Em mês marcado por onda de terror, Ceará registra menor índice de homicídios

MUDANÇA NO CENÁRIO

Em mês marcado por onda de terror, Ceará registra menor índice de homicídios

Para especialistas, a queda de homicídios se deu por suposta trégua entre facções com o objetivo de atingir o Estado e evitar ataques entre si

Por Jéssica Welma em Segurança Pública

6 de fevereiro de 2019 às 17:49

Há 3 meses
Força Nacional está no Ceará há mais de 30 dias. (Foto: Agência Brasil)

Força Nacional está no Ceará há mais de 30 dias. (Foto: Agência Brasil)

Em meio à maior série de ataques criminosos na história do Ceará, o Governo do Estado deve marcar novo recorde: o mês com menor índice de homicídios na gestão Camilo Santana (2015-2018 / 2019). Especialistas indicam que o motivo seria o suposto pacto entre facções criminosas para combater o Estado e evitar conflitos entre si.

Diante do esforço do governo em reduzir os índices de crimes violentos, o número preliminar de 188 mortes poderia ser motivo de comemoração não fossem os 283 atentados a patrimônios públicos e privados e o novo cenário que se estabelece na segurança pública com novas medidas no sistema prisional.

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) ainda não divulgou o balanço de homicídios de 2018 e do mês de janeiro. Não havia previsão para a divulgação até esta terça-feira (6).

Levantamento do Tribuna do Ceará com base no registros diários de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) contabiliza 180 crimes, somados homicídios, latrocínios e feminicídios, de 1° a 29 de janeiro. Os relatórios diários de ocorrências dos dias 30 e 31 de janeiro acrescem mais oito homicídios. Desse modo, o Ceará teve, pelo menos, 188 mortes violentas no último mês. Como os dados não são consolidados oficialmente, outras ocorrências podem ser somadas.

Ainda que o total passe dos 188 crimes violentos, a previsão é a menor desde janeiro de 2015, quando Camilo Santana (PT) assumiu o governo. Nos últimos quatro anos, o mês com menos mortes foi setembro de 2016, quando foram contabilizados 226 homicídios.

Em comparação ao mesmo período de 2018, quando o Ceará teve 482 mortes violentas, janeiro de 2019 representa uma redução de 61% no total de homicídios. Depois de 2017, o ano mais violento da história do Ceará, com mais de 5 mil homicídios, 2018 deve encerrar o ano com uma leve redução. Até novembro, em dados oficiais, o Ceará somou 4.192 homicídios.

“Este mês de janeiro, caso fosse estendido ao longo dos 12 meses, nos levaria a um patamar de taxa de homicídio bastante anterior, num período pré-Cid Gomes (2007-2010 / 2011-2014). No Governo Cid, os homicídios disparam”, pontua o sociólogo e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ricardo Moura. Caso se mantivesse na média de 188 homicídios por mês, o Ceará fecharia o ano com cerca de 2.200 mortes violentas, uma redução de quase 50%.

“A última vez que o Ceará teve um número desse foi em 2009 (2.168 homicídios). É um período de 10 anos, é uma redução muito significativa, mas a manutenção desse número passa pela forma como o governo vai lidar com o sistema prisional”, ressalta Moura.

Onda de terror

Janeiro foi um mês completamente atípico por causa da onda de terror iniciada no segundo dia do ano. Declaração do recém-chegado secretário de Administração Penitenciária, Mauro Albuquerque, de que não manteria separação de facções por presídios, desencadeou uma série de ataques com bombas, incêndios e outros atentados a ônibus, imóveis, pontes, antenas de telefonia e viadutos.

A redução do índice de homicídios pode estar diretamente ligada à suposta trégua entre facções diante da ofensiva do Governo. “Esse entendimento que houve entre as facções se deve ao fato de que elas, de alguma forma, suspenderam os ataques entre si, estabeleceram algum tipo de acordo, de não-confronto, como ocorreu no período de ordenamento do tráfico no Ceará, entre 2015 e 2016, quando tivemos outra queda bastante precisa. Mas, depois, a dinâmica dessas facções mudou em nível nacional e elas passaram a se atacar, e isso reflete aqui”, lembra

Para Moura, a efetivação de novas normas nos presídios e a incorporação das medidas pelas facções podem resultar numa reacomodação do sistema prisional e levar o Estado a se manter num patamar reduzido de morte. “Talvez isso possa se manter, não tanto quanto em janeiro, mas com taxas menores que a registada ano passado. Teremos que ver nos próximos meses, é um cenário muito novo”, pontua.

Áudio sugeriu pacto

No início dos ataques, a TV Jangadeiro teve acesso a um áudio de um criminoso, recebido por uma fonte do sistema prisional, que afirmava a existência desse pacto. O acordo teria causado, inclusive, impacto no número de homicídios em Fortaleza no mês de janeiro, que ficou bem abaixo da média segundo dados preliminares da SSPDS.

Leia também: “Estado perdeu domínio dos presídios e dos bairros onde as facções atuam”, avalia especialista

“Foi dada uma trégua entre as guerras de facções, pelo objetivo maior que é brigar contra o Governo do Estado, que tá querendo oprimir, torturar, matar nossos irmãos e todos os irmãos que se encontram no privado, entendeu?”, dizia um dos áudios.

De acordo com o presidente do Conselho Penitenciário, Cláudio Justa, o período de trégua entre as facções traz impacto no registro de homicídios pela cidade, “não existe um trabalho em conjunto de todas as facções, o que existe um pacto de não agressão e cada facção faz sua ação de terror”, comenta Cláudio Justa.

http://mais.uol.com.br/view/16595722

Desde a noite do último dia 2 de janeiro, facções criminosas comandam uma onda de ataques por todo o Ceará, com ações contra ônibus e vans do transporte público, prédios e equipamentos públicos e privados. Até as 9h desta quarta-feira (6), o Sistema Jangadeiro contabiliza 283 ataques em 56 dos 184 municípios do estado, sendo 133 em Fortaleza, a cidade que concentra a maior parte das ações criminosas.

Segundo a SSPDS, aumentou para 466 o número de pessoas presas ou apreendidas por participação nos atos criminosos. O balanço corresponde às capturas até as 17h da última segunda-feira (4). O órgão não está informando a contabilização dos números de ataques.

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MUDANÇA NO CENÁRIO

Em mês marcado por onda de terror, Ceará registra menor índice de homicídios

Para especialistas, a queda de homicídios se deu por suposta trégua entre facções com o objetivo de atingir o Estado e evitar ataques entre si

Por Jéssica Welma em Segurança Pública

6 de fevereiro de 2019 às 17:49

Há 3 meses
Força Nacional está no Ceará há mais de 30 dias. (Foto: Agência Brasil)

Força Nacional está no Ceará há mais de 30 dias. (Foto: Agência Brasil)

Em meio à maior série de ataques criminosos na história do Ceará, o Governo do Estado deve marcar novo recorde: o mês com menor índice de homicídios na gestão Camilo Santana (2015-2018 / 2019). Especialistas indicam que o motivo seria o suposto pacto entre facções criminosas para combater o Estado e evitar conflitos entre si.

Diante do esforço do governo em reduzir os índices de crimes violentos, o número preliminar de 188 mortes poderia ser motivo de comemoração não fossem os 283 atentados a patrimônios públicos e privados e o novo cenário que se estabelece na segurança pública com novas medidas no sistema prisional.

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) ainda não divulgou o balanço de homicídios de 2018 e do mês de janeiro. Não havia previsão para a divulgação até esta terça-feira (6).

Levantamento do Tribuna do Ceará com base no registros diários de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) contabiliza 180 crimes, somados homicídios, latrocínios e feminicídios, de 1° a 29 de janeiro. Os relatórios diários de ocorrências dos dias 30 e 31 de janeiro acrescem mais oito homicídios. Desse modo, o Ceará teve, pelo menos, 188 mortes violentas no último mês. Como os dados não são consolidados oficialmente, outras ocorrências podem ser somadas.

Ainda que o total passe dos 188 crimes violentos, a previsão é a menor desde janeiro de 2015, quando Camilo Santana (PT) assumiu o governo. Nos últimos quatro anos, o mês com menos mortes foi setembro de 2016, quando foram contabilizados 226 homicídios.

Em comparação ao mesmo período de 2018, quando o Ceará teve 482 mortes violentas, janeiro de 2019 representa uma redução de 61% no total de homicídios. Depois de 2017, o ano mais violento da história do Ceará, com mais de 5 mil homicídios, 2018 deve encerrar o ano com uma leve redução. Até novembro, em dados oficiais, o Ceará somou 4.192 homicídios.

“Este mês de janeiro, caso fosse estendido ao longo dos 12 meses, nos levaria a um patamar de taxa de homicídio bastante anterior, num período pré-Cid Gomes (2007-2010 / 2011-2014). No Governo Cid, os homicídios disparam”, pontua o sociólogo e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ricardo Moura. Caso se mantivesse na média de 188 homicídios por mês, o Ceará fecharia o ano com cerca de 2.200 mortes violentas, uma redução de quase 50%.

“A última vez que o Ceará teve um número desse foi em 2009 (2.168 homicídios). É um período de 10 anos, é uma redução muito significativa, mas a manutenção desse número passa pela forma como o governo vai lidar com o sistema prisional”, ressalta Moura.

Onda de terror

Janeiro foi um mês completamente atípico por causa da onda de terror iniciada no segundo dia do ano. Declaração do recém-chegado secretário de Administração Penitenciária, Mauro Albuquerque, de que não manteria separação de facções por presídios, desencadeou uma série de ataques com bombas, incêndios e outros atentados a ônibus, imóveis, pontes, antenas de telefonia e viadutos.

A redução do índice de homicídios pode estar diretamente ligada à suposta trégua entre facções diante da ofensiva do Governo. “Esse entendimento que houve entre as facções se deve ao fato de que elas, de alguma forma, suspenderam os ataques entre si, estabeleceram algum tipo de acordo, de não-confronto, como ocorreu no período de ordenamento do tráfico no Ceará, entre 2015 e 2016, quando tivemos outra queda bastante precisa. Mas, depois, a dinâmica dessas facções mudou em nível nacional e elas passaram a se atacar, e isso reflete aqui”, lembra

Para Moura, a efetivação de novas normas nos presídios e a incorporação das medidas pelas facções podem resultar numa reacomodação do sistema prisional e levar o Estado a se manter num patamar reduzido de morte. “Talvez isso possa se manter, não tanto quanto em janeiro, mas com taxas menores que a registada ano passado. Teremos que ver nos próximos meses, é um cenário muito novo”, pontua.

Áudio sugeriu pacto

No início dos ataques, a TV Jangadeiro teve acesso a um áudio de um criminoso, recebido por uma fonte do sistema prisional, que afirmava a existência desse pacto. O acordo teria causado, inclusive, impacto no número de homicídios em Fortaleza no mês de janeiro, que ficou bem abaixo da média segundo dados preliminares da SSPDS.

Leia também: “Estado perdeu domínio dos presídios e dos bairros onde as facções atuam”, avalia especialista

“Foi dada uma trégua entre as guerras de facções, pelo objetivo maior que é brigar contra o Governo do Estado, que tá querendo oprimir, torturar, matar nossos irmãos e todos os irmãos que se encontram no privado, entendeu?”, dizia um dos áudios.

De acordo com o presidente do Conselho Penitenciário, Cláudio Justa, o período de trégua entre as facções traz impacto no registro de homicídios pela cidade, “não existe um trabalho em conjunto de todas as facções, o que existe um pacto de não agressão e cada facção faz sua ação de terror”, comenta Cláudio Justa.

http://mais.uol.com.br/view/16595722

Desde a noite do último dia 2 de janeiro, facções criminosas comandam uma onda de ataques por todo o Ceará, com ações contra ônibus e vans do transporte público, prédios e equipamentos públicos e privados. Até as 9h desta quarta-feira (6), o Sistema Jangadeiro contabiliza 283 ataques em 56 dos 184 municípios do estado, sendo 133 em Fortaleza, a cidade que concentra a maior parte das ações criminosas.

Segundo a SSPDS, aumentou para 466 o número de pessoas presas ou apreendidas por participação nos atos criminosos. O balanço corresponde às capturas até as 17h da última segunda-feira (4). O órgão não está informando a contabilização dos números de ataques.