Flávia Castelo: “Parabéns"
ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Parabéns”

Parabéns pra você, meu amor. Marquei a data no meu calendário. Desejo que você seja feliz. Parabéns pelo seu aniversário

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

14 de junho de 2017 às 11:33

Há 1 semana

Por Flávia Castelo

Hoje eu acordei pensando estar de parabéns. Na verdade, pensando se estaria, afinal, era o meu aniversário. Sinceramente? Fiquei lá com as minhas dúvidas se estaria mesmo de parabéns.

Por quê?

Porque a semana tinha começado, já era quarta-feira e nada de ver o meu pai.
Consegui almoçar com minha mãe no domingo, mas nada suficiente.
Minha filha chegou de viagem e eu só a vi en passant.
Quase não falei com meu irmão – que mora comigo – imagine o que não mora!
Tios, primos, sobrinhos, afilhados, agregados, amigos….
…ah, os amigos!
Prometi retornar a ligação a dois dos melhores e até agora nada: Thiaguinho, Fernando, hoje quem vai ligar sou eu.

O sociólogo Norbert Elias, ao dizer que “podemos ajustar nossas vidas, e particularmente nosso comportamento em relação às outras pessoas, à duração limitada de cada vida”, numa tentativa de reflexão ao acordar, me fez pensar que talvez eu não esteja encarando a morte como um fato da minha existência: Devo ter ouvido mais de dez vezes e de várias pessoas que sou workaholic, só nos últimos três dias, não estou praticando exercícios físicos e muito menos levando um estilo de vida saudável. Não reciclei meu lixo, arrumei a casa ou dei um mergulho no mar.

Mas por quê?
Elaborando a resposta, lembrei de um dia da minha infância, lá no Paracuru, quando fui pegar o meu pai para jantar: Ele estava no Bar do Doutor e ouvi, de todos os amigos dele, um canto em uníssono capitaneado por Orlando Gomes que me dizia “Parabéns pra você, meu amor. Marquei a data no meu calendário. Desejo que você seja feliz. Parabéns pelo seu aniversário”.

Pensei nisso e joguei a pergunta no ar: você é feliz? Você está de parabéns?

coluna-flavia-castelo

(FOTO: Flavia Castelo)

Ainda nessa reflexão, falei com uma amiga.

No caos do trânsito matinal, ela parou para me desejar uma vida sem ítacas. Com cem odisseias. Como ela mesma disse: odisseias de mil vidas.

Eu já comentei que ela parou tudo? Aquela parada enquanto a gente faz o que tem que fazer, sabe? Pois bem, ela ‘parou’ e me disse mais ou menos assim: ‘Flávia (pois é, ela me chama de Flávia – o que sempre me faz pensar que vou levar um carão ou que ela vai me dar uma péssima notícia), lembrando do teu aniversário, comecei a refletir sobre as falências das utopias’… …e continuou…
…’Uma das falências que a gente vive no dia do aniversário, é a da ideia de que quando a gente chegar aos 70 estará de um jeito, aos 40 de outro, aos 15 assim… …Então, vivemos a falência daquela imagem que projetamos ou projetaram sobre nós. Mas o massa é chegar, seja de que idade ou com que idade e você ter a capacidade de levantar a vida, como uma taça de vinho (minha cara!) e dizer a essa vida, uma vez mais: amor fati! Olhar para a vida e ter vontade de viver. Tudo de novo, mesmo com todas as dores’.

E mesmo com o tempo corrido, onde sentei, mas a alma não sentou junto para escrever (este texto), escutei, a mesma amiga, falando da máxima nietzschiana. Ela me contou a seguinte metáfora: imagine que um demônio aparece pra você. Ele te condena a viver a vida que você viveu infinitas vezes, da mesma maneira que viveu. E explicou que amor fati é amar a vida que você viveu e que vive. Que amor fati é amar o que está aí. Assim: não deu tempo tempo ver a filha, mas você está amando estar aí, indo em direção a ela. É ir ao trabalho em direção à filha. É não conseguir ver todos os amigos, nem a família, mas viver uma vida em direção a eles.

Ela lembrou, também, de Ulisses e da ilha de Ítaca. Dessa busca pelo lugar cósmico de que as coisas todas dão certo, de que eu sempre vou ficar com minha filha, ter tempo para os meus pais, tempo para estar com os amigos. Ela lembrou que esse tempo não existe e disse: ‘Ulisses rejeitou Ítaca. A inquietude, a falta, a falha, foram as escolhas dele. Porque a faísca da vida é a vida. Essa coisa da odisseia. A vida é a Odisseia. Não é o canto, não é o lugar que você tem o pleno gozo, a plena família, a plenitude dos amigos’ (é como vi, ontem, num dos projetos apresentados pelo LabX da Escola Porto Iracema das Artes: “nossa proposta é o processo e não o produto. Queremos experienciar o caminho que vai nos levar para um lugar que ainda não sabemos qual é, mas que independente disso, estaremos criando e curtindo juntos, até chegar – ou não chegar – lá). Isso mesmo, talvez não chegar, porque a vida é essa incompletude mesmo, essa vontade de querer estar com a família.

A vida, como disse minha amiga, é muito mais essa vontade de querer estar com todos do que efetivamente estar. Se você estiver sempre com todos, tem alguma coisa muito estranha. Porque Ítaca não tem como se materializar plenamente. A vida seria tediosa. Daí a ideia de um céu. Tedioso. Que não é o do (bairro) Bom Jardim, onde deve estar essa amiga que promete reciprocamente ‘filosofias de quinta’ e ‘desconselhos desconcertantes’.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Parabéns pra você, meu amor. Marquei a data no meu calendário. Desejo que você seja feliz. Parabéns pelo seu aniversário

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

14 de junho de 2017 às 11:33

Há 1 semana

Por Flávia Castelo

Hoje eu acordei pensando estar de parabéns. Na verdade, pensando se estaria, afinal, era o meu aniversário. Sinceramente? Fiquei lá com as minhas dúvidas se estaria mesmo de parabéns.

Por quê?

Porque a semana tinha começado, já era quarta-feira e nada de ver o meu pai.
Consegui almoçar com minha mãe no domingo, mas nada suficiente.
Minha filha chegou de viagem e eu só a vi en passant.
Quase não falei com meu irmão – que mora comigo – imagine o que não mora!
Tios, primos, sobrinhos, afilhados, agregados, amigos….
…ah, os amigos!
Prometi retornar a ligação a dois dos melhores e até agora nada: Thiaguinho, Fernando, hoje quem vai ligar sou eu.

O sociólogo Norbert Elias, ao dizer que “podemos ajustar nossas vidas, e particularmente nosso comportamento em relação às outras pessoas, à duração limitada de cada vida”, numa tentativa de reflexão ao acordar, me fez pensar que talvez eu não esteja encarando a morte como um fato da minha existência: Devo ter ouvido mais de dez vezes e de várias pessoas que sou workaholic, só nos últimos três dias, não estou praticando exercícios físicos e muito menos levando um estilo de vida saudável. Não reciclei meu lixo, arrumei a casa ou dei um mergulho no mar.

Mas por quê?
Elaborando a resposta, lembrei de um dia da minha infância, lá no Paracuru, quando fui pegar o meu pai para jantar: Ele estava no Bar do Doutor e ouvi, de todos os amigos dele, um canto em uníssono capitaneado por Orlando Gomes que me dizia “Parabéns pra você, meu amor. Marquei a data no meu calendário. Desejo que você seja feliz. Parabéns pelo seu aniversário”.

Pensei nisso e joguei a pergunta no ar: você é feliz? Você está de parabéns?

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(FOTO: Flavia Castelo)

Ainda nessa reflexão, falei com uma amiga.

No caos do trânsito matinal, ela parou para me desejar uma vida sem ítacas. Com cem odisseias. Como ela mesma disse: odisseias de mil vidas.

Eu já comentei que ela parou tudo? Aquela parada enquanto a gente faz o que tem que fazer, sabe? Pois bem, ela ‘parou’ e me disse mais ou menos assim: ‘Flávia (pois é, ela me chama de Flávia – o que sempre me faz pensar que vou levar um carão ou que ela vai me dar uma péssima notícia), lembrando do teu aniversário, comecei a refletir sobre as falências das utopias’… …e continuou…
…’Uma das falências que a gente vive no dia do aniversário, é a da ideia de que quando a gente chegar aos 70 estará de um jeito, aos 40 de outro, aos 15 assim… …Então, vivemos a falência daquela imagem que projetamos ou projetaram sobre nós. Mas o massa é chegar, seja de que idade ou com que idade e você ter a capacidade de levantar a vida, como uma taça de vinho (minha cara!) e dizer a essa vida, uma vez mais: amor fati! Olhar para a vida e ter vontade de viver. Tudo de novo, mesmo com todas as dores’.

E mesmo com o tempo corrido, onde sentei, mas a alma não sentou junto para escrever (este texto), escutei, a mesma amiga, falando da máxima nietzschiana. Ela me contou a seguinte metáfora: imagine que um demônio aparece pra você. Ele te condena a viver a vida que você viveu infinitas vezes, da mesma maneira que viveu. E explicou que amor fati é amar a vida que você viveu e que vive. Que amor fati é amar o que está aí. Assim: não deu tempo tempo ver a filha, mas você está amando estar aí, indo em direção a ela. É ir ao trabalho em direção à filha. É não conseguir ver todos os amigos, nem a família, mas viver uma vida em direção a eles.

Ela lembrou, também, de Ulisses e da ilha de Ítaca. Dessa busca pelo lugar cósmico de que as coisas todas dão certo, de que eu sempre vou ficar com minha filha, ter tempo para os meus pais, tempo para estar com os amigos. Ela lembrou que esse tempo não existe e disse: ‘Ulisses rejeitou Ítaca. A inquietude, a falta, a falha, foram as escolhas dele. Porque a faísca da vida é a vida. Essa coisa da odisseia. A vida é a Odisseia. Não é o canto, não é o lugar que você tem o pleno gozo, a plena família, a plenitude dos amigos’ (é como vi, ontem, num dos projetos apresentados pelo LabX da Escola Porto Iracema das Artes: “nossa proposta é o processo e não o produto. Queremos experienciar o caminho que vai nos levar para um lugar que ainda não sabemos qual é, mas que independente disso, estaremos criando e curtindo juntos, até chegar – ou não chegar – lá). Isso mesmo, talvez não chegar, porque a vida é essa incompletude mesmo, essa vontade de querer estar com a família.

A vida, como disse minha amiga, é muito mais essa vontade de querer estar com todos do que efetivamente estar. Se você estiver sempre com todos, tem alguma coisa muito estranha. Porque Ítaca não tem como se materializar plenamente. A vida seria tediosa. Daí a ideia de um céu. Tedioso. Que não é o do (bairro) Bom Jardim, onde deve estar essa amiga que promete reciprocamente ‘filosofias de quinta’ e ‘desconselhos desconcertantes’.

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A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.