Ninfomania é uma doença?


Ninfomania é uma doença?

A mulher sente um apetite intenso demais, esta perturbação psíquica enquadra-se nos transtornos conhecidos como Desejo Sexual Hiperativo (DSH) e se expressa através de uma ausência do controle da sexualidade.

Por em Sem categoria

9 de agosto de 2012 às 14:37

Há 7 anos

Ninfomania seria mito ou compulsão (Foto: Divulgação)

Para muitos uma doença, já para outros apenas uma busca excessiva pelo prazer. Para tirar dúvidas sobre a ninfomania, o Jangadeiro Online traz um artigo da renomada escritora e psicanalista Regina Navarro.

Segundo especialistas, trata-se de uma descompensação do desejo sexual feminino. A mulher sente um apetite intenso demais, esta perturbação psíquica enquadra-se nos transtornos conhecidos como Desejo Sexual Hiperativo (DSH) e se expressa através de uma ausência do controle da sexualidade.

Ninfomania: o mito do desejo insaciável

Sandro, estudante universitário, 22 anos, está namorando Andréa há três meses. Mas desde então não teve mais sossego. Seus pais não admitem o namoro, alegando que a moça não serve para ele, por se tratar, segundo afirmam, de uma mulher insaciável, de uma ninfomaníaca. “A situação lá em casa está insuportável. As brigas têm sido diárias. Meus pais não admitem o fato de Andréa ter ficado com três amigos meus. O pior para eles é que começamos a namorar no dia seguinte em que eles a viram beijando o Júlio, meu melhor amigo. Acho que eles são caretas, mas estão conseguindo infernizar a minha vida.

A repressão sexual, ao longo da História, alimentou uma fantasia resistente e de aparência confiável, se é possível dizer isso de um mito: a ninfomania. Ele nasceu de um outro mito, também solidificado longamente, de que mulheres não tinham prazer sexual. Tais “verdades” faziam supor que, se as mulheres não tinham desejo, qualquer uma que tivesse algum era doente: uma ninfomaníaca. O pesquisador da sexualidade, Alfred Kinsey, dizia que, ninfomaníaca é alguém que gosta sexo, mais do que você.

O que se comprovou é que, antes de tudo, a mulher insaciável é uma fantasia masculina. Muitas mulheres sofreram em função desse mito. No século 19, médicos retiravam os ovários de algumas mulheres para controlar sua sexualidade, e em alguns poucos casos, removiam o clitóris. Outras foram colocadas em instituições para doentes mentais com o diagnóstico de ninfomaníacas.

Desconstruindo o mito

Psiquiatras e psicólogos do século 20 recomendavam tratamento clínico, psicanálise, choque elétrico, sedativos, tranqüilizantes e até internações. A americana Carol Groneman, em seu livro Ninfomania, lista alguma conclusões a se tirar, na desconstrução desse mito:

1. Sexo não é apenas dentro do corpo. Não é um simples fato natural ou biológico. Ele tem diferentes significados em momentos diferentes. Além disso, no que compete à sexualidade, não é um “guia tamanho único” sobre normal ou natural.

2. As mulheres precisam entender as várias formas como a ninfomania e outros conceitos têm sido usados para rotular e controlar a sexualidade feminina. São conceitos perigosos, que precisam ser desafiados e alterados.

3. Nossa sexualidade é importante demais para ser deixada para os “especialistas”.”

A idéia de ninfomania serviu a muitos interesses ao longo do tempo. Desde a utilização mais grosseira no argumento de advogados, que revertiam acusações de estupro contra a vítima, até o seu uso distorcido no cinema e na literatura. Nos casos jurídicos, a argumentação que apelava para o conceito de ninfomania ao defender estupradores caía como uma luva. Groneman cita um caso acontecido no estado de Michigan, EUA, em 1948, quando dois rapazes violentaram uma menina de 15 anos, argumentando que ela forçara o intercurso com ambos.

O advogado utilizou a figura da prosecutrix, algo como o feminino de prosecutor, que significa promotor, no sentido daquele que age. O termo (masculino) era usado especificamente em casos de estupro.  Sua inclusão como argumento legal vinha da autoridade jurídica de John Henry Wigmore, diretor da faculdade de Direito de Nortwestern, que inventara a definição de “mentalidade anormal de mulheres queixosas: ninfomania”.

Seu apoio para tal conceito vinha de longas citações de estudiosos juristas e médicos, alimentado pelos históricos preconceitos quanto à sexualidade feminina. Muitos processos contra estupradores caíram no vazio, pressionados pela imagem antiga da mulher histérica e mentirosa.

Cinema erótico

O surgimento do cinema erótico e da pornografia receberam o mito da ninfomania como um presente dos céus ou dos infernos. Afinal, nada mais excitante do que a mulher insaciável, vampira do gozo sugando machos indefesos. Marylin Chambers, que encarnava a dona-de-casa em caixas de sabão em pó, tornou-se uma das primeiras “ninfo” das telas, em Insatiable I e Insatiable II.

Há uma certa contradição entre a perturbada mental, definida pelos juristas nos casos de estupro, e essa personagem que, alegremente, transa com todos os homens, que lhe excitam de alguma forma. Chambers, cujo personagem, Sandra Chase, é modelo de sucesso, elegante, animada, rica, confiante, e o mais surpreendente, ela goza.

Seu estado de mulher constantemente insaciável não a impede de abrir champanhe entre um intercurso e outro, ou até de consumir um jantar à luz de velas em restaurante elegante. Ela personifica em seus filmes uma nova ninfo, feliz e realizada, mas cujo desejo nunca cessa. A iniciativa sexual feminina em filmes eróticos criou um novo clichê: a ninfo feliz.

Hollywood compreendeu que era possível levar o mito da ninfomania para os cinemas de grande circuito e para os lares em fitas de vídeo. É possível vender o sexo insaciável como produto erótico, foi a conclusão dos produtores ao lançarem Basic Instinct (Instinto Selvagem), em 1992. Sharon Stone preencheu perfeitamente as exigências que a fantasia dos espectadores pedia para uma ninfomaníaca de consumo fácil. A personagem, escritora, fria e calculista devorava homens e mulheres, que lhe provocassem o apetite. A cena em que descruza as pernas para expor sua intimidade fez história. Sharon escapa ilesa de suas diabruras eróticas.

Os últimos anos foram de múltiplos lançamentos com diferentes versões da ninfomania: Rambling Rose (Rose, uma mulher de fogo) liga à obsessão sexual ao amor; Amateur, de Hal Hartley, ironiza o conceito de ninfo; Chasing Amy (Procura-se Amy) desfaz a imagem machista do desejo insaciável. O mito da ninfomaníaca agoniza.

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Ninfomania é uma doença?

A mulher sente um apetite intenso demais, esta perturbação psíquica enquadra-se nos transtornos conhecidos como Desejo Sexual Hiperativo (DSH) e se expressa através de uma ausência do controle da sexualidade.

Por em Sem categoria

9 de agosto de 2012 às 14:37

Há 7 anos

Ninfomania seria mito ou compulsão (Foto: Divulgação)

Para muitos uma doença, já para outros apenas uma busca excessiva pelo prazer. Para tirar dúvidas sobre a ninfomania, o Jangadeiro Online traz um artigo da renomada escritora e psicanalista Regina Navarro.

Segundo especialistas, trata-se de uma descompensação do desejo sexual feminino. A mulher sente um apetite intenso demais, esta perturbação psíquica enquadra-se nos transtornos conhecidos como Desejo Sexual Hiperativo (DSH) e se expressa através de uma ausência do controle da sexualidade.

Ninfomania: o mito do desejo insaciável

Sandro, estudante universitário, 22 anos, está namorando Andréa há três meses. Mas desde então não teve mais sossego. Seus pais não admitem o namoro, alegando que a moça não serve para ele, por se tratar, segundo afirmam, de uma mulher insaciável, de uma ninfomaníaca. “A situação lá em casa está insuportável. As brigas têm sido diárias. Meus pais não admitem o fato de Andréa ter ficado com três amigos meus. O pior para eles é que começamos a namorar no dia seguinte em que eles a viram beijando o Júlio, meu melhor amigo. Acho que eles são caretas, mas estão conseguindo infernizar a minha vida.

A repressão sexual, ao longo da História, alimentou uma fantasia resistente e de aparência confiável, se é possível dizer isso de um mito: a ninfomania. Ele nasceu de um outro mito, também solidificado longamente, de que mulheres não tinham prazer sexual. Tais “verdades” faziam supor que, se as mulheres não tinham desejo, qualquer uma que tivesse algum era doente: uma ninfomaníaca. O pesquisador da sexualidade, Alfred Kinsey, dizia que, ninfomaníaca é alguém que gosta sexo, mais do que você.

O que se comprovou é que, antes de tudo, a mulher insaciável é uma fantasia masculina. Muitas mulheres sofreram em função desse mito. No século 19, médicos retiravam os ovários de algumas mulheres para controlar sua sexualidade, e em alguns poucos casos, removiam o clitóris. Outras foram colocadas em instituições para doentes mentais com o diagnóstico de ninfomaníacas.

Desconstruindo o mito

Psiquiatras e psicólogos do século 20 recomendavam tratamento clínico, psicanálise, choque elétrico, sedativos, tranqüilizantes e até internações. A americana Carol Groneman, em seu livro Ninfomania, lista alguma conclusões a se tirar, na desconstrução desse mito:

1. Sexo não é apenas dentro do corpo. Não é um simples fato natural ou biológico. Ele tem diferentes significados em momentos diferentes. Além disso, no que compete à sexualidade, não é um “guia tamanho único” sobre normal ou natural.

2. As mulheres precisam entender as várias formas como a ninfomania e outros conceitos têm sido usados para rotular e controlar a sexualidade feminina. São conceitos perigosos, que precisam ser desafiados e alterados.

3. Nossa sexualidade é importante demais para ser deixada para os “especialistas”.”

A idéia de ninfomania serviu a muitos interesses ao longo do tempo. Desde a utilização mais grosseira no argumento de advogados, que revertiam acusações de estupro contra a vítima, até o seu uso distorcido no cinema e na literatura. Nos casos jurídicos, a argumentação que apelava para o conceito de ninfomania ao defender estupradores caía como uma luva. Groneman cita um caso acontecido no estado de Michigan, EUA, em 1948, quando dois rapazes violentaram uma menina de 15 anos, argumentando que ela forçara o intercurso com ambos.

O advogado utilizou a figura da prosecutrix, algo como o feminino de prosecutor, que significa promotor, no sentido daquele que age. O termo (masculino) era usado especificamente em casos de estupro.  Sua inclusão como argumento legal vinha da autoridade jurídica de John Henry Wigmore, diretor da faculdade de Direito de Nortwestern, que inventara a definição de “mentalidade anormal de mulheres queixosas: ninfomania”.

Seu apoio para tal conceito vinha de longas citações de estudiosos juristas e médicos, alimentado pelos históricos preconceitos quanto à sexualidade feminina. Muitos processos contra estupradores caíram no vazio, pressionados pela imagem antiga da mulher histérica e mentirosa.

Cinema erótico

O surgimento do cinema erótico e da pornografia receberam o mito da ninfomania como um presente dos céus ou dos infernos. Afinal, nada mais excitante do que a mulher insaciável, vampira do gozo sugando machos indefesos. Marylin Chambers, que encarnava a dona-de-casa em caixas de sabão em pó, tornou-se uma das primeiras “ninfo” das telas, em Insatiable I e Insatiable II.

Há uma certa contradição entre a perturbada mental, definida pelos juristas nos casos de estupro, e essa personagem que, alegremente, transa com todos os homens, que lhe excitam de alguma forma. Chambers, cujo personagem, Sandra Chase, é modelo de sucesso, elegante, animada, rica, confiante, e o mais surpreendente, ela goza.

Seu estado de mulher constantemente insaciável não a impede de abrir champanhe entre um intercurso e outro, ou até de consumir um jantar à luz de velas em restaurante elegante. Ela personifica em seus filmes uma nova ninfo, feliz e realizada, mas cujo desejo nunca cessa. A iniciativa sexual feminina em filmes eróticos criou um novo clichê: a ninfo feliz.

Hollywood compreendeu que era possível levar o mito da ninfomania para os cinemas de grande circuito e para os lares em fitas de vídeo. É possível vender o sexo insaciável como produto erótico, foi a conclusão dos produtores ao lançarem Basic Instinct (Instinto Selvagem), em 1992. Sharon Stone preencheu perfeitamente as exigências que a fantasia dos espectadores pedia para uma ninfomaníaca de consumo fácil. A personagem, escritora, fria e calculista devorava homens e mulheres, que lhe provocassem o apetite. A cena em que descruza as pernas para expor sua intimidade fez história. Sharon escapa ilesa de suas diabruras eróticas.

Os últimos anos foram de múltiplos lançamentos com diferentes versões da ninfomania: Rambling Rose (Rose, uma mulher de fogo) liga à obsessão sexual ao amor; Amateur, de Hal Hartley, ironiza o conceito de ninfo; Chasing Amy (Procura-se Amy) desfaz a imagem machista do desejo insaciável. O mito da ninfomaníaca agoniza.