Aborto é o que é, mesmo se praticado contra anencéfalos - Blog do Wanfil 
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Blog do Wanfil

por Wanderley Filho

Aborto é o que é, mesmo se praticado contra anencéfalos

Por Wanfil em Judiciário

12 de Abril de 2012

Mesmo se praticado contra anencéfalos, aborto consiste na destruição de fetos

O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou para esta quinta  o julgamento da ação que pede a descriminalização do aborto no caso de gravidez de feto anencéfalo. Dos 11 ministros, seis já votaram, sendo cinco a favor da mulher ter a opção de interromper a gestação de fetos sem cérebro. Trata-se agora de uma formalidade, pois os demais ministros devem acompanhar a liberação do aborto de crianças sem cérebro.

Naturalmente, o episódio gera discussões entre os que desejam estabelecer normas científicas para definir quando e como começa (ou termina) a vida, e os que acreditam na inviolabilidade do corpo e de toda forma de vida, crença que é uma das principais conquistas da civilização cristã ocidental. Argumentações de ordem religiosa estão, no debate público, praticamente interditadas, acusadas de crendice. Hoje, como sabemos, a fé mais elegante é aquela professada em nome da ciência.

O fato é que aborto consiste em interrupção de uma vida. O assunto, incontornável, é sobre a possibilidade de matar um ser vivo. Palavras podem ser duras, mas não mudam a essência do que se discute. O anencéfalo raramente tem sobrevida longa. Em 2007 houve um caso de uma menina, Marcela de Jesus Galante Ferreira, que sobreviveu um ano e oito meses, devido ao tronco encefálico. Anencéfalos são seres desprovidos de vida? O que é vida? Para além dessas dúvidas, para os pais, a falta de perspectiva de desenvolvimento de uma vida normal é um drama indescritível. A decisão do STF não obriga ninguém a abortar. A rigor, essa será sempre uma decisão de foro íntimo, como já é na prática. Mas o peso da lei confere uma aparência de que não existe dilema na questão. Mas ele existe e sempre existirá.

Caso real
Sei o que é ter entes queridos envolvidos com gestação de anencéfalo. Em 2006, minha cunhada, grávida de 3 meses, descobriu que a filha que esperava era anencéfala. A orientação do médico obstetra, profissional conhecido, foi o aborto – mesmo sendo crime. Ele indicou, inclusive, endereços onde o medicamento abortivo Citotec poderia ser comprado. Não faltaram pessoas bem intencionadas que também acreditaram que o melhor a fazer era por fim a tudo imediatamente, pois aquele seria um sofrimento desnecessário.

A mãe, naturalmente impactada pela dor, mas sentido a criança que – atenção! – VIVIA em seu corpo, decidiu não matar a própria filha. A criança apresentava movimentos e reações semelhantes de gestações normais. Era menina e se mexia no útero que a abrigava. Minha cunhada foi em frente e levou a gravidez até o fim. Muitos também foram os que a apoiaram nessa hora difícil. A pequena Sofia nasceu, sobreviveu algumas horas, o bastante para tocar a todos com sua vontade de viver.

A mãe hoje vive com a certeza de que fez o que pôde pela filha, que a amou. Depois do sofrimento, ela pode dormir sem o remorso de ter privado aquela pequenina do direito de nascer e viver, ainda que brevemente. E sente saudades da filha, apesar da curta convivência. Nós a respeitamos mais do que nunca. E nos congratulamos pela sensação de missão cumprida. Depois disso, ela teve outra filha, saudável e perfeita.

Um alerta
O único ministro que votou contra o aborto de anencéfalos, Ricardo Lewandowsk, alegou que o objeto da ação não é da alçada do judiciário, mas do legislativo. Perfeito!

 

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Aborto é o que é, mesmo se praticado contra anencéfalos

Por Wanfil em Judiciário

12 de Abril de 2012

Mesmo se praticado contra anencéfalos, aborto consiste na destruição de fetos

O Supremo Tribunal Federal (STF) adiou para esta quinta  o julgamento da ação que pede a descriminalização do aborto no caso de gravidez de feto anencéfalo. Dos 11 ministros, seis já votaram, sendo cinco a favor da mulher ter a opção de interromper a gestação de fetos sem cérebro. Trata-se agora de uma formalidade, pois os demais ministros devem acompanhar a liberação do aborto de crianças sem cérebro.

Naturalmente, o episódio gera discussões entre os que desejam estabelecer normas científicas para definir quando e como começa (ou termina) a vida, e os que acreditam na inviolabilidade do corpo e de toda forma de vida, crença que é uma das principais conquistas da civilização cristã ocidental. Argumentações de ordem religiosa estão, no debate público, praticamente interditadas, acusadas de crendice. Hoje, como sabemos, a fé mais elegante é aquela professada em nome da ciência.

O fato é que aborto consiste em interrupção de uma vida. O assunto, incontornável, é sobre a possibilidade de matar um ser vivo. Palavras podem ser duras, mas não mudam a essência do que se discute. O anencéfalo raramente tem sobrevida longa. Em 2007 houve um caso de uma menina, Marcela de Jesus Galante Ferreira, que sobreviveu um ano e oito meses, devido ao tronco encefálico. Anencéfalos são seres desprovidos de vida? O que é vida? Para além dessas dúvidas, para os pais, a falta de perspectiva de desenvolvimento de uma vida normal é um drama indescritível. A decisão do STF não obriga ninguém a abortar. A rigor, essa será sempre uma decisão de foro íntimo, como já é na prática. Mas o peso da lei confere uma aparência de que não existe dilema na questão. Mas ele existe e sempre existirá.

Caso real
Sei o que é ter entes queridos envolvidos com gestação de anencéfalo. Em 2006, minha cunhada, grávida de 3 meses, descobriu que a filha que esperava era anencéfala. A orientação do médico obstetra, profissional conhecido, foi o aborto – mesmo sendo crime. Ele indicou, inclusive, endereços onde o medicamento abortivo Citotec poderia ser comprado. Não faltaram pessoas bem intencionadas que também acreditaram que o melhor a fazer era por fim a tudo imediatamente, pois aquele seria um sofrimento desnecessário.

A mãe, naturalmente impactada pela dor, mas sentido a criança que – atenção! – VIVIA em seu corpo, decidiu não matar a própria filha. A criança apresentava movimentos e reações semelhantes de gestações normais. Era menina e se mexia no útero que a abrigava. Minha cunhada foi em frente e levou a gravidez até o fim. Muitos também foram os que a apoiaram nessa hora difícil. A pequena Sofia nasceu, sobreviveu algumas horas, o bastante para tocar a todos com sua vontade de viver.

A mãe hoje vive com a certeza de que fez o que pôde pela filha, que a amou. Depois do sofrimento, ela pode dormir sem o remorso de ter privado aquela pequenina do direito de nascer e viver, ainda que brevemente. E sente saudades da filha, apesar da curta convivência. Nós a respeitamos mais do que nunca. E nos congratulamos pela sensação de missão cumprida. Depois disso, ela teve outra filha, saudável e perfeita.

Um alerta
O único ministro que votou contra o aborto de anencéfalos, Ricardo Lewandowsk, alegou que o objeto da ação não é da alçada do judiciário, mas do legislativo. Perfeito!