Flávia Castelo: “O bêbado e a equilibrista”

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “O bêbado e a equilibrista”

É como se vivêssemos na esperança equilibrista que Aldir Blanc letrou para João Bosco quando eu nasci: numa corda bamba repleta de emoção, ação e razão

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

11 de outubro de 2017 às 11:57

Há 1 mês

Arte é exceção enquanto a cultura regra? Depois de Godard, acho que ninguém ousou perguntar.

E, claro, meu esforço aqui não é no sentido de confirmar ou refutar a máxima de “Je Vous Salue, Sarajevo”. Pretendo, ‘apenas’, motivar uma reflexão sobre a hipótese do professor Teixeira Coelho de que cultura é direito, e arte, um privilégio. Mas, de pronto, confesso que é como sistematizar ou mesmo elencar valores: uma arte! Até porque o que quero expressar não consigo necessariamente comunicar.

Separar, estruturar, escolher: é difícil organizar o pensamento sem me faltar sentimentos – e até palavras – que tento não reduzir a dicotomias. Mas, as questões só me (a)parecem assim: com um versus gigantesco – entre cultura e arte -, como numa partida de futebol – de que eu também não gosto muito (não pelo espetáculo em si, mas pelo binarismo proeminente).

Dá até para desenhar um esquema desse jogo que, como em toda competição, alguém sai perdendo. Não me interprete mal: gosto de esportes. Muito. Mas não lembro ter vivido momento mais oportuno para torcer por mais frescobol do que tênis, nos moldes do que escreveu Rubem Alves.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

E porque também gosto de escrever, quero contar uma história dentro da história: Quando minha filha estava entrando na fase da vida que convencionamos chamar de adolescência, ela recebeu uma tarefa de casa em que a professora pediu para os alunos escreverem sobre as mudanças que estavam acontecendo à medida que eles cresciam.

Eu li a redação e, apesar de não conseguir lembrar todas as palavras, não esqueço a sensação que tomou conta de mim ao ouvir dos meus próprios lábios que “crescer é muito difícil, que ser adolescente é perceber que todos estão olhando pra você, te julgando e inibindo”.

Senti uma tristeza, até pela impotência em mudar a nova realidade que nascia a partir daquele dia: agora, ela só pensaria em cantar se fosse no chuveiro, dançar desde que ninguém estivesse vendo e escrever, no máximo, um diário – trancado com cadeado.

A lágrima escorreu quando lembrei da frase, atribuída pela world wide web a Pablo Picasso, de que toda criança é um artista e que o problema é como se manter artista depois de crescido. Daí, pelo menos, uma incoerência: a arte é exceção, mas todos fomos artistas um dia.

Não sei, mas é como se vivêssemos na esperança equilibrista que Aldir Blanc letrou para João Bosco quando eu nasci (1979): numa corda bamba repleta de emoção, ação e razão.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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É como se vivêssemos na esperança equilibrista que Aldir Blanc letrou para João Bosco quando eu nasci: numa corda bamba repleta de emoção, ação e razão

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

11 de outubro de 2017 às 11:57

Há 1 mês

Arte é exceção enquanto a cultura regra? Depois de Godard, acho que ninguém ousou perguntar.

E, claro, meu esforço aqui não é no sentido de confirmar ou refutar a máxima de “Je Vous Salue, Sarajevo”. Pretendo, ‘apenas’, motivar uma reflexão sobre a hipótese do professor Teixeira Coelho de que cultura é direito, e arte, um privilégio. Mas, de pronto, confesso que é como sistematizar ou mesmo elencar valores: uma arte! Até porque o que quero expressar não consigo necessariamente comunicar.

Separar, estruturar, escolher: é difícil organizar o pensamento sem me faltar sentimentos – e até palavras – que tento não reduzir a dicotomias. Mas, as questões só me (a)parecem assim: com um versus gigantesco – entre cultura e arte -, como numa partida de futebol – de que eu também não gosto muito (não pelo espetáculo em si, mas pelo binarismo proeminente).

Dá até para desenhar um esquema desse jogo que, como em toda competição, alguém sai perdendo. Não me interprete mal: gosto de esportes. Muito. Mas não lembro ter vivido momento mais oportuno para torcer por mais frescobol do que tênis, nos moldes do que escreveu Rubem Alves.

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

E porque também gosto de escrever, quero contar uma história dentro da história: Quando minha filha estava entrando na fase da vida que convencionamos chamar de adolescência, ela recebeu uma tarefa de casa em que a professora pediu para os alunos escreverem sobre as mudanças que estavam acontecendo à medida que eles cresciam.

Eu li a redação e, apesar de não conseguir lembrar todas as palavras, não esqueço a sensação que tomou conta de mim ao ouvir dos meus próprios lábios que “crescer é muito difícil, que ser adolescente é perceber que todos estão olhando pra você, te julgando e inibindo”.

Senti uma tristeza, até pela impotência em mudar a nova realidade que nascia a partir daquele dia: agora, ela só pensaria em cantar se fosse no chuveiro, dançar desde que ninguém estivesse vendo e escrever, no máximo, um diário – trancado com cadeado.

A lágrima escorreu quando lembrei da frase, atribuída pela world wide web a Pablo Picasso, de que toda criança é um artista e que o problema é como se manter artista depois de crescido. Daí, pelo menos, uma incoerência: a arte é exceção, mas todos fomos artistas um dia.

Não sei, mas é como se vivêssemos na esperança equilibrista que Aldir Blanc letrou para João Bosco quando eu nasci (1979): numa corda bamba repleta de emoção, ação e razão.

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.