Flávia Castelo: Um grande bom jardim para a universidade
ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Um grande bom jardim para a universidade”

Esta semana começou com um anúncio do Reitor da Universidade Federal do Ceará: “Esta comunidade tem tudo para virar uma grande sala de aula”

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

28 de junho de 2017 às 09:12

Há 4 semanas

Por Flávia Castelo

Vish!
O que foi?
Você disse que ia ao Bom Jardim!
Sim, sim, vou. E por que ‘vish’?
Porque é muito perigoso.

Tive esse papo há uns 15 dias, quando disse que ia ‘pro reggae’. Para um concurso de dança-a-dois na Praça Santa Cecília.

Organizado pelos coletivos Motim e Bonja Roots, foi um evento a custo zero e energias mil. Bonito de se ver. E posso dizer: o perigo não foi convidado. Nem penetra.

Mas quem nunca teve um diálogo como esse, ao anunciar passagem por um dos bairros mais vulneráveis da cidade? Estou falando daquele que possui mais de 8% dos domicílios de Fortaleza. Do Grande Bom Jardim.

Estou falando porque acontece comigo. Acontece com você.

Uso e ocupação desordenados do solo, segregação sócio-espacial urbana e agressão às bacias hidrográficas não descrevem apenas esse território, que também é lugar de miséria (mais de 15% das pessoas mais pobres vivem lá) e de muitos jovens (60% dos moradores não passa de 29 anos), mas caracterizam ambientalmente estigmas locais, como a violência. Física, psicológica, simbólica. Violência. O que não vejo lá.

bom-jardim

(Foto: Arquivo Centro Cultural Bom Jardim)

Não estou dizendo que não tem. Me preocupo com a alta letalidade juvenil que as estatísticas e a percepção social têm alertado. Mas me ocupo mais com o artesanato, a comida, a música, a dança, o teatro e a fotografia locais. Na última festa, quase fiz outra tatuagem. Mas nem participei das rifas, hipnotizada pelos manifestos e rimas.

É muita potência criativa. Mas não é só de rock que essa turma vive. Nem funk, forró ou hip hop. Esta semana começou com um anúncio do Reitor da Universidade Federal do Ceará: “Esta comunidade tem tudo para virar uma grande sala de aula”.

E como bons alunos e professores, estamos estudando “Um grande bom jardim para a universidade”, nosso ponto de encontro pela democracia cultural. A cultura sob as perspectivas sociológica, antropológica, ecológica. A cultura como direito.

Porque queremos mais Josés de Alencar, Raquéis de Queiroz, Nices e Estrigas. Porque temos Sans Cruz e Katianas Pena. Afinal, como diz Godard: Cultura é regra. Arte é exceção.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.

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Esta semana começou com um anúncio do Reitor da Universidade Federal do Ceará: “Esta comunidade tem tudo para virar uma grande sala de aula”

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

28 de junho de 2017 às 09:12

Há 4 semanas

Por Flávia Castelo

Vish!
O que foi?
Você disse que ia ao Bom Jardim!
Sim, sim, vou. E por que ‘vish’?
Porque é muito perigoso.

Tive esse papo há uns 15 dias, quando disse que ia ‘pro reggae’. Para um concurso de dança-a-dois na Praça Santa Cecília.

Organizado pelos coletivos Motim e Bonja Roots, foi um evento a custo zero e energias mil. Bonito de se ver. E posso dizer: o perigo não foi convidado. Nem penetra.

Mas quem nunca teve um diálogo como esse, ao anunciar passagem por um dos bairros mais vulneráveis da cidade? Estou falando daquele que possui mais de 8% dos domicílios de Fortaleza. Do Grande Bom Jardim.

Estou falando porque acontece comigo. Acontece com você.

Uso e ocupação desordenados do solo, segregação sócio-espacial urbana e agressão às bacias hidrográficas não descrevem apenas esse território, que também é lugar de miséria (mais de 15% das pessoas mais pobres vivem lá) e de muitos jovens (60% dos moradores não passa de 29 anos), mas caracterizam ambientalmente estigmas locais, como a violência. Física, psicológica, simbólica. Violência. O que não vejo lá.

bom-jardim

(Foto: Arquivo Centro Cultural Bom Jardim)

Não estou dizendo que não tem. Me preocupo com a alta letalidade juvenil que as estatísticas e a percepção social têm alertado. Mas me ocupo mais com o artesanato, a comida, a música, a dança, o teatro e a fotografia locais. Na última festa, quase fiz outra tatuagem. Mas nem participei das rifas, hipnotizada pelos manifestos e rimas.

É muita potência criativa. Mas não é só de rock que essa turma vive. Nem funk, forró ou hip hop. Esta semana começou com um anúncio do Reitor da Universidade Federal do Ceará: “Esta comunidade tem tudo para virar uma grande sala de aula”.

E como bons alunos e professores, estamos estudando “Um grande bom jardim para a universidade”, nosso ponto de encontro pela democracia cultural. A cultura sob as perspectivas sociológica, antropológica, ecológica. A cultura como direito.

Porque queremos mais Josés de Alencar, Raquéis de Queiroz, Nices e Estrigas. Porque temos Sans Cruz e Katianas Pena. Afinal, como diz Godard: Cultura é regra. Arte é exceção.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.