entrava na rede (ou todos ao mesmo tempo). Quem nunca ficou vendo quem visitava seu perfil…

Um espaço breve para se descrever e uma possibilidade infinita de entrar em comunidades eram possíveis. Por meio delas, uma teia de novas amizades circundava e se formava um novo capital social. Sem generalizar, amigos (que se conheciam pessoalmente) deixaram de se encontrar para conversar e se comunicavam por meio eletrônico. Nas comunidades, as interações inteligentes e sagazes uniam a cumplicidade entre membros, e uma novo pessoa era adicionado a sua rede.

Comunidade "Madonna - Fãs do Brasil", com discussões a todo instante no fórum

Comunidade “Madonna – Fãs do Brasil”, com discussões a todo instante no fórum

Hip-hoppers, hardcores, emocores, indie-rockers, rockers, poppers e clubbers se descobriram nesse meio interacional. Esta tribalização até hoje é mal vista. Posteriormente veio a criação de um segundo perfil (já que o primeiro foi lotado com mil amigos), os fakes e a linguagem “tiopês“. O Orkut viveu bons momentos, mas hoje é visto de maneira aversa, brega e antiquada. No começo do Facebook inclusive, os usuários eram vistos como pessoas menos instruídas, “desprovidas de personalidade”, inclusive utilizando a expressão “orkutizar” para se diminuir usuários.

Comunidades engraçadas e cheias de estilo, como a Eu odeio a Segunda-Feira, Não fui eu, foi meu eu lírico, Eu sou mais indie que você, Hoje sentarei no preferencial, Black Bitch Moves e Bette Davis também se diverte não falavam nada sobre você, mas você não se envergonhava por estar nelas: pelo contrário, era muito engraçado.

Assim, fiz algumas amizades que sobreviveram e migraram comigo até o Facebook, o Twitter, o Instagram, o Foursquare e o WhatsApp Messenger. Outros se perderam no tempo por não entrarem mais no Orkut (embora eu esteja continuamente lá).

[silver][b] Oi, posso te add? 🙂 [/silver][/b]/Só add com scrap

Se enganam aqueles que pensam que não aprenderam nada no Orkut. O mínimo que todos saíram foi sabendo um pouco das abreviações mais loucas da internet e uma noção básica do BBCCode (aquele usado para negritar e colorir textos). Sua popularização nos deixou uma “herança” aplicada até hoje no uso de emoticons e uma infinidade de termos usados frequentemente.

Afinal, hoje a gente se “add” no face, depois “vc” fala “cmg”, a gente combina alguma coisa e com “ctz” esse encontro terá muitos “rs”, “kkk”.

Pós-habituação e conhecimento, novas modalidades de comunicação também foram exploradas por mim e outros usuários, como os depoimentos. Pra não “apagar minha história orkutiana”, eu resolvi fechar um arquivo PDF com todas estas declarações que me envolviam. Os enviados renderam 45 páginas e os recebidos 93. Tive uma vida ativa na rede social de logomarca roxa e fundo azul, reconheço. Convenhamos ainda que eu estou há oito anos na rede (embora toda a interação tenha entrado em coma por volta de 2011).

Lembranças contínuas e não muito boas

Relacionamentos de namoro via web nunca foram muito legais nem muito bem vistos, mas cada um tem seu ponto de vista e maneira singular de se envolver com outras pessoas. Assim, a rede reuniu diversos casais enamorados e ciumentos que renderam um “leio, respondo e apago” na seção de recados.

Depois disso, já com uma plataforma Web 2.0, era possível implementar vídeos, fotos e gifs animados nas conversas. A cada passo, uma nova integração era possível, e com isso, as pessoas começaram a exagerar nas conversas multimidiáticas e vírus sociais começaram a aparecer. Lembranças que não merecem ser lembradas.

Descanse em Paz, velho Orkut

E-modinhas lançadas no Orkut foram se desviralizando na rede do Mark Zuckerberg. Eu entrei no meio de 2011, junto com outros colegas de faculdade que também iam se desgarrando da ferramenta social. Nunca deixei de entrar no Orkut pelas comunidades, que reúnem muita informação sobre os artistas que eu mais gosto e algumas dicas de leituras e festas.

As maiores comunidades são até hoje atualizadas com downloads e conversas sobre o assunto referente ao grupo. Quando eu preciso baixar alguma coisa, é para lá que eu recorro e sempre encontro o que preciso, mas isso vai acabar. E vai ser daqui dois meses para deixar muitas saudades a mim.

Fim já tem data decretada (Arte: Tiago Leite)

Fim já tem data decretada (Arte: Tiago Leite)