Crítica: "Elysium" é um superprodução inteligente


Crítica: “Elysium” é um superprodução inteligente

Ficção do mesmo diretor de Distrito 9 acerta ao balancear a crítica social com ótimos efeitos especiais e cenas de ação

Por Thiago Sampaio em Cinema

25 de setembro de 2013 às 19:19

Há 6 anos
Elysium

“Elysium” (FOTO: Sony/divulgação)

“Elysium” é uma superprodução inteligente

Longas metragens abordando um futuro pós-apocalíptico não são novidades na indústria. Desde cults como a saga Mad Max (1979; 1981; 1985) e Fuga de Nova York (1981), até os mais recentes Eu Sou a Lenda (2007), A Estrada (2009) e a excepcional animação Wall-E (2008), a fórmula já foi bastante revirada por Hollywood.

Este Elysium (2013) não foge à regra, mas consegue se destacar pelo bem elaborado contexto político e social, sem perder as raízes de superprodução.

Trama

A trama se passa em 2154, em um mundo dividido entre dois grupos: o primeiro, riquíssimo, mora na estação espacial Elysium, enquanto o segundo, em situação de extrema pobreza, vive na Terra. Nesse contexto, a secretária do governo Rhodes (Jodie Foster) faz de tudo para preservar o estilo de vida luxuoso de uma minoria favorecida. Enquanto isso, na terra, o ex-presidiário Max Da Costa (Matt Damon) entra em uma missão para salvar a própria vida, mas que pode trazer de volta a igualdade entre os humanos.

Diretor/roteirista

Dirigido pelo eficiente Neill Blomkamp, que surpreendeu o mundo logo em seu longa de estreia, o indicado ao Oscar de Melhor Filme Distrito 9 (2009), desmistificando o apartheid ao trazer alienígenas como escravos em plena Johannesburgo nos dias atuais, ele agora repete o teor crítico em Elysium. A diferença é que, ao invés de seguir uma linha quase documental como no anterior, a nova produção segue uma condução sem muitas invenções e repleta de ação, ingredientes que devem torná-la mais digerível ao grande público.

O roteiro, do próprio Blomkamp, deixa de lado os ETs para transformar os próprios humanos como os desagregadores da Terra. Mesmo clichê, não deixa de ser interessante a abordagem de o planeta Terra ser retratado como um único país subdesenvolvido, enquanto a Elysium transpira tecnologia de ponta, em exagerados tons brancos, contando com androides para manter a “relação” com os subalternos. As dificuldades para emigração, assim como as existentes no mundo real entre países em busca de uma vida melhor, também estão bem contextualizadas.

Multiétnico

Mas o mais interessante da ficção é a ideia de trazer o mundo como uma imensa quantidade de etnias, misturando raças e nacionalidades à beira do abismo. O melhor amigo do protagonista, Julio (Diego Luna), é espanhol; a secretária Delacourt (Foster) fala muitas vezes em francês; o vilão é o sul-africano Kruger (Sharlto Copley) – que deixa bem claro exibindo a bandeira da África do Sul na aeronave; além dos brasileiros Frey (Alice Braga) e Spider (Wagner Moura) – que exibe uma tatuagem do país no braço. Até Max da Costa (Damon) não pode ser considerado um americano puro, devido o sobrenome. É, Blomkamp imaginou o “mundo como um só” bem diferente do que John Lennon cantou nos anos 70.

Contexto

O problema é que, mesmo em um contexto futurista tão interessante, onde os “rebeldes” são em maioria negros, pobres e latinos, o diretor opta muitas vezes pela ação em demasia do que em se aprofundar nessas causas. Em algumas passagens, o longa se transforma em mais um blockbuster que poderia ser dirigido por Michael Bay (da trilogia “Transformers”). Apesar de muitos detalhes interessantes, como o exoesqueleto mecânico implantado no protagonista e máquinas de cura para qualquer doença, não deixa de ser estranho o fato de existir uma “cápsula curadora” a alguns passos de quem cai aleatoriamente em qualquer lugar da Elysium.

Efeitos especiais

Mesmo assim, não tem como negar que as cenas de ação são conduzidas com muitas eficiência, contando com excelentes efeitos especiais. Tiroteios com armas laser surgem em menor proporção, dando vez a bem coreografados combates corporais (percebe-se muito técnicas de Muay Thai e Jiu-Jitsu) e violência sem contenção. Destaque para a correria no clímax, que inclui o duelo entre os personagens de Matt Damon, Sharlto Copley e Wagner Moura (sim, o brasileiro aparece até um bocado e tem grande importância).

Elysium (1)

“Elysium” (FOTO: Sony/divulgação)

Elenco

Muito do destaque da produção se deve à força do elenco. Matt Damon mistura um humor sarcástico e irreverente de início, com a sua frieza já mostrada na “Saga Bourne”, mudança de semblante justamente após a cirurgia que o deixa “meio máquina”. Por outro lado, Jodie Foster e Alice Braga têm pouca visibilidade por conta do tratamento do roteiro, ambas ficando limitadas aos papeis de autoridade impiedosa e interesse romântico do protagonista, respectivamente.

Quem rouba a cena é Wagner Moura. É sério! Não é bairrismo! Com um personagem escrito de maneira divertida propositalmente, o brasileiro dá o seu toque pessoal ao trazer expressões completamente lunáticas e trejeitos próprios. Outro destaque é Sharlto Copley, ator sul-africano que repete a parceria de Distrito 9 com Neill Blomkamp. Com seu sotaque carregado e um humor peculiar, ele consegue criar empatia com o espectador, mesmo com o vilão tão sádico.

Elysium pode não concorrer a prêmios e nem entrar em listas de melhores produções do ano. Mas não tem como negar que essa inusitada crítica social rendeu um “filme-pipoca” que consegue ir um pouco além do que a diversão passageira e alguns agrados visuais. Nos dias de hoje, isso é admirável!

Termo vetor   segunda versão   DEITADA   8

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Crítica: “Elysium” é um superprodução inteligente

Ficção do mesmo diretor de Distrito 9 acerta ao balancear a crítica social com ótimos efeitos especiais e cenas de ação

Por Thiago Sampaio em Cinema

25 de setembro de 2013 às 19:19

Há 6 anos
Elysium

“Elysium” (FOTO: Sony/divulgação)

“Elysium” é uma superprodução inteligente

Longas metragens abordando um futuro pós-apocalíptico não são novidades na indústria. Desde cults como a saga Mad Max (1979; 1981; 1985) e Fuga de Nova York (1981), até os mais recentes Eu Sou a Lenda (2007), A Estrada (2009) e a excepcional animação Wall-E (2008), a fórmula já foi bastante revirada por Hollywood.

Este Elysium (2013) não foge à regra, mas consegue se destacar pelo bem elaborado contexto político e social, sem perder as raízes de superprodução.

Trama

A trama se passa em 2154, em um mundo dividido entre dois grupos: o primeiro, riquíssimo, mora na estação espacial Elysium, enquanto o segundo, em situação de extrema pobreza, vive na Terra. Nesse contexto, a secretária do governo Rhodes (Jodie Foster) faz de tudo para preservar o estilo de vida luxuoso de uma minoria favorecida. Enquanto isso, na terra, o ex-presidiário Max Da Costa (Matt Damon) entra em uma missão para salvar a própria vida, mas que pode trazer de volta a igualdade entre os humanos.

Diretor/roteirista

Dirigido pelo eficiente Neill Blomkamp, que surpreendeu o mundo logo em seu longa de estreia, o indicado ao Oscar de Melhor Filme Distrito 9 (2009), desmistificando o apartheid ao trazer alienígenas como escravos em plena Johannesburgo nos dias atuais, ele agora repete o teor crítico em Elysium. A diferença é que, ao invés de seguir uma linha quase documental como no anterior, a nova produção segue uma condução sem muitas invenções e repleta de ação, ingredientes que devem torná-la mais digerível ao grande público.

O roteiro, do próprio Blomkamp, deixa de lado os ETs para transformar os próprios humanos como os desagregadores da Terra. Mesmo clichê, não deixa de ser interessante a abordagem de o planeta Terra ser retratado como um único país subdesenvolvido, enquanto a Elysium transpira tecnologia de ponta, em exagerados tons brancos, contando com androides para manter a “relação” com os subalternos. As dificuldades para emigração, assim como as existentes no mundo real entre países em busca de uma vida melhor, também estão bem contextualizadas.

Multiétnico

Mas o mais interessante da ficção é a ideia de trazer o mundo como uma imensa quantidade de etnias, misturando raças e nacionalidades à beira do abismo. O melhor amigo do protagonista, Julio (Diego Luna), é espanhol; a secretária Delacourt (Foster) fala muitas vezes em francês; o vilão é o sul-africano Kruger (Sharlto Copley) – que deixa bem claro exibindo a bandeira da África do Sul na aeronave; além dos brasileiros Frey (Alice Braga) e Spider (Wagner Moura) – que exibe uma tatuagem do país no braço. Até Max da Costa (Damon) não pode ser considerado um americano puro, devido o sobrenome. É, Blomkamp imaginou o “mundo como um só” bem diferente do que John Lennon cantou nos anos 70.

Contexto

O problema é que, mesmo em um contexto futurista tão interessante, onde os “rebeldes” são em maioria negros, pobres e latinos, o diretor opta muitas vezes pela ação em demasia do que em se aprofundar nessas causas. Em algumas passagens, o longa se transforma em mais um blockbuster que poderia ser dirigido por Michael Bay (da trilogia “Transformers”). Apesar de muitos detalhes interessantes, como o exoesqueleto mecânico implantado no protagonista e máquinas de cura para qualquer doença, não deixa de ser estranho o fato de existir uma “cápsula curadora” a alguns passos de quem cai aleatoriamente em qualquer lugar da Elysium.

Efeitos especiais

Mesmo assim, não tem como negar que as cenas de ação são conduzidas com muitas eficiência, contando com excelentes efeitos especiais. Tiroteios com armas laser surgem em menor proporção, dando vez a bem coreografados combates corporais (percebe-se muito técnicas de Muay Thai e Jiu-Jitsu) e violência sem contenção. Destaque para a correria no clímax, que inclui o duelo entre os personagens de Matt Damon, Sharlto Copley e Wagner Moura (sim, o brasileiro aparece até um bocado e tem grande importância).

Elysium (1)

“Elysium” (FOTO: Sony/divulgação)

Elenco

Muito do destaque da produção se deve à força do elenco. Matt Damon mistura um humor sarcástico e irreverente de início, com a sua frieza já mostrada na “Saga Bourne”, mudança de semblante justamente após a cirurgia que o deixa “meio máquina”. Por outro lado, Jodie Foster e Alice Braga têm pouca visibilidade por conta do tratamento do roteiro, ambas ficando limitadas aos papeis de autoridade impiedosa e interesse romântico do protagonista, respectivamente.

Quem rouba a cena é Wagner Moura. É sério! Não é bairrismo! Com um personagem escrito de maneira divertida propositalmente, o brasileiro dá o seu toque pessoal ao trazer expressões completamente lunáticas e trejeitos próprios. Outro destaque é Sharlto Copley, ator sul-africano que repete a parceria de Distrito 9 com Neill Blomkamp. Com seu sotaque carregado e um humor peculiar, ele consegue criar empatia com o espectador, mesmo com o vilão tão sádico.

Elysium pode não concorrer a prêmios e nem entrar em listas de melhores produções do ano. Mas não tem como negar que essa inusitada crítica social rendeu um “filme-pipoca” que consegue ir um pouco além do que a diversão passageira e alguns agrados visuais. Nos dias de hoje, isso é admirável!

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