Vítimas e parentes de pacientes que morreram relatam erros de cirurgião plástico cearense

CASO DE POLÍCIA

Vítimas e parentes de pacientes que morreram relatam erros de cirurgião plástico cearense

Pacientes e familiares recorreram à Polícia para prestar queixa contra cirurgião plástico, após procedimentos mal sucedidos

Por TV Jangadeiro em Segurança Pública

29 de março de 2019 às 11:31

Há 2 meses
Lia Pacheco morreu aos 32 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Lia Pacheco morreu aos 32 anos. (FOTO: Arquivo pessoal)

Por Márcia Feitosa

Lia Coelho Pacheco Dias tinha 32 anos, era médica e cunhada do cirurgião que escolheu para fazer uma lipoaspiração, no ano de 2016. A mãe dela lembra da agonia no momento em que foi em busca de notícias da filha e ouviu do médico: “Ela não acordou”. Lia foi transferida para outro hospital particular, no mesmo dia, para realizar uma ressonância. Passou nove dias em coma, até que foi constatada a morte encefálica. Conforme testemunhas declararam à Polícia Civil, os órgãos dela foram doados e o corpo foi cremado – por decisão do marido, irmão do cirurgião.

A mãe de Lia Pacheco, Ângela Pacheco, diz que nunca teve nenhuma satisfação sobre o que aconteceu com a filha. “A única coisa que sei é que minha filha entrou saudável para fazer uma lipoaspiração e saiu do centro cirúrgico morta. Tenho todos os exames do pré-operatório e ela estava bem. A última coisa que ela me disse foi ‘mãe, te amo’, e entrou para ser operada. Depois não a vi mais”, afirmou.

http://mais.uol.com.br/view/16630039

Ângela traz na expressão do rosto o sofrimento da perda e o nome da filha em um colar pendurado ao pescoço. Ela pontua que explicações foram ventiladas, mas nenhuma confirmada. O corpo não foi levado à Pericia Forense, nem submetido a exame de corpo de delito, segundo o inquérito.

“Disseram que ela morreu por causa da anestesia, depois que tinha sido uma interação medicamentosa, depois que ela teve uma convulsão. O Danilo (Dias) nunca me disse o que aconteceu de fato”. Entre lágrimas, a mãe de Lia lembra do neto: “Ele tinha um ano quando ela partiu. Nunca vai poder chamar mamãe. É a cara dela: o narizinho, os olhos. Dizem que está tudo bem com ele, mas não está”, diz Ângela.

A tia de Lia, também médica, disse em depoimento à Polícia Civil ter acompanhado o exame que atestou a morte encefálica da sobrinha e afirmou às autoridades policiais que “não houve investigação alguma sobre as consequências dos danos do pós-operatório para o agravamento do quadro de Lia”.

O marido da médica morta, Thiago Dias, também foi intimado. Ele afirmou no inquérito que a última ressonância realizada na esposa comprova que ela morreu em decorrência de “um ato cirúrgico e anestésico”, mas não saberia dizer qual dos dois impactou mais. O médico disse também não lembrar que empresa cremou o corpo da esposa.

Caso em São Paulo

Drama parecido vive a família da educadora física Sandra Mara Trovino da Cunha. Ela é a vítima mais recente, morta no último dia 9 de março, em São Paulo. O caso foi considerado suspeito pela Polícia Civil do Estado. A vítima foi operada por Danilo Dias no Hospital da Plástica, no bairro Ipiranga. Ela se internou para realizar uma abdominoplastia, porém morreu após sofrer três paradas cardíacas. Um Boletim de Ocorrência foi registrado pelo marido de Sandra, Márcio da Cunha, no 16º DP (Vila Clementino) no mesmo dia.

Sandra Mara Trovino da Cunha morreu em março deste ano, em São Paulo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sandra Mara Trovino da Cunha morreu em março deste ano, em São Paulo. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Danilo Dias foi ouvido na delegacia paulista. O cirurgião afirmou que Sandra era sua paciente há dois meses e confirmou ter realizado a cirurgia. Segundo o médico, o procedimento correu bem, mas ao término, “quando vestiam uma cinta compressiva em Sandra, ela teve uma parada cardíaca e foi reanimada imediatamente”. Porém, o BO afirma que cerca de 1 hora e 40 minutos depois, a educadora física não resistiu. Danilo disse não saber precisar a causa da morte.

O filho da vítima, Welliton Trovino, disse que a abdominoplastia era um sonho da mãe. “Há 12 anos ela queria fazer. Juntou dinheiro, pesquisou muito. Não sei como ele conseguiu convencê-la em dois meses”, afirmou. Abalado, o jovem diz que todo dia é uma nova batalha para se acostumar com a ausência de Sandra. “Queremos justiça. Se ele fez isso com uma, duas pessoas, que ele não tenha a oportunidade de fazer com mais ninguém”. 

Erro médico

Pelo menos outras cinco pessoas prestaram queixa dizendo que foram mutiladas, durante cirurgias realizadas pelo mesmo médico. Além de Camila Uckers, que não consegue mexer normalmente um dos pés, a administradora Sara Nunes, também move um processo na 23ª Vara Cível de Fortaleza contra o cirurgião. Ela foi operada em março de 2016 e realizou seis procedimentos no mesmo dia. A vítima teve complicações durante as sete horas de cirurgia e foi encaminhada para a UTI do hospital, onde permaneceu em coma por seis dias.

“Quero justiça. O Danilo foi totalmente negligente comigo. Além da cirurgia não ter dado certo, só ia me ver arrastado por minha irmã. Sempre fugindo. Ele precisa parar”, afirma com a voz embargada, tentando segurar as lágrimas.

Já Maria do Carmo Aires Brasil pede uma indenização na 3ª Vara Cível de Fortaleza, depois de ter realizado intervenções nos braços e na face, em dezembro de 2016. O resultado desagradou a vítima, já que um dos braços ficou mais largo que outro e um lado da face ‘despencou’. Segundo consta nos autos, a paciente tentou amigavelmente fazer as reparações, mas o médico teria dito que faria as correções se Maria do Carmo arcasse com os custos do hospital.

Marta Régia Cavalcante Pirajá também não teve um bom resultado na intervenção plástica realizada por Danilo Dias. Conforme os autos do processo, que tramita na 1ª Vara Cível de Fortaleza, ela realizou quatro intervenções cirúrgicas, no mesmo dia, em abril de 2015. Parte da pele sofreu um processo infeccioso e chegou a necrosar. A limpeza adequada dos tecidos da barriga teria sido realizada somente 30 dias após a cirurgia. A vítima diz nos autos que a cirurgia demorou demasiado para cicatrizar.

Para o advogado Werner Feitosa, que representa três vítimas de supostas negligências do cirurgião Danilo Dias, o caso é passível de prisão do médico. “Pela coletividade de vítimas, pelo número de pessoas com resultados entregues diversos do esperado, pelas vítimas com sérias lesões e até os casos fatais, já dava para existir uma ordem de prisão preventiva contra o médico”, avaliou.

A reportagem entrou em contato com o advogado Ricardo Gifoni, que representa Danilo Dias no Conselho Regional de Medicina (CRM). Ele afirmou que os dois processos que o médico tinha por erro médico foram arquivados e que não se manifestaria sobre outros processos, porque são sigilosos. A reportagem também tentou contato com o médico, mas o celular dele estava desligado ou fora de área. No consultório do cirurgião, a atendente disse que ele estava viajando. Pediu um número de telefone para que ele retornasse a ligação, mas não houve retorno.

Confira a galeria

Inquérito policial sobre os casos
1/9

Inquérito policial sobre os casos

Inquérito apura morte de médica após cirurgia plástica (FOTO: Reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
2/9

Inquérito policial sobre os casos

Inquérito apura morte de médica após cirurgia plástica (FOTO: Reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
3/9

Inquérito policial sobre os casos

Depoimento do marido sobre a morte e cremação do corpo da médica Lia Pacheco (FOTO: reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
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Inquérito policial sobre os casos

Depoimento do marido sobre a morte e cremação do corpo da médica Lia Pacheco (FOTO: reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
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Inquérito policial sobre os casos

Depoimento do marido sobre a morte e cremação do corpo da médica Lia Pacheco (FOTO: reprodução)

Investigação sobre os casos
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Investigação sobre os casos

Boletim de Ocorrência da morte da educadora física Sandra Trovino em SP

Investigação sobre os casos
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Investigação sobre os casos

Médico Danilo Dias sobre a morte de Sandra Trovino (FOTO: Reprodução)

Investigação sobre os casos
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Investigação sobre os casos

Atestado de óbito da educadora física que cita a cirurgia como causa mortis (FOTO: reprodução)

Investigação sobre os casos
9/9

Investigação sobre os casos

Guia de encaminhamento de cadáver de Sandra Trovino assinada por Danilo Dias (FOTO: reprodução)

As 3 reportagens da série:

Cirurgião plástico cearense é investigado por duas mortes e cinco deformações em pacientes
Vítimas e parentes de pacientes que morreram relatam erros de cirurgião plástico cearense
Saiba a quem recorrer em caso de negligência médica em cirurgia plástica

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CASO DE POLÍCIA

Vítimas e parentes de pacientes que morreram relatam erros de cirurgião plástico cearense

Pacientes e familiares recorreram à Polícia para prestar queixa contra cirurgião plástico, após procedimentos mal sucedidos

Por TV Jangadeiro em Segurança Pública

29 de março de 2019 às 11:31

Há 2 meses
Lia Pacheco morreu aos 32 anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Lia Pacheco morreu aos 32 anos. (FOTO: Arquivo pessoal)

Por Márcia Feitosa

Lia Coelho Pacheco Dias tinha 32 anos, era médica e cunhada do cirurgião que escolheu para fazer uma lipoaspiração, no ano de 2016. A mãe dela lembra da agonia no momento em que foi em busca de notícias da filha e ouviu do médico: “Ela não acordou”. Lia foi transferida para outro hospital particular, no mesmo dia, para realizar uma ressonância. Passou nove dias em coma, até que foi constatada a morte encefálica. Conforme testemunhas declararam à Polícia Civil, os órgãos dela foram doados e o corpo foi cremado – por decisão do marido, irmão do cirurgião.

A mãe de Lia Pacheco, Ângela Pacheco, diz que nunca teve nenhuma satisfação sobre o que aconteceu com a filha. “A única coisa que sei é que minha filha entrou saudável para fazer uma lipoaspiração e saiu do centro cirúrgico morta. Tenho todos os exames do pré-operatório e ela estava bem. A última coisa que ela me disse foi ‘mãe, te amo’, e entrou para ser operada. Depois não a vi mais”, afirmou.

http://mais.uol.com.br/view/16630039

Ângela traz na expressão do rosto o sofrimento da perda e o nome da filha em um colar pendurado ao pescoço. Ela pontua que explicações foram ventiladas, mas nenhuma confirmada. O corpo não foi levado à Pericia Forense, nem submetido a exame de corpo de delito, segundo o inquérito.

“Disseram que ela morreu por causa da anestesia, depois que tinha sido uma interação medicamentosa, depois que ela teve uma convulsão. O Danilo (Dias) nunca me disse o que aconteceu de fato”. Entre lágrimas, a mãe de Lia lembra do neto: “Ele tinha um ano quando ela partiu. Nunca vai poder chamar mamãe. É a cara dela: o narizinho, os olhos. Dizem que está tudo bem com ele, mas não está”, diz Ângela.

A tia de Lia, também médica, disse em depoimento à Polícia Civil ter acompanhado o exame que atestou a morte encefálica da sobrinha e afirmou às autoridades policiais que “não houve investigação alguma sobre as consequências dos danos do pós-operatório para o agravamento do quadro de Lia”.

O marido da médica morta, Thiago Dias, também foi intimado. Ele afirmou no inquérito que a última ressonância realizada na esposa comprova que ela morreu em decorrência de “um ato cirúrgico e anestésico”, mas não saberia dizer qual dos dois impactou mais. O médico disse também não lembrar que empresa cremou o corpo da esposa.

Caso em São Paulo

Drama parecido vive a família da educadora física Sandra Mara Trovino da Cunha. Ela é a vítima mais recente, morta no último dia 9 de março, em São Paulo. O caso foi considerado suspeito pela Polícia Civil do Estado. A vítima foi operada por Danilo Dias no Hospital da Plástica, no bairro Ipiranga. Ela se internou para realizar uma abdominoplastia, porém morreu após sofrer três paradas cardíacas. Um Boletim de Ocorrência foi registrado pelo marido de Sandra, Márcio da Cunha, no 16º DP (Vila Clementino) no mesmo dia.

Sandra Mara Trovino da Cunha morreu em março deste ano, em São Paulo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Sandra Mara Trovino da Cunha morreu em março deste ano, em São Paulo. (FOTO: Arquivo Pessoal)

Danilo Dias foi ouvido na delegacia paulista. O cirurgião afirmou que Sandra era sua paciente há dois meses e confirmou ter realizado a cirurgia. Segundo o médico, o procedimento correu bem, mas ao término, “quando vestiam uma cinta compressiva em Sandra, ela teve uma parada cardíaca e foi reanimada imediatamente”. Porém, o BO afirma que cerca de 1 hora e 40 minutos depois, a educadora física não resistiu. Danilo disse não saber precisar a causa da morte.

O filho da vítima, Welliton Trovino, disse que a abdominoplastia era um sonho da mãe. “Há 12 anos ela queria fazer. Juntou dinheiro, pesquisou muito. Não sei como ele conseguiu convencê-la em dois meses”, afirmou. Abalado, o jovem diz que todo dia é uma nova batalha para se acostumar com a ausência de Sandra. “Queremos justiça. Se ele fez isso com uma, duas pessoas, que ele não tenha a oportunidade de fazer com mais ninguém”. 

Erro médico

Pelo menos outras cinco pessoas prestaram queixa dizendo que foram mutiladas, durante cirurgias realizadas pelo mesmo médico. Além de Camila Uckers, que não consegue mexer normalmente um dos pés, a administradora Sara Nunes, também move um processo na 23ª Vara Cível de Fortaleza contra o cirurgião. Ela foi operada em março de 2016 e realizou seis procedimentos no mesmo dia. A vítima teve complicações durante as sete horas de cirurgia e foi encaminhada para a UTI do hospital, onde permaneceu em coma por seis dias.

“Quero justiça. O Danilo foi totalmente negligente comigo. Além da cirurgia não ter dado certo, só ia me ver arrastado por minha irmã. Sempre fugindo. Ele precisa parar”, afirma com a voz embargada, tentando segurar as lágrimas.

Já Maria do Carmo Aires Brasil pede uma indenização na 3ª Vara Cível de Fortaleza, depois de ter realizado intervenções nos braços e na face, em dezembro de 2016. O resultado desagradou a vítima, já que um dos braços ficou mais largo que outro e um lado da face ‘despencou’. Segundo consta nos autos, a paciente tentou amigavelmente fazer as reparações, mas o médico teria dito que faria as correções se Maria do Carmo arcasse com os custos do hospital.

Marta Régia Cavalcante Pirajá também não teve um bom resultado na intervenção plástica realizada por Danilo Dias. Conforme os autos do processo, que tramita na 1ª Vara Cível de Fortaleza, ela realizou quatro intervenções cirúrgicas, no mesmo dia, em abril de 2015. Parte da pele sofreu um processo infeccioso e chegou a necrosar. A limpeza adequada dos tecidos da barriga teria sido realizada somente 30 dias após a cirurgia. A vítima diz nos autos que a cirurgia demorou demasiado para cicatrizar.

Para o advogado Werner Feitosa, que representa três vítimas de supostas negligências do cirurgião Danilo Dias, o caso é passível de prisão do médico. “Pela coletividade de vítimas, pelo número de pessoas com resultados entregues diversos do esperado, pelas vítimas com sérias lesões e até os casos fatais, já dava para existir uma ordem de prisão preventiva contra o médico”, avaliou.

A reportagem entrou em contato com o advogado Ricardo Gifoni, que representa Danilo Dias no Conselho Regional de Medicina (CRM). Ele afirmou que os dois processos que o médico tinha por erro médico foram arquivados e que não se manifestaria sobre outros processos, porque são sigilosos. A reportagem também tentou contato com o médico, mas o celular dele estava desligado ou fora de área. No consultório do cirurgião, a atendente disse que ele estava viajando. Pediu um número de telefone para que ele retornasse a ligação, mas não houve retorno.

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Inquérito policial sobre os casos
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Inquérito policial sobre os casos

Inquérito apura morte de médica após cirurgia plástica (FOTO: Reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
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Inquérito policial sobre os casos

Inquérito apura morte de médica após cirurgia plástica (FOTO: Reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
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Depoimento do marido sobre a morte e cremação do corpo da médica Lia Pacheco (FOTO: reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
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Depoimento do marido sobre a morte e cremação do corpo da médica Lia Pacheco (FOTO: reprodução)

Inquérito policial sobre os casos
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Inquérito policial sobre os casos

Depoimento do marido sobre a morte e cremação do corpo da médica Lia Pacheco (FOTO: reprodução)

Investigação sobre os casos
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Investigação sobre os casos

Boletim de Ocorrência da morte da educadora física Sandra Trovino em SP

Investigação sobre os casos
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Investigação sobre os casos

Médico Danilo Dias sobre a morte de Sandra Trovino (FOTO: Reprodução)

Investigação sobre os casos
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Atestado de óbito da educadora física que cita a cirurgia como causa mortis (FOTO: reprodução)

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Guia de encaminhamento de cadáver de Sandra Trovino assinada por Danilo Dias (FOTO: reprodução)

As 3 reportagens da série:

Cirurgião plástico cearense é investigado por duas mortes e cinco deformações em pacientes
Vítimas e parentes de pacientes que morreram relatam erros de cirurgião plástico cearense
Saiba a quem recorrer em caso de negligência médica em cirurgia plástica