Crônica sobre morte de traficante testemunhada por estudante concorre a melhor redação do país


Crônica sobre morte de traficante testemunhada por estudante concorre a melhor redação do país

A realidade violenta da Babilônia, comunidade do Barroso, foi tema da crônica de Marcelo Silva de Lima, que concorre na Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa

Por Renata Monte em Educação

9 de dezembro de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Marcelo exibe as medalhas que ganhou nas etapas passadas da OBLP. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

Marcelo exibe as medalhas que ganhou nas etapas passadas da OBLP. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

Professor:
Tá nervoso?
Aluno:
Não.
Professor:
Pois eu tô!

Essa foi a última conversa que o professor de português Sivaldo Abdon e o estudante Marcelo Silva de Lima tiveram antes de ouvirem a classificação para a final da Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa (OBLP). Os dois estavam em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em mais uma etapa da competição, em novembro deste ano. O adolescente agora vai participar da última fase, em Brasília, no dia 18 de dezembro, com uma crônica que fala sobre a rotina de violência da Babilônia, comunidade mais perigosa do Barroso, lugar onde mora em Fortaleza.

Marcelo, de 16 anos, decidiu escrever sobre o tema como uma espécie de desabafo. Colocou em seu texto tudo que viu e sentiu depois do assassinato de um traficante que morava perto de sua casa. Ele conta que estava vendo TV quando escutou os disparos. Não demorou muito para que sua rua estivesse cheia de pessoas que, assim como ele, queriam saber o que tinha acontecido. Conversando com os vizinhos, descobriu que o crime foi por um acerto de contas entre gangues rivais. O traficante morreu com tiros na cabeça e seu filho pequeno, que estava em seu colo, foi atingido no braço.

“Todos os dias a insegurança, o medo que impõe o silêncio, a desumanização. Tiros e mais tiros. A nossa Faixa de Gaza”.

Para chegar à final, o caminho foi longo: sua crônica foi escolhida a melhor da escola onde estuda – a EEFM Maria Gonçalves – e depois foi eleita a melhor do município. Posteriormente, foi considerada a melhor crônica do Ceará e agora, uma das melhores do Nordeste e do Brasil. Sivaldo foi o professor quem escolheu o texto de Marcelo entre os outros alunos que participavam da seletiva. “Achar uma boa redação é um trabalho duro, trabalho de garimpeiro mesmo”.

Segundo os professores, Marcelo é um aluno tranquilo, mas muito questionador. “Quer saber o porquê de tudo”, relata a diretora da escola Clotilde Holanda. Para o professor, trabalhar com o estudante é um privilégio. “Marcelo é como um filho pra mim. Tê-lo como aluno é um esforço recompensador”.

O adolescente gosta de estudar Língua Portuguesa, Matemática e tem uma paixão por Química. Diz que ainda não sabe o que vai fazer no vestibular, mas tem certeza de que vai ser algo relacionado com a matéria favorita. Marcelo é ainda monitor de um projeto do Governo Federal, o Jovem de Futuro – onde auxilia outros alunos no horário contra-turno das aulas. Skatista e dançarino de break dance, o estudante sempre aconselha os amigos à participar de competições estudantis. “Se eu consegui, todos podem. Não é questão de inteligência, é questão de esforço”.

A direção da escola fez uma faixa parabenizando aluno e professor pela classificação. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

A direção da escola fez uma faixa parabenizando aluno e professor pela classificação. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

A OBLP desenvolve diversas ações de formação de professores com o objetivo de melhorar o ensino da leitura e da escrita em escolas públicas. Sivaldo conta que na competição encontrou pessoas vindas dos locais mais diferentes do País. “Vi professores e alunos dos lugares mais remotos do Brasil. Saindo do interior do interior do interior de um Estado alunos e professores ótimos. O nível este ano está muito bom”.

Marcelo nunca esperou que fosse chegar longe. Cada classificação era uma nova surpresa. “Eu comecei a fazer só por fazer. Aí passei. Pensei ‘não passo na próxima’. Passei. Depois, mais uma vez [classificado], pensei ‘nossa!’. Quando ouvi meu nome sendo chamado para a final, foi uma explosão de alegria por cada degrau que eu fui subindo”, relembra.

Mesmo com uma realidade dolorosa de viver e de se ler, a crônica sobre a Babilônia – sua “Faixa de Gaza” e maneira banal como a violência é tratada – emocionou pessoas de diversos lugares do País. Resta agora esperar que o menino que já coleciona medalhas traga para o Ceará a de ouro com o título de melhor redação do Brasil.

Leia a crônica na íntegra:

Crônica de Marcelo Silva de Lima

Crônica de Marcelo Silva de Lima

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Crônica sobre morte de traficante testemunhada por estudante concorre a melhor redação do país

A realidade violenta da Babilônia, comunidade do Barroso, foi tema da crônica de Marcelo Silva de Lima, que concorre na Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa

Por Renata Monte em Educação

9 de dezembro de 2014 às 08:00

Há 5 anos
Marcelo exibe as medalhas que ganhou nas etapas passadas da OBLP. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

Marcelo exibe as medalhas que ganhou nas etapas passadas da OBLP. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

Professor:
Tá nervoso?
Aluno:
Não.
Professor:
Pois eu tô!

Essa foi a última conversa que o professor de português Sivaldo Abdon e o estudante Marcelo Silva de Lima tiveram antes de ouvirem a classificação para a final da Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa (OBLP). Os dois estavam em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em mais uma etapa da competição, em novembro deste ano. O adolescente agora vai participar da última fase, em Brasília, no dia 18 de dezembro, com uma crônica que fala sobre a rotina de violência da Babilônia, comunidade mais perigosa do Barroso, lugar onde mora em Fortaleza.

Marcelo, de 16 anos, decidiu escrever sobre o tema como uma espécie de desabafo. Colocou em seu texto tudo que viu e sentiu depois do assassinato de um traficante que morava perto de sua casa. Ele conta que estava vendo TV quando escutou os disparos. Não demorou muito para que sua rua estivesse cheia de pessoas que, assim como ele, queriam saber o que tinha acontecido. Conversando com os vizinhos, descobriu que o crime foi por um acerto de contas entre gangues rivais. O traficante morreu com tiros na cabeça e seu filho pequeno, que estava em seu colo, foi atingido no braço.

“Todos os dias a insegurança, o medo que impõe o silêncio, a desumanização. Tiros e mais tiros. A nossa Faixa de Gaza”.

Para chegar à final, o caminho foi longo: sua crônica foi escolhida a melhor da escola onde estuda – a EEFM Maria Gonçalves – e depois foi eleita a melhor do município. Posteriormente, foi considerada a melhor crônica do Ceará e agora, uma das melhores do Nordeste e do Brasil. Sivaldo foi o professor quem escolheu o texto de Marcelo entre os outros alunos que participavam da seletiva. “Achar uma boa redação é um trabalho duro, trabalho de garimpeiro mesmo”.

Segundo os professores, Marcelo é um aluno tranquilo, mas muito questionador. “Quer saber o porquê de tudo”, relata a diretora da escola Clotilde Holanda. Para o professor, trabalhar com o estudante é um privilégio. “Marcelo é como um filho pra mim. Tê-lo como aluno é um esforço recompensador”.

O adolescente gosta de estudar Língua Portuguesa, Matemática e tem uma paixão por Química. Diz que ainda não sabe o que vai fazer no vestibular, mas tem certeza de que vai ser algo relacionado com a matéria favorita. Marcelo é ainda monitor de um projeto do Governo Federal, o Jovem de Futuro – onde auxilia outros alunos no horário contra-turno das aulas. Skatista e dançarino de break dance, o estudante sempre aconselha os amigos à participar de competições estudantis. “Se eu consegui, todos podem. Não é questão de inteligência, é questão de esforço”.

A direção da escola fez uma faixa parabenizando aluno e professor pela classificação. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

A direção da escola fez uma faixa parabenizando aluno e professor pela classificação. (Foto: Renata Monte/Tribuna do Ceará)

A OBLP desenvolve diversas ações de formação de professores com o objetivo de melhorar o ensino da leitura e da escrita em escolas públicas. Sivaldo conta que na competição encontrou pessoas vindas dos locais mais diferentes do País. “Vi professores e alunos dos lugares mais remotos do Brasil. Saindo do interior do interior do interior de um Estado alunos e professores ótimos. O nível este ano está muito bom”.

Marcelo nunca esperou que fosse chegar longe. Cada classificação era uma nova surpresa. “Eu comecei a fazer só por fazer. Aí passei. Pensei ‘não passo na próxima’. Passei. Depois, mais uma vez [classificado], pensei ‘nossa!’. Quando ouvi meu nome sendo chamado para a final, foi uma explosão de alegria por cada degrau que eu fui subindo”, relembra.

Mesmo com uma realidade dolorosa de viver e de se ler, a crônica sobre a Babilônia – sua “Faixa de Gaza” e maneira banal como a violência é tratada – emocionou pessoas de diversos lugares do País. Resta agora esperar que o menino que já coleciona medalhas traga para o Ceará a de ouro com o título de melhor redação do Brasil.

Leia a crônica na íntegra:

Crônica de Marcelo Silva de Lima

Crônica de Marcelo Silva de Lima