Flávia Castelo: "Sentir e conhecer: O que é bonito pra você?"

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Sentir e conhecer: O que é bonito pra você?”

Enquanto escutávamos esta música, o olhar dele penetrava, fixamente, o meu. Ao mesmo tempo, sugeria introspecção, uma concentração nos próprios pensamentos

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

22 de agosto de 2018 às 06:33

Há 4 semanas

Por Flávia Castelo

“(…) Now I think I know what you tried to say to me/ And how you suffered for your sanity/ And how you tried to set them free/ They would not listen, they’re not listening still/ Perhaps they never will”
Starry Starry Night, Don McLean (1971)

Enquanto escutávamos esta música, o olhar dele penetrava, fixamente, o meu. Ao mesmo tempo, sugeria introspecção, uma concentração nos próprios pensamentos, que me fazia questionar se ele não teria esquecido aqueles olhos azuis numa direção qualquer. Seus traços tensos e expressão calma me deixaram confusa. Mas, agora, eu acho que sei o que ele tentou me dizer. Sobre como sofreu por sua sanidade. Eu tentei dizer a ele: “Você tentou libertá-los/ Eles não quiseram ouvir/ Eles não estão escutando/ Talvez eles nunca”. E ensaiei fazer com que todos, ao redor, escutassem. Minha filha não. Ela sabia. E sentia. Ou sabia porque sentia? O que eu senti? Minha melhor descrição é uma enorme dor na (e de!) barriga que me fez pedir licença: – Pequena, te encontro já. Preciso ir ao banheiro.

Menos de dez minutos depois, meu telefone toca. Um choro sufocado do outro lado da linha e o que parecia a voz da Livinha dizia algo como: – Mãe, por favor, vem logo.

Ignoro Daumier, Millet, Courbet, Carpeaux, Manet, Monet, Renoir, Degas, Cézanne, Rodin, Gauguin, Gallé, Guimard, Lalique, Redon, Moreau, Vuillard, Bonnard, Bourdelle, Maillol… …os grandes artistas da segunda metade do século XX e do início do século XIX, subo as escadas ‘da estação’, passando pelas esculturas em cores de Henry Cros, Jean-Léon Gérôme, Louis-Ernest Barrias, Jean-Désiré Ringel de Illzach e Jean Carriès e a encontro aos prantos. Com ela envolta aos meus braços, pergunto:
– O que foi, filha?
Ela levanta o rosto e enquanto limpa-o, responde, ainda, entre soluços:
– Mãe, por que ele teve que sofrer tanto?

Vincent van Gogh

Vincent van Gogh

Minha filha estava muito impressionada. Era nossa primeira vez ao Musee d’Orsay juntas (19/07/18). E, apesar da nossa expectativa por Nuit étoilée sur le Rhône (1888, Van Gogh), foi em Portrait de l’artiste (1889, Van Gogh) que “I just had an epiphany”. Melhor, e traduzindo a expressão: nós tivemos uma epifania. Ou, como diriam os britânicos que atribuíram um novo papel aos sentidos – como John Locke -, a partir da sensação, demos lugar ao conhecimento, compartilhando a experiência de captar – ou acreditar captar?-, a essência do artista que “above all, his aim is to represent life”.

Num misto de sentidos filosófico e literal foi como se estivéssemos diante da peça do quebra-cabeça que faltava para visualizar a imagem. E a peça era uma imagem. Que imagem! Me desculpe Orson Wells (em F for Fake, 1973), mas nada, absolutamente, nada, nenhuma foto ou réplica passaria algo como aquela tela. Não era permitido tocar nela, mas ela nos tocou.

Há poucos meses, havíamos assistido a Loving Vincent, um quadro a quadro, de 65 mil telas a óleo pintadas numa média de 76 vezes cada uma, por 125 artistas (mais de 60% mulheres, que, junto à diretora incrementou o número de indicados ao Oscar da categoria “animação”, representado por 68 homens, num universo de 72 nomeados), que distinguiram o presente do passado em “o mundo como Vincent o via” e “a forma como o mundo via Vincent”.

A partir desse filme, conhecemos Starry Starry Night, a música do início do texto. Ou, como canta Pato Fu (A Necrofilia da Arte, 1998), tributo ao gênio reconhecido pós-morte.

Passei a ver Van Gogh de outra maneira. Passamos. A emoção transmitida por Lianne La Havas (Lianne Charlotte Barnes), ao final do filme, fez nossa relação com o artista ganhar outra feição. E, seis dias depois, estávamos no mesmo lugar, tendo o mesmo “olhos nos olhos”, ouvindo, dessa vez, a música original, quando recebi uma mensagem: “apenas 4 de 70 quiseram vir”.

Isabela é professora e estava acompanhando um grupo de adolescentes numa excursão pela Europa. “66 perderam o melhor museu ever”, ela completou o recado. E comecei a prestar atenção aos incontáveis “clicks” que competiam com a tentativa dos presentes de contemplar cada quadro.

Isso me move: perceber, a cada momento, pessoas que têm acesso à arte a ignorar. A preterir. Trocar Louvre por Lafayette. E as que não têm? Acesso. Nem escolha? Penso muito nos jovens, especialmente nos ditos nem-nem-nem. E em como eles não querem mais o que já quisemos. Porque não queremos mais o mesmo. Porque ao mesmo tempo em que “a cultura” nos distanciou (e distancia) da “natureza”, estamos na “cultura do orgânico, do vegano, do saudável”, numa espécie de resgate a nós mesmos. A quem somos, ao nosso instinto (?).

Como ser vivo, humano e parte de uma sociedade, atuo com espírito, curiosidade e imaginação para criar modos e meios entre o que sou e quero ser, para inventar caminhos que nos levem – de onde estamos – aonde queremos ir. Procuro me questionar COMO QUERO IR. Na corda bamba da ética, da estética e da lógica. Tarefa árdua. Inclusive, porque somos muitos e variados. Eu também sou. Tantas e diversas. Mas, ao mesmo tempo, demasiadamente parecida. Semelhantes. Tanto que podemos discutir a existência de um “padrão” do gosto que “não se discute…”, universal: por determinados prazeres que pode ser satisfeito de maneiras diferentes e é modificado pelas condições em que artista e público se encontram. Como regras. Que dão uma certa estabilidade.
(Montesquieu, O Gosto).

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Flávia Castelo: “Sentir e conhecer: O que é bonito pra você?”

Enquanto escutávamos esta música, o olhar dele penetrava, fixamente, o meu. Ao mesmo tempo, sugeria introspecção, uma concentração nos próprios pensamentos

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

22 de agosto de 2018 às 06:33

Há 4 semanas

Por Flávia Castelo

“(…) Now I think I know what you tried to say to me/ And how you suffered for your sanity/ And how you tried to set them free/ They would not listen, they’re not listening still/ Perhaps they never will”
Starry Starry Night, Don McLean (1971)

Enquanto escutávamos esta música, o olhar dele penetrava, fixamente, o meu. Ao mesmo tempo, sugeria introspecção, uma concentração nos próprios pensamentos, que me fazia questionar se ele não teria esquecido aqueles olhos azuis numa direção qualquer. Seus traços tensos e expressão calma me deixaram confusa. Mas, agora, eu acho que sei o que ele tentou me dizer. Sobre como sofreu por sua sanidade. Eu tentei dizer a ele: “Você tentou libertá-los/ Eles não quiseram ouvir/ Eles não estão escutando/ Talvez eles nunca”. E ensaiei fazer com que todos, ao redor, escutassem. Minha filha não. Ela sabia. E sentia. Ou sabia porque sentia? O que eu senti? Minha melhor descrição é uma enorme dor na (e de!) barriga que me fez pedir licença: – Pequena, te encontro já. Preciso ir ao banheiro.

Menos de dez minutos depois, meu telefone toca. Um choro sufocado do outro lado da linha e o que parecia a voz da Livinha dizia algo como: – Mãe, por favor, vem logo.

Ignoro Daumier, Millet, Courbet, Carpeaux, Manet, Monet, Renoir, Degas, Cézanne, Rodin, Gauguin, Gallé, Guimard, Lalique, Redon, Moreau, Vuillard, Bonnard, Bourdelle, Maillol… …os grandes artistas da segunda metade do século XX e do início do século XIX, subo as escadas ‘da estação’, passando pelas esculturas em cores de Henry Cros, Jean-Léon Gérôme, Louis-Ernest Barrias, Jean-Désiré Ringel de Illzach e Jean Carriès e a encontro aos prantos. Com ela envolta aos meus braços, pergunto:
– O que foi, filha?
Ela levanta o rosto e enquanto limpa-o, responde, ainda, entre soluços:
– Mãe, por que ele teve que sofrer tanto?

Vincent van Gogh

Vincent van Gogh

Minha filha estava muito impressionada. Era nossa primeira vez ao Musee d’Orsay juntas (19/07/18). E, apesar da nossa expectativa por Nuit étoilée sur le Rhône (1888, Van Gogh), foi em Portrait de l’artiste (1889, Van Gogh) que “I just had an epiphany”. Melhor, e traduzindo a expressão: nós tivemos uma epifania. Ou, como diriam os britânicos que atribuíram um novo papel aos sentidos – como John Locke -, a partir da sensação, demos lugar ao conhecimento, compartilhando a experiência de captar – ou acreditar captar?-, a essência do artista que “above all, his aim is to represent life”.

Num misto de sentidos filosófico e literal foi como se estivéssemos diante da peça do quebra-cabeça que faltava para visualizar a imagem. E a peça era uma imagem. Que imagem! Me desculpe Orson Wells (em F for Fake, 1973), mas nada, absolutamente, nada, nenhuma foto ou réplica passaria algo como aquela tela. Não era permitido tocar nela, mas ela nos tocou.

Há poucos meses, havíamos assistido a Loving Vincent, um quadro a quadro, de 65 mil telas a óleo pintadas numa média de 76 vezes cada uma, por 125 artistas (mais de 60% mulheres, que, junto à diretora incrementou o número de indicados ao Oscar da categoria “animação”, representado por 68 homens, num universo de 72 nomeados), que distinguiram o presente do passado em “o mundo como Vincent o via” e “a forma como o mundo via Vincent”.

A partir desse filme, conhecemos Starry Starry Night, a música do início do texto. Ou, como canta Pato Fu (A Necrofilia da Arte, 1998), tributo ao gênio reconhecido pós-morte.

Passei a ver Van Gogh de outra maneira. Passamos. A emoção transmitida por Lianne La Havas (Lianne Charlotte Barnes), ao final do filme, fez nossa relação com o artista ganhar outra feição. E, seis dias depois, estávamos no mesmo lugar, tendo o mesmo “olhos nos olhos”, ouvindo, dessa vez, a música original, quando recebi uma mensagem: “apenas 4 de 70 quiseram vir”.

Isabela é professora e estava acompanhando um grupo de adolescentes numa excursão pela Europa. “66 perderam o melhor museu ever”, ela completou o recado. E comecei a prestar atenção aos incontáveis “clicks” que competiam com a tentativa dos presentes de contemplar cada quadro.

Isso me move: perceber, a cada momento, pessoas que têm acesso à arte a ignorar. A preterir. Trocar Louvre por Lafayette. E as que não têm? Acesso. Nem escolha? Penso muito nos jovens, especialmente nos ditos nem-nem-nem. E em como eles não querem mais o que já quisemos. Porque não queremos mais o mesmo. Porque ao mesmo tempo em que “a cultura” nos distanciou (e distancia) da “natureza”, estamos na “cultura do orgânico, do vegano, do saudável”, numa espécie de resgate a nós mesmos. A quem somos, ao nosso instinto (?).

Como ser vivo, humano e parte de uma sociedade, atuo com espírito, curiosidade e imaginação para criar modos e meios entre o que sou e quero ser, para inventar caminhos que nos levem – de onde estamos – aonde queremos ir. Procuro me questionar COMO QUERO IR. Na corda bamba da ética, da estética e da lógica. Tarefa árdua. Inclusive, porque somos muitos e variados. Eu também sou. Tantas e diversas. Mas, ao mesmo tempo, demasiadamente parecida. Semelhantes. Tanto que podemos discutir a existência de um “padrão” do gosto que “não se discute…”, universal: por determinados prazeres que pode ser satisfeito de maneiras diferentes e é modificado pelas condições em que artista e público se encontram. Como regras. Que dão uma certa estabilidade.
(Montesquieu, O Gosto).

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.