Ultramaratonista revela detalhes de como completou 31 horas seguidas de corrida


Ultramaratonista revela detalhes de como completou 31 horas seguidas de corrida

Cearense Plauto Holanda fez 120 km entre os alpes da Itália, Suíça e França da prova mais difícil do mundo, a Ultramaratona de Montanha de Montblanc

Por Lucas Catrib em Perfil

28 de setembro de 2015 às 07:00

Há 4 anos
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Plauto Holanda, de 33 anos, é professor de educação física (Foto: arquivo pessoal)

Daqui a uns anos, a pequena Lia não terá mais a oportunidade de assistir desenho junto com o pai, na sala de casa. Por outro, vai tentar dimensionar o último feito do ‘herói’. No momento, o próprio Plauto Holanda divide o tempo do trabalho de educador físico com os cuidados da filha, além dos planejamentos realizados com a esposa Denise. Há um mês, o atleta tinha em mente como foco os alpes europeus, superados no dia 27 de agosto. O cearense finalizou os 120 km da Ultramaratona de Montanha de Montblanc em 31h54min.

Mais de um dia inteiro de prova, clima variado durante o percurso, ter que lidar com o escuro, cerca de 7250m altimetria total e historicamente só cerca de 40% das pessoas conseguem ir até o fim. Plauto nunca passou algo parecido. São lembranças que nunca sairão da mente do único ‘Cabra da Peste’ a completar o trecho para Chamonix, cidade francesa onde terminou a aventura.

“A dificuldade já é uma coisa esperada. Uma quantidade enorme de subida e de descida. Sabia que ia machucar a musculatura da freada. Achei que fui bem. Eu estava muito bem até o km 86. A partir daí, senti muito o quadríceps. Bate em pedra pontuda e vai machucando a coxa, aí eu pensei no orgulho. ‘Continuar forte e chegar em menos de 30 horas ou diminuir o ritmo e terminar tranquilo, sem lesão?’ Nos tempos de cortes, eu passei mais folgado. Larguei forte, logo atrás dos caras da elite. Deu certo a estratégia”, indicou Holanda, que tinha, ao todo, 33 horas para encerrar a participação.

Antes de viajar para Courmayeur, na Itália, local do ponto de partida, Plauto passeou em Paris. Visitou o Museu do Louvre, inclusive. Foi também na Cidade Luz, onde o competidor deixou de tomar um remédio para hipertireoidismo por esquecimento. Durante a prova, o sono reinou em alguns momentos. “Poderia ter desmaiado, talvez se eu parasse. O metabolismo fica todo baixo”, citou.

Mais obstáculos 

Também em um período pré-evento, o professor de corrida recebeu um email que avisava o ponto mais inclinado do trajeto, no km 51. Caso o participante não estivesse bem, a organização recomendava o abandono da empreitada. Em alguns trechos da prova, a própria gestão disponibilizava pontos de parada. Os atletas podiam se alimentar, ganhavam alimentos e também tinham a possibilidade de descansar.

“Eu parava, sentava, tirava pedrinhas do tênis. “Comia sem muita pressa, não me encostava na mesa como outros faziam, e já saia. Eu levei 15 unidades do gel e deixei outros no ponto do km 66. Deixei pães. Muita gente levou outros tênis, outra roupas. Tinha um caldo e um monte de pão. Eu pegava umas duas fatias. Descia tranquilo porque era salgado”, explicou.

Plauto ganhou uma camisa personalizada dos amigos brasileiros que participaram da prova (Foto: arquivo pessoal)

Plauto ganhou uma camisa personalizada dos amigos brasileiros que participaram da prova (Foto: arquivo pessoal)

Plauto tentou se manter concentrado, mas também visualizou o ambiente o quanto pôde. Era possível identificar em qual nação estava, por conta das bandeiras e também pela questão da linguagem das pessoas dos vilarejos. O desafio encarado foi enriquecedor, principalmente por conta das dificuldades.

“Não treinei 50% do suficiente. Uma coisa eu sei. Eu fui muito forte de cabeça. Só fui perceber nos 8 km finais. Tava com um a vontade tão grande de terminar, que os obstáculos não atrapalharam. Foi muito difícil, ultra difícil, mas nada sofrido. Eu assistia tanto vídeo, que eu me sentia como aqueles caras que iam jogar pela primeira vez no Maracanã. Quando cheguei perto, na parte das grades, os franceses saíram dos bares que ficavam pertinho da chegada e ficaram batendo na minhas costas. ‘Brazil, Brazil. Você é um campeão’. Eu pensava. ‘Vou para frente, vou para frente’, evidenciou.

Iron Man Fortaleza

Guia de um deficiente visual na primeira edição em Fortaleza da principal prova de triatlo do mundo, em 2014, Plauto vai novamente encarar o calor cearense.

“Estou bem cansado mentalmente. Não estou bem para ficar treinando agora. Acho isso normal. Você se prepara: ‘Deu certo’. Você fica um pouco sem norte. Mas, vamos lá. Vou fazer com o Paulo”, finalizou.

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Ultramaratonista revela detalhes de como completou 31 horas seguidas de corrida

Cearense Plauto Holanda fez 120 km entre os alpes da Itália, Suíça e França da prova mais difícil do mundo, a Ultramaratona de Montanha de Montblanc

Por Lucas Catrib em Perfil

28 de setembro de 2015 às 07:00

Há 4 anos
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Plauto Holanda, de 33 anos, é professor de educação física (Foto: arquivo pessoal)

Daqui a uns anos, a pequena Lia não terá mais a oportunidade de assistir desenho junto com o pai, na sala de casa. Por outro, vai tentar dimensionar o último feito do ‘herói’. No momento, o próprio Plauto Holanda divide o tempo do trabalho de educador físico com os cuidados da filha, além dos planejamentos realizados com a esposa Denise. Há um mês, o atleta tinha em mente como foco os alpes europeus, superados no dia 27 de agosto. O cearense finalizou os 120 km da Ultramaratona de Montanha de Montblanc em 31h54min.

Mais de um dia inteiro de prova, clima variado durante o percurso, ter que lidar com o escuro, cerca de 7250m altimetria total e historicamente só cerca de 40% das pessoas conseguem ir até o fim. Plauto nunca passou algo parecido. São lembranças que nunca sairão da mente do único ‘Cabra da Peste’ a completar o trecho para Chamonix, cidade francesa onde terminou a aventura.

“A dificuldade já é uma coisa esperada. Uma quantidade enorme de subida e de descida. Sabia que ia machucar a musculatura da freada. Achei que fui bem. Eu estava muito bem até o km 86. A partir daí, senti muito o quadríceps. Bate em pedra pontuda e vai machucando a coxa, aí eu pensei no orgulho. ‘Continuar forte e chegar em menos de 30 horas ou diminuir o ritmo e terminar tranquilo, sem lesão?’ Nos tempos de cortes, eu passei mais folgado. Larguei forte, logo atrás dos caras da elite. Deu certo a estratégia”, indicou Holanda, que tinha, ao todo, 33 horas para encerrar a participação.

Antes de viajar para Courmayeur, na Itália, local do ponto de partida, Plauto passeou em Paris. Visitou o Museu do Louvre, inclusive. Foi também na Cidade Luz, onde o competidor deixou de tomar um remédio para hipertireoidismo por esquecimento. Durante a prova, o sono reinou em alguns momentos. “Poderia ter desmaiado, talvez se eu parasse. O metabolismo fica todo baixo”, citou.

Mais obstáculos 

Também em um período pré-evento, o professor de corrida recebeu um email que avisava o ponto mais inclinado do trajeto, no km 51. Caso o participante não estivesse bem, a organização recomendava o abandono da empreitada. Em alguns trechos da prova, a própria gestão disponibilizava pontos de parada. Os atletas podiam se alimentar, ganhavam alimentos e também tinham a possibilidade de descansar.

“Eu parava, sentava, tirava pedrinhas do tênis. “Comia sem muita pressa, não me encostava na mesa como outros faziam, e já saia. Eu levei 15 unidades do gel e deixei outros no ponto do km 66. Deixei pães. Muita gente levou outros tênis, outra roupas. Tinha um caldo e um monte de pão. Eu pegava umas duas fatias. Descia tranquilo porque era salgado”, explicou.

Plauto ganhou uma camisa personalizada dos amigos brasileiros que participaram da prova (Foto: arquivo pessoal)

Plauto ganhou uma camisa personalizada dos amigos brasileiros que participaram da prova (Foto: arquivo pessoal)

Plauto tentou se manter concentrado, mas também visualizou o ambiente o quanto pôde. Era possível identificar em qual nação estava, por conta das bandeiras e também pela questão da linguagem das pessoas dos vilarejos. O desafio encarado foi enriquecedor, principalmente por conta das dificuldades.

“Não treinei 50% do suficiente. Uma coisa eu sei. Eu fui muito forte de cabeça. Só fui perceber nos 8 km finais. Tava com um a vontade tão grande de terminar, que os obstáculos não atrapalharam. Foi muito difícil, ultra difícil, mas nada sofrido. Eu assistia tanto vídeo, que eu me sentia como aqueles caras que iam jogar pela primeira vez no Maracanã. Quando cheguei perto, na parte das grades, os franceses saíram dos bares que ficavam pertinho da chegada e ficaram batendo na minhas costas. ‘Brazil, Brazil. Você é um campeão’. Eu pensava. ‘Vou para frente, vou para frente’, evidenciou.

Iron Man Fortaleza

Guia de um deficiente visual na primeira edição em Fortaleza da principal prova de triatlo do mundo, em 2014, Plauto vai novamente encarar o calor cearense.

“Estou bem cansado mentalmente. Não estou bem para ficar treinando agora. Acho isso normal. Você se prepara: ‘Deu certo’. Você fica um pouco sem norte. Mas, vamos lá. Vou fazer com o Paulo”, finalizou.