#Retrospectiva2015: Por que se mata tanta mulher no Ceará? No ano, foram mais de 200


#Retrospectiva2015: Por que se mata tanta mulher no Ceará? No ano, foram mais de 200

Do total de mulheres vítimas de assassinatos neste ano, 82 foram em Fortaleza, o que representa 38% dos casos. Esse cenário preocupa

Por Felipe Lima em Segurança Pública

25 de dezembro de 2015 às 06:00

Há 3 anos

Em 9 de março de 2015 foi sancionada a Lei do Feminicídio, classificando como crime hediondo a violência contra a mulher. O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, e o Ministério da Justiça tem como principal meta a redução do feminicídio em 2016.

A discussão a cerca da violência contra a mulher não é um fato novo. O que é muito recente (mas tardio) é a preocupação com a superação deste cenário, mas as definições da nova lei e o aumento das discussões sobre o tema são um passo para o combate ao cenário cruel que vem tirando a vida de diversas mulheres no Brasil.

A maioria dos registros referem-se a homicídios dolosos, ou seja, com intenção de matar, e são praticados com arma de fogo (FOTO: Reprodução)

No Ceará, a maioria dos registros referem-se a homicídios dolosos, ou seja, com intenção de matar, e são praticados com arma de fogo (FOTO: Reprodução)

Além do combate à violência, a luta feminista envolve também a liberdade de expressão, mas a proteção e o próprio empoderamento das mulheres não é fácil. Somente no Ceará, 216 mulheres foram assassinadas em 2015 até o dia 12 de dezembro, de acordo com levantamento feito pelo Tribuna do Ceará por meio dos relatórios diários de crimes violentos da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS/CE). Os números oficiais devem ser divulgados somente em 2016.

Do total de mulheres vítimas de assassinatos neste ano, 82 foram em Fortaleza, o que representa 38% dos casos. A maioria dos registros referem-se a homicídios dolosos, ou seja, com intenção de matar, e são praticados com arma de fogo. Dos 215 registros com idades catalogadas, 16 são de crianças e adolescentes.

Onde está a causa?

De acordo com dados do Observatório de Violência Contra a Mulher (Observem), ligado ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece), também com base em registros da SSPDS/CE, em 2014 houve 266 assassinatos, ou seja, até o momento, uma breve redução.

Para a coordenadora do Observem, professora Maria Helena de Paula Frota, além da questão cultural, o problema está na precariedade da rede de proteção e atendimento à mulher. De acordo com ela, mesmo com a Lei Maria da Penha, após as primeiras denúncias, a mulher não é protegida pelo Estado e a violência chega ás vias de fato. “Do que adianta a mulher denunciar se ela não tem o suporte devido? A nossa rede ainda é falha e, no Ceará, a situação é preocupante”, comenta a especialista.

“A luta não pode parar. Essa luta incomoda. Incomoda o homem", diz a professora da Ueece Helena Frota (FOTO: Reprodução)

“A luta não pode parar. Essa luta incomoda. Incomoda o homem”, diz a professora da Ueece Helena Frota (FOTO: Reprodução)

Quanto à questão cultura, Helena Frota lamenta o fato da história ter sido baseada no patriarcalismo. “O machismo formado ao longo dos tempos criou um cenário onde o homem é quem manda. Ele tem o poder. Como hoje as mulheres não querem mais submeter-se à subordinação, o homem sente-se incomodado e acaba usando da violência para conter o o emponderamento”, explica.

A professora da Uece alerta também para a questão do casamento. Segundo ela, este fato social ainda é visto como acordo inquebrável. Assim, amigos e familiares acabam fazendo de tudo para que os problemas de um casal sejam resolvidos da melhor forma, mesmo quando há um histórico de violência. “As mulheres foram educadas para tolerar. Quando elas são assassinadas dentro de casa, já havia ali um histórico de violência doméstica conhecido até mesmo por pai, mãe e filhos. Na tentativa de encontrar uma solução, pessoas próximas acabam evitando interferir para não romper o casamento”, diz Helena Frota.

Além da melhoria na rede de proteção e atendimento, para conter os casos de violência, a especialista recomenda que, a cada dia mais, as mulheres busquem seus direitos e não deixem de denunciar agressões, assédios e situação vexatórias. “A luta não pode parar. Essa luta incomoda. Incomoda o homem. Chegou a hora de buscar o que foi perdido ao longo da história”, finaliza Helena Frota, coordenadora do Observem. 

Anos anteriores

Pelos registros do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Sistema único de Saúde (SUS), entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres foram vítimas de homicídio no Brasil. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil, passa para 4,8 em 2013, um aumento de 111,1%.

No Ceará, a situação não é diferente. Em 10 anos (2003 a 2013), 1.740 mulheres foram assassinadas. No ranking dos estados brasileiros, o Ceará aparece em 11º no geral e 3º entre os nordestinos. Ficando atrás somente da Bahia (3.440) e Pernambuco (3.012).

Quanto à taxa de crescimento na década, o feminicídio no Estado cresceu 169,9%, a 7ª maior taxa do Brasil. A liderança negativa é de Roraima, onde a taxa aumentou 500%, apesar de ser a unidade federativa com menor número de assassinatos contra pessoas do sexo feminino entre 2003 e 2013. Já Fortaleza registrou 759 assassinatos de mulheres. Um aumento de 189,6% no número de homicídios durante o período citado anteriormente.

No comparativo entre as capitais, Vitória, Maceió, João Pessoa e Fortaleza encabeçam as capitais com taxas mais elevadas no ano de 2013, acima de 10 homicídios por 100 mil mulheres. No outro extremo, São Paulo e Rio de Janeiro são as capitais com as menores taxas.

Em termos regionais, o Nordeste se destaca pelo elevado crescimento de suas taxas de homicídio de mulheres, no decênio: crescimento de 79,3%. A Região Norte aparece com uma taxa um pouco menor: 53,7%. Sul e Centro-Oeste evidenciam baixo crescimento e na Região Sudeste, significativamente, as taxas caem pela metade no período, em função da alta retração dos índices em São Paulo e Rio de Janeiro e, em menor escala, Belo Horizonte.

Lei Maria da Penha

Fazendo um recorte somente do período de vigência da Lei Maria da Penha, que entrou em vigor em 2006, houve um aumento de 144% de homicídios de mulheres, totalizando 1.372 somente neste intervalo no Ceará. No Brasil, o aumento foi de 18%.

De acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançado em março deste ano, a Lei Maria da Penha fez diminuir em cerca de 10% a projeção anterior de aumento da taxa de homicídios doméstico. Ou seja, a legislação ajudou a diminuir o crescimento nos números de assassinatos de mulheres vítimas da violência doméstica, mas não de forma geral.

Acompanhe a cobertura sobre o ano que ficou marcado pela violência contra a mulher no Ceará:

25 de dezembro – #Retrospectiva2015: Por que se mata tanta mulher no Ceará? No ano, foram mais de 200

26 de dezembro – #Retrospectiva2015: Relembre 7 assassinatos de mulheres que chocaram o Ceará no ano

27 de dezembro – #Retrospectiva2015: “Fiu fiu na rua não é cantada, é terrorismo sexual”, defende líder feminista

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#Retrospectiva2015: Por que se mata tanta mulher no Ceará? No ano, foram mais de 200

Do total de mulheres vítimas de assassinatos neste ano, 82 foram em Fortaleza, o que representa 38% dos casos. Esse cenário preocupa

Por Felipe Lima em Segurança Pública

25 de dezembro de 2015 às 06:00

Há 3 anos

Em 9 de março de 2015 foi sancionada a Lei do Feminicídio, classificando como crime hediondo a violência contra a mulher. O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, e o Ministério da Justiça tem como principal meta a redução do feminicídio em 2016.

A discussão a cerca da violência contra a mulher não é um fato novo. O que é muito recente (mas tardio) é a preocupação com a superação deste cenário, mas as definições da nova lei e o aumento das discussões sobre o tema são um passo para o combate ao cenário cruel que vem tirando a vida de diversas mulheres no Brasil.

A maioria dos registros referem-se a homicídios dolosos, ou seja, com intenção de matar, e são praticados com arma de fogo (FOTO: Reprodução)

No Ceará, a maioria dos registros referem-se a homicídios dolosos, ou seja, com intenção de matar, e são praticados com arma de fogo (FOTO: Reprodução)

Além do combate à violência, a luta feminista envolve também a liberdade de expressão, mas a proteção e o próprio empoderamento das mulheres não é fácil. Somente no Ceará, 216 mulheres foram assassinadas em 2015 até o dia 12 de dezembro, de acordo com levantamento feito pelo Tribuna do Ceará por meio dos relatórios diários de crimes violentos da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS/CE). Os números oficiais devem ser divulgados somente em 2016.

Do total de mulheres vítimas de assassinatos neste ano, 82 foram em Fortaleza, o que representa 38% dos casos. A maioria dos registros referem-se a homicídios dolosos, ou seja, com intenção de matar, e são praticados com arma de fogo. Dos 215 registros com idades catalogadas, 16 são de crianças e adolescentes.

Onde está a causa?

De acordo com dados do Observatório de Violência Contra a Mulher (Observem), ligado ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Estadual do Ceará (Uece), também com base em registros da SSPDS/CE, em 2014 houve 266 assassinatos, ou seja, até o momento, uma breve redução.

Para a coordenadora do Observem, professora Maria Helena de Paula Frota, além da questão cultural, o problema está na precariedade da rede de proteção e atendimento à mulher. De acordo com ela, mesmo com a Lei Maria da Penha, após as primeiras denúncias, a mulher não é protegida pelo Estado e a violência chega ás vias de fato. “Do que adianta a mulher denunciar se ela não tem o suporte devido? A nossa rede ainda é falha e, no Ceará, a situação é preocupante”, comenta a especialista.

“A luta não pode parar. Essa luta incomoda. Incomoda o homem", diz a professora da Ueece Helena Frota (FOTO: Reprodução)

“A luta não pode parar. Essa luta incomoda. Incomoda o homem”, diz a professora da Ueece Helena Frota (FOTO: Reprodução)

Quanto à questão cultura, Helena Frota lamenta o fato da história ter sido baseada no patriarcalismo. “O machismo formado ao longo dos tempos criou um cenário onde o homem é quem manda. Ele tem o poder. Como hoje as mulheres não querem mais submeter-se à subordinação, o homem sente-se incomodado e acaba usando da violência para conter o o emponderamento”, explica.

A professora da Uece alerta também para a questão do casamento. Segundo ela, este fato social ainda é visto como acordo inquebrável. Assim, amigos e familiares acabam fazendo de tudo para que os problemas de um casal sejam resolvidos da melhor forma, mesmo quando há um histórico de violência. “As mulheres foram educadas para tolerar. Quando elas são assassinadas dentro de casa, já havia ali um histórico de violência doméstica conhecido até mesmo por pai, mãe e filhos. Na tentativa de encontrar uma solução, pessoas próximas acabam evitando interferir para não romper o casamento”, diz Helena Frota.

Além da melhoria na rede de proteção e atendimento, para conter os casos de violência, a especialista recomenda que, a cada dia mais, as mulheres busquem seus direitos e não deixem de denunciar agressões, assédios e situação vexatórias. “A luta não pode parar. Essa luta incomoda. Incomoda o homem. Chegou a hora de buscar o que foi perdido ao longo da história”, finaliza Helena Frota, coordenadora do Observem. 

Anos anteriores

Pelos registros do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Sistema único de Saúde (SUS), entre 1980 e 2013, 106.093 mulheres foram vítimas de homicídio no Brasil. A taxa, que em 1980 era de 2,3 vítimas por 100 mil, passa para 4,8 em 2013, um aumento de 111,1%.

No Ceará, a situação não é diferente. Em 10 anos (2003 a 2013), 1.740 mulheres foram assassinadas. No ranking dos estados brasileiros, o Ceará aparece em 11º no geral e 3º entre os nordestinos. Ficando atrás somente da Bahia (3.440) e Pernambuco (3.012).

Quanto à taxa de crescimento na década, o feminicídio no Estado cresceu 169,9%, a 7ª maior taxa do Brasil. A liderança negativa é de Roraima, onde a taxa aumentou 500%, apesar de ser a unidade federativa com menor número de assassinatos contra pessoas do sexo feminino entre 2003 e 2013. Já Fortaleza registrou 759 assassinatos de mulheres. Um aumento de 189,6% no número de homicídios durante o período citado anteriormente.

No comparativo entre as capitais, Vitória, Maceió, João Pessoa e Fortaleza encabeçam as capitais com taxas mais elevadas no ano de 2013, acima de 10 homicídios por 100 mil mulheres. No outro extremo, São Paulo e Rio de Janeiro são as capitais com as menores taxas.

Em termos regionais, o Nordeste se destaca pelo elevado crescimento de suas taxas de homicídio de mulheres, no decênio: crescimento de 79,3%. A Região Norte aparece com uma taxa um pouco menor: 53,7%. Sul e Centro-Oeste evidenciam baixo crescimento e na Região Sudeste, significativamente, as taxas caem pela metade no período, em função da alta retração dos índices em São Paulo e Rio de Janeiro e, em menor escala, Belo Horizonte.

Lei Maria da Penha

Fazendo um recorte somente do período de vigência da Lei Maria da Penha, que entrou em vigor em 2006, houve um aumento de 144% de homicídios de mulheres, totalizando 1.372 somente neste intervalo no Ceará. No Brasil, o aumento foi de 18%.

De acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançado em março deste ano, a Lei Maria da Penha fez diminuir em cerca de 10% a projeção anterior de aumento da taxa de homicídios doméstico. Ou seja, a legislação ajudou a diminuir o crescimento nos números de assassinatos de mulheres vítimas da violência doméstica, mas não de forma geral.

Acompanhe a cobertura sobre o ano que ficou marcado pela violência contra a mulher no Ceará:

25 de dezembro – #Retrospectiva2015: Por que se mata tanta mulher no Ceará? No ano, foram mais de 200

26 de dezembro – #Retrospectiva2015: Relembre 7 assassinatos de mulheres que chocaram o Ceará no ano

27 de dezembro – #Retrospectiva2015: “Fiu fiu na rua não é cantada, é terrorismo sexual”, defende líder feminista