Flávia Castelo: "A natureza, assim como a arte, não serve pra nada"

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “A natureza, assim como a arte, não serve pra nada”

Se inúteis podem ser as pedras antigas, inúteis podem ser os passarinhos

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

19 de outubro de 2017 às 10:54

Há 2 meses

Por Flávia Castelo

Em tempos de naturalização, quem mais sai perdendo é a natureza. Naturalizamos tão bem o pensamento de que a questão ambiental não se resume a passarinhos e florzinhas, quanto estamos tornando natural acabar com a difusão de obras de arte. Desde o caso do cancelamento da mostra ‘Queermuseu’, no Santander Cultural de Porto Alegre (em 15 de agosto), até o trabalho ‘Todas as coisas dignas de serem lembradas’, exposto na XIX Unifor Plástica e censurado anteontem (17/10/17), são incontáveis as situações em que o cabo de guerra das inter-e-intra-relações da emoção, da prática e da razão estão pendendo para o fortalecimento do discurso conservador vigente. Basicamente, porque arte não serve pra nada.

Nem a natureza: ou podemos dizer que a razão de ser da questão ambiental contemporânea é o sentimento desinteressado por ela? Pode até ter sido um dia: quando do nascimento da ecologia – era o que sinalizava a reação de indignação diante da degradação estética dos espaços naturais. Mas, recapitulando dois momentos históricos, percebemos uma contradição fundamental: ao mesmo tempo em que a preocupação com o patrimônio natural foi mote para a criação da pasta ambiental, seu representante maior deixava de lado a preservação natural em detrimento da luta contra a poluição.

Estou falando das primeiras políticas públicas conservacionistas (do início dos anos 1970) que consistiram em preservar a natureza enquanto patrimônio e do marco teórico negativo do caráter patrimonial da natureza: ‘O ministério do impossível’ (de 1975), do Ministro do Meio Ambiente francês de 1971 a 1974, cujo principal objetivo era o de mostrar que o meio ambiente não se reduz à natureza.

Foto: Reprodução do Instagram da artista que teve suas obras censuradas na UNIFOR PLÁSTICA.

Foto: Reprodução do Instagram da artista que teve suas obras censuradas na Unifor Plástica.

Talvez, Robert Poujade só tivesse essa estratégia naquela oportunidade: deixar de insistir na futilidade da natureza e sua beleza e explicar economicamente a necessidade de sua proteção. Mas não sem o custo de muita confusão: a oportunidade estratégica das atuais pautas morais.

Bertrand Alliot estuda questões relacionadas à crise ecológica global na encruzilhada da ciência política, filosofia e antropologia. Também criador da Nature Tv, canal francês de vídeos na web, motivou esta coluna, especialmente, depois de escrever um artigo para o Le Monde no último 17 de setembro.

Inspirado nas três últimas edições das Jornadas Europeias do Patrimônio (uma iniciativa anual do Governo Francês, que já recebeu adesão de 50 países, onde prédios históricos com pouco ou nenhum público são abertos no terceiro final de semana de setembro numa grande imersão nas culturas locais), ele defendeu, no jornal, que a proteção da natureza deve ser de responsabilidade do Ministério da Cultura.

Por que ele quer essa transferência de competência? Porque acredita na necessidade de se reabilitar a palavra ‘natureza’ (dado seu caráter secundário pós disseminação do termo ‘meio ambiente’). Explico: nas Jornadas, durante dois dias, a população é convidada a visitar, como patrimônio nacional, obras-primas da arquitetura civil ou religiosa, heranças literária, cênica, artísticas de um modo geral e também testemunhas de atividades agrícolas, parques, jardins e sítios arqueológicos – o que ele acredita ser uma espécie de rendição do Ministério da Cultura francês aos argumentos de ecologistas sobre “natureza e cultura” serem partes integrantes do nosso patrimônio, partes de um valor que não é necessariamente econômico. Afinal, proteger o patrimônio é reconhecer o valor da inutilidade econômica. Porque a economia, como ensina o professor Teixeira Coelho, é uma questão de cultura, não o inverso.

O Doutor Bertrand Alliot propõe, portanto, que as políticas para garantir o desenvolvimento sustentável sejam de responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente e joga luz nas políticas do Ministério da Cultura para preservação de patrimônios inúteis, sejam estes culturais sejam naturais.

Em outras palavras, ele acredita que, se inúteis podem ser as pedras antigas, inúteis podem ser os passarinhos. E você?

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Se inúteis podem ser as pedras antigas, inúteis podem ser os passarinhos

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

19 de outubro de 2017 às 10:54

Há 2 meses

Por Flávia Castelo

Em tempos de naturalização, quem mais sai perdendo é a natureza. Naturalizamos tão bem o pensamento de que a questão ambiental não se resume a passarinhos e florzinhas, quanto estamos tornando natural acabar com a difusão de obras de arte. Desde o caso do cancelamento da mostra ‘Queermuseu’, no Santander Cultural de Porto Alegre (em 15 de agosto), até o trabalho ‘Todas as coisas dignas de serem lembradas’, exposto na XIX Unifor Plástica e censurado anteontem (17/10/17), são incontáveis as situações em que o cabo de guerra das inter-e-intra-relações da emoção, da prática e da razão estão pendendo para o fortalecimento do discurso conservador vigente. Basicamente, porque arte não serve pra nada.

Nem a natureza: ou podemos dizer que a razão de ser da questão ambiental contemporânea é o sentimento desinteressado por ela? Pode até ter sido um dia: quando do nascimento da ecologia – era o que sinalizava a reação de indignação diante da degradação estética dos espaços naturais. Mas, recapitulando dois momentos históricos, percebemos uma contradição fundamental: ao mesmo tempo em que a preocupação com o patrimônio natural foi mote para a criação da pasta ambiental, seu representante maior deixava de lado a preservação natural em detrimento da luta contra a poluição.

Estou falando das primeiras políticas públicas conservacionistas (do início dos anos 1970) que consistiram em preservar a natureza enquanto patrimônio e do marco teórico negativo do caráter patrimonial da natureza: ‘O ministério do impossível’ (de 1975), do Ministro do Meio Ambiente francês de 1971 a 1974, cujo principal objetivo era o de mostrar que o meio ambiente não se reduz à natureza.

Foto: Reprodução do Instagram da artista que teve suas obras censuradas na UNIFOR PLÁSTICA.

Foto: Reprodução do Instagram da artista que teve suas obras censuradas na Unifor Plástica.

Talvez, Robert Poujade só tivesse essa estratégia naquela oportunidade: deixar de insistir na futilidade da natureza e sua beleza e explicar economicamente a necessidade de sua proteção. Mas não sem o custo de muita confusão: a oportunidade estratégica das atuais pautas morais.

Bertrand Alliot estuda questões relacionadas à crise ecológica global na encruzilhada da ciência política, filosofia e antropologia. Também criador da Nature Tv, canal francês de vídeos na web, motivou esta coluna, especialmente, depois de escrever um artigo para o Le Monde no último 17 de setembro.

Inspirado nas três últimas edições das Jornadas Europeias do Patrimônio (uma iniciativa anual do Governo Francês, que já recebeu adesão de 50 países, onde prédios históricos com pouco ou nenhum público são abertos no terceiro final de semana de setembro numa grande imersão nas culturas locais), ele defendeu, no jornal, que a proteção da natureza deve ser de responsabilidade do Ministério da Cultura.

Por que ele quer essa transferência de competência? Porque acredita na necessidade de se reabilitar a palavra ‘natureza’ (dado seu caráter secundário pós disseminação do termo ‘meio ambiente’). Explico: nas Jornadas, durante dois dias, a população é convidada a visitar, como patrimônio nacional, obras-primas da arquitetura civil ou religiosa, heranças literária, cênica, artísticas de um modo geral e também testemunhas de atividades agrícolas, parques, jardins e sítios arqueológicos – o que ele acredita ser uma espécie de rendição do Ministério da Cultura francês aos argumentos de ecologistas sobre “natureza e cultura” serem partes integrantes do nosso patrimônio, partes de um valor que não é necessariamente econômico. Afinal, proteger o patrimônio é reconhecer o valor da inutilidade econômica. Porque a economia, como ensina o professor Teixeira Coelho, é uma questão de cultura, não o inverso.

O Doutor Bertrand Alliot propõe, portanto, que as políticas para garantir o desenvolvimento sustentável sejam de responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente e joga luz nas políticas do Ministério da Cultura para preservação de patrimônios inúteis, sejam estes culturais sejam naturais.

Em outras palavras, ele acredita que, se inúteis podem ser as pedras antigas, inúteis podem ser os passarinhos. E você?

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.