Flávia Castelo: "Imagine all the people"
ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Imagine all the people”

Andamos por aí com a ilusão de que nossa história pessoal chegou ao fim, de que nos tornamos a pessoa que estávamos destinados a ser

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

15 de fevereiro de 2017 às 10:56

Há 7 meses

Por Flávia Castelo

Esta semana, uma amiga que estuda e ama Nietzsche citou ‘Assim Falava Zaratustra’ e seu conceito de homem: “uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar”.

Pensei nesse caminho que também chamamos de fases da vida e nas decisões que nos influenciam profundamente, inclusive, naquelas que nos tornam a pessoa que somos, e, ainda que, algumas vezes, quando nos tornamos essas pessoas, nem sempre nos empolgamos com as decisões tomadas.

Mas eu não tenho como falar das intenções do filósofo, como minha amiga costuma fazer em sala de aula. Então, procurando saber por que tomamos decisões das quais nos arrependemos, encontrei um estudo sobre mudanças no valor pessoal das pessoas ao longo do tempo.

foto-flavia

(Foto: Flávia Castelo)

Empreendida pelo psicólogo e professor de Harvard, Dan Gilbert, a pesquisa tenta nos convencer que estamos andando por aí com a ilusão de que nossa história pessoal chegou ao fim, de que nos tornamos a pessoa que estávamos destinados a ser e, também, que seremos pelo resto de nossas vidas.

Por que isso acontece? Ele diz que não tem certeza, mas que provavelmente tem a ver com o fato de que ‘lembramos mais do que imaginamos’, porque ‘achamos mais fácil lembrar do que imaginar’.

Pensa bem: quem era você há 10 anos? Quem você quer ser em 10 anos? ‘Não consigo imaginar’ é uma resposta mais comum do que ‘não lembro’ e por isso, também, o pesquisador defende que se “temos dificuldade em imaginar quem seremos, então pensamos erroneamente que porque é difícil de imaginar, é improvável que aconteça.”

Ele ainda se desculpa ao afirmar que “quando as pessoas dizem ‘não consigo imaginar’, normalmente estão falando de sua própria falta de imaginação e não da improbabilidade do evento que estão descrevendo”.

Achei muito interessante, especialmente, porque fiquei mais tranquila por não me preocupar com o fato da minha filha ainda não ter entrado no ritmo de volta às aulas. Ela perguntou como iniciar uma rotina capaz de dar conta de todas as responsabilidades impostas e, tentando diminuir sua ansiedade, sugeri que ela ficasse sentada à mesa, apenas com os livros da escola, caderno e caneta, sem nenhuma distração, por duas horas. Quando ela retrucou imediatamente “você não tem mesmo noção do que eu faço com a minha imaginação”, percebi como sua travessia era empolgante.

Aí, você pode dizer: “mas ela é uma criança, não tem nem 15 anos!”. E eu aproveito para lembrar de aprender com quem prefere imaginar.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.

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Andamos por aí com a ilusão de que nossa história pessoal chegou ao fim, de que nos tornamos a pessoa que estávamos destinados a ser

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

15 de fevereiro de 2017 às 10:56

Há 7 meses

Por Flávia Castelo

Esta semana, uma amiga que estuda e ama Nietzsche citou ‘Assim Falava Zaratustra’ e seu conceito de homem: “uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar”.

Pensei nesse caminho que também chamamos de fases da vida e nas decisões que nos influenciam profundamente, inclusive, naquelas que nos tornam a pessoa que somos, e, ainda que, algumas vezes, quando nos tornamos essas pessoas, nem sempre nos empolgamos com as decisões tomadas.

Mas eu não tenho como falar das intenções do filósofo, como minha amiga costuma fazer em sala de aula. Então, procurando saber por que tomamos decisões das quais nos arrependemos, encontrei um estudo sobre mudanças no valor pessoal das pessoas ao longo do tempo.

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(Foto: Flávia Castelo)

Empreendida pelo psicólogo e professor de Harvard, Dan Gilbert, a pesquisa tenta nos convencer que estamos andando por aí com a ilusão de que nossa história pessoal chegou ao fim, de que nos tornamos a pessoa que estávamos destinados a ser e, também, que seremos pelo resto de nossas vidas.

Por que isso acontece? Ele diz que não tem certeza, mas que provavelmente tem a ver com o fato de que ‘lembramos mais do que imaginamos’, porque ‘achamos mais fácil lembrar do que imaginar’.

Pensa bem: quem era você há 10 anos? Quem você quer ser em 10 anos? ‘Não consigo imaginar’ é uma resposta mais comum do que ‘não lembro’ e por isso, também, o pesquisador defende que se “temos dificuldade em imaginar quem seremos, então pensamos erroneamente que porque é difícil de imaginar, é improvável que aconteça.”

Ele ainda se desculpa ao afirmar que “quando as pessoas dizem ‘não consigo imaginar’, normalmente estão falando de sua própria falta de imaginação e não da improbabilidade do evento que estão descrevendo”.

Achei muito interessante, especialmente, porque fiquei mais tranquila por não me preocupar com o fato da minha filha ainda não ter entrado no ritmo de volta às aulas. Ela perguntou como iniciar uma rotina capaz de dar conta de todas as responsabilidades impostas e, tentando diminuir sua ansiedade, sugeri que ela ficasse sentada à mesa, apenas com os livros da escola, caderno e caneta, sem nenhuma distração, por duas horas. Quando ela retrucou imediatamente “você não tem mesmo noção do que eu faço com a minha imaginação”, percebi como sua travessia era empolgante.

Aí, você pode dizer: “mas ela é uma criança, não tem nem 15 anos!”. E eu aproveito para lembrar de aprender com quem prefere imaginar.

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.