Cicloativista comemora início de revolução na mobilidade urbana em Fortaleza


Cicloativista comemora início de revolução na mobilidade urbana em Fortaleza

Celso Sakuraba, diretor do Ciclovida, foi um dos que iniciaram debate sobre mobilidade na cidade, incluindo ciclistas e pedestres na pauta

Por Hayanne Narlla em Mobilidade Urbana

7 de junho de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Celso Sakuraba é um dos fundadores da Ciclovida e luta pelos direitos dos ciclistas (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Celso Sakuraba é um dos fundadores da Ciclovida e luta pelos direitos dos ciclistas (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Pontualmente às 10h, o advogado Celso Sakuraba, de 27 anos, chega para a entrevista. “Vai ser aqui mesmo?”, pergunta. Após afirmativa, pede licença para estacionar o veículo que utilizou para se deslocar: uma bicicleta. Celso é diretor da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida) e defende veemente a bicicleta como ponto crucial do debate da mobilidade urbana.

O relacionamento com o veículo começou em Coimbra, Portugal, quando Celso viajou para fazer mestrado. Sem saber pedalar, ele comprou uma bicicleta no shopping center e levou para casa determinado a aprender, mesmo que sozinho. Em uma rua fechada, ele deu suas primeiras pedalas e depois passou a ir para todo os lugares com a magrela.

Ao chegar a Fortaleza, tentou utilizar uma vez a bicicleta no trânsito. Susto! Depois da sensação traumatizante de quase ser atropelado, desistiu de vez. Até que, em 2012, resolveu defender o hábito como forma de deslocamento, pauta esquecida em terras alencarinas. De lá pra cá, após algumas conquistas, Celso analisa a transformação urbana que a capital cearense passa, na qual as pessoas ainda buscam a melhor maneira de se locomover.

Tribuna do Ceará – Você começou a pedalar em Coimbra. Nunca se arriscou pelo Brasil?
Celso Sakuraba – Eu me deslocava de carro antes em Fortaleza. O mestrado foi há três anos, eu não tinha muito dinheiro lá como estudante, e resolvi me locomover só a pé. Como era uma cidade pequena, mas muito montanhosa, ou você mora perto da universidade ou pega ônibus. Em Fortaleza, eu nem pensava em usar bicicleta. A mobilidade em si é um paradigma. Você cresce sem que sejam apresentadas as opções. Elas são impostas culturalmente. É quase uma progressão natural que você se desloque de ônibus e queira ter um carro. Se você não tem carro, tenta comprar uma moto para depois ter um carro. É uma progressão imposta pela cultura e pela política pública que molda a cidade para o veículo motorizado. [Utilizar bicicleta] aqui e é muito diferente de usar em Portugal, porque o trânsito é extremamente agressivo, não só mal-educado, de falta informação, mas agressivo no sentido de enfrentar uma guerra mesmo, de querer impor a sua vontade. O veículo maior tem que se impor sobre o menor.

Tribuna – Como você começou a debater o uso da bicicleta de forma pública?
Celso – Fortaleza possui vários movimentos, felizmente. Quando vim de Portugal, não havia nenhum movimento em atuação em Fortaleza. Isso foi em 2012. A gente teve movimentos antes. A Massa Crítica existiu entre 2009 e 2010, sendo que ela tinha parado de atuar durante um tempo. Movimento suprapartidário não havia. Em 2012, eu fui para internet, postei lá e vi quem é que tinha interesse em ir atrás de direitos de ciclistas. Foram poucas, mas a gente vai crescendo aos poucos. Fomos atrás dos candidatos à Prefeitura de Fortaleza, aproveitando a campanha de 2012. A gente tem uma carta de compromisso do Roberto Cláudio se comprometendo com várias coisas que ele ainda não cumpriu, com firma reconhecida, assinado durante a campanha eleitoral. No final de 2012, esse pessoal reativou a Massa Crítica de Fortaleza, evento que acontece no mundo inteiro. Aqui no Brasil tem cunho mais reivindicativo. A Ciclovida surgiu em 2013 como consequência dessa mobilização.

Tribuna – E como começaram a conquistas vitórias?
Celso – A Massa Crítica como coletivo pintou ciclofaixa cidadã na Rua Ana Bilhar e fez sucesso fenomenal. Nós, da Ciclovida, fomos para o Fórum Mundial da Bicicleta, que aconteceu alguns meses depois desse fato, e eles perguntaram muito sobre essa ação que estava acontecendo em Fortaleza. Todo mundo que luta pela mobilidade conhece essa iniciativa de Fortaleza. O pessoal comentou muito favoravelmente e a prefeitura se sentiu pressionada a fazer alguma coisa que ela nunca tinha feito antes. Até então, a gestão do Roberto Cláudio não tinha feito nada para bicicleta. A gente teve iniciativas pontuais e tímidas na gestão da Luizianne Lins, como a ciclovia da Avenida Bezerra de Menezes. A primeira ciclofaixa não foi do Roberto Cláudio, mas da Luzianne na Benjamin Brasil, perto do Mondubim, não sei corretamente qual é o bairro, mas é no canteiro central. E temos ciclovias mais históricas, que eram feitas sempre quando se fazia uma grande rodovia, sobrava espaço no canteiro central e se construía uma ciclovia. Temos na Avenida Washington Soares, Via Expressa. Na José Bastos, inicialmente se concebeu com uma ciclovia, mas hoje nem se conta mais de tão deteriorada que ela está.

'Bogotá e Medellín eram referência de violência urbana. E através de uma nova estruturação urbana, e não através de polícia, conseguiram restaurar a paz pública

Tribuna – E como você avalia os atuais equipamentos em prol dos ciclistas?
Celso – Essas pequenas iniciativas começaram com a iniciativa popular, tanto da Massa Crítica que pôs a mão na massa, como Ciclovida e outros movimentos que qualificaram debate em Fortaleza. Antes não se falava em bicicleta como mobilidade. Somos favorável à ciclofaixa de lazer e a bicicleta compartilhada. Foram iniciativas que deram muito certo em São Paulo como propulsores da cultura da mobilidade com bicicleta. São iniciativas muito boas, mas que não representam gestão como um todo. Não representam uma mudança na concepção de mobilidade da Prefeitura de Fortaleza. Então, você ainda tem obras que são um retrocesso e que vão conforme a política de mobilidade que a gente tinha em 1950 e não deu certo. Os viadutos do Cocó são um grande exemplo disso, porque você invadir uma área de mangue e de preservação ambiental tornou muito perigosa a vida dos pedestres, tornou perigoso para quem se desloca de bicicleta no local e melhorou entre aspas ou prometeu melhorar a vida de quem usa carro. Então, você acaba estimulando a vida de quem usa carro e você acaba congestionando mais, que é o que a gente chama de demanda induzida.

Tribuna – Então você acha que as obras favorecem, em geral, os motoristas?
Celso – Geralmente, essas obras rodoviaristas excluem os pedestres. Quando não excluem, priorizam o carro. A gente tem inciativas na Washington Soares de colocar passarelas e falar que, com isso, estão beneficiando o pedestre. Na verdade, isso são obras para carros, que beneficiam carros. Só faz com o que o carro não seja incomodado pelo pedestre, que quer atravessar a rua. A Abraspe tem um posicionamento que a travessia do pedestre tem que ser feita a nível do chão, nem túnel, nem passarela. É importante estudar como é estrutura da Prefeitura de Fortaleza, porque não é una. Você tem secretarias que pensam diferentes. Você tem a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), e dentro dela você tem o Plano de Ações Imediatas de Trânsito e Transportes (Paitt), que tem feito a ciclofaixa de lazer, bicicletas compartilhadas e ciclofaixas. É um órgão que pensa muito para frente, conforme os mais modernos estudos de mobilidade, e pensa bem a cidade. Porém você tem uma Secretaria de Infraestrutura (Seinf), do Samuel Dias, que é extremamente rodoviarista. O discurso está tendo que ser mitigado agora que a gente está conseguindo colocar a bicicleta como pauta, e eles têm que fingir que apoiam isso. Você consegue ver esse conflito na prática: a ciclofaixa da Antônio Sales termina no viaduto da Seinf; a ciclofaixa da Santos Dumont termina no túnel da Seinf. Então, a gestão tem tentado dar alguns tímidos avanços em relação à mobilidade por bicicleta, talvez por uma questão de marketing, talvez porque a pauta está em voga. Mas as iniciativas contra a bicicleta ainda estão sendo mais relevantes do que as inciativas a favor.

“Antes não se falava em bicicleta como mobilidade. Somos favorável à ciclofaixa de lazer e a bicicleta compartilhada”.

Celso também participa do projeto Bike Anjo, que ajuda pessoas a pedalar pela primeira vez (FOTO: Reprodução Facebook)

Celso também participa do projeto Bike Anjo, que ajuda pessoas a pedalar pela primeira vez (FOTO: Reprodução Facebook)

Tribuna – A bicicleta sempre foi utilizada por pessoas da periferia. Você considera que o movimento ter realizado ações na área nobre fez com que a pauta ganhasse mais força?
Celso – Na verdade, esse é um debate bem mais amplo sobre política pública. Como as diferentes classes sociais conseguem influenciar o poder público? O movimento pela mobilidade começa a ganhar corpo e tem influência na política pública quando ele atinge a parte mais nobre da cidade. A Massa Crítica pintou a ciclofaixa na Ana Bilhar e pintou também no Bom Jardim. Pintou em vários cantos da cidade. Sendo que a imprensa focou na Ana Bilhar, porque a imprensa está na Ana Bilhar. Depois disso, a prefeitura chamou a Ciclovida para conversar entre aspas, para apresentar a proposta dela. Na verdade não foi nem conversar, foi dizer que ela estava fazendo uma coisa boa. E ela apresentou a ciclofaixa na Ana Bilhar. Aliás, a primeira proposta era absurda, porque era uma ciclofaixa de lazer, que funcionaria só aos domingos, mas que ficaria permanentemente pintada no chão. Na prática era uma ciclofaixa que tinha desrespeito permitido na semana. E a gente conseguiu mudar essa proposta. Quando a prefeitura jogou ideia de que colocaria ciclofaixa na Ana Bilhar, a gente propôs colocar na periferia, que é onde tem uso maior da bicicleta e seria um sucesso muito maior da iniciativa. A prefeitura não quis. E a gente conversou internamente e pensou que a área nobre não tinha nenhuma infraestrutura cicloviária. E a área nobre é onde está a imprensa, onde mora o poder público, a Justiça, onde estão os rodoviaristas, que usam o carro e não conseguem conceber a bicicleta como modo de deslocamento. Então, seria um impacto muito grande para a cidade. E deu no que deu. Teve repercussão muito grande e, a partir daí, não conseguiu mais voltar atrás. A prefeitura foi pressionada a seguir sempre em frente. Adotou a ciclofaixa como política pública.

Tribuna – Algumas pessoas acreditam que se trata apenas de modinha…
Celso – Não é, porque nunca foi em nenhum lugar do mundo. Modinha é um esporte. A bicicleta como deslocamento é outra coisa. Ela estabelece mudança comportamental no trânsito. Você que gastava uma hora de carro para ir ao trabalho, agora gasta 18 minutos com a bicicleta, não vai mais voltar para o carro, porque cansou da modinha. A bicicleta estabelece mudança pessoal, tanto pessoa dentro da cidade, como uma mudança na cidade em termo de mobilidade, em termo de urbanidade. Temos referências como Holanda e Dinamarca. Mas você tem referências na América Latina, como Bogotá e Medellín. Essas cidades eram referência de violência urbana. E através de uma nova estruturação urbana, e não através de polícia, conseguiram restaurar a paz pública. Quando promove o uso das calçadas e das bicicletas, você preenche a cidade e a torna menos violenta.

Tribuna – O que ainda falta ser feito para propiciar uma boa locomoção para os ciclistas?
Celso – A gente precisa ainda de mudança estrutural na Prefeitura de Fortaleza. Temos política boa feita pelo Paitt, mas é preciso que a gestão como um todo do prefeito Roberto Cláudio tome a decisão de que nós vamos deixar para trás a política ultrapassada, que não deu certo, de 1950, rodoviarista, e começar a política que as cidades da Europa têm feito de modo sustentável, com mobilidade humana focada no pedestre, ciclista e transporte coletivo. Parar com discurso arcaico e grosseiro que o carro não pode ser penalizado, como diz Samuel Dias. Carro não tem sentimentos, as pessoas que se deslocam que têm. É preciso que a cidade se estruture para que o cidadão se sinta confortável ao usar o modo de deslocamento que traga menos prejuízo à cidade.

“Vamos parar com discurso arcaico e grosseiro que o carro não pode ser penalizado. Carro não tem sentimentos, as pessoas que se deslocam que têm”.

Tribuna – Alguns casos no Rio de Janeiro com ciclistas esfaqueados chocaram as pessoas. Você se sente seguro andando de bicicleta em Fortaleza?
Celso – Me sinto mais seguro do que de carro. O caso do Rio de Janeiro é muito à parte. O contexto de violência urbana do Rio é muito diferente. Enquanto no Rio de Janeiro estão esfaqueando gente no ponto de ônibus, em Fortaleza você escuta notícia de arrastão entre os carros ou assalto ao carro na Via Expressa, Antônio Sales. É um paradigma, pois a gente sempre tomou o carro como um veículo totalmente seguro e nunca parou pra refletir isso. Simplesmente disseram para a gente que é seguro. Então, na prática, você vê um cruzamento com os carros todos parados em semáforos. A pessoa não vai assaltar o ciclista, mas o carro. Em termos de violência urbana, quando você está no seu carro, o bandido está preparado para atirar, porque você pode fugir rapidamente ou atropelar o assaltante. Então, se você reagir, ele vai atirar. A pé ou de bicicleta, você corre risco menor de ser agredido, porque o bandido não está esperando que você reaja. No Rio de Janeiro é diferente, mas não representa o que acontece no resto do Brasil.

Celso aprendeu a pedalar sozinho, quando fazia intercâmbio. Ao voltar para Fortaleza, tomou um susto a agressividade no trânsito (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Celso aprendeu a pedalar sozinho, quando fazia intercâmbio. Ao voltar para Fortaleza, tomou um susto a agressividade no trânsito (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Tribuna – Como você avalia a convivência de ciclistas e motoristas?
Celso – A gente tem problema de agressividade, em geral, contra ciclista, motociclista e pedestre. Tem normas básicas de trânsito que as pessoas não respeitam e que a AMC não parece estar interessa em multar. Por exemplo, quando você faz a conversão, você tem que dar preferência ao pedestre que está fazendo a travessia, seja na faixa de pedestre ou fora ela. Prioridade sempre do pedestre. Nenhuma infração justifica morte no trânsito. Norma muito básica e que não é respeitada. Primeiro que a prefeitura não coloca faixa de pedestres. Faixa de pedestres só tem em cruzamento. Quer atravessar na outra quadra, não tem faixa. Você deveria ter, como tem em Curitiba, em cada quarteirão três faixas de pedestre. Seria muito fácil a AMC fazer campanha de conscientização em relação ao respeito ao pedestre, ir para faixas de pedestre e multar. Não ia ser pioneiro, você tem experiência em Brasília, em João Pessoa. Está faltando iniciativa. Para o ciclista é a mesma coisa. Há normas que os motoristas desconhecem. A bicicleta é um veículo, ela tem direito a faixa como diz o artigo 96 do Código de Trânsito. O motorista que ultrapassa o ciclista precisa manter distância de 1,5 metros, como diz o artigo 201. Isso quer dizer que o motorista tem que mudar de faixa. É uma regra muito simples, não é absurda. Em Portugal, eles aprovaram ano passado uma alteração no código de estradas, que é o de trânsito lá, que obriga os motoristas a manter distância de 1,5m. Mas eu pedalei em Portugal antes de surgir a lei e as pessoas já mudavam de faixa para me ultrapassar, porque eu estava em um veículo.

“Me sinto mais seguro na bicicleta do que de carro. O caso do Rio de Janeiro (esfaqueamentos) é muito à parte”.

Tribuna – E as motocicletas em ciclofaixas? Como coibir?
Celso – Tem muita gente usando e é um desrespeito enorme. A ciclofaixa não é uma estrutura apenas para garantir segurança para aqueles que usam bicicleta naquele local. Ela visa fazer com que mais pessoas usem a bicicleta. Você precisa fazer com que elas sejam atraente. Se você tem uso motorizado, por mais que saiam [quando um ciclista surge], está inibindo o uso da bicicleta, porque acham perigoso. É preciso ter fiscalização. Mas a gente tem um problema de fiscalização muito grande em Fortaleza. O efetivo da AMC é muito menor que o recomendado pela ONU para garantir segurança no trânsito. Ela multa quando vê, mas o efetivo é pequeno e não multa de forma expressiva.

Tribuna – Um dos empecilhos para pedalar é o calor, segundo algumas pessoas. Esse é um fator que afasta as pessoas da bicicleta?
Celso – Na Europa, eles ficam o ano inteiro esperando o clima de Fortaleza para andar de bicicleta. Na verdade, o clima é um problema. Na neve é muito difícil de pedalar, porque tem piso escorregadio. Temperaturas negativas são um problema, porque tem vento cortante no rosto. Pedalar na chuva é um problema, você tem que ter formas de lidar com chuva. Cidades muito acidentas, que tem ladeiras, também há dificuldade. Então, são vários fatores climáticos e de relevos que podem ser inibidores de mobilidade por bicicleta. Fortaleza não tem calor de 40 graus e tem brisa muito agradável. Esse é um tipo de reclamação de quem não usa bicicleta. Quem usa e escuta isso, já acha estranho. Calor é problema cultural. Eu uso terno de bicicleta, fui padrinho de casamento e fui de bicicleta. No Fórum tem gente mais suado que eu que acabei de chegar. Claro que você não pode tomar como referência sua primeira experiência ou a experiência em um mês. O corpo humano se adapta aos fatores climáticos e aos comportamentos. Na primeira vez que você for utilizar a bicicleta, você vai suar muito. Depois seu corpo vai se adaptar e você vai suar menos. Então o assunto do suar gera diversos debates. Como você lida com isso para não suar? Trocando a camisa, depois passa uma toalha no resto do corpo e pronto! Está seco! Eu uso camiseta por baixo da camisa social e ela absorve o suor. Tem gente que usa a bicicleta e chega nos cantos suados e pergunta qual o problema disso? Qual o problema de suar?

“Eu uso terno de bicicleta, fui padrinho de casamento e fui de bicicleta. No Fórum tem gente mais suado que eu que acabei de chegar”.

Tribuna – Você vai ao Fórum, a casamentos de bicicleta… Não existe preconceito com a forma que você se locomove? As pessoas não te olham diferente?
Celso – Existe principalmente em estabelecimentos que são frequentados por gente de todas as classes sociais. Por exemplo, supermercado que tem ricos e pobres utilizando. Nesses lugares, tem normas rígidas contra a bicicleta, porque existe o preconceito social contra os pobres. Então eles acham que a bicicleta deixa estacionamento feio. Não tem lugar para estacionar e, se você quer estacionar no poste, eles chegam e dizem que não pode. Agora, quando você chega no restaurante mais chique, que só gente de classe média para cima frequenta, as pessoas acham estranho você chegar de bicicleta.. Elas não têm preconceito, porque já veem você como cliente. Aí eles pensam em como fazer para lidar com o fato de que você está de bicicleta. Eu tive um problema já. Na época que eu tinha carro, eu sempre estacionava no estacionamento da OAB. Nunca me pediram nada, simplesmente chegava lá e estacionava. Quando eu cheguei de bicicleta, o porteiro disse que não podia estacionar lá. Eu tive que mostrar a minha OAB. Isso não seria uma afronta a minha dignidade se ele pedisse a OAB de todo mundo. Mas ele só me recebeu de forma diferente porque eu estava de bicicleta. Depois desse incidente, eles passaram a me reconhecer e eu posso estacionar lá tranquilamente. Mas tive que passar por esse constrangimento como advogado que eu não tive que passar como estagiário, porque eu usava carro. Então, realmente há preconceito com a pessoa que usa bicicleta, porque você já pensa que ela é pobre. E sendo pobre, você já pensa que pode desrespeitar de qualquer maneira. No trânsito acontece da mesma forma. Em Portugal, eu era respeitado, porque eu era uma pessoa no trânsito. Aqui eu sou uma não-pessoa.

Tribuna – Também há críticas aos “night bikers”, pessoas que utilizam a bicicleta em passeios coletivos de noite. As reclamações são em relação às normas que não seriam respeitadas por esse grupo. Como você avalia isso?
Celso – Night bikers são outra questão. Eles não são ciclistas de deslocamento, eles são esportivos e de lazer. É uma pauta diferente da nossa. Mas tem várias coisas a considerar. Quais normas de trânsito que eles desrespeitam? São as que os motoristas fizeram para garantir o fluxo dos veículos motorizados? É norma de trânsito que foi feita para carros e se lembrou em poucas vezes do pedestre e ciclista? O debate precisa ser contextualizado. Você tem que ter consciência que quem causa perigo no trânsito são os veículos motorizados pesados, com potência de motor muito acima da escala humana. Na França, permite-se que o ciclista ande no contrafluxo, que aqui é contramão. A contramão foi criada para veículos perigosos. O fluxo não foi feito para pedestres, nem para ciclistas, foi feito para carros. Aqui, a gente quer que o ciclista se desloque como carro, sendo que é muito diferente e precisa ser diferente. Quando se fala de norma, precisa saber para quem e por quem foram feitas. Será que a norma está completamente certa e não precisamos adaptá-la?

Publicidade

Dê sua opinião

Cicloativista comemora início de revolução na mobilidade urbana em Fortaleza

Celso Sakuraba, diretor do Ciclovida, foi um dos que iniciaram debate sobre mobilidade na cidade, incluindo ciclistas e pedestres na pauta

Por Hayanne Narlla em Mobilidade Urbana

7 de junho de 2015 às 07:00

Há 4 anos
Celso Sakuraba é um dos fundadores da Ciclovida e luta pelos direitos dos ciclistas (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Celso Sakuraba é um dos fundadores da Ciclovida e luta pelos direitos dos ciclistas (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Pontualmente às 10h, o advogado Celso Sakuraba, de 27 anos, chega para a entrevista. “Vai ser aqui mesmo?”, pergunta. Após afirmativa, pede licença para estacionar o veículo que utilizou para se deslocar: uma bicicleta. Celso é diretor da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza (Ciclovida) e defende veemente a bicicleta como ponto crucial do debate da mobilidade urbana.

O relacionamento com o veículo começou em Coimbra, Portugal, quando Celso viajou para fazer mestrado. Sem saber pedalar, ele comprou uma bicicleta no shopping center e levou para casa determinado a aprender, mesmo que sozinho. Em uma rua fechada, ele deu suas primeiras pedalas e depois passou a ir para todo os lugares com a magrela.

Ao chegar a Fortaleza, tentou utilizar uma vez a bicicleta no trânsito. Susto! Depois da sensação traumatizante de quase ser atropelado, desistiu de vez. Até que, em 2012, resolveu defender o hábito como forma de deslocamento, pauta esquecida em terras alencarinas. De lá pra cá, após algumas conquistas, Celso analisa a transformação urbana que a capital cearense passa, na qual as pessoas ainda buscam a melhor maneira de se locomover.

Tribuna do Ceará – Você começou a pedalar em Coimbra. Nunca se arriscou pelo Brasil?
Celso Sakuraba – Eu me deslocava de carro antes em Fortaleza. O mestrado foi há três anos, eu não tinha muito dinheiro lá como estudante, e resolvi me locomover só a pé. Como era uma cidade pequena, mas muito montanhosa, ou você mora perto da universidade ou pega ônibus. Em Fortaleza, eu nem pensava em usar bicicleta. A mobilidade em si é um paradigma. Você cresce sem que sejam apresentadas as opções. Elas são impostas culturalmente. É quase uma progressão natural que você se desloque de ônibus e queira ter um carro. Se você não tem carro, tenta comprar uma moto para depois ter um carro. É uma progressão imposta pela cultura e pela política pública que molda a cidade para o veículo motorizado. [Utilizar bicicleta] aqui e é muito diferente de usar em Portugal, porque o trânsito é extremamente agressivo, não só mal-educado, de falta informação, mas agressivo no sentido de enfrentar uma guerra mesmo, de querer impor a sua vontade. O veículo maior tem que se impor sobre o menor.

Tribuna – Como você começou a debater o uso da bicicleta de forma pública?
Celso – Fortaleza possui vários movimentos, felizmente. Quando vim de Portugal, não havia nenhum movimento em atuação em Fortaleza. Isso foi em 2012. A gente teve movimentos antes. A Massa Crítica existiu entre 2009 e 2010, sendo que ela tinha parado de atuar durante um tempo. Movimento suprapartidário não havia. Em 2012, eu fui para internet, postei lá e vi quem é que tinha interesse em ir atrás de direitos de ciclistas. Foram poucas, mas a gente vai crescendo aos poucos. Fomos atrás dos candidatos à Prefeitura de Fortaleza, aproveitando a campanha de 2012. A gente tem uma carta de compromisso do Roberto Cláudio se comprometendo com várias coisas que ele ainda não cumpriu, com firma reconhecida, assinado durante a campanha eleitoral. No final de 2012, esse pessoal reativou a Massa Crítica de Fortaleza, evento que acontece no mundo inteiro. Aqui no Brasil tem cunho mais reivindicativo. A Ciclovida surgiu em 2013 como consequência dessa mobilização.

Tribuna – E como começaram a conquistas vitórias?
Celso – A Massa Crítica como coletivo pintou ciclofaixa cidadã na Rua Ana Bilhar e fez sucesso fenomenal. Nós, da Ciclovida, fomos para o Fórum Mundial da Bicicleta, que aconteceu alguns meses depois desse fato, e eles perguntaram muito sobre essa ação que estava acontecendo em Fortaleza. Todo mundo que luta pela mobilidade conhece essa iniciativa de Fortaleza. O pessoal comentou muito favoravelmente e a prefeitura se sentiu pressionada a fazer alguma coisa que ela nunca tinha feito antes. Até então, a gestão do Roberto Cláudio não tinha feito nada para bicicleta. A gente teve iniciativas pontuais e tímidas na gestão da Luizianne Lins, como a ciclovia da Avenida Bezerra de Menezes. A primeira ciclofaixa não foi do Roberto Cláudio, mas da Luzianne na Benjamin Brasil, perto do Mondubim, não sei corretamente qual é o bairro, mas é no canteiro central. E temos ciclovias mais históricas, que eram feitas sempre quando se fazia uma grande rodovia, sobrava espaço no canteiro central e se construía uma ciclovia. Temos na Avenida Washington Soares, Via Expressa. Na José Bastos, inicialmente se concebeu com uma ciclovia, mas hoje nem se conta mais de tão deteriorada que ela está.

'Bogotá e Medellín eram referência de violência urbana. E através de uma nova estruturação urbana, e não através de polícia, conseguiram restaurar a paz pública

Tribuna – E como você avalia os atuais equipamentos em prol dos ciclistas?
Celso – Essas pequenas iniciativas começaram com a iniciativa popular, tanto da Massa Crítica que pôs a mão na massa, como Ciclovida e outros movimentos que qualificaram debate em Fortaleza. Antes não se falava em bicicleta como mobilidade. Somos favorável à ciclofaixa de lazer e a bicicleta compartilhada. Foram iniciativas que deram muito certo em São Paulo como propulsores da cultura da mobilidade com bicicleta. São iniciativas muito boas, mas que não representam gestão como um todo. Não representam uma mudança na concepção de mobilidade da Prefeitura de Fortaleza. Então, você ainda tem obras que são um retrocesso e que vão conforme a política de mobilidade que a gente tinha em 1950 e não deu certo. Os viadutos do Cocó são um grande exemplo disso, porque você invadir uma área de mangue e de preservação ambiental tornou muito perigosa a vida dos pedestres, tornou perigoso para quem se desloca de bicicleta no local e melhorou entre aspas ou prometeu melhorar a vida de quem usa carro. Então, você acaba estimulando a vida de quem usa carro e você acaba congestionando mais, que é o que a gente chama de demanda induzida.

Tribuna – Então você acha que as obras favorecem, em geral, os motoristas?
Celso – Geralmente, essas obras rodoviaristas excluem os pedestres. Quando não excluem, priorizam o carro. A gente tem inciativas na Washington Soares de colocar passarelas e falar que, com isso, estão beneficiando o pedestre. Na verdade, isso são obras para carros, que beneficiam carros. Só faz com o que o carro não seja incomodado pelo pedestre, que quer atravessar a rua. A Abraspe tem um posicionamento que a travessia do pedestre tem que ser feita a nível do chão, nem túnel, nem passarela. É importante estudar como é estrutura da Prefeitura de Fortaleza, porque não é una. Você tem secretarias que pensam diferentes. Você tem a Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), e dentro dela você tem o Plano de Ações Imediatas de Trânsito e Transportes (Paitt), que tem feito a ciclofaixa de lazer, bicicletas compartilhadas e ciclofaixas. É um órgão que pensa muito para frente, conforme os mais modernos estudos de mobilidade, e pensa bem a cidade. Porém você tem uma Secretaria de Infraestrutura (Seinf), do Samuel Dias, que é extremamente rodoviarista. O discurso está tendo que ser mitigado agora que a gente está conseguindo colocar a bicicleta como pauta, e eles têm que fingir que apoiam isso. Você consegue ver esse conflito na prática: a ciclofaixa da Antônio Sales termina no viaduto da Seinf; a ciclofaixa da Santos Dumont termina no túnel da Seinf. Então, a gestão tem tentado dar alguns tímidos avanços em relação à mobilidade por bicicleta, talvez por uma questão de marketing, talvez porque a pauta está em voga. Mas as iniciativas contra a bicicleta ainda estão sendo mais relevantes do que as inciativas a favor.

“Antes não se falava em bicicleta como mobilidade. Somos favorável à ciclofaixa de lazer e a bicicleta compartilhada”.

Celso também participa do projeto Bike Anjo, que ajuda pessoas a pedalar pela primeira vez (FOTO: Reprodução Facebook)

Celso também participa do projeto Bike Anjo, que ajuda pessoas a pedalar pela primeira vez (FOTO: Reprodução Facebook)

Tribuna – A bicicleta sempre foi utilizada por pessoas da periferia. Você considera que o movimento ter realizado ações na área nobre fez com que a pauta ganhasse mais força?
Celso – Na verdade, esse é um debate bem mais amplo sobre política pública. Como as diferentes classes sociais conseguem influenciar o poder público? O movimento pela mobilidade começa a ganhar corpo e tem influência na política pública quando ele atinge a parte mais nobre da cidade. A Massa Crítica pintou a ciclofaixa na Ana Bilhar e pintou também no Bom Jardim. Pintou em vários cantos da cidade. Sendo que a imprensa focou na Ana Bilhar, porque a imprensa está na Ana Bilhar. Depois disso, a prefeitura chamou a Ciclovida para conversar entre aspas, para apresentar a proposta dela. Na verdade não foi nem conversar, foi dizer que ela estava fazendo uma coisa boa. E ela apresentou a ciclofaixa na Ana Bilhar. Aliás, a primeira proposta era absurda, porque era uma ciclofaixa de lazer, que funcionaria só aos domingos, mas que ficaria permanentemente pintada no chão. Na prática era uma ciclofaixa que tinha desrespeito permitido na semana. E a gente conseguiu mudar essa proposta. Quando a prefeitura jogou ideia de que colocaria ciclofaixa na Ana Bilhar, a gente propôs colocar na periferia, que é onde tem uso maior da bicicleta e seria um sucesso muito maior da iniciativa. A prefeitura não quis. E a gente conversou internamente e pensou que a área nobre não tinha nenhuma infraestrutura cicloviária. E a área nobre é onde está a imprensa, onde mora o poder público, a Justiça, onde estão os rodoviaristas, que usam o carro e não conseguem conceber a bicicleta como modo de deslocamento. Então, seria um impacto muito grande para a cidade. E deu no que deu. Teve repercussão muito grande e, a partir daí, não conseguiu mais voltar atrás. A prefeitura foi pressionada a seguir sempre em frente. Adotou a ciclofaixa como política pública.

Tribuna – Algumas pessoas acreditam que se trata apenas de modinha…
Celso – Não é, porque nunca foi em nenhum lugar do mundo. Modinha é um esporte. A bicicleta como deslocamento é outra coisa. Ela estabelece mudança comportamental no trânsito. Você que gastava uma hora de carro para ir ao trabalho, agora gasta 18 minutos com a bicicleta, não vai mais voltar para o carro, porque cansou da modinha. A bicicleta estabelece mudança pessoal, tanto pessoa dentro da cidade, como uma mudança na cidade em termo de mobilidade, em termo de urbanidade. Temos referências como Holanda e Dinamarca. Mas você tem referências na América Latina, como Bogotá e Medellín. Essas cidades eram referência de violência urbana. E através de uma nova estruturação urbana, e não através de polícia, conseguiram restaurar a paz pública. Quando promove o uso das calçadas e das bicicletas, você preenche a cidade e a torna menos violenta.

Tribuna – O que ainda falta ser feito para propiciar uma boa locomoção para os ciclistas?
Celso – A gente precisa ainda de mudança estrutural na Prefeitura de Fortaleza. Temos política boa feita pelo Paitt, mas é preciso que a gestão como um todo do prefeito Roberto Cláudio tome a decisão de que nós vamos deixar para trás a política ultrapassada, que não deu certo, de 1950, rodoviarista, e começar a política que as cidades da Europa têm feito de modo sustentável, com mobilidade humana focada no pedestre, ciclista e transporte coletivo. Parar com discurso arcaico e grosseiro que o carro não pode ser penalizado, como diz Samuel Dias. Carro não tem sentimentos, as pessoas que se deslocam que têm. É preciso que a cidade se estruture para que o cidadão se sinta confortável ao usar o modo de deslocamento que traga menos prejuízo à cidade.

“Vamos parar com discurso arcaico e grosseiro que o carro não pode ser penalizado. Carro não tem sentimentos, as pessoas que se deslocam que têm”.

Tribuna – Alguns casos no Rio de Janeiro com ciclistas esfaqueados chocaram as pessoas. Você se sente seguro andando de bicicleta em Fortaleza?
Celso – Me sinto mais seguro do que de carro. O caso do Rio de Janeiro é muito à parte. O contexto de violência urbana do Rio é muito diferente. Enquanto no Rio de Janeiro estão esfaqueando gente no ponto de ônibus, em Fortaleza você escuta notícia de arrastão entre os carros ou assalto ao carro na Via Expressa, Antônio Sales. É um paradigma, pois a gente sempre tomou o carro como um veículo totalmente seguro e nunca parou pra refletir isso. Simplesmente disseram para a gente que é seguro. Então, na prática, você vê um cruzamento com os carros todos parados em semáforos. A pessoa não vai assaltar o ciclista, mas o carro. Em termos de violência urbana, quando você está no seu carro, o bandido está preparado para atirar, porque você pode fugir rapidamente ou atropelar o assaltante. Então, se você reagir, ele vai atirar. A pé ou de bicicleta, você corre risco menor de ser agredido, porque o bandido não está esperando que você reaja. No Rio de Janeiro é diferente, mas não representa o que acontece no resto do Brasil.

Celso aprendeu a pedalar sozinho, quando fazia intercâmbio. Ao voltar para Fortaleza, tomou um susto a agressividade no trânsito (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Celso aprendeu a pedalar sozinho, quando fazia intercâmbio. Ao voltar para Fortaleza, tomou um susto a agressividade no trânsito (FOTO: Hayanne Narlla/ Tribuna do Ceará)

Tribuna – Como você avalia a convivência de ciclistas e motoristas?
Celso – A gente tem problema de agressividade, em geral, contra ciclista, motociclista e pedestre. Tem normas básicas de trânsito que as pessoas não respeitam e que a AMC não parece estar interessa em multar. Por exemplo, quando você faz a conversão, você tem que dar preferência ao pedestre que está fazendo a travessia, seja na faixa de pedestre ou fora ela. Prioridade sempre do pedestre. Nenhuma infração justifica morte no trânsito. Norma muito básica e que não é respeitada. Primeiro que a prefeitura não coloca faixa de pedestres. Faixa de pedestres só tem em cruzamento. Quer atravessar na outra quadra, não tem faixa. Você deveria ter, como tem em Curitiba, em cada quarteirão três faixas de pedestre. Seria muito fácil a AMC fazer campanha de conscientização em relação ao respeito ao pedestre, ir para faixas de pedestre e multar. Não ia ser pioneiro, você tem experiência em Brasília, em João Pessoa. Está faltando iniciativa. Para o ciclista é a mesma coisa. Há normas que os motoristas desconhecem. A bicicleta é um veículo, ela tem direito a faixa como diz o artigo 96 do Código de Trânsito. O motorista que ultrapassa o ciclista precisa manter distância de 1,5 metros, como diz o artigo 201. Isso quer dizer que o motorista tem que mudar de faixa. É uma regra muito simples, não é absurda. Em Portugal, eles aprovaram ano passado uma alteração no código de estradas, que é o de trânsito lá, que obriga os motoristas a manter distância de 1,5m. Mas eu pedalei em Portugal antes de surgir a lei e as pessoas já mudavam de faixa para me ultrapassar, porque eu estava em um veículo.

“Me sinto mais seguro na bicicleta do que de carro. O caso do Rio de Janeiro (esfaqueamentos) é muito à parte”.

Tribuna – E as motocicletas em ciclofaixas? Como coibir?
Celso – Tem muita gente usando e é um desrespeito enorme. A ciclofaixa não é uma estrutura apenas para garantir segurança para aqueles que usam bicicleta naquele local. Ela visa fazer com que mais pessoas usem a bicicleta. Você precisa fazer com que elas sejam atraente. Se você tem uso motorizado, por mais que saiam [quando um ciclista surge], está inibindo o uso da bicicleta, porque acham perigoso. É preciso ter fiscalização. Mas a gente tem um problema de fiscalização muito grande em Fortaleza. O efetivo da AMC é muito menor que o recomendado pela ONU para garantir segurança no trânsito. Ela multa quando vê, mas o efetivo é pequeno e não multa de forma expressiva.

Tribuna – Um dos empecilhos para pedalar é o calor, segundo algumas pessoas. Esse é um fator que afasta as pessoas da bicicleta?
Celso – Na Europa, eles ficam o ano inteiro esperando o clima de Fortaleza para andar de bicicleta. Na verdade, o clima é um problema. Na neve é muito difícil de pedalar, porque tem piso escorregadio. Temperaturas negativas são um problema, porque tem vento cortante no rosto. Pedalar na chuva é um problema, você tem que ter formas de lidar com chuva. Cidades muito acidentas, que tem ladeiras, também há dificuldade. Então, são vários fatores climáticos e de relevos que podem ser inibidores de mobilidade por bicicleta. Fortaleza não tem calor de 40 graus e tem brisa muito agradável. Esse é um tipo de reclamação de quem não usa bicicleta. Quem usa e escuta isso, já acha estranho. Calor é problema cultural. Eu uso terno de bicicleta, fui padrinho de casamento e fui de bicicleta. No Fórum tem gente mais suado que eu que acabei de chegar. Claro que você não pode tomar como referência sua primeira experiência ou a experiência em um mês. O corpo humano se adapta aos fatores climáticos e aos comportamentos. Na primeira vez que você for utilizar a bicicleta, você vai suar muito. Depois seu corpo vai se adaptar e você vai suar menos. Então o assunto do suar gera diversos debates. Como você lida com isso para não suar? Trocando a camisa, depois passa uma toalha no resto do corpo e pronto! Está seco! Eu uso camiseta por baixo da camisa social e ela absorve o suor. Tem gente que usa a bicicleta e chega nos cantos suados e pergunta qual o problema disso? Qual o problema de suar?

“Eu uso terno de bicicleta, fui padrinho de casamento e fui de bicicleta. No Fórum tem gente mais suado que eu que acabei de chegar”.

Tribuna – Você vai ao Fórum, a casamentos de bicicleta… Não existe preconceito com a forma que você se locomove? As pessoas não te olham diferente?
Celso – Existe principalmente em estabelecimentos que são frequentados por gente de todas as classes sociais. Por exemplo, supermercado que tem ricos e pobres utilizando. Nesses lugares, tem normas rígidas contra a bicicleta, porque existe o preconceito social contra os pobres. Então eles acham que a bicicleta deixa estacionamento feio. Não tem lugar para estacionar e, se você quer estacionar no poste, eles chegam e dizem que não pode. Agora, quando você chega no restaurante mais chique, que só gente de classe média para cima frequenta, as pessoas acham estranho você chegar de bicicleta.. Elas não têm preconceito, porque já veem você como cliente. Aí eles pensam em como fazer para lidar com o fato de que você está de bicicleta. Eu tive um problema já. Na época que eu tinha carro, eu sempre estacionava no estacionamento da OAB. Nunca me pediram nada, simplesmente chegava lá e estacionava. Quando eu cheguei de bicicleta, o porteiro disse que não podia estacionar lá. Eu tive que mostrar a minha OAB. Isso não seria uma afronta a minha dignidade se ele pedisse a OAB de todo mundo. Mas ele só me recebeu de forma diferente porque eu estava de bicicleta. Depois desse incidente, eles passaram a me reconhecer e eu posso estacionar lá tranquilamente. Mas tive que passar por esse constrangimento como advogado que eu não tive que passar como estagiário, porque eu usava carro. Então, realmente há preconceito com a pessoa que usa bicicleta, porque você já pensa que ela é pobre. E sendo pobre, você já pensa que pode desrespeitar de qualquer maneira. No trânsito acontece da mesma forma. Em Portugal, eu era respeitado, porque eu era uma pessoa no trânsito. Aqui eu sou uma não-pessoa.

Tribuna – Também há críticas aos “night bikers”, pessoas que utilizam a bicicleta em passeios coletivos de noite. As reclamações são em relação às normas que não seriam respeitadas por esse grupo. Como você avalia isso?
Celso – Night bikers são outra questão. Eles não são ciclistas de deslocamento, eles são esportivos e de lazer. É uma pauta diferente da nossa. Mas tem várias coisas a considerar. Quais normas de trânsito que eles desrespeitam? São as que os motoristas fizeram para garantir o fluxo dos veículos motorizados? É norma de trânsito que foi feita para carros e se lembrou em poucas vezes do pedestre e ciclista? O debate precisa ser contextualizado. Você tem que ter consciência que quem causa perigo no trânsito são os veículos motorizados pesados, com potência de motor muito acima da escala humana. Na França, permite-se que o ciclista ande no contrafluxo, que aqui é contramão. A contramão foi criada para veículos perigosos. O fluxo não foi feito para pedestres, nem para ciclistas, foi feito para carros. Aqui, a gente quer que o ciclista se desloque como carro, sendo que é muito diferente e precisa ser diferente. Quando se fala de norma, precisa saber para quem e por quem foram feitas. Será que a norma está completamente certa e não precisamos adaptá-la?