Comunidade acadêmica vive clima de tensão na UFC graças ao acirramento político nas eleições

CONFLITO IDEOLÓGICO

Comunidade acadêmica vive clima de tensão na UFC graças ao acirramento político nas eleições

Denúncias de violência física e verbal por motivos políticos levam entidades ligadas à UFC a se posicionar preocupadas com o acirramento nos campi

Por Tribuna do Ceará em Eleições 2018

22 de outubro de 2018 às 10:12

Há 7 meses
A nota da reitoria afirma que a UFC "não irá condescender com os que atentarem contra a paz no campus" (FOTO: Davi Pinheiro/UFC Informa)

Reitoria afirma que a UFC “não irá condescender com os que atentarem contra a paz” (FOTO: Davi Pinheiro/UFC Informa)

Reflexo do acirramento político nas Eleições de 2018, o clima de tensão entre quem diverge chegou à Universidade Federal do Ceará (UFC). Nos últimos dias, uma série de notas foram lançadas por entidades como Adufc, Sintufc e Comissão de Direitos Humanos, além da própria Reitoria da instituição, alertando para a gravidade do momento no ambiente acadêmico. Tradicionalmente um local tido de posturas de esquerda, quem defende essas bandeiras agora enfrenta um conflito ideológico cada vez mais violento com militantes e eleitores de direita.

No último dia 12 de outubro, a UFC emitiu nota condenando radicalismos de “quaisquer colorações” dentro da universidade. No texto, o reitor Henry de Holanda Campus não citou nominalmente os candidatos a presidência e nem defendeu um dos lados que estarão na disputa do 2º turno das eleições. No entanto, citou “atos de patrulhamento ideológico e intolerância explícita, que não condizem com a tradição de liberdade e pluralidade característica do ambiente acadêmico.”

Caso de maior repercussão

Um desses atos tratou-se do caso do professor Júlio Araújo, do curso de Letras, que foi agredido dentro do campus. Ele conta que foi intimidado por um grupo de homens que foram homofóbicos e racistas, todos trajados com blusas de Jair Bolsonaro. Um Boletim de Ocorrência foi registrado.

Em relato no Facebook, Júlio conta como foi intimidado. O depoimento teve mais de 1500 compartilhamentos.

“Ele deve saber quem eu sou porque disse em voz alta ao me ver passar pelo bosque do Curso de Letras: ‘Quero só ver como ficarão os professores viados e negros dessa porcaria de universidade! Deixe meu presidente assumir, sua bicha preta’. Nem olhei pra trás, mas isso não me impediu de ouvir as risadas debochadas dele e de outros que estavam com ele! Todos estavam vestindo uma blusa preta com o nome do coiso. Apesar de eu ter ficado muito assustado, caminhei em frente sem jamais olhar pra trás. Gente, eu cheguei em meu carro me tremendo e lá dentro chorei muito antes de vir pra casa. Eu, realmente, senti muito medo”, relata o professor.

A Comissão de Direitos Humanos da instituição se manifestou e se solidarizou com o docente “pela agressão moral e discriminatória sofrida no âmbito desta Instituição.”

De acordo com a nota, a Comissão diz que não foi um caso isolado de “ataques aos direitos fundamentais, mas de fruto de movimento que representa um profundo retrocesso nas garantias e direitos, individuais e coletivos”, ressaltando os princípios da universidade.

“O ambiente universitário tem sido palco de reiterados confrontos que extrapolam os limites do debate saudável e construtivo próprios de uma universidade pautada nos princípios da democracia, liberdade, pluralidade de ideias e respeito às diferenças”, diz em um dos trechos. Veja a nota completa.

Servidores preocupados

“A gente tem observado um clima que preocupa, principalmente com o acirramento de algumas posturas. A universidade sempre foi um espaço de muita pluralidade, espaço que as pessoas, independente de credo, ideologias, se sentiam acolhidas também. Existe um movimento que parece ter se organizado para impedir pessoas de exercer sua liberdade, e alimentar o ódio contra o que é diferente, os negros, LGBTs, estudantes cotistas. Isso é preocupante”, avaliou Wagner Pires, diretor de campi avançados do Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Federais no Estado do Ceará (Sintufce), que também lançou nota sobre o assunto.

Wagner diz que o ataque a Júlio foi o ponto alto do que vem ocorrendo nos campi da UFC. Outros relatos semelhantes chegam ao sindicato. Segundo ele, o sindicato tem observado ameaças veladas.

“Isso é prejudicial para a democracia, para uma instituição que está entre as melhores do país justamente por ter essa abertura, está sendo podada por grupos que estão se organizando e, embora não afirmem, se identificam claramente com bandeiras fascistas. Em conversa com servidores, estudantes e professores, existe um medo, eles já não se sentem mais à vontade na universidade”, completou.

Professores reforçam preocupação

A Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (Adufc) faz uma avaliação do momento político e diz que o processo eleitoral de 2018 é um dos “mais difíceis da nossa história”. Faz críticas a quem ofende, desrespeita e ameaça as minorias.

“Difícil e preocupante, sobretudo pelo retorno, no seio da nossa sociedade, de posições sócio-políticas fascistas, que parecem ter sido inspiradas nos regimes de Adolf Hitler e Benedito Mussolini. Em plena campanha eleitoral, o discurso de ódio é destilado contra os negros, as mulheres, os homossexuais, e ainda contra os partidos políticos, numa clara tentativa de criminalizar a política”, diz um dos trechos. Veja a nota completa. 

O Tribuna do Ceará tentou contato com um representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFC, mas até a publicação da reportagem não obteve resposta.

Sem detalhar casos

A nota oficial assinada pela Reitoria, que se disse preocupada com radicalismos de “quaisquer colorações”, não detalha quais casos colocaram em risco a convivência harmônica no ambiente acadêmico. O Tribuna do Ceará questionou a assessoria de imprensa da UFC quais foram esses episódios que motivaram a nota, mas a instituição informou que se resumirá ao que foi escrito no pronunciamento.

No passado, outro caso que ganhou repercussão foi de um estudante de direita que se disse coagido por colegas de esquerda, registrado em 2016, no curso de Letras. Hostilizado por usar uma camisa em apoio a Jair Bolsonaro (PSL), o policial civil Jorge Fontenelle ficou conhecido entre militantes de direita e chegou a se candidatar a deputado federal, pelo mesmo partido do candidato a presidente. Ele recebeu 8.419 votos em 181 dos 184 municípios do Ceará, mas isso não foi suficiente para a eleição.

UFC fez um alerta a docentes e servidores administrativos nessas eleições (FOTO: Reprodução Whatsapp)

Sem manifestações político-partidárias

Na esteira do acirramento político, um memorando proibindo dirigentes da universidade de usar qualquer espaço dos campi para eventos político-partidários foi emitido pela UFC para docentes e servidores administrativos. Nele, o reitor Henry Campos “dispõe sobre condutas vedadas a agentes públicos” para vetar “eventos de natureza político-partidária” nas dependências da instituição. O documento, que circula em redes sociais, é confirmado pela assessoria de imprensa da universidade.

O Ministério Público Eleitoral havia enviado, em maio, recomendação ao reitor da UFC para que não seja autorizada a realização de ato político de lançamento de pré-candidatura dentro das dependências da instituição.

O procurador regional eleitoral Anastácio Tahim explicou que a legislação eleitoral considera conduta vedada a agente público a cessão e a utilização de bens, móveis ou imóveis, pertencentes à Administração Pública direta ou indireta de modo a beneficiar candidato, agremiação política ou coligação. A realização do ato sujeita o agente público a multa. Na recomendação, o procurador eleitoral lembrou que a UFC constitui uma autarquia federal, portanto não pode ser palco para fins político-eleitorais.

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CONFLITO IDEOLÓGICO

Comunidade acadêmica vive clima de tensão na UFC graças ao acirramento político nas eleições

Denúncias de violência física e verbal por motivos políticos levam entidades ligadas à UFC a se posicionar preocupadas com o acirramento nos campi

Por Tribuna do Ceará em Eleições 2018

22 de outubro de 2018 às 10:12

Há 7 meses
A nota da reitoria afirma que a UFC "não irá condescender com os que atentarem contra a paz no campus" (FOTO: Davi Pinheiro/UFC Informa)

Reitoria afirma que a UFC “não irá condescender com os que atentarem contra a paz” (FOTO: Davi Pinheiro/UFC Informa)

Reflexo do acirramento político nas Eleições de 2018, o clima de tensão entre quem diverge chegou à Universidade Federal do Ceará (UFC). Nos últimos dias, uma série de notas foram lançadas por entidades como Adufc, Sintufc e Comissão de Direitos Humanos, além da própria Reitoria da instituição, alertando para a gravidade do momento no ambiente acadêmico. Tradicionalmente um local tido de posturas de esquerda, quem defende essas bandeiras agora enfrenta um conflito ideológico cada vez mais violento com militantes e eleitores de direita.

No último dia 12 de outubro, a UFC emitiu nota condenando radicalismos de “quaisquer colorações” dentro da universidade. No texto, o reitor Henry de Holanda Campus não citou nominalmente os candidatos a presidência e nem defendeu um dos lados que estarão na disputa do 2º turno das eleições. No entanto, citou “atos de patrulhamento ideológico e intolerância explícita, que não condizem com a tradição de liberdade e pluralidade característica do ambiente acadêmico.”

Caso de maior repercussão

Um desses atos tratou-se do caso do professor Júlio Araújo, do curso de Letras, que foi agredido dentro do campus. Ele conta que foi intimidado por um grupo de homens que foram homofóbicos e racistas, todos trajados com blusas de Jair Bolsonaro. Um Boletim de Ocorrência foi registrado.

Em relato no Facebook, Júlio conta como foi intimidado. O depoimento teve mais de 1500 compartilhamentos.

“Ele deve saber quem eu sou porque disse em voz alta ao me ver passar pelo bosque do Curso de Letras: ‘Quero só ver como ficarão os professores viados e negros dessa porcaria de universidade! Deixe meu presidente assumir, sua bicha preta’. Nem olhei pra trás, mas isso não me impediu de ouvir as risadas debochadas dele e de outros que estavam com ele! Todos estavam vestindo uma blusa preta com o nome do coiso. Apesar de eu ter ficado muito assustado, caminhei em frente sem jamais olhar pra trás. Gente, eu cheguei em meu carro me tremendo e lá dentro chorei muito antes de vir pra casa. Eu, realmente, senti muito medo”, relata o professor.

A Comissão de Direitos Humanos da instituição se manifestou e se solidarizou com o docente “pela agressão moral e discriminatória sofrida no âmbito desta Instituição.”

De acordo com a nota, a Comissão diz que não foi um caso isolado de “ataques aos direitos fundamentais, mas de fruto de movimento que representa um profundo retrocesso nas garantias e direitos, individuais e coletivos”, ressaltando os princípios da universidade.

“O ambiente universitário tem sido palco de reiterados confrontos que extrapolam os limites do debate saudável e construtivo próprios de uma universidade pautada nos princípios da democracia, liberdade, pluralidade de ideias e respeito às diferenças”, diz em um dos trechos. Veja a nota completa.

Servidores preocupados

“A gente tem observado um clima que preocupa, principalmente com o acirramento de algumas posturas. A universidade sempre foi um espaço de muita pluralidade, espaço que as pessoas, independente de credo, ideologias, se sentiam acolhidas também. Existe um movimento que parece ter se organizado para impedir pessoas de exercer sua liberdade, e alimentar o ódio contra o que é diferente, os negros, LGBTs, estudantes cotistas. Isso é preocupante”, avaliou Wagner Pires, diretor de campi avançados do Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Federais no Estado do Ceará (Sintufce), que também lançou nota sobre o assunto.

Wagner diz que o ataque a Júlio foi o ponto alto do que vem ocorrendo nos campi da UFC. Outros relatos semelhantes chegam ao sindicato. Segundo ele, o sindicato tem observado ameaças veladas.

“Isso é prejudicial para a democracia, para uma instituição que está entre as melhores do país justamente por ter essa abertura, está sendo podada por grupos que estão se organizando e, embora não afirmem, se identificam claramente com bandeiras fascistas. Em conversa com servidores, estudantes e professores, existe um medo, eles já não se sentem mais à vontade na universidade”, completou.

Professores reforçam preocupação

A Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (Adufc) faz uma avaliação do momento político e diz que o processo eleitoral de 2018 é um dos “mais difíceis da nossa história”. Faz críticas a quem ofende, desrespeita e ameaça as minorias.

“Difícil e preocupante, sobretudo pelo retorno, no seio da nossa sociedade, de posições sócio-políticas fascistas, que parecem ter sido inspiradas nos regimes de Adolf Hitler e Benedito Mussolini. Em plena campanha eleitoral, o discurso de ódio é destilado contra os negros, as mulheres, os homossexuais, e ainda contra os partidos políticos, numa clara tentativa de criminalizar a política”, diz um dos trechos. Veja a nota completa. 

O Tribuna do Ceará tentou contato com um representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFC, mas até a publicação da reportagem não obteve resposta.

Sem detalhar casos

A nota oficial assinada pela Reitoria, que se disse preocupada com radicalismos de “quaisquer colorações”, não detalha quais casos colocaram em risco a convivência harmônica no ambiente acadêmico. O Tribuna do Ceará questionou a assessoria de imprensa da UFC quais foram esses episódios que motivaram a nota, mas a instituição informou que se resumirá ao que foi escrito no pronunciamento.

No passado, outro caso que ganhou repercussão foi de um estudante de direita que se disse coagido por colegas de esquerda, registrado em 2016, no curso de Letras. Hostilizado por usar uma camisa em apoio a Jair Bolsonaro (PSL), o policial civil Jorge Fontenelle ficou conhecido entre militantes de direita e chegou a se candidatar a deputado federal, pelo mesmo partido do candidato a presidente. Ele recebeu 8.419 votos em 181 dos 184 municípios do Ceará, mas isso não foi suficiente para a eleição.

UFC fez um alerta a docentes e servidores administrativos nessas eleições (FOTO: Reprodução Whatsapp)

Sem manifestações político-partidárias

Na esteira do acirramento político, um memorando proibindo dirigentes da universidade de usar qualquer espaço dos campi para eventos político-partidários foi emitido pela UFC para docentes e servidores administrativos. Nele, o reitor Henry Campos “dispõe sobre condutas vedadas a agentes públicos” para vetar “eventos de natureza político-partidária” nas dependências da instituição. O documento, que circula em redes sociais, é confirmado pela assessoria de imprensa da universidade.

O Ministério Público Eleitoral havia enviado, em maio, recomendação ao reitor da UFC para que não seja autorizada a realização de ato político de lançamento de pré-candidatura dentro das dependências da instituição.

O procurador regional eleitoral Anastácio Tahim explicou que a legislação eleitoral considera conduta vedada a agente público a cessão e a utilização de bens, móveis ou imóveis, pertencentes à Administração Pública direta ou indireta de modo a beneficiar candidato, agremiação política ou coligação. A realização do ato sujeita o agente público a multa. Na recomendação, o procurador eleitoral lembrou que a UFC constitui uma autarquia federal, portanto não pode ser palco para fins político-eleitorais.