Flávia Castelo: No abecedário da vida, qual a tua antologia?

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: No abecedário da vida, qual a tua antologia?

Ouvindo “Eu vejo o futuro repetir o passado/Eu vejo um museu de grandes novidades”, escutei mais sobre o tempo que a antologia cancliniana

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

31 de Janeiro de 2018 às 16:47

Há 10 meses

Por Flávia Castelo,

Eu estava na Wilborada 1047, lendo Canclini, quando me deparei com o periódico El Espectador. A matéria de capa era o Festival del Libro no Parque 93. Eu estava com Lectores, espectadores e internautas, entre uma conferida e outra no WhatsApp, nas caixas de e-mails e no Instagram. Enquanto minha capacidade de concentração ia de uma hora a um segundo, eu – também – escutava o discurso apaixonado de uma das funcionárias da livraria: ela falava sobre Marvel Moreno – filha da aristocracia de Barranquilla e rainha do carnaval de 1959 que se estabeleceu em Paris para realizar o sonho de escrever. Da Costa Caribenha à Saint-Martin para se fazer ouvida pelo mundo, a narrativa da escritora, em En deciembre llegaban las brisas, é a de mulheres que moldam a história ao registrar a ótica feminista.

Na obra destacada inicialmente, o filósofo, que enfatiza seu trabalho na pós-modernidade pelo ponto de vista latino-americano, cita a metáfora calviniana – das histórias sem fim –para lembrar o enfrentamento da leitura solitária (mas ela existe?), ao apresentar mais perguntas que qualquer teoria. E no contexto da glocalização, fala de modo não linear e autônomo, de um museu para tudo que foi novo.

Lembrando Cazuza, em “O tempo não para”, sua antologia nos inquieta com: o assombro de que não construímos pontes num mundo (cor)rompido; a ciência de que o público não nasce, mas se forma; o cabo de guerra desleal entre as editoras que não sabem ler, mas sabem contar; o potencial estético e emotivo das grandes telas de cinema (como não lembrar de Bertolucci em The Dreamers?); a ilusiodemocracia; a linha direta entre os ligeiros incômodos e o despotismo nada esclarecido; a integração multimídia; a contínua agitação, em paralelo às expectativas cada vez mais baixas; a criatividade como virtude; o questionamento sobre o que é o poder hoje: conectar-se ao máximo de conteúdo e pessoas ou desconectar-se?; a visibilidade da arte e da cultura nos comportamentos corporais; a espetacularização generalizada do social; a interatividade e os prazeres do “quê” e do “como”; as políticas culturais gutembergue-timbernersleeana; o debate sobre a substituição ou complementariedade entres as leituras tradicional e via Internet; o ler e escrever de outras maneiras; sobre o local estar sempre em outro lugar; a alteração das relações entre objetos, usos e significados; a transformação do especular em espetáculo; o tempo desglobalizador; a globalização desglobalizada; as dúvidas sobre como não estetizar o horror; a geopolítica cultural do souvenir; o não procurar solução final, prêmio ou expulsão: quem realmente ganha no Big Brother?; o copyright e o copyleft, a direita e a esquerda; a diferença entre quem rouba e funda um banco; o robinhoodismo boomerang; e a (ir)responsabilidade sem rosto.

Ouvindo “Eu vejo o futuro repetir o passado/Eu vejo um museu de grandes novidades”, escutei mais sobre o tempo que a antologia cancliniana – que se inquieta com o ‘mercado’ ao se deixar difundir por um banco (a obra foi publicada por um banco) objetivando passar da hiperconectividade, via hipertexto, para um pensamento crítico.

Ademais, sou brasileira escrevendo na Colômbia a partir do livro de um argentino radicado no México e publicado originalmente na Espanha. Escrevo no computador as anotações do meu caderninho, pesquiso na World Wide Web e consulto o Dicionário de Português licenciado para Oxford University Press, enquanto faço um Facetime com minha filha – que está sob a brisa do Atlântico. Tudo isso pensando em como/onde/quando e por quanto alugar uma bicicleta para passear por Cartagena das Índias: onde discuto com minha companheira de viagem as versões que nos oferecem e forjam a dispensabilidade do original.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Ouvindo “Eu vejo o futuro repetir o passado/Eu vejo um museu de grandes novidades”, escutei mais sobre o tempo que a antologia cancliniana

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

31 de Janeiro de 2018 às 16:47

Há 10 meses

Por Flávia Castelo,

Eu estava na Wilborada 1047, lendo Canclini, quando me deparei com o periódico El Espectador. A matéria de capa era o Festival del Libro no Parque 93. Eu estava com Lectores, espectadores e internautas, entre uma conferida e outra no WhatsApp, nas caixas de e-mails e no Instagram. Enquanto minha capacidade de concentração ia de uma hora a um segundo, eu – também – escutava o discurso apaixonado de uma das funcionárias da livraria: ela falava sobre Marvel Moreno – filha da aristocracia de Barranquilla e rainha do carnaval de 1959 que se estabeleceu em Paris para realizar o sonho de escrever. Da Costa Caribenha à Saint-Martin para se fazer ouvida pelo mundo, a narrativa da escritora, em En deciembre llegaban las brisas, é a de mulheres que moldam a história ao registrar a ótica feminista.

Na obra destacada inicialmente, o filósofo, que enfatiza seu trabalho na pós-modernidade pelo ponto de vista latino-americano, cita a metáfora calviniana – das histórias sem fim –para lembrar o enfrentamento da leitura solitária (mas ela existe?), ao apresentar mais perguntas que qualquer teoria. E no contexto da glocalização, fala de modo não linear e autônomo, de um museu para tudo que foi novo.

Lembrando Cazuza, em “O tempo não para”, sua antologia nos inquieta com: o assombro de que não construímos pontes num mundo (cor)rompido; a ciência de que o público não nasce, mas se forma; o cabo de guerra desleal entre as editoras que não sabem ler, mas sabem contar; o potencial estético e emotivo das grandes telas de cinema (como não lembrar de Bertolucci em The Dreamers?); a ilusiodemocracia; a linha direta entre os ligeiros incômodos e o despotismo nada esclarecido; a integração multimídia; a contínua agitação, em paralelo às expectativas cada vez mais baixas; a criatividade como virtude; o questionamento sobre o que é o poder hoje: conectar-se ao máximo de conteúdo e pessoas ou desconectar-se?; a visibilidade da arte e da cultura nos comportamentos corporais; a espetacularização generalizada do social; a interatividade e os prazeres do “quê” e do “como”; as políticas culturais gutembergue-timbernersleeana; o debate sobre a substituição ou complementariedade entres as leituras tradicional e via Internet; o ler e escrever de outras maneiras; sobre o local estar sempre em outro lugar; a alteração das relações entre objetos, usos e significados; a transformação do especular em espetáculo; o tempo desglobalizador; a globalização desglobalizada; as dúvidas sobre como não estetizar o horror; a geopolítica cultural do souvenir; o não procurar solução final, prêmio ou expulsão: quem realmente ganha no Big Brother?; o copyright e o copyleft, a direita e a esquerda; a diferença entre quem rouba e funda um banco; o robinhoodismo boomerang; e a (ir)responsabilidade sem rosto.

Ouvindo “Eu vejo o futuro repetir o passado/Eu vejo um museu de grandes novidades”, escutei mais sobre o tempo que a antologia cancliniana – que se inquieta com o ‘mercado’ ao se deixar difundir por um banco (a obra foi publicada por um banco) objetivando passar da hiperconectividade, via hipertexto, para um pensamento crítico.

Ademais, sou brasileira escrevendo na Colômbia a partir do livro de um argentino radicado no México e publicado originalmente na Espanha. Escrevo no computador as anotações do meu caderninho, pesquiso na World Wide Web e consulto o Dicionário de Português licenciado para Oxford University Press, enquanto faço um Facetime com minha filha – que está sob a brisa do Atlântico. Tudo isso pensando em como/onde/quando e por quanto alugar uma bicicleta para passear por Cartagena das Índias: onde discuto com minha companheira de viagem as versões que nos oferecem e forjam a dispensabilidade do original.

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.