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Ex-campeã brasileira, “Kyra cearense” busca apoio para voltar a competir no jiu-jitsu

Juliana Gomes quer voltar a lutar ainda em 2018 (FOTO: BJJ Combat)

Enquanto os clientes esperavam mais uma fornada da massa quentinha e fresca para o café da manhã, Juliana Gomes, a Kyra Gracie cearense, alimentava um sonho na cabeça: ser campeã no jiu-jitsu. Para isso, ela chegava a treinar nos horários de intervalo do trabalho numa padaria, em Fortaleza, no Ceará.

A agilidade das mãos no preparo do pão na chapa, a disposição no atendimento até a limpeza do estabelecimento revelavam uma mulher esforçada. Há quatro anos sem lutar em alto nível por falta de patrocínio, a Campeã Brasileira (2006), que chegou a se classificar para o Mundial (2012), busca apoio para voltar às competições ainda em 2018. A jiu-jiteira também fala do machismo no esporte e dos projetos com o marido, companheiro de tatame.

Por trás de cada pensamento em busca do objetivo, a história da lutadora começou a ser construída ainda na adolescência, na comunidade do Lagamar, no bairro São João do Tauape, periferia de Fortaleza. Aos 17, entrou para o projeto de jiu-jitsu do 5º Batalhão da PM, de onde saíram os primeiros golpes. “Sempre joguei futebol, passei pela capoeira também, mas foi no jiu-jitsu onde me encontrei”, relembra Juliana, hoje com 32 anos.

A dedicação foi tanta que logo a apelidaram de Kyra, uma referência a Kyra Gracie, brasileira pentacampeã mundial no esporte e comentarista no canal SporTV. “Eu não a conhecia. Fui pesquisar e virei fã. Também tem a Mackenzie Dern (americana faixa preta de jiu-jitsu, campeã mundial aos 14 anos e atualmente no MMA). Ela faz campeonatos só para mulheres com premiações dignas como as do masculino. E até hoje ela luta por igualdade no esporte e essa é minha luta também”, disse.

Vieram os campeonatos, e os professores ajudaram a custear as inscrições. Conquistou o 3º lugar no Norte-Nordeste (2005) com apenas 12 dias de treinamento. No ano seguinte, foi para a equipe Nova União, também em Fortaleza. Aos 18, novas responsabilidades apareceram. Juliana começou a trabalhar numa padaria. Isso dificultou a rotina de treinos.

Para chegar ao tatame, a lutadora encarava uma verdadeira maratona. O primeiro turno no serviço era de 6 às 9 horas da manhã. Precisava voltar às 15 horas e seguir no expediente até às 20h30. Então, o jeito era aproveitar o horário do almoço para manter o ritmo. Com paciência e disciplina, características dos atletas das artes marciais, Juliana atravessava a cidade de bicicleta para treinar diariamente. Era, pelo menos, uma hora para ir e outra para voltar no trajeto entre o trabalho, no bairro Dionísio Torres, e a academia, no Centro. Isso se repetiu por dois anos.

Na padaria, a rotina era cansativa como o esforço para os treinamentos. “Fazíamos lanches em geral, café expresso, pão na chapa, tapioca recheada e até limpeza da loja. Depois, saía e já ia direto treinar. Muitas vezes voltava sem comer nada, para não atrasar no trabalho. Era muito corrido”, relembra.

Uma lutadora incomoda muita gente

Juliana Gomes, assim como muitas mulheres que lutam, também encarou o machismo (FOTO: BJJ Combat)

Outros combates surgiram. Juliana tinha os treinos custeados pela academia, era a única mulher da turma e incomodava.

“O dono da academia começou a achar ruim porque eu era a única mulher que treinava no meio dos alunos homens dele. Então disse ao professor que tinha me dado a bolsa para me dar aula particular porque eu estava tirando a liberdade dos homens de falar besteira na hora do treino. Fiquei muito chateada e não quis mais treinar. Ele disse que não era nada pessoal. Também falou que eu treinava forte para uma mulher. Eu finalizava todos os alunos desse professor. Eu, sendo mulher”, relembrou a Kyra cearense.

Certa de que não evoluiria como atleta treinando apenas com o professor, mudou de academia.

A segurança do amor e a batalha pelo jiu-jitsu

Entre medalhas e a resistência para seguir no esporte, o fio do acaso costurou uma outra conquista: o amor. O primeiro contato foi no tatame. Os dois nunca haviam se visto, mas dali nasceria uma história de parceria e companheirismo: a de Juliana Gomes e Samir Barros. A amizade nasceu, fortaleceu-se e, depois de um ano, a lutadora, dura na queda, entregou os pontos para o coração daquele rapaz com quem fez dupla no exame de faixa e com quem está casada há nove anos: “Acho que demorei a aceitar namorar porque eu tinha um filho. Achava que ele não me levaria a sério. Somos muito companheiros”, revela a atleta.

Juliana continua treinando. Além disso, há um ano, ela dá aulas de jiu-jitsu para crianças e adultos ao lado do marido, na academia de um amigo, a Trainer Core, no bairro Joaquim Távora. Sem competir desde 2014, quando parou por falta de patrocínio, ela almeja voltar a brigar por troféus e medalhas. A procura por apoio continua tão firme quanto o empenho em não desistir do esporte, apesar das tantas batalhas. “Gosto de sentir a adrenalina. Quero provar para mim mesma que ainda consigo, mesmo depois de tantas lesões”, confessou a atleta faixa marrom, maior graduação antes da faixa preta.

Campeã Norte-Nordeste e Campeã Brasileira (2006), chegou a fazer seletiva para o Mundial em 2012, mas deixou de ir por não poder arcar com os custos da viagem. Também se inscreveu em outros campeonatos mas, por falta de oponentes, pouco lutou. Para haver premiação em dinheiro, há necessidade de um número mínimo inscritos na categoria.

Ainda em 2018, ela se prepara para subir novamente no tatame, na categoria médio adulto (-69kg), em busca de ritmo de competição. Da academia onde treina atualmente, recebe apoio na preparação física. No entanto, sem ajuda financeira, segue na batalha por patrocínio.

“Num mês tranquilo, tiro grana e pago inscrição. Hoje em dia, só vive do esporte quem tem poder aquisitivo. Se você vem de família humilde e tem que trabalhar para sobreviver, não tem tanta chance de se tornar atleta de alto rendimento. Mas quero competir até meu corpo permitir. Faço por amor ao esporte. E pretendo montar um projeto, junto com meu esposo, para dar aulas gratuitas na comunidade e dar a eles a mesma oportunidade que um dia me deram”, finalizou.

Disposta a não desistir da caminhada, Juliana se divide na mulher que luta e na mulher que ensina a lutar através do jiu-jitsu e do exemplo de vida. Uma encarando as responsabilidades diárias e a outra buscando um sonho. Do esforço na padaria à disciplina do tatame, ela mata-leão por dia e molda o futuro próximo: a busca por mais um título no tatame.

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