Assistimos à peça em que ator fica nu e derrama sangue na cruz. Confira os bastidores

POLÊMICA

Assistimos à peça em que ator fica nu e derrama sangue na cruz. Confira os bastidores

Acompanhamos o espetáculo que está sob investigação do Ministério Público, após pedido da OAB. Atriz convidada pelo Tribuna do Ceará classificou as cenas como fortes, porém critica o pré-julgamento de quem não viu

Por Rosana Romão em Cotidiano

24 de junho de 2016 às 07:00

Há 3 anos
Artista cearense durante a apresentação da peça (FOTO: Reprodução)

Artista cearense durante a apresentação da peça (FOTO: Reprodução)

Após a polêmica sobre a peça Histórias Compartilhadas, que teve trecho classificado como crime pela Ordem dos Advogados do Brasil – Ceará (OAB-CE) e que passou a ser alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF), o Tribuna do Ceará decidiu assistir ao espetáculo para entender o motivo de tanta repercussão.

Apesar da denúncia ter sido feita pela OAB-CE, o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Robson Sabino de Sousa, informou que nenhum dos 30 advogados que participaram da reunião que resultou no pedido de investigação do MPF assistiu à peça. Para ele, as fotografias e depoimentos recebidos já eram suficientes para realizar a denúncia.

O Tribuna do Ceará esteve presente na penúltima apresentação desta temporada, na última terça-feira (21), no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, no Bairro Benfica, em Fortaleza. A atriz e jornalista Daniella de Lavor, âncora da Rádio Tribuna BandNews FM, foi convidada para ver o espetáculo com nossa equipe.

Drama dos transsexuais

O espetáculo retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil. No início, há um monitor que mostra imagens da transexualidade masculina, com relatos de dramas reais. Um dos relatos ouvidos que compõem a peça é do carioca João W. Nery, primeiro homem transexual a fazer adequação corporal no Brasil.

É um momento de acomodação, em que a plateia é inserida no contexto. Depois, o ator entra em cena. Vestido com um paletó, ele começa as narrativas, com posse de uma câmera filmadora, que mostra a reação da plateia no monitor.

A partir daí o espectador é levado a uma diversidade de linguagens: texto da peça, vídeos exibidos no monitor, o ator sem roupa e seminu, vídeo mostrando um ator pornô que possui vagina e carta de suicídio do transexual Riley, além do sangue aspergido e derramado sobre a cruz, o que centrou a polêmica desde que imagens da peça foram compartilhadas em redes sociais.

As expressões da plateia são de horror, estranhamento, constrangimento, curiosidade e reflexão. Todas as informações chegam ao mesmo tempo, deixando o espectador preocupado em para onde olhar. O ritmo da peça é constante e não deixa o público descansar um segundo. No fim, o espectador fica em um momento de absorção e reflexão do que foi visto. São muitas possibilidades, dúvidas e interrogações. Mesmo após o encerramento, o assunto se prolonga nos diálogos na calçada do teatro.

Como espectadora, duas cenas chocam, e não são as que o ator asperge o sangue e derrama na cruz, nem a que ele fica nu. A primeira, sem dúvidas, é a exibição do vídeo mostrando a vida de um ator pornô dotado de vagina e sua relação sexual com um transexual com órgão genital masculino e corpo totalmente feminino.

A outra é o momento em que o ator lê trechos da carta do jovem Riley, de forma exaustiva, segurando um galão de 20 litros de água. Dá para sentir a angústia dos personagens das histórias compartilhadas.

Histórias Compartilhadas
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Histórias Compartilhadas

Apresentação “Histórias Compartilhadas” retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil (FOTO: Reprodução)

Histórias Compartilhadas
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Histórias Compartilhadas

Apresentação “Histórias Compartilhadas” retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil (FOTO: Reprodução)

Histórias Compartilhadas
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Histórias Compartilhadas

Apresentação “Histórias Compartilhadas” retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil (FOTO: Reprodução)

 

Polêmica institucional

O espetáculo completará um ano em cartaz em julho, e é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Ari Areia, graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Nesta sexta-feira (24), ele apresentará sua defesa ao Ministério Público Federal, que o notificou com uma série de perguntas sobre a peça.

Para a OAB-CE, que acionou o MPF, o cearense excedeu o seu direito constitucional à livre manifestação de pensamento e expressão e assumiu o risco de sua conduta incorrer em crime previsto no artigo 208 do Código Penal: vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. O ator recebeu críticas e até ameaças de morte, em seguida registrou um Boletim de Ocorrência.

Após a polêmica, a Universidade Federal do Ceará afirmou em nota que defende a convivência entre as posições religiosas, políticas, filosóficas e científicas na universidade e na sociedade.

“Ao ser apresentado fora do contexto da encenação e manipulado em redes sociais, um evento simples, rico em significados, academicamente validado, foi transformado por alguns em ‘desrespeito’ e denunciado como ‘crime’. A administração superior da UFC, ao tomar conhecimento da repercussão do fato, foi apurá-lo e, como conclusão, constatou tratar-se de um seminário acadêmico, com acesso restrito a participantes inscritos e, portanto, motivados a discutir sobre a temática proposta, sem qualquer conotação desrespeitosa e muito menos criminosa”, disse a nota.

Avaliação da peça

Daniella de Lavor, que tem 25 anos de teatro em seu currículo, classificou a peça como forte. “Ficou claro o que ele quis contar. A arte tem toda uma liberdade e tem toda uma licença de dizer da forma que quer. O que me questiona é até que ponto há a necessidade de se mostrar as cenas que se mostrou, da forma que se mostrou. E principalmente a necessidade de ele tirar o próprio sangue e colocar em cima da imagem de Cristo”, analisa.

Para a atriz, o fato do ator retirar o próprio sangue e derramar em cima da imagem de Cristo é polêmico. “É ingênuo dizer que não vai causar polêmica. Vai. Você tem que estar preparado pra isso. Aquela música que tocou enquanto ele estava tirando o sangue dele também é forte. É como se você quisesse mostrar para o espectador que, se ele não está entendendo, ele vai ter que entender agora, nem que a música esteja dizendo”, avalia Daniela, referindo-se à canção Blues da Piedade, de Cazuza.

Recomendação

Apesar das ressalvas, a atriz indica a peça ao público cearense. “Recomendo porque eu acho que a arte tem o intuito e o dever de fazer a gente pensar. É um espetáculo que faz você sair pensando, você não sai alheio. Você não assiste e vai para um bar conversar amenidades, você sai pensando e querendo conversar sobre ele”, finaliza.

Para Daniela, a OAB se equivoca em denunciar a peça como crime sem ter assistido ao espetáculo. “Errou porque ninguém pode julgar uma obra de arte sem assistir. A OAB tinha obrigação de assistir esse espetáculo antes de fazer qualquer acusação contra ele [ator]. Se ele precisa ser julgado como a OAB e o MPF estão fazendo, eles precisariam ter estado na plateia, e não através de fotos publicadas, para tomarem uma decisão precipitada”, pontua.

Serviço
Espetáculo Histórias Compartilhadas
Data/Horário: terças-feiras, às 20h – Última apresentação dia 28 de junho
Local: Teatro Universitário (Av. Universidade, 2210 – Benfica)
Ingresso: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)
Classificação: 18 anos

Acompanhe o caso:

25 de maio – Artista causa polêmica ao ficar nu e derramar sangue em cruz durante apresentação na UFC

26 de maioSecult repudia ameaças a artista de peça com cena de nu e sangue em crucifixo

8 de junhoOAB aponta crime em espetáculo em que artista fica nu e derrama sangue em cruz

11 de junho – Pessoas criticaram o que não viram, defende-se ator que ficou nu e derramou sangue em cruz

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Há 3 anos
Artista cearense durante a apresentação da peça (FOTO: Reprodução)

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Após a polêmica sobre a peça Histórias Compartilhadas, que teve trecho classificado como crime pela Ordem dos Advogados do Brasil – Ceará (OAB-CE) e que passou a ser alvo de investigação do Ministério Público Federal (MPF), o Tribuna do Ceará decidiu assistir ao espetáculo para entender o motivo de tanta repercussão.

Apesar da denúncia ter sido feita pela OAB-CE, o presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Robson Sabino de Sousa, informou que nenhum dos 30 advogados que participaram da reunião que resultou no pedido de investigação do MPF assistiu à peça. Para ele, as fotografias e depoimentos recebidos já eram suficientes para realizar a denúncia.

O Tribuna do Ceará esteve presente na penúltima apresentação desta temporada, na última terça-feira (21), no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, no Bairro Benfica, em Fortaleza. A atriz e jornalista Daniella de Lavor, âncora da Rádio Tribuna BandNews FM, foi convidada para ver o espetáculo com nossa equipe.

Drama dos transsexuais

O espetáculo retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil. No início, há um monitor que mostra imagens da transexualidade masculina, com relatos de dramas reais. Um dos relatos ouvidos que compõem a peça é do carioca João W. Nery, primeiro homem transexual a fazer adequação corporal no Brasil.

É um momento de acomodação, em que a plateia é inserida no contexto. Depois, o ator entra em cena. Vestido com um paletó, ele começa as narrativas, com posse de uma câmera filmadora, que mostra a reação da plateia no monitor.

A partir daí o espectador é levado a uma diversidade de linguagens: texto da peça, vídeos exibidos no monitor, o ator sem roupa e seminu, vídeo mostrando um ator pornô que possui vagina e carta de suicídio do transexual Riley, além do sangue aspergido e derramado sobre a cruz, o que centrou a polêmica desde que imagens da peça foram compartilhadas em redes sociais.

As expressões da plateia são de horror, estranhamento, constrangimento, curiosidade e reflexão. Todas as informações chegam ao mesmo tempo, deixando o espectador preocupado em para onde olhar. O ritmo da peça é constante e não deixa o público descansar um segundo. No fim, o espectador fica em um momento de absorção e reflexão do que foi visto. São muitas possibilidades, dúvidas e interrogações. Mesmo após o encerramento, o assunto se prolonga nos diálogos na calçada do teatro.

Como espectadora, duas cenas chocam, e não são as que o ator asperge o sangue e derrama na cruz, nem a que ele fica nu. A primeira, sem dúvidas, é a exibição do vídeo mostrando a vida de um ator pornô dotado de vagina e sua relação sexual com um transexual com órgão genital masculino e corpo totalmente feminino.

A outra é o momento em que o ator lê trechos da carta do jovem Riley, de forma exaustiva, segurando um galão de 20 litros de água. Dá para sentir a angústia dos personagens das histórias compartilhadas.

Histórias Compartilhadas
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Histórias Compartilhadas

Apresentação “Histórias Compartilhadas” retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil (FOTO: Reprodução)

Histórias Compartilhadas
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Apresentação “Histórias Compartilhadas” retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil (FOTO: Reprodução)

Histórias Compartilhadas
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Apresentação “Histórias Compartilhadas” retrata o drama social vivido pelos transsexuais no Brasil (FOTO: Reprodução)

 

Polêmica institucional

O espetáculo completará um ano em cartaz em julho, e é resultado do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Ari Areia, graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Nesta sexta-feira (24), ele apresentará sua defesa ao Ministério Público Federal, que o notificou com uma série de perguntas sobre a peça.

Para a OAB-CE, que acionou o MPF, o cearense excedeu o seu direito constitucional à livre manifestação de pensamento e expressão e assumiu o risco de sua conduta incorrer em crime previsto no artigo 208 do Código Penal: vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso. O ator recebeu críticas e até ameaças de morte, em seguida registrou um Boletim de Ocorrência.

Após a polêmica, a Universidade Federal do Ceará afirmou em nota que defende a convivência entre as posições religiosas, políticas, filosóficas e científicas na universidade e na sociedade.

“Ao ser apresentado fora do contexto da encenação e manipulado em redes sociais, um evento simples, rico em significados, academicamente validado, foi transformado por alguns em ‘desrespeito’ e denunciado como ‘crime’. A administração superior da UFC, ao tomar conhecimento da repercussão do fato, foi apurá-lo e, como conclusão, constatou tratar-se de um seminário acadêmico, com acesso restrito a participantes inscritos e, portanto, motivados a discutir sobre a temática proposta, sem qualquer conotação desrespeitosa e muito menos criminosa”, disse a nota.

Avaliação da peça

Daniella de Lavor, que tem 25 anos de teatro em seu currículo, classificou a peça como forte. “Ficou claro o que ele quis contar. A arte tem toda uma liberdade e tem toda uma licença de dizer da forma que quer. O que me questiona é até que ponto há a necessidade de se mostrar as cenas que se mostrou, da forma que se mostrou. E principalmente a necessidade de ele tirar o próprio sangue e colocar em cima da imagem de Cristo”, analisa.

Para a atriz, o fato do ator retirar o próprio sangue e derramar em cima da imagem de Cristo é polêmico. “É ingênuo dizer que não vai causar polêmica. Vai. Você tem que estar preparado pra isso. Aquela música que tocou enquanto ele estava tirando o sangue dele também é forte. É como se você quisesse mostrar para o espectador que, se ele não está entendendo, ele vai ter que entender agora, nem que a música esteja dizendo”, avalia Daniela, referindo-se à canção Blues da Piedade, de Cazuza.

Recomendação

Apesar das ressalvas, a atriz indica a peça ao público cearense. “Recomendo porque eu acho que a arte tem o intuito e o dever de fazer a gente pensar. É um espetáculo que faz você sair pensando, você não sai alheio. Você não assiste e vai para um bar conversar amenidades, você sai pensando e querendo conversar sobre ele”, finaliza.

Para Daniela, a OAB se equivoca em denunciar a peça como crime sem ter assistido ao espetáculo. “Errou porque ninguém pode julgar uma obra de arte sem assistir. A OAB tinha obrigação de assistir esse espetáculo antes de fazer qualquer acusação contra ele [ator]. Se ele precisa ser julgado como a OAB e o MPF estão fazendo, eles precisariam ter estado na plateia, e não através de fotos publicadas, para tomarem uma decisão precipitada”, pontua.

Serviço
Espetáculo Histórias Compartilhadas
Data/Horário: terças-feiras, às 20h – Última apresentação dia 28 de junho
Local: Teatro Universitário (Av. Universidade, 2210 – Benfica)
Ingresso: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)
Classificação: 18 anos

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