Bons textos não envelhecem: Lisbon Revisited (1923) – Álvaro de Campos 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Bons textos não envelhecem: Lisbon Revisited (1923) – Álvaro de Campos

Por Wanfil em Textos escolhidos

19 de agosto de 2012

Vamos lá. Domingo é dia de arejar o blog. Reproduzo abaixo um dos textos preferidos de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). Faço alguns comentários ao final.

O poeta Fernando Pessoa, retratado em tela do também português Júlio Pomar

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas.
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Breves comentários

* Lisbon Revisited é classificada por alguns críticos como uma poesia de sua fase pessimista. Eu, no entanto, o encaro como uma expressão de estabilidade, e não de lamento ou rancor. O estar sozinho de Pessoa é ter a consciência plena – atributo individual e intransferível – de suas próprias opções, limites, erros e acertos. É, a meu ver, a maturidade, livre das pressões de grupo e dos modismos influentes, indiferente ao patrulhamento ideológico e filosófico, enfim, que renega a popularidade adquirida pela adesão ao status quo.

* O texto é um desabafo e um libelo contra o espírito de manada. Por isso o “Não me peguem no braço”, protesto de quem não deseja ser conduzido ou guiado, que não abdica do direito de ser “doido”, ou seja, de não acatar os consensos gerais.

* Como o título indica, Lisboa é revisitada pelo poeta, que não mais se enxerga na cidade: “nada sois que me sinta”. Quando ganhamos o mundo, conhecimento e experiência, o lugar do passado, se não muda conosco, deixa de ser referência e certos modos de ver a vida, tradições, provincianismos, vícios e convenções perdem o sentido.

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Bons textos não envelhecem: Lisbon Revisited (1923) – Álvaro de Campos

Por Wanfil em Textos escolhidos

19 de agosto de 2012

Vamos lá. Domingo é dia de arejar o blog. Reproduzo abaixo um dos textos preferidos de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935). Faço alguns comentários ao final.

O poeta Fernando Pessoa, retratado em tela do também português Júlio Pomar

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas.
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) — Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Breves comentários

* Lisbon Revisited é classificada por alguns críticos como uma poesia de sua fase pessimista. Eu, no entanto, o encaro como uma expressão de estabilidade, e não de lamento ou rancor. O estar sozinho de Pessoa é ter a consciência plena – atributo individual e intransferível – de suas próprias opções, limites, erros e acertos. É, a meu ver, a maturidade, livre das pressões de grupo e dos modismos influentes, indiferente ao patrulhamento ideológico e filosófico, enfim, que renega a popularidade adquirida pela adesão ao status quo.

* O texto é um desabafo e um libelo contra o espírito de manada. Por isso o “Não me peguem no braço”, protesto de quem não deseja ser conduzido ou guiado, que não abdica do direito de ser “doido”, ou seja, de não acatar os consensos gerais.

* Como o título indica, Lisboa é revisitada pelo poeta, que não mais se enxerga na cidade: “nada sois que me sinta”. Quando ganhamos o mundo, conhecimento e experiência, o lugar do passado, se não muda conosco, deixa de ser referência e certos modos de ver a vida, tradições, provincianismos, vícios e convenções perdem o sentido.