Chuva e preguiça em humanos e felinos
CRÔNICA

Chuva e preguiça em humanos e felinos

Os gatos têm uma expressão facial para a fruição da preguiça que nós, seres humanos, não temos

Por Tribuna do Ceará em Opinião

9 de março de 2017 às 14:51

Há 8 meses

Por Tiago de Oliveira

Começo este texto sobre pessoas e bichos com o Soneto de Intimidade, em que, com sua rara sensibilidade, Vinícius de Moraes fala sobre fluidos, olhares, comunhão e outras dádivas que a natureza nos oferece. O narrador caminha por um pasto e descreve como vai se integrando aos elementos do ambiente, tomando parte nos fluxos que lhes são característicos. Ele masca capim, acompanha o curso de um rio, bebe de sua água e come, caso a encontre, alguma amora, tingindo assim sua saliva de vermelho, cor com que, às cuspidelas, ele pinta pequenas superfícies nos arredores dos currais.

gato

(FOTO: Divulgação)

Um cheiro agradável de estrume invade-lhe os pulmões e, logo em seguida, seu olhar se encontra com os dos bois e das vacas. É “sem ciúmes” que os bovinos encaram o caminhante, o que indica como essa interação é plena de naturalidade. A profunda proximidade entre homem e animal já começa a se tornar evidente aí e, nos últimos versos, é exposta ainda mais claramente, quando os olhares se mostram também risonhos e cúmplices, diante da espuma festiva que todos eles produzem ao eliminar, com alívio, a urina que lhes pressiona a bexiga.

Tenho vivenciado algo similar, no ambiente doméstico, com um animal de menor porte e tendo por mote a queda de um líquido bem mais festivo e cujos odores não costumam provocar repulsa. O ambiente é meu local de estudo, o animal é Olga, minha gata, e o líquido é a água que, estes dias, graças a Deus, vem molhando o litoral e o interior do Ceará. Eu, obviamente, nunca flagrei Olga a contemplar, com os olhinhos brilhando de gratidão, esse belíssimo céu todo coberto de nuvens cor de chumbo, que tanto alegra os que têm vínculo afetivo com o sertão. Mas me sinto muito próximo dela quando a vejo passar horas a fio no mesmo cantinho, entre uma escrivaninha e uma parede, apenas raramente e muito de leve alterando a posição de uma pata ou da cauda.

Alguns dirão que esse é o comportamento normal de um gato, mas garanto que, em dias de sol, Olga jamais permanece tanto tempo no mesmo lugar. E quem nunca passou por algo parecido? Neste friozinho, se não fosse por motivos de força maior, eu estaria grudado no fundo de uma rede, movendo-me apenas para respirar. Evocando São Francisco de Assis, olho para Olga e penso: “irmã felpuda, eu sinto a mesma preguiça quando o tempo fica assim”.

Há, contudo, um aspecto do comportamento da Olga que me faz sentir não irmanado, mas invejoso. É que os gatos têm uma expressão facial para a fruição da preguiça que nós, seres humanos, não temos, e isso dá a impressão de que seu modo de aproveitar o ócio puro é bem mais profundo que o nosso. Nossas feições, nos momentos em que estamos felizes por não termos de fazer nada, apenas esmorecem. Podemos até, aqui ou acolá, dar um sorriso meio mole, acompanhado de um suspiro contente, mas o ápice do nosso deleite em situações assim é o adormecer; o rosto apenas desliga.

Já os gatos, quando fruem a preguiça, ficam de pálpebras cerradas e apertam os olhos com serenidade e vigor, numa óbvia manifestação de prazer intenso. Parece a expressão que fazemos ao saborear uma guloseima de qualidade excepcional. Mas nem a Ana Maria Braga querendo lisonjear um cozinheiro que acabou de fazer um quitute em seu programa consegue se aproximar da performance a que me refiro. Já tentei imitar esse trejeito facial dos bichanos, para ver se obtinha ao menos um vislumbre da peculiar sensação que deve haver por trás dele. Não deu certo. E penso, mesmo, que é melhor assim. Suspeito que, se sentisse a preguiça daquela forma aparentemente tão agradável, eu nunca mais conseguiria voltar a trabalhar.

*Tiago de Oliveira é professor da Unicatólica de Quixadá e da Faculdade Ari de Sá, aluno de Doutorado em Filosofia da UFC e autor do blog alpendrelab.wordpress.com.

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Chuva e preguiça em humanos e felinos

Os gatos têm uma expressão facial para a fruição da preguiça que nós, seres humanos, não temos

Por Tribuna do Ceará em Opinião

9 de março de 2017 às 14:51

Há 8 meses

Por Tiago de Oliveira

Começo este texto sobre pessoas e bichos com o Soneto de Intimidade, em que, com sua rara sensibilidade, Vinícius de Moraes fala sobre fluidos, olhares, comunhão e outras dádivas que a natureza nos oferece. O narrador caminha por um pasto e descreve como vai se integrando aos elementos do ambiente, tomando parte nos fluxos que lhes são característicos. Ele masca capim, acompanha o curso de um rio, bebe de sua água e come, caso a encontre, alguma amora, tingindo assim sua saliva de vermelho, cor com que, às cuspidelas, ele pinta pequenas superfícies nos arredores dos currais.

gato

(FOTO: Divulgação)

Um cheiro agradável de estrume invade-lhe os pulmões e, logo em seguida, seu olhar se encontra com os dos bois e das vacas. É “sem ciúmes” que os bovinos encaram o caminhante, o que indica como essa interação é plena de naturalidade. A profunda proximidade entre homem e animal já começa a se tornar evidente aí e, nos últimos versos, é exposta ainda mais claramente, quando os olhares se mostram também risonhos e cúmplices, diante da espuma festiva que todos eles produzem ao eliminar, com alívio, a urina que lhes pressiona a bexiga.

Tenho vivenciado algo similar, no ambiente doméstico, com um animal de menor porte e tendo por mote a queda de um líquido bem mais festivo e cujos odores não costumam provocar repulsa. O ambiente é meu local de estudo, o animal é Olga, minha gata, e o líquido é a água que, estes dias, graças a Deus, vem molhando o litoral e o interior do Ceará. Eu, obviamente, nunca flagrei Olga a contemplar, com os olhinhos brilhando de gratidão, esse belíssimo céu todo coberto de nuvens cor de chumbo, que tanto alegra os que têm vínculo afetivo com o sertão. Mas me sinto muito próximo dela quando a vejo passar horas a fio no mesmo cantinho, entre uma escrivaninha e uma parede, apenas raramente e muito de leve alterando a posição de uma pata ou da cauda.

Alguns dirão que esse é o comportamento normal de um gato, mas garanto que, em dias de sol, Olga jamais permanece tanto tempo no mesmo lugar. E quem nunca passou por algo parecido? Neste friozinho, se não fosse por motivos de força maior, eu estaria grudado no fundo de uma rede, movendo-me apenas para respirar. Evocando São Francisco de Assis, olho para Olga e penso: “irmã felpuda, eu sinto a mesma preguiça quando o tempo fica assim”.

Há, contudo, um aspecto do comportamento da Olga que me faz sentir não irmanado, mas invejoso. É que os gatos têm uma expressão facial para a fruição da preguiça que nós, seres humanos, não temos, e isso dá a impressão de que seu modo de aproveitar o ócio puro é bem mais profundo que o nosso. Nossas feições, nos momentos em que estamos felizes por não termos de fazer nada, apenas esmorecem. Podemos até, aqui ou acolá, dar um sorriso meio mole, acompanhado de um suspiro contente, mas o ápice do nosso deleite em situações assim é o adormecer; o rosto apenas desliga.

Já os gatos, quando fruem a preguiça, ficam de pálpebras cerradas e apertam os olhos com serenidade e vigor, numa óbvia manifestação de prazer intenso. Parece a expressão que fazemos ao saborear uma guloseima de qualidade excepcional. Mas nem a Ana Maria Braga querendo lisonjear um cozinheiro que acabou de fazer um quitute em seu programa consegue se aproximar da performance a que me refiro. Já tentei imitar esse trejeito facial dos bichanos, para ver se obtinha ao menos um vislumbre da peculiar sensação que deve haver por trás dele. Não deu certo. E penso, mesmo, que é melhor assim. Suspeito que, se sentisse a preguiça daquela forma aparentemente tão agradável, eu nunca mais conseguiria voltar a trabalhar.

*Tiago de Oliveira é professor da Unicatólica de Quixadá e da Faculdade Ari de Sá, aluno de Doutorado em Filosofia da UFC e autor do blog alpendrelab.wordpress.com.