Flávia Castelo: "Histórias de pescadores"

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Histórias de pescadores”

E é isso que quero compartilhar: histórias de pescadores. Que se (con)fundem

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

19 de setembro de 2018 às 17:28

Há 3 meses

Por Flávia Castelo

Não existe ninguém melhor do que o próprio Jacaré para ser o Jacaré no cinema. Meus ouvidos captaram algo assim, de um sotaque ianque, quando o cineasta Orson Welles encontrou o pescador Manuel Jacaré na orla de Fortaleza. Eu não estava lá. Não (vi)vi, mas me remeti a esta cena, quando (ou)vi Júnior e Isaque numa espécie de ode ao mar. O ator e o marinheiro auxiliar começaram uma aventura própria e se convenceram de que não existe história melhor para narrar, do que a deles mesmos, dos índios, de Vicente Pizòn, dos negros, do Mucuripe, do seu Francisco e da Dona Lucy. Assim, Beto e Caleb ajudaram a contar. A cantar.

E é isso que quero compartilhar: histórias de pescadores. Que se (con)fundem. Entre os que partiram na Jangada São Pedro, até o Rio de Janeiro, para com Getúlio Vargas falar: eles queriam era falar pro Presidente, que tinham direitos os homens do mar. E os que nos oferecem um “novo olhar sobre as mudanças ocorridas ao longo dos últimos 70” no bairro que abrange as comunidades dos Conjuntos Santa Terezinha e São Pedro, Castelo Encantado, Serviluz e Vicente Pinzòn.

Agora, imagine a situação: chegar à Igrejinha de São Pedro, onde se situava a antiga Igreja Nossa Senhora dos Remédios. De lá, atravessar a Avenida Beira Mar, caminhar para esquerda, aproveitando a copa da única árvore e o mar, seguir até as próximas, que sombreiam as jangadas e o bar (da Dona Joana – quem gosta de samba e bota pra tocar por lá). Pronto, você acaba de chegar ao local em que Marcelina te entrega o colete salva-vidas e te acomoda numa catraia, o transporte para o Sinai: palco do espetáculo de uma jornada inesquecível. Passado o naufrágio Benny, ouvidos atentos para a contação “de forma memorial, mas também poética e afetiva” das transformações do Mucuripe. O bolo de tapioca, o dindim de murici e o café, dão outro sabor à contemplação dos três faróis, do Morro da Alegria, do Porto, das igrejas, do Riacho Maceió e de toda a enseada.

(FOTO: Henrique Kardozo)

Um dos autores, o bisneto, neto e filho de pescador, conta a sabedoria familiar herdada: “as mudanças ocorreram rápido demais no entorno da capela de São Pedro, protetor dos pescadores, onde se desenvolve a comunidade. Carpinteiros, calafates, catraieiros e outros profissionais trabalhavam junto aos pescadores na manutenção e fabricação de barcos e materiais de pesca. A vida se dava ao ar livre e girava em torno do mar”. E confessa, como resultado das transformações: “Meu pai me levou para o mar, desde muito pequeno, e me ensinou tudo o que ele havia aprendido, mas sempre fui orientado a estudar. Ele falava que vida de pescador não é fácil e vendo isso, busquei outras possibilidades. Porém, me sentia preso. É o mar que sempre me dá a sensação de liberdade.”

Imaginou? Pois It’s all true. É tudo verdade.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18h10.

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E é isso que quero compartilhar: histórias de pescadores. Que se (con)fundem

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

19 de setembro de 2018 às 17:28

Há 3 meses

Por Flávia Castelo

Não existe ninguém melhor do que o próprio Jacaré para ser o Jacaré no cinema. Meus ouvidos captaram algo assim, de um sotaque ianque, quando o cineasta Orson Welles encontrou o pescador Manuel Jacaré na orla de Fortaleza. Eu não estava lá. Não (vi)vi, mas me remeti a esta cena, quando (ou)vi Júnior e Isaque numa espécie de ode ao mar. O ator e o marinheiro auxiliar começaram uma aventura própria e se convenceram de que não existe história melhor para narrar, do que a deles mesmos, dos índios, de Vicente Pizòn, dos negros, do Mucuripe, do seu Francisco e da Dona Lucy. Assim, Beto e Caleb ajudaram a contar. A cantar.

E é isso que quero compartilhar: histórias de pescadores. Que se (con)fundem. Entre os que partiram na Jangada São Pedro, até o Rio de Janeiro, para com Getúlio Vargas falar: eles queriam era falar pro Presidente, que tinham direitos os homens do mar. E os que nos oferecem um “novo olhar sobre as mudanças ocorridas ao longo dos últimos 70” no bairro que abrange as comunidades dos Conjuntos Santa Terezinha e São Pedro, Castelo Encantado, Serviluz e Vicente Pinzòn.

Agora, imagine a situação: chegar à Igrejinha de São Pedro, onde se situava a antiga Igreja Nossa Senhora dos Remédios. De lá, atravessar a Avenida Beira Mar, caminhar para esquerda, aproveitando a copa da única árvore e o mar, seguir até as próximas, que sombreiam as jangadas e o bar (da Dona Joana – quem gosta de samba e bota pra tocar por lá). Pronto, você acaba de chegar ao local em que Marcelina te entrega o colete salva-vidas e te acomoda numa catraia, o transporte para o Sinai: palco do espetáculo de uma jornada inesquecível. Passado o naufrágio Benny, ouvidos atentos para a contação “de forma memorial, mas também poética e afetiva” das transformações do Mucuripe. O bolo de tapioca, o dindim de murici e o café, dão outro sabor à contemplação dos três faróis, do Morro da Alegria, do Porto, das igrejas, do Riacho Maceió e de toda a enseada.

(FOTO: Henrique Kardozo)

Um dos autores, o bisneto, neto e filho de pescador, conta a sabedoria familiar herdada: “as mudanças ocorreram rápido demais no entorno da capela de São Pedro, protetor dos pescadores, onde se desenvolve a comunidade. Carpinteiros, calafates, catraieiros e outros profissionais trabalhavam junto aos pescadores na manutenção e fabricação de barcos e materiais de pesca. A vida se dava ao ar livre e girava em torno do mar”. E confessa, como resultado das transformações: “Meu pai me levou para o mar, desde muito pequeno, e me ensinou tudo o que ele havia aprendido, mas sempre fui orientado a estudar. Ele falava que vida de pescador não é fácil e vendo isso, busquei outras possibilidades. Porém, me sentia preso. É o mar que sempre me dá a sensação de liberdade.”

Imaginou? Pois It’s all true. É tudo verdade.

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18h10.