Professora usa cordel em escola no sertão do Ceará para incentivar leitura


Professora usa cordel em escola no sertão do Ceará para incentivar leitura

Francisca das Chagas ganhou em 2006 o título nacional de educadora do ano, graças ao projeto aplicado em São Gonçalo do Amarante

Por Marianna Gomes em Educação

15 de novembro de 2015 às 06:00

Há 4 anos
prof chaguinha

Chaguinha ganhou em 2006 o título educadora do ano pelo Prêmio Victor Civita pelo método de usar cordel em sala, prática que ainda faz. (FOTO: Arquivo pessoal)

“Essa é uma real história/ Que São Gonçalo abalou/ Tragédia de um estudante/ Que em um rio se passou/ Na localidade de Cágado/ Muita tristeza deixou”.

O trecho acima fez parte de um cordel coletivo produzido em 2006 por alunos da oitava série – atual nono ano -, da Escola de Ensino Fundamental João Pinto Magalhães, localizada em Cágado, localidade de São Gonçalo do Amarante, a 60 km de Fortaleza. Os estudantes que produziram o folheto tinham acabado de perder um colega de sala num afogamento, e o método de ensino de sua professora Francisca das Chagas, de utilizar a literatura cordelista para incentivar a escrita e leitura, foi a forma encontrada pelos jovens para homenagear o colega.

Cordel: Rimas que encantam

Francisca, mais conhecida como Chaguinha, ensinava em 2003 as disciplinas de língua portuguesa e artes. Percebendo o desinteresse e dificuldade de seus alunos em aprender a ler e escrever, quis inovar na forma de ensinar. “Procurei algo que pudesse atrair neles a vontade de ler. Então pensei por um bom tempo e cheguei a conclusão que deveria repassar aquilo que eu gostasse também. O objeto escolhido foi o cordel”, recorda. Assim foi criado o projeto Cordel: Rimas Que Encantam, que lhe rendeu em 2006 o título educadora do ano pelo Prêmio Victor Civita.

Primeiros versos

Como não tinha os livretos, a professora improvisou a busca, e foi de porta em porta nas casas da região procurando cordéis com os moradores mais antigos. “Pelo nome eles não conheciam, mas quando eu perguntava pelo ‘rumance’, lá se vinham eles com aqueles folhetos bem velhinhos, mas já era um começo”, recorda. Chaguinha colheu alguns e levou para a sala.

prof chaguinha projeto

Aos poucos, os alunos começaram a se interessar pelos cordéis e foram produzindo seus próprios livretos, o que melhorou seu desempenho. (FOTO: Arquivo pessoal)

Em posse dos livretos, a professora passou a declamar os versos escritos. A entonação típica do cordel reproduzida por Chaguinha surpreendeu os estudantes. “As primeiras leituras eu fazia com eles, depois dei pra eles folhearem, expliquei as origens, de onde vieram e eles começaram a gostar”. 

Filhos de pais analfabetos ou semi-analfabetos, não tinham em casa incentivo para a leitura. Com o método, os alunos passaram a ler e escrever melhor, descobriram que a língua falada é diferente da escrita, e começaram a produzir seus próprios folhetos. 

A professora levava ainda aos estudantes temáticas de relevância nacional, como política e economia. Como a escola se localiza no sertão, o contato com o mundo exterior se tornava difícil, seja pela falta de meios de comunicação, ou ausência de quem informe o que se passa além da zona rural.

Três anos após a inserção do projeto, Chaguinha e seus alunos elaboraram um cordel coletivo apresentado em uma noite de cordelismo aberta a comunidade. “Depois desse momento resolvi que as pessoas precisavam conhecer essa metodologia, esse regate da cultura que começava a inspirar vários jovens. Mandei minha proposta para o prêmio Civita de Educação, concorri com professores do Brasil todo e ganhei”, relembra.

A premiação abriu portas para professora que, no ano seguinte, recebeu o convite para coordenar a escola João Moreira Barroso, na localidade de Salgado dos Moreiras. Pouco tempo depois tornou-se diretora, o que possibilitou a educadora inserir seu método de aprendizagem com cordel em outra instituição.

“Repassei aos professores e eles aderiram a proposta com muita alegria e vontade. Hoje, duas das principais escolas daqui melhoraram o desempenho graças a cultura do cordel, é uma alegria”, conclui. 

Publicidade

Dê sua opinião

Professora usa cordel em escola no sertão do Ceará para incentivar leitura

Francisca das Chagas ganhou em 2006 o título nacional de educadora do ano, graças ao projeto aplicado em São Gonçalo do Amarante

Por Marianna Gomes em Educação

15 de novembro de 2015 às 06:00

Há 4 anos
prof chaguinha

Chaguinha ganhou em 2006 o título educadora do ano pelo Prêmio Victor Civita pelo método de usar cordel em sala, prática que ainda faz. (FOTO: Arquivo pessoal)

“Essa é uma real história/ Que São Gonçalo abalou/ Tragédia de um estudante/ Que em um rio se passou/ Na localidade de Cágado/ Muita tristeza deixou”.

O trecho acima fez parte de um cordel coletivo produzido em 2006 por alunos da oitava série – atual nono ano -, da Escola de Ensino Fundamental João Pinto Magalhães, localizada em Cágado, localidade de São Gonçalo do Amarante, a 60 km de Fortaleza. Os estudantes que produziram o folheto tinham acabado de perder um colega de sala num afogamento, e o método de ensino de sua professora Francisca das Chagas, de utilizar a literatura cordelista para incentivar a escrita e leitura, foi a forma encontrada pelos jovens para homenagear o colega.

Cordel: Rimas que encantam

Francisca, mais conhecida como Chaguinha, ensinava em 2003 as disciplinas de língua portuguesa e artes. Percebendo o desinteresse e dificuldade de seus alunos em aprender a ler e escrever, quis inovar na forma de ensinar. “Procurei algo que pudesse atrair neles a vontade de ler. Então pensei por um bom tempo e cheguei a conclusão que deveria repassar aquilo que eu gostasse também. O objeto escolhido foi o cordel”, recorda. Assim foi criado o projeto Cordel: Rimas Que Encantam, que lhe rendeu em 2006 o título educadora do ano pelo Prêmio Victor Civita.

Primeiros versos

Como não tinha os livretos, a professora improvisou a busca, e foi de porta em porta nas casas da região procurando cordéis com os moradores mais antigos. “Pelo nome eles não conheciam, mas quando eu perguntava pelo ‘rumance’, lá se vinham eles com aqueles folhetos bem velhinhos, mas já era um começo”, recorda. Chaguinha colheu alguns e levou para a sala.

prof chaguinha projeto

Aos poucos, os alunos começaram a se interessar pelos cordéis e foram produzindo seus próprios livretos, o que melhorou seu desempenho. (FOTO: Arquivo pessoal)

Em posse dos livretos, a professora passou a declamar os versos escritos. A entonação típica do cordel reproduzida por Chaguinha surpreendeu os estudantes. “As primeiras leituras eu fazia com eles, depois dei pra eles folhearem, expliquei as origens, de onde vieram e eles começaram a gostar”. 

Filhos de pais analfabetos ou semi-analfabetos, não tinham em casa incentivo para a leitura. Com o método, os alunos passaram a ler e escrever melhor, descobriram que a língua falada é diferente da escrita, e começaram a produzir seus próprios folhetos. 

A professora levava ainda aos estudantes temáticas de relevância nacional, como política e economia. Como a escola se localiza no sertão, o contato com o mundo exterior se tornava difícil, seja pela falta de meios de comunicação, ou ausência de quem informe o que se passa além da zona rural.

Três anos após a inserção do projeto, Chaguinha e seus alunos elaboraram um cordel coletivo apresentado em uma noite de cordelismo aberta a comunidade. “Depois desse momento resolvi que as pessoas precisavam conhecer essa metodologia, esse regate da cultura que começava a inspirar vários jovens. Mandei minha proposta para o prêmio Civita de Educação, concorri com professores do Brasil todo e ganhei”, relembra.

A premiação abriu portas para professora que, no ano seguinte, recebeu o convite para coordenar a escola João Moreira Barroso, na localidade de Salgado dos Moreiras. Pouco tempo depois tornou-se diretora, o que possibilitou a educadora inserir seu método de aprendizagem com cordel em outra instituição.

“Repassei aos professores e eles aderiram a proposta com muita alegria e vontade. Hoje, duas das principais escolas daqui melhoraram o desempenho graças a cultura do cordel, é uma alegria”, conclui.