Flávia Castelo: Tenha, more, gaste, viva

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Tenha, more, gaste, viva”

Em um mundo comum, você faz o seu trabalho, vai a festas, paga as suas contas. Em um mundo comum, você vive… preso

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

17 de Maio de 2017 às 09:58

Há 6 meses

Por Flávia Castelo

Você sabe de algo que não consegue explicar. Mas sente. Sentiu a vida inteira: há algo errado com o mundo. Você não sabe o que é, mas há. Com este sentimento e um zunido enlouquecedor na cabeça, você veio a mim.

Do que eu estou falando?

Exatamente: Matrix. Segundo o Oxford Dictionary, do latim, ‘fêmea reprodutora’, mais tarde ‘útero’, mater, ‘mãe’, emprestou nome a um filme que assisti em 1999, com o, mais tarde, pai da minha filha. Nunca o cinema tinha repercutido tanto nas minhas rodas de amigos. Foram uns cinco anos discutindo as teorias por trás do argumento: em 2004, ainda falávamos da transformação do planeta num computador que simulava a realidade. Da humanidade que era sua bateria, e não se dava conta, porque tinha o cérebro conectado a uma programação global ilusória.

Lembra do agente Smith? Ele era uma espécie de antivírus que queria se aposentar (se fosse hoje – tempo de reforma previdenciária, ele não estaria pensando nisso). Sua missão? Capturar o líder humano.

Eu adorava a comparação – nós e os vírus temos essa característica de destruir os próprios meios de multiplicação – e, conscientemente ou não, daquela discussão sem maiores compromissos teóricos, fui direto para a seleção do Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UFC. Pensando no comportamento auto-destrutivo da humanidade, passei a estudar a nossa relação com a natureza. E com nós mesmos. Comecei a nos enxergar como suicidas que deixam rastros assombrosos no lugar que chamamos de casa.

(FOTO: Flávia Castelo)

Tentei nos comparar com as bactérias, que embora letais, convivem com os demais organismos, podendo, inclusive ajudá-los. Mas, precisaríamos ser mais democráticos. E mais criativos, como diria Freud, quem acreditava que a cultura é, de certa forma, produto da auto-repressão aos instintos primários. Você não acha que já que podemos ter consciência dos erros que cometemos, com um pouquinho de imaginação poderíamos, também, diminuir os impactos civilizatórios virulentos?

Pergunto porque parece que preferimos viver como o trailer: num mundo comum, em que você faz o seu trabalho, vai a festas, paga as suas contas. Em um mundo comum, onde você vive… preso. Uma prisão que não conseguimos ver, nem tocar, mas que não é apenas uma prisão mental. Nossa coleira contemporânea é, também, eletrônica e do endividamento. Ou você consegue sair sem o celular e já quitou todos os empréstimos do mês?

Citando a cantora Pitty, termino com uma lembrança: “Nada é orgânico é tudo programado. E eu achando que tinha me libertado”.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.

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Flávia Castelo: “Tenha, more, gaste, viva”

Em um mundo comum, você faz o seu trabalho, vai a festas, paga as suas contas. Em um mundo comum, você vive… preso

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

17 de Maio de 2017 às 09:58

Há 6 meses

Por Flávia Castelo

Você sabe de algo que não consegue explicar. Mas sente. Sentiu a vida inteira: há algo errado com o mundo. Você não sabe o que é, mas há. Com este sentimento e um zunido enlouquecedor na cabeça, você veio a mim.

Do que eu estou falando?

Exatamente: Matrix. Segundo o Oxford Dictionary, do latim, ‘fêmea reprodutora’, mais tarde ‘útero’, mater, ‘mãe’, emprestou nome a um filme que assisti em 1999, com o, mais tarde, pai da minha filha. Nunca o cinema tinha repercutido tanto nas minhas rodas de amigos. Foram uns cinco anos discutindo as teorias por trás do argumento: em 2004, ainda falávamos da transformação do planeta num computador que simulava a realidade. Da humanidade que era sua bateria, e não se dava conta, porque tinha o cérebro conectado a uma programação global ilusória.

Lembra do agente Smith? Ele era uma espécie de antivírus que queria se aposentar (se fosse hoje – tempo de reforma previdenciária, ele não estaria pensando nisso). Sua missão? Capturar o líder humano.

Eu adorava a comparação – nós e os vírus temos essa característica de destruir os próprios meios de multiplicação – e, conscientemente ou não, daquela discussão sem maiores compromissos teóricos, fui direto para a seleção do Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente da UFC. Pensando no comportamento auto-destrutivo da humanidade, passei a estudar a nossa relação com a natureza. E com nós mesmos. Comecei a nos enxergar como suicidas que deixam rastros assombrosos no lugar que chamamos de casa.

(FOTO: Flávia Castelo)

Tentei nos comparar com as bactérias, que embora letais, convivem com os demais organismos, podendo, inclusive ajudá-los. Mas, precisaríamos ser mais democráticos. E mais criativos, como diria Freud, quem acreditava que a cultura é, de certa forma, produto da auto-repressão aos instintos primários. Você não acha que já que podemos ter consciência dos erros que cometemos, com um pouquinho de imaginação poderíamos, também, diminuir os impactos civilizatórios virulentos?

Pergunto porque parece que preferimos viver como o trailer: num mundo comum, em que você faz o seu trabalho, vai a festas, paga as suas contas. Em um mundo comum, onde você vive… preso. Uma prisão que não conseguimos ver, nem tocar, mas que não é apenas uma prisão mental. Nossa coleira contemporânea é, também, eletrônica e do endividamento. Ou você consegue sair sem o celular e já quitou todos os empréstimos do mês?

Citando a cantora Pitty, termino com uma lembrança: “Nada é orgânico é tudo programado. E eu achando que tinha me libertado”.

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.