Dono do 1º estúdio de rap do Ceará começou com um microfone de R$ 15


Rapper cearense que começou com microfone de R$ 15 já fez até tour na Europa

Premiado em Fortaleza e com parcerias do Brooklyn (Nova York) e na França, Erivan fundou o Produtos do Morro, 1º estúdio de rap do Ceará

Por Ana Beatriz Leite em Música

30 de setembro de 2015 às 07:00

Há 4 anos
A Erivan Produtos do Morro Produções de Rap já gravou mais de 30 discos e o produtor deixa o convite: “Qualquer um que tem uma música para gravar pode. É só ligar” (FOTO: Reprodução/Youtube)

A Erivan Produtos do Morro Produções de Rap já gravou mais de 30 discos e o produtor deixa o convite: “Qualquer um que tem uma música para gravar pode. É só ligar” (FOTO: Reprodução/Youtube)

O sonho era o de gravar suas próprias músicas. O obstáculo, o dinheiro. O cachê que recebia tocando na noite da capital era o suficiente para se manter no ramo da música, mas não para arcar com as gravações de um disco. Ao voltar dos shows, sem carro, tinha que subir o morro com os equipamentos na mão.

Naquele momento, trocar as economias destinadas para um automóvel por um computador, um microfone de R$ 15 e uma mesinha de som talvez parecesse loucura. Mas olhando para trás, Erivan Sales, o artista que subia o Santa Terezinha carregando duas malas na madrugada, vê que fez um bom negócio: foram esses equipamentos, ainda sem muita qualidade, que fizeram o 1º estúdio de rap do Ceará e ajudaram a consolidar seu nome, hoje conhecido como Erivan Produtos do Morro.

“Pra mim, chegar de tatuagem e brinco em alguns lugares é o maior escândalo, a maior novela. Ainda tem essa descriminação de escutar rap e até a roupa que o cara veste, acha que é coisa de bandido”. (Erivan Sales)

Durante sua trajetória como produtor, Erivan gravou mais de 30 discos e hoje se orgulha do equipamento topo de linha que conseguiu comprar, “tudo através da música, do rap”. Em sua carreira solo, já passou pela Finlândia e Alemanha, onde teve a oportunidade de tocar em um dos maiores festivais da Europa, o Fusion Festival, e de fazer parceria com artistas de fora.

Neste ano, o rapper fez uma das maiores conquistas de sua carreira, ao vencer a VII Mostra de Música Petrúcio Maia. “Ninguém do rap cearense tinha ganhado um festival desses antes”, se orgulha. Dentre as 100 bandas inscritas, Erivan Produtos do Morro foi um dos três vencedores que, com o prêmio, diz que está “se preparando para ganhar o mundo” e enriquecer ainda mais a sua produção.

Autodidata

Sobrinho de repentistas, quando veio de Ipaumirim para Fortaleza conheceu o grupo de rap que foi o primeiro que ouviu falar na vida, o Conscientes do Sistema. Mas antes disso passou pelo funk, gênero no qual montou seu primeiro projeto musical, ainda sem grandes feitos: “Quando eu cantava funk, além de ser pivete, eu não tinha muita coisa para dizer, porque ainda não tinha vivido muito”, admite. Erivan ouvia e “achava massa” o rap que seus tios faziam, mas a experiência com o gênero, na prática, só veio quando de fã passou para membro do Conscientes do Sistema, grupo que acompanhou durante 10 anos.

Suas produções solo não foram as únicas afetadas pelo fator financeiro, quando ainda decidia entre o carro e o equipamento, e o dinheiro também foi o motivo do fim do grupo de rap do Castelo Encantado. “Se já é difícil viver com rap hoje, imagina um grupo de 12 pessoas naquele tempo, em 99”, explica o rapper. Com os equipamentos que comprou e a habilidade recém-aprendida de produção, Erivan chegou a gravar o último disco da banda antes de gravar seu próprio.

Ao comprar o equipamento, a intenção não era a de se tornar um produtor, mas após esse primeiro disco começou a receber pedidos de outros cantores do morro. Gravando um disco aqui e outro acolá, foi assim que o estúdio se tornou a primeira produtora de rap do estado, a única que trabalha exclusivamente com o gênero ainda hoje. E, já que fica localizado no morro, na residência do artista, porque não Erivan Produtos do Morro Produções de Rap para o nome?

“Aqui em Fortaleza existe essas coisas, panelinhas dos produtores, de sair o edital e ninguém diz pra ninguém”. (Erivan Sales)

Mais que produtor, repentista autoral

Em 2009 Erivan Produtos do Morro lançou seu primeiro CD, “A Vida é Muito Boa Meu Chapa”. O intercâmbio com outros músicos é uma preocupação que tem desde sua primeira produção, em que contou com a participação de Andread Jó, rappers paulistas e o francês Shaolyn Gen Zu.

Seu segundo disco e último lançado, em 2012, “Rap Nacional”, também trouxe artistas a nível nacional, como a cantora cearense Nayra Costa, o paulista Dun Dun, do Facção Central, e o grupo brasiliense Pacificadores.

“Eles vieram aqui em casa e gravaram a participação deles, não é todo artista que faz isso. Às vezes é da favela, mas quando chega em Fortaleza nem olha pro morro. Nem é que são estrela, falta comunicação. Entre os produtores daqui a conexão passa bem longe”, conta Erivan, que faz questão de convidar os colaboradores a seu estúdio para gravar os discos.

Quem tem a oportunidade de conversar com o produtor logo percebe sua humildade. Não é a toa que quando questionada sua opinião quanto à cena musical local, sua maior crítica é quanto à falta de solidariedade entre os colegas de profissão, tanto artistas quanto produtores.

Por esse fator, em 2013 Erivan decidiu sair do país por um tempo: “Eu tava de saco cheio de viver aqui. Aqui em Fortaleza existe essas coisas, panelinhas dos produtores, de sair o edital e ninguém diz pra ninguém. Cansei de ficar muito excluído aqui, de ligarem pra mim só quando precisam. Aí pensei: vou pra um lugar onde me valorizem mais, vou conhecer pessoas novas”.

Foi então que surgiu a oportunidade de ir para a Finlândia, país onde fez sua primeira apresentação internacional, em Jyväsklylä. Durante os três meses que ficou na Europa passou ainda pela Alemanha e gravou materiais com profissionais de fora. Seu novo CD – ainda sem nome – já está gravado, com a parceria desses repentistas que conheceu na Finlândia.

Uma dessas parcerias veio do Brooklyn (NY), com Mr. Lee G, onde Erivan pretende passar uma temporada ainda neste ano. Com o valor exorbitante do dólar, teve que tomar a opção entre viajar e lançar o disco: “o que eu vou fazer é umas 100 cópias do CD para entregar pra galera e depois, quando der, eu lanço”, explica.

O rap ganhando espaço na cena local

“Eu sempre falo das panelinhas, achei que não ia ganhar por causa disso”, comenta sobre a VII Mostra Petrúcio Maia, e se via desiludido com o cenário musical cearense. Sua conquista foi mais que mérito pessoal, foi uma conquista também para o rap de nosso estado, que possuía outro representante entre os finalistas, Pandêro MC.

Com 20 anos de estrada, o rapper conta que com frequência precisa responder a perguntas como “Mas além da música, você trabalha com o quê?”. Se a profissão do músico já não é valorizada, a situação fica pior para quem trabalha com gêneros como hip-hop e funk, conhecidos pela forte presença nas favelas e morros.

A descriminação não é só em relação ao rap enquanto música, mas se estende para a forma de se vestir e falar. “Pra mim, chegar de tatuagem e brinco em alguns lugares é o maior escândalo, a maior novela. Querendo ou não, ainda tem essa descriminação de escutar rap e até a roupa que o cara veste, acha que é coisa de bandido. Existe esse preconceito de nunca ser tratado com respeito”, desabafa.

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Com dois discos lançados, o terceiro CD de Erivan Produtos do Morro já está gravado e aguardando o lançamento (FOTO: Divulgação)

Mas pouco a pouco o rap conquista seu espaço, como o comprovado pela conquista do produtor na mostra que é referência na música independente do estado. Durante muitos anos o Erivan Produtos do Morro Produções de Rap foi o único estúdio a gravar o gênero na cidade, mas hoje já existem outras, além de vários artistas que se dedicam ao hip-hop e suas vertentes.

A mensagem de Erivan é de motivação: “a descriminação existe mas a gente vai acabar com isso, uma hora ou outra”. E para o público deixa o convite para deixar o preconceito de lado e conhecer a Praça do Mirante do conjunto Santa Terezinha, o ponto mais alto da cidade, que foi recentemente revitalizada, além – é claro – do convite aos rappers: “Qualquer um que tem uma música para gravar pode. É só ligar”.

Serviço
“Erivan Produtos do Morro Produções de Rap”
Avenida dos Jangadeiros, 265 – Castelo Encantado
Segunda a sábado, das 8h às 22h
Contato: (85) 98816.2365 / (85) 99645.4056

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Rapper cearense que começou com microfone de R$ 15 já fez até tour na Europa

Premiado em Fortaleza e com parcerias do Brooklyn (Nova York) e na França, Erivan fundou o Produtos do Morro, 1º estúdio de rap do Ceará

Por Ana Beatriz Leite em Música

30 de setembro de 2015 às 07:00

Há 4 anos
A Erivan Produtos do Morro Produções de Rap já gravou mais de 30 discos e o produtor deixa o convite: “Qualquer um que tem uma música para gravar pode. É só ligar” (FOTO: Reprodução/Youtube)

A Erivan Produtos do Morro Produções de Rap já gravou mais de 30 discos e o produtor deixa o convite: “Qualquer um que tem uma música para gravar pode. É só ligar” (FOTO: Reprodução/Youtube)

O sonho era o de gravar suas próprias músicas. O obstáculo, o dinheiro. O cachê que recebia tocando na noite da capital era o suficiente para se manter no ramo da música, mas não para arcar com as gravações de um disco. Ao voltar dos shows, sem carro, tinha que subir o morro com os equipamentos na mão.

Naquele momento, trocar as economias destinadas para um automóvel por um computador, um microfone de R$ 15 e uma mesinha de som talvez parecesse loucura. Mas olhando para trás, Erivan Sales, o artista que subia o Santa Terezinha carregando duas malas na madrugada, vê que fez um bom negócio: foram esses equipamentos, ainda sem muita qualidade, que fizeram o 1º estúdio de rap do Ceará e ajudaram a consolidar seu nome, hoje conhecido como Erivan Produtos do Morro.

“Pra mim, chegar de tatuagem e brinco em alguns lugares é o maior escândalo, a maior novela. Ainda tem essa descriminação de escutar rap e até a roupa que o cara veste, acha que é coisa de bandido”. (Erivan Sales)

Durante sua trajetória como produtor, Erivan gravou mais de 30 discos e hoje se orgulha do equipamento topo de linha que conseguiu comprar, “tudo através da música, do rap”. Em sua carreira solo, já passou pela Finlândia e Alemanha, onde teve a oportunidade de tocar em um dos maiores festivais da Europa, o Fusion Festival, e de fazer parceria com artistas de fora.

Neste ano, o rapper fez uma das maiores conquistas de sua carreira, ao vencer a VII Mostra de Música Petrúcio Maia. “Ninguém do rap cearense tinha ganhado um festival desses antes”, se orgulha. Dentre as 100 bandas inscritas, Erivan Produtos do Morro foi um dos três vencedores que, com o prêmio, diz que está “se preparando para ganhar o mundo” e enriquecer ainda mais a sua produção.

Autodidata

Sobrinho de repentistas, quando veio de Ipaumirim para Fortaleza conheceu o grupo de rap que foi o primeiro que ouviu falar na vida, o Conscientes do Sistema. Mas antes disso passou pelo funk, gênero no qual montou seu primeiro projeto musical, ainda sem grandes feitos: “Quando eu cantava funk, além de ser pivete, eu não tinha muita coisa para dizer, porque ainda não tinha vivido muito”, admite. Erivan ouvia e “achava massa” o rap que seus tios faziam, mas a experiência com o gênero, na prática, só veio quando de fã passou para membro do Conscientes do Sistema, grupo que acompanhou durante 10 anos.

Suas produções solo não foram as únicas afetadas pelo fator financeiro, quando ainda decidia entre o carro e o equipamento, e o dinheiro também foi o motivo do fim do grupo de rap do Castelo Encantado. “Se já é difícil viver com rap hoje, imagina um grupo de 12 pessoas naquele tempo, em 99”, explica o rapper. Com os equipamentos que comprou e a habilidade recém-aprendida de produção, Erivan chegou a gravar o último disco da banda antes de gravar seu próprio.

Ao comprar o equipamento, a intenção não era a de se tornar um produtor, mas após esse primeiro disco começou a receber pedidos de outros cantores do morro. Gravando um disco aqui e outro acolá, foi assim que o estúdio se tornou a primeira produtora de rap do estado, a única que trabalha exclusivamente com o gênero ainda hoje. E, já que fica localizado no morro, na residência do artista, porque não Erivan Produtos do Morro Produções de Rap para o nome?

“Aqui em Fortaleza existe essas coisas, panelinhas dos produtores, de sair o edital e ninguém diz pra ninguém”. (Erivan Sales)

Mais que produtor, repentista autoral

Em 2009 Erivan Produtos do Morro lançou seu primeiro CD, “A Vida é Muito Boa Meu Chapa”. O intercâmbio com outros músicos é uma preocupação que tem desde sua primeira produção, em que contou com a participação de Andread Jó, rappers paulistas e o francês Shaolyn Gen Zu.

Seu segundo disco e último lançado, em 2012, “Rap Nacional”, também trouxe artistas a nível nacional, como a cantora cearense Nayra Costa, o paulista Dun Dun, do Facção Central, e o grupo brasiliense Pacificadores.

“Eles vieram aqui em casa e gravaram a participação deles, não é todo artista que faz isso. Às vezes é da favela, mas quando chega em Fortaleza nem olha pro morro. Nem é que são estrela, falta comunicação. Entre os produtores daqui a conexão passa bem longe”, conta Erivan, que faz questão de convidar os colaboradores a seu estúdio para gravar os discos.

Quem tem a oportunidade de conversar com o produtor logo percebe sua humildade. Não é a toa que quando questionada sua opinião quanto à cena musical local, sua maior crítica é quanto à falta de solidariedade entre os colegas de profissão, tanto artistas quanto produtores.

Por esse fator, em 2013 Erivan decidiu sair do país por um tempo: “Eu tava de saco cheio de viver aqui. Aqui em Fortaleza existe essas coisas, panelinhas dos produtores, de sair o edital e ninguém diz pra ninguém. Cansei de ficar muito excluído aqui, de ligarem pra mim só quando precisam. Aí pensei: vou pra um lugar onde me valorizem mais, vou conhecer pessoas novas”.

Foi então que surgiu a oportunidade de ir para a Finlândia, país onde fez sua primeira apresentação internacional, em Jyväsklylä. Durante os três meses que ficou na Europa passou ainda pela Alemanha e gravou materiais com profissionais de fora. Seu novo CD – ainda sem nome – já está gravado, com a parceria desses repentistas que conheceu na Finlândia.

Uma dessas parcerias veio do Brooklyn (NY), com Mr. Lee G, onde Erivan pretende passar uma temporada ainda neste ano. Com o valor exorbitante do dólar, teve que tomar a opção entre viajar e lançar o disco: “o que eu vou fazer é umas 100 cópias do CD para entregar pra galera e depois, quando der, eu lanço”, explica.

O rap ganhando espaço na cena local

“Eu sempre falo das panelinhas, achei que não ia ganhar por causa disso”, comenta sobre a VII Mostra Petrúcio Maia, e se via desiludido com o cenário musical cearense. Sua conquista foi mais que mérito pessoal, foi uma conquista também para o rap de nosso estado, que possuía outro representante entre os finalistas, Pandêro MC.

Com 20 anos de estrada, o rapper conta que com frequência precisa responder a perguntas como “Mas além da música, você trabalha com o quê?”. Se a profissão do músico já não é valorizada, a situação fica pior para quem trabalha com gêneros como hip-hop e funk, conhecidos pela forte presença nas favelas e morros.

A descriminação não é só em relação ao rap enquanto música, mas se estende para a forma de se vestir e falar. “Pra mim, chegar de tatuagem e brinco em alguns lugares é o maior escândalo, a maior novela. Querendo ou não, ainda tem essa descriminação de escutar rap e até a roupa que o cara veste, acha que é coisa de bandido. Existe esse preconceito de nunca ser tratado com respeito”, desabafa.

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Com dois discos lançados, o terceiro CD de Erivan Produtos do Morro já está gravado e aguardando o lançamento (FOTO: Divulgação)

Mas pouco a pouco o rap conquista seu espaço, como o comprovado pela conquista do produtor na mostra que é referência na música independente do estado. Durante muitos anos o Erivan Produtos do Morro Produções de Rap foi o único estúdio a gravar o gênero na cidade, mas hoje já existem outras, além de vários artistas que se dedicam ao hip-hop e suas vertentes.

A mensagem de Erivan é de motivação: “a descriminação existe mas a gente vai acabar com isso, uma hora ou outra”. E para o público deixa o convite para deixar o preconceito de lado e conhecer a Praça do Mirante do conjunto Santa Terezinha, o ponto mais alto da cidade, que foi recentemente revitalizada, além – é claro – do convite aos rappers: “Qualquer um que tem uma música para gravar pode. É só ligar”.

Serviço
“Erivan Produtos do Morro Produções de Rap”
Avenida dos Jangadeiros, 265 – Castelo Encantado
Segunda a sábado, das 8h às 22h
Contato: (85) 98816.2365 / (85) 99645.4056