Flávia Castelo: Qual o “paratodos” brasileiro por excelência? Melhor: o que tem para todos em Fortaleza?

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: Qual o “paratodos” brasileiro por excelência? Melhor: o que tem para todos em Fortaleza?

Não estou falando de óperas ou cassinos, mas de um lugar para todo mundo

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

11 de Janeiro de 2018 às 17:56

Há 2 semanas

Por Flávia Castelo

Da Cultura Coca-Cola à Cidade Poder.

Na faculdade de Direito, inevitavelmente, tive mais contato com o conceito de “cidadão” quanto até então. Dos 18 aos 21, eu não tinha ideia de que essa definição do Estado protegia antes o Estado do que o próprio cidadão. E assim, durante a graduação, usei o termo, acreditando na simetria proposta entre direitos e deveres. Até conhecer melhor o comunismo de Lenin, o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler e perceber uma cultura adequada à nacionalidade via cidadania. Mas, “que cultura é essa?”, me perguntei e continuo a questionar ao me esbarrar (ou me integrar?) nas versões contemporâneas dessas catástrofes sociais. Afinal, cultura não é para todos?

É só lembrar de quando quase toda cidade tinha um cinema chamado “Paratodos”. Não estou falando de óperas ou cassinos, mas de um lugar para todo mundo (e não apenas para o cidadão). Perceba o poder da cidade. Porque, às vezes (melhor: muitas vezes), acho que nem ela sabe que tem. Ou prefere abrir mão por temor a represálias ou mesmo preguiça: é mais fácil se desculpar com eleitores do que se assumir epicentro ecológico, social e econômico. Do que se enxergar o tremor da Terra: onde nascemos, crescemos, nos desenvolvemos, multiplicamos e morremos.

A cidade tem e é vida: “Vamos fazer nosso dever de casa/E aí então vocês vão ver/Suas crianças derrubando reis/Fazer comédia no cinema com as suas leis”. A “Geração Coca-Cola” é contra o cidadão, já cantava Legião (Urbana). Digo, quanto à cultura cidadã. Explico: Andy Warhol defendia a Coca-Cola como o “paratodos” norte-americano por excelência e, talvez, até o único. Ela é bebida de e por milionários, celebridades, mendigos e marginalizados, sem distinção.

Há 33 anos, num janeiro como este, a música difundiu, o conceito do que convencionamos chamar de “Geração Coca-Cola”. Antes, era sinônimo para as garotas que se apaixonavam por gringos no Cassino Estoril da Praia de Iracema. Primeira casa da orla. Tinha piscina, a Vila Morena da Praia dos Peixes. O mesmo disco, também vendeu bem “Será” e, por mais que eu tenha o que dizer, não ressoaria como “Nos perderemos entre monstros/Da nossa própria criação/Serão noites inteiras/Talvez por medo da escuridão/Ficaremos acordados/Imaginando alguma solução/Pra que esse nosso egoísmo/Não destrua o nosso coração”.

Note: a cultura, como Direito, é assimétrica, porque não pressupõe necessariamente uma obrigação – nem por parte do Estado, o que torna, cada vez, mais complexo, equilibrar o local com o global. Mas, tenho uma pista para montar o quebra-cabeça dos nossos trópicos utópicos: qual o “paratodos” brasileiro por excelência? Melhor: o que tem para todos em Fortaleza?

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

Ilustração: José Ponte (www.pro-ponte.com)

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Flávia Castelo: Qual o “paratodos” brasileiro por excelência? Melhor: o que tem para todos em Fortaleza?

Não estou falando de óperas ou cassinos, mas de um lugar para todo mundo

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

11 de Janeiro de 2018 às 17:56

Há 2 semanas

Por Flávia Castelo

Da Cultura Coca-Cola à Cidade Poder.

Na faculdade de Direito, inevitavelmente, tive mais contato com o conceito de “cidadão” quanto até então. Dos 18 aos 21, eu não tinha ideia de que essa definição do Estado protegia antes o Estado do que o próprio cidadão. E assim, durante a graduação, usei o termo, acreditando na simetria proposta entre direitos e deveres. Até conhecer melhor o comunismo de Lenin, o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler e perceber uma cultura adequada à nacionalidade via cidadania. Mas, “que cultura é essa?”, me perguntei e continuo a questionar ao me esbarrar (ou me integrar?) nas versões contemporâneas dessas catástrofes sociais. Afinal, cultura não é para todos?

É só lembrar de quando quase toda cidade tinha um cinema chamado “Paratodos”. Não estou falando de óperas ou cassinos, mas de um lugar para todo mundo (e não apenas para o cidadão). Perceba o poder da cidade. Porque, às vezes (melhor: muitas vezes), acho que nem ela sabe que tem. Ou prefere abrir mão por temor a represálias ou mesmo preguiça: é mais fácil se desculpar com eleitores do que se assumir epicentro ecológico, social e econômico. Do que se enxergar o tremor da Terra: onde nascemos, crescemos, nos desenvolvemos, multiplicamos e morremos.

A cidade tem e é vida: “Vamos fazer nosso dever de casa/E aí então vocês vão ver/Suas crianças derrubando reis/Fazer comédia no cinema com as suas leis”. A “Geração Coca-Cola” é contra o cidadão, já cantava Legião (Urbana). Digo, quanto à cultura cidadã. Explico: Andy Warhol defendia a Coca-Cola como o “paratodos” norte-americano por excelência e, talvez, até o único. Ela é bebida de e por milionários, celebridades, mendigos e marginalizados, sem distinção.

Há 33 anos, num janeiro como este, a música difundiu, o conceito do que convencionamos chamar de “Geração Coca-Cola”. Antes, era sinônimo para as garotas que se apaixonavam por gringos no Cassino Estoril da Praia de Iracema. Primeira casa da orla. Tinha piscina, a Vila Morena da Praia dos Peixes. O mesmo disco, também vendeu bem “Será” e, por mais que eu tenha o que dizer, não ressoaria como “Nos perderemos entre monstros/Da nossa própria criação/Serão noites inteiras/Talvez por medo da escuridão/Ficaremos acordados/Imaginando alguma solução/Pra que esse nosso egoísmo/Não destrua o nosso coração”.

Note: a cultura, como Direito, é assimétrica, porque não pressupõe necessariamente uma obrigação – nem por parte do Estado, o que torna, cada vez, mais complexo, equilibrar o local com o global. Mas, tenho uma pista para montar o quebra-cabeça dos nossos trópicos utópicos: qual o “paratodos” brasileiro por excelência? Melhor: o que tem para todos em Fortaleza?

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

Ilustração: José Ponte (www.pro-ponte.com)