Flávia Castelo: V ou F?

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “V ou F?”

Mentiras sinceras te interessam?

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

22 de novembro de 2017 às 15:32

Há 3 semanas

Por Flávia Castelo

Mentiras sinceras te interessam? Pois falar sobre a qualidade genuína de um quadro, para Clifford Irving, não guarda qualquer relação com a distinção a ser feita entre verdadeiro e falso. Para o escritor, importa se a falsificação é boa ou ruim. Talvez, parte do aprendizado de quando narrou a vida de uma das mais surpreendentes farsas do século XX: Elmyr de Hory desafiava qualquer expert a identificar se uma obra era original ou uma cópia. E, pelos idos de 1950, o pintor fauvista holandês Kees van Dongen aceitou o desafio, analisou uma falsificação e acreditou ser um quadro seu.

Orson Welles conta essa história em F for fake (1973), um documentário ensaístico que me trouxe muitas reflexões: Já que existem cópias tão boas quanto os originais, o mundo da arte é um grande truque baseado na confiança? Aprendemos que se há demanda, há mercado. Mas se não existisse o mercado da arte, os quadros falsos não existiriam? Como se valora a arte? O valor depende de opinião, ok. E a opinião depende do especialista. Mas se um falsificador, como o biografado, engana os especialistas, quem é especialista? Poderíamos dizer que enquanto existirem farsantes, existirão experts? Mas e se não existirem os experts existirão falsificadores? Parece-me que em matéria de verdade, não existe quem seja melhor (ou pior) do que o outro. E que mentirosos profissionais servem a verdade.

verdade-ou-mentira

(FOTO: Reprodução)

Como na ‘mentira’ contada em Blade Runner. O primeiro filme já ilustra a colonização extraterrestre: as necessidades e os desejos dos seres humanos são incompatíveis com a finitude planetária. A fauna e a flora, da forma que conhecemos, já não existem mais. Em muitos casos, nem a lembrança delas. Replicantes são criados e escravizados para que a humanidade encontre qualidade de vida em outros planetas. E continuamos sem perceber que o muro que subimos e mantemos entre as espécies é um dos principais sinais de que passaremos a vida que tivermos em busca de uma vida que não teremos: Lembra do teste Voight-Kampff que o detetive Deckard fez em Rachel para saber se ela era ou não humana? Aquele que com um pouco mais de 20 perguntas um bom profissional descobre ‘a verdade’? Pois bem, a última situação – e foram mais de 100 – que ele colocou foi: “você está numa recepção, todos comem ostras de entrada e o prato principal é cachorro”. Eu ouvi ‘eca!’? Sei que não foi ela quem disse. Bingo! O caçador de andróide conclui que não está com uma mulher. Afinal, ela não aprendeu que pode comer ostra, mas não pode comer cachorro: esta mentira não contaram a ela.

Picasso já disse que a arte é uma mentira. Uma mentira que nos faz perceber a verdade. Orson Welles adaptou e gravou que o cinema é uma grande fraude. Será uma fraude mágica? Subverter significados não é colocar o senso comum contra a parede, ao mudar o ponto de vista várias vezes? Ser falso é contar uma mentira? Quem é ou está habilitado a dizer o que é verdade? O falso é algo tão ruim? Ou, não seria por causa das pequenas porções de ilusões, que seguimos melhores abonados?

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Mentiras sinceras te interessam?

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22 de novembro de 2017 às 15:32

Há 3 semanas

Por Flávia Castelo

Mentiras sinceras te interessam? Pois falar sobre a qualidade genuína de um quadro, para Clifford Irving, não guarda qualquer relação com a distinção a ser feita entre verdadeiro e falso. Para o escritor, importa se a falsificação é boa ou ruim. Talvez, parte do aprendizado de quando narrou a vida de uma das mais surpreendentes farsas do século XX: Elmyr de Hory desafiava qualquer expert a identificar se uma obra era original ou uma cópia. E, pelos idos de 1950, o pintor fauvista holandês Kees van Dongen aceitou o desafio, analisou uma falsificação e acreditou ser um quadro seu.

Orson Welles conta essa história em F for fake (1973), um documentário ensaístico que me trouxe muitas reflexões: Já que existem cópias tão boas quanto os originais, o mundo da arte é um grande truque baseado na confiança? Aprendemos que se há demanda, há mercado. Mas se não existisse o mercado da arte, os quadros falsos não existiriam? Como se valora a arte? O valor depende de opinião, ok. E a opinião depende do especialista. Mas se um falsificador, como o biografado, engana os especialistas, quem é especialista? Poderíamos dizer que enquanto existirem farsantes, existirão experts? Mas e se não existirem os experts existirão falsificadores? Parece-me que em matéria de verdade, não existe quem seja melhor (ou pior) do que o outro. E que mentirosos profissionais servem a verdade.

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(FOTO: Reprodução)

Como na ‘mentira’ contada em Blade Runner. O primeiro filme já ilustra a colonização extraterrestre: as necessidades e os desejos dos seres humanos são incompatíveis com a finitude planetária. A fauna e a flora, da forma que conhecemos, já não existem mais. Em muitos casos, nem a lembrança delas. Replicantes são criados e escravizados para que a humanidade encontre qualidade de vida em outros planetas. E continuamos sem perceber que o muro que subimos e mantemos entre as espécies é um dos principais sinais de que passaremos a vida que tivermos em busca de uma vida que não teremos: Lembra do teste Voight-Kampff que o detetive Deckard fez em Rachel para saber se ela era ou não humana? Aquele que com um pouco mais de 20 perguntas um bom profissional descobre ‘a verdade’? Pois bem, a última situação – e foram mais de 100 – que ele colocou foi: “você está numa recepção, todos comem ostras de entrada e o prato principal é cachorro”. Eu ouvi ‘eca!’? Sei que não foi ela quem disse. Bingo! O caçador de andróide conclui que não está com uma mulher. Afinal, ela não aprendeu que pode comer ostra, mas não pode comer cachorro: esta mentira não contaram a ela.

Picasso já disse que a arte é uma mentira. Uma mentira que nos faz perceber a verdade. Orson Welles adaptou e gravou que o cinema é uma grande fraude. Será uma fraude mágica? Subverter significados não é colocar o senso comum contra a parede, ao mudar o ponto de vista várias vezes? Ser falso é contar uma mentira? Quem é ou está habilitado a dizer o que é verdade? O falso é algo tão ruim? Ou, não seria por causa das pequenas porções de ilusões, que seguimos melhores abonados?

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.