Casais homossexuais reclamam de olhares e críticas a demonstrações de afeto nas ruas


Casais homossexuais reclamam de olhares e críticas a demonstrações de afeto nas ruas

Mesmo sendo um gesto comum, o simples fato de andar de mãos dadas parece estar reservado apenas aos casais heterossexuais, devido à reação da sociedade

Por Roberta Tavares em Fortaleza

7 de maio de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Felipe e Rafael namoram há três anos e, constantemente, recebem olhares de reprovação da sociedade (FOTO: Felipe Rocha/Arquivo pessoal)

Felipe e Rafael namoram há três anos e, constantemente, recebem olhares de reprovação (FOTO: Felipe Rocha/Arquivo pessoal)

A vida, apesar de ser marcada por grandes momentos, em sua maioria é constituída por pequenos gestos: um passeio na praça, um beijo mais demorado, um carinho, um “eu te amo” inesperado ou um abraço apertado. É bem comum ver, diariamente, casais andando de mãos dadas pelas ruas de Fortaleza, pelos shoppings ou na Beira-Mar ao entardecer.

Entretanto, apesar de ser um gesto costumeiro, esse direito parece estar reservado apenas aos casais heterossexuais, devido à reação da sociedade. O simples ato deixa de ser belo, para muitos, quando o casal em questão é formado por pessoas do mesmo sexo. Os estudantes universitários Felipe Rocha e Rafael Guimarães, ambos de 22 anos, evitam demonstrar afeto, por meio de gestos, nas ruas da capital cearense.

Os olhares preconceituosos e os ataques verbais ferem o casal de namorados, que já foi, inclusive, tratado como irmãos. “Infelizmente a sociedade impõe um certo olhar sobre os gays, que nos machucam. Os olhares existem, são maus e demonstram preconceito. Por conta disso, preferimos evitar gestos como beijo e andar de mãos dadas em público”, conta Felipe Rocha, estudante de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Segundo disse, o fato de namorar há quase três anos torna menos dolorosa a escolha de reprimir os desejos. “Isso não quer dizer que nunca manifestemos gestos de carinho um ao outro. Não temos a necessidade de ficarmos nos beijando por aí. Sabemos que nos amamos e temos confiança um no outro, assim, não precisamos andar de mãos dadas para provar nosso amor. O amor, para nós, é provado no companheirismo, na alegria e nos momentos que não nos favorecem”, desabafa.

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Apesar do preconceito da sociedade quando demonstrado carinho apaixonado pelos companheiros, Felipe nunca deixou de sair com o namorado para se “esconder” do olhar de reprovação e de opressão. Quando opta por não passear, é por preferir ficar à noite em uma cama, vendo filme ou jogando videogame com Rafael. “O preconceito existe, mas nunca vai me deixar trancado dentro de casa. Se quiser pegar na mão do meu namorado e junto com ele sair de mãos dadas, eu sairei. Não é o moralismo, que mata todos os dias centenas de gays, que vai me prender em casa”, diz.

Tavares e Ari gostam de expor, de forma carinhosa, seus afetos (FOTO: Gabi Melo)

Tavares e Ari gostam de expor, de forma carinhosa, seus afetos (FOTO: Gabi Melo)

Os tais olhares também são comuns ao casal Ari Areia, de 23 anos, e Tavares Neto, de 22. Namorando há três anos, os jovens se comportam como quaisquer outros cidadãos comuns. Não veem problema em dar as mãos ou beijos. “Isso são coisas tão naturais. Esse tipo de autocensura não é saudável, seja por qual motivo for. Tem gente que acha estranho ver dois garotos se abraçando como casal, mas imagino que seja uma questão que vai se naturalizando aos poucos”, explica Ari.

Por quererem expor de forma carinhosa seus afetos, Ari e Tavares tiveram de enfrentar a censura de uma sociedade criada e sustentada por pilares heterossexuais. Passaram por situações constrangedoras. No total, foram três. O suficiente para registrarem queixa e até Boletim de Ocorrência. “Um segurança mal orientado veio pedir que eu tirasse a minha perna de cima da perna do Tavares. Uma coisa sem sentido. Outra vez, na Praça Verde do Dragão do Mar, um guarda ficou de vigia, ao nosso lado, numa postura intimidatória totalmente desnecessária. E, uma noite, na Avenida da Universidade, um grupo de garis passou alguns minutos fazendo chacota com a gente, que caminhava de mãos dadas”, relembrou.

As experiências fizeram o casal repensar as atitudes das pessoas e desejarem que vivam com mais tranquilidade, sem se importar com o que os outros vão pensar. Afinal, sempre existiram casais homossexuais e sempre vão existir, assim como sempre houve casais heterossexuais e sempre haverá. “Ninguém deve submeter sua vida inteira a cumprir expectativas que não sejam suas. Nem com relação à orientação sexual, nem com relação a nada. Todos devem levar a vida com mais tranquilidade, sejam homossexuais ou não”, dá a dica.

Já Felipe conta que, apesar de todo o preconceito e problemas vividos desde que resolveu assumir a sexualidade, agora vive plenamente feliz. “Pessoalmente, tive muitos problemas no primeiro ano, mas hoje estou completamente bem, minha família me respeita, aceita e entende. Àqueles que não respeitam, eu digo: ‘estudem’. A ignorância é o ópio do povo”, finaliza.

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Casais homossexuais reclamam de olhares e críticas a demonstrações de afeto nas ruas

Mesmo sendo um gesto comum, o simples fato de andar de mãos dadas parece estar reservado apenas aos casais heterossexuais, devido à reação da sociedade

Por Roberta Tavares em Fortaleza

7 de maio de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Felipe e Rafael namoram há três anos e, constantemente, recebem olhares de reprovação da sociedade (FOTO: Felipe Rocha/Arquivo pessoal)

Felipe e Rafael namoram há três anos e, constantemente, recebem olhares de reprovação (FOTO: Felipe Rocha/Arquivo pessoal)

A vida, apesar de ser marcada por grandes momentos, em sua maioria é constituída por pequenos gestos: um passeio na praça, um beijo mais demorado, um carinho, um “eu te amo” inesperado ou um abraço apertado. É bem comum ver, diariamente, casais andando de mãos dadas pelas ruas de Fortaleza, pelos shoppings ou na Beira-Mar ao entardecer.

Entretanto, apesar de ser um gesto costumeiro, esse direito parece estar reservado apenas aos casais heterossexuais, devido à reação da sociedade. O simples ato deixa de ser belo, para muitos, quando o casal em questão é formado por pessoas do mesmo sexo. Os estudantes universitários Felipe Rocha e Rafael Guimarães, ambos de 22 anos, evitam demonstrar afeto, por meio de gestos, nas ruas da capital cearense.

Os olhares preconceituosos e os ataques verbais ferem o casal de namorados, que já foi, inclusive, tratado como irmãos. “Infelizmente a sociedade impõe um certo olhar sobre os gays, que nos machucam. Os olhares existem, são maus e demonstram preconceito. Por conta disso, preferimos evitar gestos como beijo e andar de mãos dadas em público”, conta Felipe Rocha, estudante de Filosofia da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Segundo disse, o fato de namorar há quase três anos torna menos dolorosa a escolha de reprimir os desejos. “Isso não quer dizer que nunca manifestemos gestos de carinho um ao outro. Não temos a necessidade de ficarmos nos beijando por aí. Sabemos que nos amamos e temos confiança um no outro, assim, não precisamos andar de mãos dadas para provar nosso amor. O amor, para nós, é provado no companheirismo, na alegria e nos momentos que não nos favorecem”, desabafa.

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Apesar do preconceito da sociedade quando demonstrado carinho apaixonado pelos companheiros, Felipe nunca deixou de sair com o namorado para se “esconder” do olhar de reprovação e de opressão. Quando opta por não passear, é por preferir ficar à noite em uma cama, vendo filme ou jogando videogame com Rafael. “O preconceito existe, mas nunca vai me deixar trancado dentro de casa. Se quiser pegar na mão do meu namorado e junto com ele sair de mãos dadas, eu sairei. Não é o moralismo, que mata todos os dias centenas de gays, que vai me prender em casa”, diz.

Tavares e Ari gostam de expor, de forma carinhosa, seus afetos (FOTO: Gabi Melo)

Tavares e Ari gostam de expor, de forma carinhosa, seus afetos (FOTO: Gabi Melo)

Os tais olhares também são comuns ao casal Ari Areia, de 23 anos, e Tavares Neto, de 22. Namorando há três anos, os jovens se comportam como quaisquer outros cidadãos comuns. Não veem problema em dar as mãos ou beijos. “Isso são coisas tão naturais. Esse tipo de autocensura não é saudável, seja por qual motivo for. Tem gente que acha estranho ver dois garotos se abraçando como casal, mas imagino que seja uma questão que vai se naturalizando aos poucos”, explica Ari.

Por quererem expor de forma carinhosa seus afetos, Ari e Tavares tiveram de enfrentar a censura de uma sociedade criada e sustentada por pilares heterossexuais. Passaram por situações constrangedoras. No total, foram três. O suficiente para registrarem queixa e até Boletim de Ocorrência. “Um segurança mal orientado veio pedir que eu tirasse a minha perna de cima da perna do Tavares. Uma coisa sem sentido. Outra vez, na Praça Verde do Dragão do Mar, um guarda ficou de vigia, ao nosso lado, numa postura intimidatória totalmente desnecessária. E, uma noite, na Avenida da Universidade, um grupo de garis passou alguns minutos fazendo chacota com a gente, que caminhava de mãos dadas”, relembrou.

As experiências fizeram o casal repensar as atitudes das pessoas e desejarem que vivam com mais tranquilidade, sem se importar com o que os outros vão pensar. Afinal, sempre existiram casais homossexuais e sempre vão existir, assim como sempre houve casais heterossexuais e sempre haverá. “Ninguém deve submeter sua vida inteira a cumprir expectativas que não sejam suas. Nem com relação à orientação sexual, nem com relação a nada. Todos devem levar a vida com mais tranquilidade, sejam homossexuais ou não”, dá a dica.

Já Felipe conta que, apesar de todo o preconceito e problemas vividos desde que resolveu assumir a sexualidade, agora vive plenamente feliz. “Pessoalmente, tive muitos problemas no primeiro ano, mas hoje estou completamente bem, minha família me respeita, aceita e entende. Àqueles que não respeitam, eu digo: ‘estudem’. A ignorância é o ópio do povo”, finaliza.