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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

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Dica de livro: A queda – o relato de um amor verdadeiramente incondicional

Por Wanfil em Livros

27 de dezembro de 2012

Lançado em agosto de 2012, A Queda, de Diogo Mainardi, está na 3ª edição no Brasil. Uma experiência que poderia ser deprimente foi transformada em aprendizado enriquecedor.

Ganhei num desses amigos secretos de final de ano, o livro A Queda, do polêmico escritor e jornalista Diogo Mainardi, “as memórias de um pai em 424 passos”. Trata-se de um relato sobre Tito, filho do autor que nasceu com paralisia cerebral devido a um erro médico. Como eu estava no meio de uma outra leitura — Os Demônios, de Dostoiévski –, imaginei deixar A Queda na fila de livros que tenho e ainda não li.

No entanto, manuseando o presente, resolvi conferir as orelhas e a contracapa. Depois, sem maiores pretensões, li o primeiro parágrafo. Fui fisgado. Terminei a leitura das 150 páginas em pouco mais de um dia.

Não há no relato de Mainardi momentos de autocomiseração, lições de como lidar com o infortúnio, mensagens de esperança e de perseverança, lamentos inúteis, homenagens religiosas, confissões de culpas ou apelos sentimentais. Pelo contrário, em muitas passagens, o texto é marcado pela ironia, pelo sarcasmo e pelo estoicismo.

Estilo

A narrativa é uma habilidosa construção onde a experiência pessoal do autor, às voltas com as descobertas e os desafios impostos pela enfermidade do filho, é costurada a uma série de referências culturais (sobretudo a pintura, a escultura e a literatura), históricas (do Renascimento ao nazismo) e do pop (da banda U2 a jogos de videogame), demonstrando uma erudição refinada, porém, agradável, sem afetação. É leitura enriquecedora, com certeza.

Em A Queda, Mainardi consegue adaptar para a literatura o estilo desenvolvido em seus artigos: a capacidade de sintetizar conceitos complexos em frases curtas e diretas. A estrutura narrativa é feita de forma semelhante, com passagens breves sobre variados temas, sempre ligados, de maneira inesperada e bonita, à paralisia cerebral de Tito. A meu ver, o maior desafio de um escritor é ter um estilo próprio. Isso é resultado de leitura, de absorção de outros estilos, de prática, até que se feche a gestalt literária para, então, criar sua marca de identidade.

A mensagem

E ainda assim, com toda a erudição e todo o sarcasmo, o que prevalece do enredo é o amor incondicional de um pai por um filho. Incondicional porque não cobra reconhecimento, não espera retorno, não exige nada em troca. Incondicional porque não lamenta, em momento algum, o destino. Incondicional porque é doação que não se entende por doação. Mainardi revela, de forma indireta, que a gratidão é dele para com o filho enfermiço, que o fez ver como a família é o centro da vida e tudo o mais é passageiro e fugaz.

A Queda é uma referência às tentativas que Tito faz de caminhar sozinho. Ao pai, resta-lhe cuidar para que o tombo não se faça doloroso, sua missão é a de acudi-lo sempre. “Suas quedas recordam-me permanentemente da precariedade e da transitoriedade de tudo o que eu tentei construir”.

Encerro com a transcrição de uma passagem na qual o autor explica o que o motivou a escrever o livro:

“… Marcel Proust pensa em escrever um livro sobre o seu passado, porque para interpretar os sentimentos era necessário, antes de tudo, transformá-lo em ideias, ‘convertendo-os em sem equivalente intelectual’.

O livro que ele pensa em escrever é o próprio Em Busca do Tempo Perdido. (…)

O livro que converte meus sentimentos em seu equivalente intelectual é este aqui”.

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Dica de livro: A queda – o relato de um amor verdadeiramente incondicional

Por Wanfil em Livros

27 de dezembro de 2012

Lançado em agosto de 2012, A Queda, de Diogo Mainardi, está na 3ª edição no Brasil. Uma experiência que poderia ser deprimente foi transformada em aprendizado enriquecedor.

Ganhei num desses amigos secretos de final de ano, o livro A Queda, do polêmico escritor e jornalista Diogo Mainardi, “as memórias de um pai em 424 passos”. Trata-se de um relato sobre Tito, filho do autor que nasceu com paralisia cerebral devido a um erro médico. Como eu estava no meio de uma outra leitura — Os Demônios, de Dostoiévski –, imaginei deixar A Queda na fila de livros que tenho e ainda não li.

No entanto, manuseando o presente, resolvi conferir as orelhas e a contracapa. Depois, sem maiores pretensões, li o primeiro parágrafo. Fui fisgado. Terminei a leitura das 150 páginas em pouco mais de um dia.

Não há no relato de Mainardi momentos de autocomiseração, lições de como lidar com o infortúnio, mensagens de esperança e de perseverança, lamentos inúteis, homenagens religiosas, confissões de culpas ou apelos sentimentais. Pelo contrário, em muitas passagens, o texto é marcado pela ironia, pelo sarcasmo e pelo estoicismo.

Estilo

A narrativa é uma habilidosa construção onde a experiência pessoal do autor, às voltas com as descobertas e os desafios impostos pela enfermidade do filho, é costurada a uma série de referências culturais (sobretudo a pintura, a escultura e a literatura), históricas (do Renascimento ao nazismo) e do pop (da banda U2 a jogos de videogame), demonstrando uma erudição refinada, porém, agradável, sem afetação. É leitura enriquecedora, com certeza.

Em A Queda, Mainardi consegue adaptar para a literatura o estilo desenvolvido em seus artigos: a capacidade de sintetizar conceitos complexos em frases curtas e diretas. A estrutura narrativa é feita de forma semelhante, com passagens breves sobre variados temas, sempre ligados, de maneira inesperada e bonita, à paralisia cerebral de Tito. A meu ver, o maior desafio de um escritor é ter um estilo próprio. Isso é resultado de leitura, de absorção de outros estilos, de prática, até que se feche a gestalt literária para, então, criar sua marca de identidade.

A mensagem

E ainda assim, com toda a erudição e todo o sarcasmo, o que prevalece do enredo é o amor incondicional de um pai por um filho. Incondicional porque não cobra reconhecimento, não espera retorno, não exige nada em troca. Incondicional porque não lamenta, em momento algum, o destino. Incondicional porque é doação que não se entende por doação. Mainardi revela, de forma indireta, que a gratidão é dele para com o filho enfermiço, que o fez ver como a família é o centro da vida e tudo o mais é passageiro e fugaz.

A Queda é uma referência às tentativas que Tito faz de caminhar sozinho. Ao pai, resta-lhe cuidar para que o tombo não se faça doloroso, sua missão é a de acudi-lo sempre. “Suas quedas recordam-me permanentemente da precariedade e da transitoriedade de tudo o que eu tentei construir”.

Encerro com a transcrição de uma passagem na qual o autor explica o que o motivou a escrever o livro:

“… Marcel Proust pensa em escrever um livro sobre o seu passado, porque para interpretar os sentimentos era necessário, antes de tudo, transformá-lo em ideias, ‘convertendo-os em sem equivalente intelectual’.

O livro que ele pensa em escrever é o próprio Em Busca do Tempo Perdido. (…)

O livro que converte meus sentimentos em seu equivalente intelectual é este aqui”.