Ainda com grande incidência, Aids é um desafio para a saúde pública


Ainda com grande incidência, Aids é um desafio para a saúde pública

A frequência de casos de Aids entre mulheres cresceu consideravelmente no Ceará

Por Tribuna do Ceará em Ceará

22 de maio de 2013 às 10:35

Há 6 anos

*Por Hayanne Neves, Roberta Tavares e Felipe Lima

Há 30 anos um grupo de cientistas da França descobriu o vírus da síndrome da imunodeficiência adquirida, mais conhecida como Aids. Ao longo destas três décadas o tratamento evoluiu, mas a cura ainda é um segredo, e a doença desafia a saúde pública. Para alguns, conviver com a Aids é uma dor. Para outros, é possível viver ‘bem’. É o caso de Credileuda Azevedo.

Ela tem uma vida normal. Trabalhadora, mãe de dois filhos, avó de dois netos e dona de casa. Leva consigo o amor pela família, a vontade única de viver e uma data que a marcou, modificando sua realidade. Aos 22 anos, já com um filho de três, a jovem não sabia o que o dia 4 de agosto de 1993 significaria na sua vida.

Nesta data, Credileuda recebeu o exame que a apontava como soropositiva. Com a intenção de ajudar a irmã que estava com depressão, a jovem realizou os mesmos exames solicitados, incluindo o de HIV. Ao recebê-lo, a surpresa misturou-se ao desespero. O choro era a expressão mais recorrente. “Depois de um mês, coloquei na cabeça que ia cuidar dele [do filho] e que ia morrer algum dia, mas não sabia qual. Comecei a ver que eu tinha que viver, fazer tudo o que fazia, ter uma vida normal. Eu não vivo com a Aids, ela que vive comigo.”, conta.

“Preferi primeiro falar para algumas pessoas, amigos muito próximos que tenho comigo até hoje. Depois veio meu irmão e, depois de dois anos, o resto da família”, diz. Segundo ela, mesmo depois de 20 anos, ainda há um cuidado especial da família, quanto à sua saúde.

Após três anos com a doença, veio a segunda gravidez. Atualmente, a filha tem 17 anos. “A camisinha estourou (…) As pessoas sempre precisam usar preservativo, tem que ter na bolsa. Mesmo que não seja para você, mas para um amigo”, ressalta. “Na época, não existia um tratamento. Conseguimos avanços com muita luta. Mas existem alguns retrocessos e dificuldades em atendimento”, afirma.

Aprendizado

Credileuda é representante das Cidadãs Positivas do Ceará e ajuda tanto aquelas que convivem há algum tempo com a doença, quanto as que acabaram de descobrir. “O que eu consegui aprender, eu passo para as pessoas. É um trabalho de mútua ajuda. Aprendi a respeitar, a me amar e a amar a vida das pessoas”, fala.

Segundo ela, o preconceito das próprias portadoras é o pior. “Elas têm sua vida própria, mas não conseguem viver uma vida normal. Eu costumava não ter perspectiva, vi muita amiga falecer, mas [os grupos de apoio] ajudam muito. Ainda tem gente que tem medo de procurar, que tem medo de ter alguém conhecido”, lamenta.

Dados do Ceará

A frequência de casos de Aids entre mulheres cresceu consideravelmente, e a transmissão heterossexual passou a ser a principal forma de contágio; ou seja, não apenas pessoas do sexo masculino e homossexuais podem ser atingidas. Até crianças têm o risco de serem afetadas, caso a mãe seja portadora do vírus.

De acordo com boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), no Ceará, desde o primeiro caso conhecido em 1983, foram notificados 12.246 casos até dezembro de 2012. Somente no ano passado, foram confirmados 800, sendo 430 (53,7%) residentes no município de Fortaleza.

Sobre a interiorização da Aids no estado, apenas nove municípios (5%) registravam casos até o final da década de 80, crescendo para mais de 60% dos municípios a partir de 1998. Atualmente 96% dos municípios têm pelo menos um caso, e somente 4% dos municípios permaneceram silenciosos.

Situação estabilizada

Segundo o assessor da técnico da Coordenação de DST Aids, Theófilo Gravinis, a situação do Ceará está estabilizada, não pertencendo ao ranking negativo que o Rio Grande do Sul lidera. “É até baixo o índice de incidência. Temos uma epidemia estabilizada, com baixo número de novos casos. No último boletim, houve o aumento de 50 casos de um ano para o outro”, considera.

Além disso, ele ressalta que a incidência da doença na população cearense está ligada ao comportamento. “Não é por falta de campanhas. Envolve várias questões. Por ser uma epidemia, não temos mais grupos de risco, trabalhamos no olhar de vulnerabilidade, do comportamento de risco”, explica.

Segundo ele, as pessoas consideradas mais vulneráveis são as que não mantêm diálogo sobre a prática sexual, como: garotas e jovens homossexuais, ambos com faixa etária de 13 a 19 anos, além de “trabalhadores do sexo”. “Basta ver a incidência de gestantes adolescentes. Se conversa pouco, elas têm dificuldade em falar sobre o assunto. Quanto aos gays, está ligado ao preconceito, a dificuldade em dialogar e assumir”, diz.

Ele ainda informa que o Ceará é muito avançado no que diz respeito à implantação de novos serviços especializados para tratamento e atendimento no país. Ao todo, são 21 serviços específicos espalhados pela estado, em Fortaleza, Cascavel, Aracati, Sobral e Juazeiro do Norte, por exemplo.

Transmissão

A transmissão das DSTs pode acontecer por meio da relação sexual desprotegida, sem o uso de camisinha (seja masculina ou feminina), por transfusão de sangue infectado ou ainda da mãe infectada para o bebê durante a gravidez, o parto e a amamentação (no caso da Aids).

A única maneira de se prevenir é usar a camisinha em todas as relações sexuais, seja oral, anal e vaginal. Os preservativos podem ser adquiridos gratuitamente em todos os postos de saúde de Fortaleza.

Também é preciso tomar cuidado com algumas tarefas realizadas diariamente. Caso utilize seringas e agulhas, adote materiais descartáveis e não compartilhe objetos que perfuram ou cortam, como lâminas de barbear e depilar, escovas de dente, material de manicure e pedicure, confecção de tatuagem e colocação de piercings.

Exames

Muitas pessoas podem estar infectadas com Aids e não ter reações no organismo durante semanas ou anos. Em Fortaleza, os testes laboratoriais para HIV podem ser solicitadas em todos os postos de saúde.

No Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) Carlos Ribeiro, a população tem acesso ao teste rápido. Com apenas uma punção digital (quando uma gota de sangue é extraída do dedo), diagnósticos para o HIV podem ser conferidos em aproximadamente 30 minutos. O exame é gratuito, e o sigilo sobre o resultado é garantido.

Serviço
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV Aids e Movimento Nacional das Cidadãs Positivas
Reunião toda segunda quarta-feira do mês, a partir das 16h
Rua: Dom Lino, 1001, Parquelândia

Publicidade

Dê sua opinião

Ainda com grande incidência, Aids é um desafio para a saúde pública

A frequência de casos de Aids entre mulheres cresceu consideravelmente no Ceará

Por Tribuna do Ceará em Ceará

22 de maio de 2013 às 10:35

Há 6 anos

*Por Hayanne Neves, Roberta Tavares e Felipe Lima

Há 30 anos um grupo de cientistas da França descobriu o vírus da síndrome da imunodeficiência adquirida, mais conhecida como Aids. Ao longo destas três décadas o tratamento evoluiu, mas a cura ainda é um segredo, e a doença desafia a saúde pública. Para alguns, conviver com a Aids é uma dor. Para outros, é possível viver ‘bem’. É o caso de Credileuda Azevedo.

Ela tem uma vida normal. Trabalhadora, mãe de dois filhos, avó de dois netos e dona de casa. Leva consigo o amor pela família, a vontade única de viver e uma data que a marcou, modificando sua realidade. Aos 22 anos, já com um filho de três, a jovem não sabia o que o dia 4 de agosto de 1993 significaria na sua vida.

Nesta data, Credileuda recebeu o exame que a apontava como soropositiva. Com a intenção de ajudar a irmã que estava com depressão, a jovem realizou os mesmos exames solicitados, incluindo o de HIV. Ao recebê-lo, a surpresa misturou-se ao desespero. O choro era a expressão mais recorrente. “Depois de um mês, coloquei na cabeça que ia cuidar dele [do filho] e que ia morrer algum dia, mas não sabia qual. Comecei a ver que eu tinha que viver, fazer tudo o que fazia, ter uma vida normal. Eu não vivo com a Aids, ela que vive comigo.”, conta.

“Preferi primeiro falar para algumas pessoas, amigos muito próximos que tenho comigo até hoje. Depois veio meu irmão e, depois de dois anos, o resto da família”, diz. Segundo ela, mesmo depois de 20 anos, ainda há um cuidado especial da família, quanto à sua saúde.

Após três anos com a doença, veio a segunda gravidez. Atualmente, a filha tem 17 anos. “A camisinha estourou (…) As pessoas sempre precisam usar preservativo, tem que ter na bolsa. Mesmo que não seja para você, mas para um amigo”, ressalta. “Na época, não existia um tratamento. Conseguimos avanços com muita luta. Mas existem alguns retrocessos e dificuldades em atendimento”, afirma.

Aprendizado

Credileuda é representante das Cidadãs Positivas do Ceará e ajuda tanto aquelas que convivem há algum tempo com a doença, quanto as que acabaram de descobrir. “O que eu consegui aprender, eu passo para as pessoas. É um trabalho de mútua ajuda. Aprendi a respeitar, a me amar e a amar a vida das pessoas”, fala.

Segundo ela, o preconceito das próprias portadoras é o pior. “Elas têm sua vida própria, mas não conseguem viver uma vida normal. Eu costumava não ter perspectiva, vi muita amiga falecer, mas [os grupos de apoio] ajudam muito. Ainda tem gente que tem medo de procurar, que tem medo de ter alguém conhecido”, lamenta.

Dados do Ceará

A frequência de casos de Aids entre mulheres cresceu consideravelmente, e a transmissão heterossexual passou a ser a principal forma de contágio; ou seja, não apenas pessoas do sexo masculino e homossexuais podem ser atingidas. Até crianças têm o risco de serem afetadas, caso a mãe seja portadora do vírus.

De acordo com boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), no Ceará, desde o primeiro caso conhecido em 1983, foram notificados 12.246 casos até dezembro de 2012. Somente no ano passado, foram confirmados 800, sendo 430 (53,7%) residentes no município de Fortaleza.

Sobre a interiorização da Aids no estado, apenas nove municípios (5%) registravam casos até o final da década de 80, crescendo para mais de 60% dos municípios a partir de 1998. Atualmente 96% dos municípios têm pelo menos um caso, e somente 4% dos municípios permaneceram silenciosos.

Situação estabilizada

Segundo o assessor da técnico da Coordenação de DST Aids, Theófilo Gravinis, a situação do Ceará está estabilizada, não pertencendo ao ranking negativo que o Rio Grande do Sul lidera. “É até baixo o índice de incidência. Temos uma epidemia estabilizada, com baixo número de novos casos. No último boletim, houve o aumento de 50 casos de um ano para o outro”, considera.

Além disso, ele ressalta que a incidência da doença na população cearense está ligada ao comportamento. “Não é por falta de campanhas. Envolve várias questões. Por ser uma epidemia, não temos mais grupos de risco, trabalhamos no olhar de vulnerabilidade, do comportamento de risco”, explica.

Segundo ele, as pessoas consideradas mais vulneráveis são as que não mantêm diálogo sobre a prática sexual, como: garotas e jovens homossexuais, ambos com faixa etária de 13 a 19 anos, além de “trabalhadores do sexo”. “Basta ver a incidência de gestantes adolescentes. Se conversa pouco, elas têm dificuldade em falar sobre o assunto. Quanto aos gays, está ligado ao preconceito, a dificuldade em dialogar e assumir”, diz.

Ele ainda informa que o Ceará é muito avançado no que diz respeito à implantação de novos serviços especializados para tratamento e atendimento no país. Ao todo, são 21 serviços específicos espalhados pela estado, em Fortaleza, Cascavel, Aracati, Sobral e Juazeiro do Norte, por exemplo.

Transmissão

A transmissão das DSTs pode acontecer por meio da relação sexual desprotegida, sem o uso de camisinha (seja masculina ou feminina), por transfusão de sangue infectado ou ainda da mãe infectada para o bebê durante a gravidez, o parto e a amamentação (no caso da Aids).

A única maneira de se prevenir é usar a camisinha em todas as relações sexuais, seja oral, anal e vaginal. Os preservativos podem ser adquiridos gratuitamente em todos os postos de saúde de Fortaleza.

Também é preciso tomar cuidado com algumas tarefas realizadas diariamente. Caso utilize seringas e agulhas, adote materiais descartáveis e não compartilhe objetos que perfuram ou cortam, como lâminas de barbear e depilar, escovas de dente, material de manicure e pedicure, confecção de tatuagem e colocação de piercings.

Exames

Muitas pessoas podem estar infectadas com Aids e não ter reações no organismo durante semanas ou anos. Em Fortaleza, os testes laboratoriais para HIV podem ser solicitadas em todos os postos de saúde.

No Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) Carlos Ribeiro, a população tem acesso ao teste rápido. Com apenas uma punção digital (quando uma gota de sangue é extraída do dedo), diagnósticos para o HIV podem ser conferidos em aproximadamente 30 minutos. O exame é gratuito, e o sigilo sobre o resultado é garantido.

Serviço
Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV Aids e Movimento Nacional das Cidadãs Positivas
Reunião toda segunda quarta-feira do mês, a partir das 16h
Rua: Dom Lino, 1001, Parquelândia