O paradoxo da humildade

CRÔNICA

O paradoxo da humildade

Nossa existência depende de uma imensa série de fatores que não podemos controlar. Por isso, a soberba pode ser descrita como carência de autoconhecimento

Por Tribuna do Ceará em Opinião

7 de Janeiro de 2017 às 06:35

Há 11 meses
homemolhaespelho

(FOTO: Reprodução)

Por Tiago de Oliveira

Poucas coisas convêm tanto aos seres humanos quanto a humildade. Não é à toa que a maioria das religiões a propõe como virtude fundamental. Nossa existência é frágil, precária, depende de uma imensa série de fatores que não podemos controlar. Por isso, a soberba pode ser descrita como carência de autoconhecimento. Quem se envaidece do que quer que seja, atribuindo a si mesmo grandes doses de mérito, ignora a real – e diminuta – dimensão de seu lugar no universo.

Por oposição, deveríamos pensar que humildade e autoconhecimento andam juntos. No sentido negativo, essa correlação nada tem de problemático. O humilde, diferentemente do soberbo, não comete o equívoco de se supor superior ao que verdadeiramente é; sabiamente, ele evita um grave erro. Já quando consideramos o sentido positivo do autoconhecimento, caracterizado pelo que a pessoa diz de verdadeiro sobre si mesma e não pelas falsidades que não diz, a humildade parece nos apresentar certo paradoxo.

Das suas demais virtudes, os indivíduos podem falar sem que isso gere nenhum problema lógico. Se o corajoso disser que é corajoso ou o paciente disser que é paciente, a coragem e a paciência de que falam em nada se alteram. Mas o humilde não pode pensar que é humilde e, ao mesmo tempo, conceber a humildade como uma virtude, pois isso equivaleria a orgulhar-se da própria humildade, o que é absurdo.

Quando criança, durante um grande evento religioso em que os pregadores persistentemente condenavam a soberba, lembro-me de, em certo momento, ter pensado, observando atentamente as centenas de pessoas ao meu redor: aposto que eu sou o mais humilde de todos os que estão aqui. Não demorou muito até a contradição nessa autoapreciação se tornar óbvia para mim. Reagi a essa descoberta com riso e também com muita inquietação. E é assim, me inquietando e rindo, que reajo até hoje aos desafios que me impõe a humildade, virtude tão preciosa e tão esquiva.

*Tiago de Oliveira é professor da Unicatólica de Quixadá e da Faculdade Ari de Sá, aluno de Doutorado em Filosofia da UFC e autor do blog alpendrelab.wordpress.com.

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CRÔNICA

O paradoxo da humildade

Nossa existência depende de uma imensa série de fatores que não podemos controlar. Por isso, a soberba pode ser descrita como carência de autoconhecimento

Por Tribuna do Ceará em Opinião

7 de Janeiro de 2017 às 06:35

Há 11 meses
homemolhaespelho

(FOTO: Reprodução)

Por Tiago de Oliveira

Poucas coisas convêm tanto aos seres humanos quanto a humildade. Não é à toa que a maioria das religiões a propõe como virtude fundamental. Nossa existência é frágil, precária, depende de uma imensa série de fatores que não podemos controlar. Por isso, a soberba pode ser descrita como carência de autoconhecimento. Quem se envaidece do que quer que seja, atribuindo a si mesmo grandes doses de mérito, ignora a real – e diminuta – dimensão de seu lugar no universo.

Por oposição, deveríamos pensar que humildade e autoconhecimento andam juntos. No sentido negativo, essa correlação nada tem de problemático. O humilde, diferentemente do soberbo, não comete o equívoco de se supor superior ao que verdadeiramente é; sabiamente, ele evita um grave erro. Já quando consideramos o sentido positivo do autoconhecimento, caracterizado pelo que a pessoa diz de verdadeiro sobre si mesma e não pelas falsidades que não diz, a humildade parece nos apresentar certo paradoxo.

Das suas demais virtudes, os indivíduos podem falar sem que isso gere nenhum problema lógico. Se o corajoso disser que é corajoso ou o paciente disser que é paciente, a coragem e a paciência de que falam em nada se alteram. Mas o humilde não pode pensar que é humilde e, ao mesmo tempo, conceber a humildade como uma virtude, pois isso equivaleria a orgulhar-se da própria humildade, o que é absurdo.

Quando criança, durante um grande evento religioso em que os pregadores persistentemente condenavam a soberba, lembro-me de, em certo momento, ter pensado, observando atentamente as centenas de pessoas ao meu redor: aposto que eu sou o mais humilde de todos os que estão aqui. Não demorou muito até a contradição nessa autoapreciação se tornar óbvia para mim. Reagi a essa descoberta com riso e também com muita inquietação. E é assim, me inquietando e rindo, que reajo até hoje aos desafios que me impõe a humildade, virtude tão preciosa e tão esquiva.

*Tiago de Oliveira é professor da Unicatólica de Quixadá e da Faculdade Ari de Sá, aluno de Doutorado em Filosofia da UFC e autor do blog alpendrelab.wordpress.com.