Guga, Roland Garros, 2001


Guga, Roland Garros, 2001

A coluna ‘Momento Inesquecível do Esporte’ da vez traz a história de uma partida de tênis, entre o brasileiro Gustavo Kuerten e um americano desconhecido.

Por Caio Costa em Futebol

3 de maio de 2013 às 15:05

Há 6 anos
Guga e a taça de Roland Garros

Guga e a taça de Roland Garros

*Por Pedro Mapurunga Azevedo

É com imenso prazer que participo da coluna “Momento Inesquecível do Esporte”, apesar do meu forte ser o futebol, sou um amante de todos os esportes, até de “Curling” entendo um pouco. Escolhi um momento que talvez poucas pessoas lembrem, uma partida de tênis entre o brasileiro Gustavo Kuerten e um americano desconhecido.

No final da temporada de 2000, Guga chegou no fim do ano ao torneio Masters Cup (torneio que reúne os oito melhores jogadores do ano) com possibilidades de terminar o ano como número um do ‘raking’. Neste torneio, conseguiu vitórias inesquecíveis contra Magnus Norman e Yevgeny Kafelnikov na fase grupos, na semifinal derrotou o lendário Pete Sampras e na final derrotou Andre Agassi por incríveis três sets a zero.

Tudo isso em quadra de piso rápido, que não era especialidade do brasileiro. A Masters Cup de 2000 foi disputada em Lisboa, e a conquista do brasileiro ficou marcada pelo discurso e comemorações em português.

Já em 2001, Guga era o número 1 do ‘ranking’ da ATP e bicampeão do Torneio de Roland Garros. Seu nome já estava cravado entre os grandes tenistas da história e o maior nome do esporte no país. No início da temporada, Guga já havia conquistado três títulos, os ATP´s de Buenos Aires e Acapulco e o importante e grandioso Torneio de Monte Carlo (Em Mônaco).

Roland Garros, 2001

O brasileiro chegou como o grande favorito para conquistar o tricampeonato em Paris, Guga era o queridinho dos franceses, seu carisma e trejeitos, conquistaram a turma da terra do croissant. Era o Gugá (em pronúncia com biquinho e tudo)!

Kuerten chegou às oitavas-de-final de Roland Garros com certa facilidade e iria enfrentar um americano que vinha dos qualifies (jogos disputados por àqueles que não possuem pontuação suficiente no  ‘ranking’ para entrar diretamente no torneio, ou seja, ‘ranking’ depois de 100.) Michael Russel era o nome do oponente, baixinho e gordinho, não tinha jeito algum de tenista profissional. Todos acreditavam em mais uma vitória fácil do brasileiro, mas não foi isso que aconteceu.

Russel venceu os dois primeiros sets por 6/3 e 6/4 com extrema tranquilidade. O mundo estava boquiaberto, a zebra estava solta e o campeão havia caído. No terceiro e decisivo set, o americano estava vencendo por 5 x 3 e sacava em seu favor. O que estava ruim, ficou pior, ‘match point’ para Michael Russel (apenas um pontinho para vencer o jogo), era possível escutar o silêncio na quadra Phelippe Chatrier.

Guga e o coração na quadra de Roland Garros

Guga e o coração na quadra de Roland Garros

Com direito a bola na linha, Guga mostrou muita frieza, muita concentração, conseguiu salvar o ‘ponto do jogo’, virou o set e o venceu no ‘tie-break’ por 7/6. Horas depois e muita aula de como se jogar tênis no saibro, Guga ganhou os outros dois sets, virou e ganhou o jogo mais sensacional de toda sua carreira. O público aplaudia Guga de pé, de pé! Foi nesse jogo que o surfista tenista (ou seria tenista surfista?) fez pela primeira, o desenho do coração no saibro, para agradecer os franceses pelo apoio.

Para os leigos no tênis, essa virada, se equipara como se um time de futebol estivesse ganhando por 2 x 0 e aos 45’ do segundo tempo tivesse um pênalti a seu favor e ao batê-lo, o goleiro adversário defenderia. E mais, nos poucos minutos restantes, esse time sofresse a virada, com três gols nos últimos minutos. E tudo isso em uma Copa do Mundo.

Lembro dessa partida com bastante nostalgia e chego a me arrepiar, um brasileiro entre os monstros do tênis, vindo de um país sem estrutura alguma… Com sua determinação e talento o levaram ao posto mais alto do tênis mundial. Essa vitória foi tão importante, que o brasileiro embalou e nas quartas-de-final enfrentou novamente o russo Yevgeny Kafelnikov, campeão em Paris em 1996 e perdeu para Guga nas duas vezes em que o brasileiro foi campeão, 1997 e 2000, antes do tri. Resultado, venceu de novo, por 3 x 1. O tenista russo que tanto admirava Gustavo Kuerten o apelidou de “Picasso das quadras”. O brasileiro passou na semifinal pelo espanhol Juan Carlos Ferrero e na final venceu o também espanhol Alex Correjta, por 3 x 1, com direito a 6 x 0 no quarto set.

Tive a sorte e o privilégio de ter nascido em um tempo que foi possível acompanhar toda a carreira de Guga, um exemplo de atleta e um grande homem.

*Pedro Mapurunga Azevedo é pesquisador, escritor e apaixonado por esportes.

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Guga, Roland Garros, 2001

A coluna ‘Momento Inesquecível do Esporte’ da vez traz a história de uma partida de tênis, entre o brasileiro Gustavo Kuerten e um americano desconhecido.

Por Caio Costa em Futebol

3 de maio de 2013 às 15:05

Há 6 anos
Guga e a taça de Roland Garros

Guga e a taça de Roland Garros

*Por Pedro Mapurunga Azevedo

É com imenso prazer que participo da coluna “Momento Inesquecível do Esporte”, apesar do meu forte ser o futebol, sou um amante de todos os esportes, até de “Curling” entendo um pouco. Escolhi um momento que talvez poucas pessoas lembrem, uma partida de tênis entre o brasileiro Gustavo Kuerten e um americano desconhecido.

No final da temporada de 2000, Guga chegou no fim do ano ao torneio Masters Cup (torneio que reúne os oito melhores jogadores do ano) com possibilidades de terminar o ano como número um do ‘raking’. Neste torneio, conseguiu vitórias inesquecíveis contra Magnus Norman e Yevgeny Kafelnikov na fase grupos, na semifinal derrotou o lendário Pete Sampras e na final derrotou Andre Agassi por incríveis três sets a zero.

Tudo isso em quadra de piso rápido, que não era especialidade do brasileiro. A Masters Cup de 2000 foi disputada em Lisboa, e a conquista do brasileiro ficou marcada pelo discurso e comemorações em português.

Já em 2001, Guga era o número 1 do ‘ranking’ da ATP e bicampeão do Torneio de Roland Garros. Seu nome já estava cravado entre os grandes tenistas da história e o maior nome do esporte no país. No início da temporada, Guga já havia conquistado três títulos, os ATP´s de Buenos Aires e Acapulco e o importante e grandioso Torneio de Monte Carlo (Em Mônaco).

Roland Garros, 2001

O brasileiro chegou como o grande favorito para conquistar o tricampeonato em Paris, Guga era o queridinho dos franceses, seu carisma e trejeitos, conquistaram a turma da terra do croissant. Era o Gugá (em pronúncia com biquinho e tudo)!

Kuerten chegou às oitavas-de-final de Roland Garros com certa facilidade e iria enfrentar um americano que vinha dos qualifies (jogos disputados por àqueles que não possuem pontuação suficiente no  ‘ranking’ para entrar diretamente no torneio, ou seja, ‘ranking’ depois de 100.) Michael Russel era o nome do oponente, baixinho e gordinho, não tinha jeito algum de tenista profissional. Todos acreditavam em mais uma vitória fácil do brasileiro, mas não foi isso que aconteceu.

Russel venceu os dois primeiros sets por 6/3 e 6/4 com extrema tranquilidade. O mundo estava boquiaberto, a zebra estava solta e o campeão havia caído. No terceiro e decisivo set, o americano estava vencendo por 5 x 3 e sacava em seu favor. O que estava ruim, ficou pior, ‘match point’ para Michael Russel (apenas um pontinho para vencer o jogo), era possível escutar o silêncio na quadra Phelippe Chatrier.

Guga e o coração na quadra de Roland Garros

Guga e o coração na quadra de Roland Garros

Com direito a bola na linha, Guga mostrou muita frieza, muita concentração, conseguiu salvar o ‘ponto do jogo’, virou o set e o venceu no ‘tie-break’ por 7/6. Horas depois e muita aula de como se jogar tênis no saibro, Guga ganhou os outros dois sets, virou e ganhou o jogo mais sensacional de toda sua carreira. O público aplaudia Guga de pé, de pé! Foi nesse jogo que o surfista tenista (ou seria tenista surfista?) fez pela primeira, o desenho do coração no saibro, para agradecer os franceses pelo apoio.

Para os leigos no tênis, essa virada, se equipara como se um time de futebol estivesse ganhando por 2 x 0 e aos 45’ do segundo tempo tivesse um pênalti a seu favor e ao batê-lo, o goleiro adversário defenderia. E mais, nos poucos minutos restantes, esse time sofresse a virada, com três gols nos últimos minutos. E tudo isso em uma Copa do Mundo.

Lembro dessa partida com bastante nostalgia e chego a me arrepiar, um brasileiro entre os monstros do tênis, vindo de um país sem estrutura alguma… Com sua determinação e talento o levaram ao posto mais alto do tênis mundial. Essa vitória foi tão importante, que o brasileiro embalou e nas quartas-de-final enfrentou novamente o russo Yevgeny Kafelnikov, campeão em Paris em 1996 e perdeu para Guga nas duas vezes em que o brasileiro foi campeão, 1997 e 2000, antes do tri. Resultado, venceu de novo, por 3 x 1. O tenista russo que tanto admirava Gustavo Kuerten o apelidou de “Picasso das quadras”. O brasileiro passou na semifinal pelo espanhol Juan Carlos Ferrero e na final venceu o também espanhol Alex Correjta, por 3 x 1, com direito a 6 x 0 no quarto set.

Tive a sorte e o privilégio de ter nascido em um tempo que foi possível acompanhar toda a carreira de Guga, um exemplo de atleta e um grande homem.

*Pedro Mapurunga Azevedo é pesquisador, escritor e apaixonado por esportes.