Vizinhos de obras da Av. Raul Barbosa esperam por desapropriação desde a Copa


Vizinhos de obras da Av. Raul Barbosa esperam por desapropriação desde a Copa

Obra fazia parte do pacote da Copa de 2014. Segundo a Prefeitura, está em estudo a retirada das 50 famílias através do Minha Casa, Minha Vida

Por Juliana Teófilo em Cotidiano

25 de fevereiro de 2016 às 08:02

Há 3 anos
Dona Rossilda mora no local há quase 40 anos. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Dona Rossilda mora no local há quase 40 anos. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Morando ao lado do Rio Cocó há quase 40 anos, Dona Rossilda Martins da Silva, de 69 anos, lembra quando a ponte da Avenida Raul Barbosa foi construída.

No local, que dá acesso ao aeroporto de Fortaleza e à Arena Castelão, há uma obra de mobilidade urbana que deveria ter sido entregue antes da Copa do Mundo de 2014. Parte da sua estrutura desabou na última segunda-feira (22) e matou dois operários e feriu outros três.

“Eu mesma me juntei com os homens que trabalhavam pra levantar essa ponte. Naquela época tudo isso aqui era uma lagoa só. Quando eu e as outras famílias vinhemos para cá, a água foi tirada daqui com bomba. Depois que foi feito tudo, isso aqui ficou lindo, uma pracinha cheia de pedrinha. Mas os anos passaram e a gente ficou jogado”, relembra.

Sentada em seu terreiro, Dona Rossilda aponta como os anos de descaso estão impressos na vida dos moradores, seja no esgoto a céu aberto que corre ao lado das casas ou no lixo que se acumula na encosta no rio. A senhora que criou filhos, netos e bisnetos naquele mesmo local, ainda sonha em sair da terra que foi sua por tantos anos para viver melhor.

“Quando a gente pensou que as coisas iam melhorar, e que nós ganharíamos terrenos nossos em outro lugar com a vinda da obra pra cá, nos enganamos. Acabou sendo outra coisa. Acabou ficando pior”, relata a moradora.

A expectativa de desapropriação não é apenas da Dona Rossilda, mas de todas as outras quase 50 famílias que moram próximo às obras de mobilidade urbana que estão em curso na ponte do Lagamar, no Bairro Aerolândia.

“Eu acho que eles deveriam ter tirado a gente antes de começar essa obra, para que eles tivessem mais espaço para trabalhar. Nem espaço para os guinchos eles têm, fica tudo apertado ali. Se eles tivessem tirado todas as casas, eles tinham canto até para fazer um galpão para guardar os materiais e os veículos se quisessem”, aponta.

O casal Lane Espinosa e Gerônimo de Sousa mora na Rua Beni Carvalho (não confundir com a Beni de Carvalho, no Dionísio Torres), próximo à casa de Dona Rossilda, e assistiu de perto o desabamento de parte da duplicação da ponte. Os moradores relatam que já participaram de alguns cadastros para serem retirados do local e que o último aconteceu no começo deste ano.

“Já fizeram cinco cadastros. Todo ano eles vem, tiram fotos, colocam nossos nomes no cadastro, mas nada. Ano passado fizeram isso, esse ano também. Os homens da prefeitura vieram no começo do ano, fizeram novamente as medidas, colocaram nossos nomes no cadastro e pintaram no nosso muro um número de identificação”, relata Lane.

“Quando a gente pensou que as coisas iam melhorar e que nós ganharíamos terrenos nossos em outro lugar com a vinda da obra pra cá, nos enganamos”. (Rossilda Martins da Silva)

Além dos transtornos causados pela obra, Lane aponta outra questão que tem preocupado não apenas ela, mas todos os moradores do local. “Afinal, como a gente vai ficar quando a rotatória tiver pronta? Como vamos transitar já que a saída da nossa rua vai ser vista como proibida. Quer dizer, nosso direito de ir e vir será tirado de nós. Fomos falar com a AMC sobre isso e eles falaram que nós tínhamos que dar o nosso jeito. Como?”, aponta indignada.

Tanto Lane, quanto Dona Rossilda relatam, ainda, moradores da favela Padre Cícero, que fica do outro lado da Avenida Murilo Borges, já foram retirados pela prefeitura. “Eles já foram indenizados, já saíram e o lugar já foi ocupado de novo. E a gente desse lado, nada”, completa Lane.

Clique nas imagens para ampliar:

Drama do Lagamar
1/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
2/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
3/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
4/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
5/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Programa Minha Casa, Minha Vida

Em nota, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf) informou que, antes do projeto definitivo das obras de mobilidade no entorno, foram realizados os cadastros dos imóveis da região. Segundo o órgão municipal, isso foi feito para evitar que pessoas não residentes requeressem indenização. Ainda segundo a Seinf, algumas dessas indenizações já foram feitas e somente imóveis comprometidos pelas obras foram indenizados.

Sobre a situação dos moradores da Rua Beni Carvalho, a Prefeitura informou que o município estuda a retirada das famílias por meio do programa Minha Casa, Minha Vida, com o objetivo de ampliar a área de Rio Cocó. O município não informou, no entanto, sobre prazos para a retirada.

Acompanhe o caso:

24 de fevereiro – Operários da obra na Av. Raul Barbosa ameaçam paralisar a construção para forçar embargo total

24 de fevereiro – Operários que morreram em desabamento trabalhavam em obra há 2 meses

24 de fevereiro – Operário dado como desaparecido deixou local de trabalho após desabamento da ponte

24 de fevereiro – Trecho da obra da ponte que desabou na Av. Raul Barbosa é embargado

23 de fevereiro – Obras de mobilidade na Av. Raul Barbosa prosseguirão mesmo após acidente

23 de fevereiro – Mesmo com acidente em obra, trânsito na Av. Raul Barbosa flui normalmente

23 de fevereiro – Empresa responsável por construção na Av. Raul Barbosa já fez outras obras no Ceará

23 de fevereiro – Sindicato de operários pede a interdição de obra na Av. Raul Barbosa após desabamento

23 de fevereiro – Moradores relatam momentos de pavor após tragédia na Av. Raul Barbosa

23 de fevereiro – Crea descarta que chuva tenha causado desabamento de obra na Av. Raul Barbosa

23 de fevereiro – Entenda qual foi o local onde ocorreu o desabamento da ponte em construção no Lagamar

23 de fevereiro – Prefeitura garante que não terá prejuízo financeiro com desabamento de obra na Raul Barbosa

22 de fevereiro – Desabamento nas obras das Avenidas Raul Barbosa e Murilo Borges deixa operários soterrados

22 de fevereiro – AMC orienta que motoristas evitem a Avenida Raul Barbosa

22 de fevereiro – Socorrista foi o primeiro a chegar ao local e relata resgate de vítimas de desabamento

22 de fevereiro – Crea considera falha de escoramento como possível causa do desabamento no Lagamar

22 de fevereiro – Prefeitura notificará empresa responsável pela obra que desabou no Lagamar

22 de fevereiro – Dois operários morrem em desabamento na duplicação da ponte do Lagamar

Publicidade

Dê sua opinião

Vizinhos de obras da Av. Raul Barbosa esperam por desapropriação desde a Copa

Obra fazia parte do pacote da Copa de 2014. Segundo a Prefeitura, está em estudo a retirada das 50 famílias através do Minha Casa, Minha Vida

Por Juliana Teófilo em Cotidiano

25 de fevereiro de 2016 às 08:02

Há 3 anos
Dona Rossilda mora no local há quase 40 anos. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Dona Rossilda mora no local há quase 40 anos. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Morando ao lado do Rio Cocó há quase 40 anos, Dona Rossilda Martins da Silva, de 69 anos, lembra quando a ponte da Avenida Raul Barbosa foi construída.

No local, que dá acesso ao aeroporto de Fortaleza e à Arena Castelão, há uma obra de mobilidade urbana que deveria ter sido entregue antes da Copa do Mundo de 2014. Parte da sua estrutura desabou na última segunda-feira (22) e matou dois operários e feriu outros três.

“Eu mesma me juntei com os homens que trabalhavam pra levantar essa ponte. Naquela época tudo isso aqui era uma lagoa só. Quando eu e as outras famílias vinhemos para cá, a água foi tirada daqui com bomba. Depois que foi feito tudo, isso aqui ficou lindo, uma pracinha cheia de pedrinha. Mas os anos passaram e a gente ficou jogado”, relembra.

Sentada em seu terreiro, Dona Rossilda aponta como os anos de descaso estão impressos na vida dos moradores, seja no esgoto a céu aberto que corre ao lado das casas ou no lixo que se acumula na encosta no rio. A senhora que criou filhos, netos e bisnetos naquele mesmo local, ainda sonha em sair da terra que foi sua por tantos anos para viver melhor.

“Quando a gente pensou que as coisas iam melhorar, e que nós ganharíamos terrenos nossos em outro lugar com a vinda da obra pra cá, nos enganamos. Acabou sendo outra coisa. Acabou ficando pior”, relata a moradora.

A expectativa de desapropriação não é apenas da Dona Rossilda, mas de todas as outras quase 50 famílias que moram próximo às obras de mobilidade urbana que estão em curso na ponte do Lagamar, no Bairro Aerolândia.

“Eu acho que eles deveriam ter tirado a gente antes de começar essa obra, para que eles tivessem mais espaço para trabalhar. Nem espaço para os guinchos eles têm, fica tudo apertado ali. Se eles tivessem tirado todas as casas, eles tinham canto até para fazer um galpão para guardar os materiais e os veículos se quisessem”, aponta.

O casal Lane Espinosa e Gerônimo de Sousa mora na Rua Beni Carvalho (não confundir com a Beni de Carvalho, no Dionísio Torres), próximo à casa de Dona Rossilda, e assistiu de perto o desabamento de parte da duplicação da ponte. Os moradores relatam que já participaram de alguns cadastros para serem retirados do local e que o último aconteceu no começo deste ano.

“Já fizeram cinco cadastros. Todo ano eles vem, tiram fotos, colocam nossos nomes no cadastro, mas nada. Ano passado fizeram isso, esse ano também. Os homens da prefeitura vieram no começo do ano, fizeram novamente as medidas, colocaram nossos nomes no cadastro e pintaram no nosso muro um número de identificação”, relata Lane.

“Quando a gente pensou que as coisas iam melhorar e que nós ganharíamos terrenos nossos em outro lugar com a vinda da obra pra cá, nos enganamos”. (Rossilda Martins da Silva)

Além dos transtornos causados pela obra, Lane aponta outra questão que tem preocupado não apenas ela, mas todos os moradores do local. “Afinal, como a gente vai ficar quando a rotatória tiver pronta? Como vamos transitar já que a saída da nossa rua vai ser vista como proibida. Quer dizer, nosso direito de ir e vir será tirado de nós. Fomos falar com a AMC sobre isso e eles falaram que nós tínhamos que dar o nosso jeito. Como?”, aponta indignada.

Tanto Lane, quanto Dona Rossilda relatam, ainda, moradores da favela Padre Cícero, que fica do outro lado da Avenida Murilo Borges, já foram retirados pela prefeitura. “Eles já foram indenizados, já saíram e o lugar já foi ocupado de novo. E a gente desse lado, nada”, completa Lane.

Clique nas imagens para ampliar:

Drama do Lagamar
1/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
2/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
3/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
4/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Drama do Lagamar
5/5

Drama do Lagamar

Os moradores que moram próximo ao Rio Cocó aguardam desapropriação. (FOTO: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Programa Minha Casa, Minha Vida

Em nota, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf) informou que, antes do projeto definitivo das obras de mobilidade no entorno, foram realizados os cadastros dos imóveis da região. Segundo o órgão municipal, isso foi feito para evitar que pessoas não residentes requeressem indenização. Ainda segundo a Seinf, algumas dessas indenizações já foram feitas e somente imóveis comprometidos pelas obras foram indenizados.

Sobre a situação dos moradores da Rua Beni Carvalho, a Prefeitura informou que o município estuda a retirada das famílias por meio do programa Minha Casa, Minha Vida, com o objetivo de ampliar a área de Rio Cocó. O município não informou, no entanto, sobre prazos para a retirada.

Acompanhe o caso:

24 de fevereiro – Operários da obra na Av. Raul Barbosa ameaçam paralisar a construção para forçar embargo total

24 de fevereiro – Operários que morreram em desabamento trabalhavam em obra há 2 meses

24 de fevereiro – Operário dado como desaparecido deixou local de trabalho após desabamento da ponte

24 de fevereiro – Trecho da obra da ponte que desabou na Av. Raul Barbosa é embargado

23 de fevereiro – Obras de mobilidade na Av. Raul Barbosa prosseguirão mesmo após acidente

23 de fevereiro – Mesmo com acidente em obra, trânsito na Av. Raul Barbosa flui normalmente

23 de fevereiro – Empresa responsável por construção na Av. Raul Barbosa já fez outras obras no Ceará

23 de fevereiro – Sindicato de operários pede a interdição de obra na Av. Raul Barbosa após desabamento

23 de fevereiro – Moradores relatam momentos de pavor após tragédia na Av. Raul Barbosa

23 de fevereiro – Crea descarta que chuva tenha causado desabamento de obra na Av. Raul Barbosa

23 de fevereiro – Entenda qual foi o local onde ocorreu o desabamento da ponte em construção no Lagamar

23 de fevereiro – Prefeitura garante que não terá prejuízo financeiro com desabamento de obra na Raul Barbosa

22 de fevereiro – Desabamento nas obras das Avenidas Raul Barbosa e Murilo Borges deixa operários soterrados

22 de fevereiro – AMC orienta que motoristas evitem a Avenida Raul Barbosa

22 de fevereiro – Socorrista foi o primeiro a chegar ao local e relata resgate de vítimas de desabamento

22 de fevereiro – Crea considera falha de escoramento como possível causa do desabamento no Lagamar

22 de fevereiro – Prefeitura notificará empresa responsável pela obra que desabou no Lagamar

22 de fevereiro – Dois operários morrem em desabamento na duplicação da ponte do Lagamar