Flávia Castelo: “Modificar a si é tão fácil quanto ao Saara"

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Modificar a si é tão fácil quanto ao Saara”

Sou do tipo de pessoa capaz de se perder no caminho que faz todos os dias. Me perco tanto literal quanto metaforicamente

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

29 de agosto de 2018 às 15:17

Há 3 meses

Por Flávia Castelo

Há exatamente um mês, foi aniversário de morte de um querido. Vincent. Van Gogh. E recebi imagens em sua homenagem de uma amiga (outra Isabela), que aproveito e compartilho uma (que me falta ver in loco), com a seguinte citação que me serve de inspiração (e ao Museu do Amanhã):

“A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: estou modificando o Saara. O fato era mínimo, mas essas palavras pouco engenhosas eram exatas e pensei que havia sido necessária toda minha vida para que eu pudesse dizê-las. A memória daquele momento é uma das mais significativas de minha estada no Egito”. Jorge Luis Borges, em O deserto (Atlas, 1984)

Ela retrata a inserção do sujeito no ato criativo, como acredito acontecer quando lemos um livro, assistimos a um filme, ouvimos uma música, apreciamos um quadro, uma escultura… …atos infinitos, como defende Ítalo Calvino (em Se um viajante numa noite de inverno), e que podem modificar nossas vidas.

Pensando nesse potencial transformador, lembrei do que vivenciei esta semana. E agora quero contar.

Sou do tipo de pessoa capaz de se perder no caminho que faz todos os dias. Me perco tanto literal quanto metaforicamente. Em pensamento, a realidade cotidiana, mesmo que momentaneamente, pode parecer novidade.

Filha, acho que entrei na rua errada.

Não, mãe, é por aqui mesmo.

Este poderia ser um diálogo depois de um dia intenso de trabalho e estudo. E foi. Estávamos voltando de um jantar que há dias ela desejava. Comemos até não mais aguentar. Conversamos idem. Enquanto ela narrava o último filme que assistira no cinema, me toquei que já eram quase dez horas da noite e eu ainda não havia contado a ninguém sobre o que acontecera mais cedo: não mais que sete horas da manhã, após deixar minha filha na aula e ainda pelos muros do colégio, fui surpreendida por quatro ou cinco jovens batendo no vidro do meu carro, gritando e ameaçando me apontar uma arma. No mesmo momento, não por coincidência porque já hábito, eu estava pensando na juventude que nem estuda, nem trabalha e nem está buscando qualificação . Eles continuaram me encarando e gerando uma espécie de pânico entre pais, alunos e transeuntes.

Mesmo com o tumulto, segui, tranquilamente, em frente. Exatamente! Você não leu errado. Após uma tentativa frustrada de assalto no trânsito da qual fui vítima, eu estava tranquila! Contei toda esta história à minha filha, me dando conta de algumas reflexões rotineiras, que quero destacar duas: 1 – o dia passa tão rápido e priorizado ao trabalho que a gente não percebe a vida passar; 2 – o desenho cotidiano visando a produtividade nos (re)tira a capacidade de sentir – até medo, como o do assalto

E assim, seguimos nossos planos utopistas, “repúblicas” de Platão: por mais vidas infinitas. Com pintura, romance, dança, filme e música. Porque arte é exceção, deve ser?

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Flávia Castelo: “Modificar a si é tão fácil quanto ao Saara”

Sou do tipo de pessoa capaz de se perder no caminho que faz todos os dias. Me perco tanto literal quanto metaforicamente

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

29 de agosto de 2018 às 15:17

Há 3 meses

Por Flávia Castelo

Há exatamente um mês, foi aniversário de morte de um querido. Vincent. Van Gogh. E recebi imagens em sua homenagem de uma amiga (outra Isabela), que aproveito e compartilho uma (que me falta ver in loco), com a seguinte citação que me serve de inspiração (e ao Museu do Amanhã):

“A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: estou modificando o Saara. O fato era mínimo, mas essas palavras pouco engenhosas eram exatas e pensei que havia sido necessária toda minha vida para que eu pudesse dizê-las. A memória daquele momento é uma das mais significativas de minha estada no Egito”. Jorge Luis Borges, em O deserto (Atlas, 1984)

Ela retrata a inserção do sujeito no ato criativo, como acredito acontecer quando lemos um livro, assistimos a um filme, ouvimos uma música, apreciamos um quadro, uma escultura… …atos infinitos, como defende Ítalo Calvino (em Se um viajante numa noite de inverno), e que podem modificar nossas vidas.

Pensando nesse potencial transformador, lembrei do que vivenciei esta semana. E agora quero contar.

Sou do tipo de pessoa capaz de se perder no caminho que faz todos os dias. Me perco tanto literal quanto metaforicamente. Em pensamento, a realidade cotidiana, mesmo que momentaneamente, pode parecer novidade.

Filha, acho que entrei na rua errada.

Não, mãe, é por aqui mesmo.

Este poderia ser um diálogo depois de um dia intenso de trabalho e estudo. E foi. Estávamos voltando de um jantar que há dias ela desejava. Comemos até não mais aguentar. Conversamos idem. Enquanto ela narrava o último filme que assistira no cinema, me toquei que já eram quase dez horas da noite e eu ainda não havia contado a ninguém sobre o que acontecera mais cedo: não mais que sete horas da manhã, após deixar minha filha na aula e ainda pelos muros do colégio, fui surpreendida por quatro ou cinco jovens batendo no vidro do meu carro, gritando e ameaçando me apontar uma arma. No mesmo momento, não por coincidência porque já hábito, eu estava pensando na juventude que nem estuda, nem trabalha e nem está buscando qualificação . Eles continuaram me encarando e gerando uma espécie de pânico entre pais, alunos e transeuntes.

Mesmo com o tumulto, segui, tranquilamente, em frente. Exatamente! Você não leu errado. Após uma tentativa frustrada de assalto no trânsito da qual fui vítima, eu estava tranquila! Contei toda esta história à minha filha, me dando conta de algumas reflexões rotineiras, que quero destacar duas: 1 – o dia passa tão rápido e priorizado ao trabalho que a gente não percebe a vida passar; 2 – o desenho cotidiano visando a produtividade nos (re)tira a capacidade de sentir – até medo, como o do assalto

E assim, seguimos nossos planos utopistas, “repúblicas” de Platão: por mais vidas infinitas. Com pintura, romance, dança, filme e música. Porque arte é exceção, deve ser?

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.