Fica, Viveiro de Castro. Com todas as luzias.

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Fica, Viveiro de Castro. Com todas as luzias”

As mulheres vêm sendo tão oprimidas que passaram a acreditar em tudo o que os homens têm a dizer sobre elas. Está mais do que na hora de apoiarmos umas às outras

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

5 de setembro de 2018 às 17:30

Há 3 meses

Por Flávia Castelo

Para comemorar o aniversário, uma amiga fez um convite de almoço durante a semana. O grupo tinha, dentre outras coisas em comum, o fato de sua integralidade ser de mulheres, advogadas, professoras, morenas e sedentárias.

Comida, atualizações e risadas afins, antes do bolo, chegou uma loira bonita e musculosa chamando a atenção de todos no restaurante. A nossa também. Menos a da aniversariante. Era amiga dela. Como assim, amiga dela? Foi o que todas nós nos perguntamos. Em silêncio, para evitar constrangimentos. Inclusive, sobre o nosso preconceito.

De um jeito que não lembro qual, conseguimos descobrir como elas se conheceram. Era muita diferença entre as duas. Ficamos intrigadas, até que a celebrada nos contou: um dia, ao chegar na academia, uma menina me abordou com o cotidiano “oi, tudo bem?”. Como eu estava abalada porque tinha acabado de descobrir que meu marido me traía, respondi “tá não, senta aqui que vou te contar tudo”.

De uma pergunta retórica nasceu uma amizade, onde uma desconhecida ajudou outra, a começar por escutar.
Lembrei dessa e de outras histórias ao ouvir uma fala da Madonna, de 2016, republicada numa rede social dedicada ao “olhar mais demorado sobre o papel social feminino no audiovisual”: Ela diz que as mulheres vêm sendo tão oprimidas durante tanto tempo que elas passaram a acreditar em tudo o que os homens têm a dizer sobre elas e que está mais do que na hora de apoiarmos umas às outras colaborando, nos inspirando, aprendendo e iluminando.

Associei esses dois acontecimentos a um dos melhores textos que li sobre o incêndio (de domingo passado) no Museu Nacional: o do Antropólogo Eduardo Viveiro de Castro, quem acredita que a perda e o impacto nacionais e internacionais, especialmente tendo em vista o contexto político e de multicrise, não são suficientes para abrir um debate sério no Brasil sobre o desinvestimento na cultura. Ele aproveita e anuncia que se Bolsonaro for eleito, pega o avião e vai embora – não sabendo para onde, mas para qualquer outro lugar.

O gosto pelo texto não se deu pelo arremate, afinal, não estou convencida de que partir é nossa única saída. Fiquei triste com a conclusão dele, até porque a maioria dos brasileiros ficaria presa à situação. Mas, pela constatação de que nossos governos estão se especializando em criar desertos: naturais, espaciais, culturais e, como neste caso, temporais. Da ênfase na distância e aridez sociais em prol de uma catástrofe que tem como base a emersão de um fascismo outrora subterrâneo e que tem se movimentado a passos largos e crescentes.

No final das contas, acho que só queria dizer: Fica, Viveiro de Castro. Seja nosso amigo. Apoie todas as luzias. Somos tão importantes quanto o fóssil humano mais antigo das Américas.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18h10.

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Flávia Castelo: “Fica, Viveiro de Castro. Com todas as luzias”

As mulheres vêm sendo tão oprimidas que passaram a acreditar em tudo o que os homens têm a dizer sobre elas. Está mais do que na hora de apoiarmos umas às outras

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

5 de setembro de 2018 às 17:30

Há 3 meses

Por Flávia Castelo

Para comemorar o aniversário, uma amiga fez um convite de almoço durante a semana. O grupo tinha, dentre outras coisas em comum, o fato de sua integralidade ser de mulheres, advogadas, professoras, morenas e sedentárias.

Comida, atualizações e risadas afins, antes do bolo, chegou uma loira bonita e musculosa chamando a atenção de todos no restaurante. A nossa também. Menos a da aniversariante. Era amiga dela. Como assim, amiga dela? Foi o que todas nós nos perguntamos. Em silêncio, para evitar constrangimentos. Inclusive, sobre o nosso preconceito.

De um jeito que não lembro qual, conseguimos descobrir como elas se conheceram. Era muita diferença entre as duas. Ficamos intrigadas, até que a celebrada nos contou: um dia, ao chegar na academia, uma menina me abordou com o cotidiano “oi, tudo bem?”. Como eu estava abalada porque tinha acabado de descobrir que meu marido me traía, respondi “tá não, senta aqui que vou te contar tudo”.

De uma pergunta retórica nasceu uma amizade, onde uma desconhecida ajudou outra, a começar por escutar.
Lembrei dessa e de outras histórias ao ouvir uma fala da Madonna, de 2016, republicada numa rede social dedicada ao “olhar mais demorado sobre o papel social feminino no audiovisual”: Ela diz que as mulheres vêm sendo tão oprimidas durante tanto tempo que elas passaram a acreditar em tudo o que os homens têm a dizer sobre elas e que está mais do que na hora de apoiarmos umas às outras colaborando, nos inspirando, aprendendo e iluminando.

Associei esses dois acontecimentos a um dos melhores textos que li sobre o incêndio (de domingo passado) no Museu Nacional: o do Antropólogo Eduardo Viveiro de Castro, quem acredita que a perda e o impacto nacionais e internacionais, especialmente tendo em vista o contexto político e de multicrise, não são suficientes para abrir um debate sério no Brasil sobre o desinvestimento na cultura. Ele aproveita e anuncia que se Bolsonaro for eleito, pega o avião e vai embora – não sabendo para onde, mas para qualquer outro lugar.

O gosto pelo texto não se deu pelo arremate, afinal, não estou convencida de que partir é nossa única saída. Fiquei triste com a conclusão dele, até porque a maioria dos brasileiros ficaria presa à situação. Mas, pela constatação de que nossos governos estão se especializando em criar desertos: naturais, espaciais, culturais e, como neste caso, temporais. Da ênfase na distância e aridez sociais em prol de uma catástrofe que tem como base a emersão de um fascismo outrora subterrâneo e que tem se movimentado a passos largos e crescentes.

No final das contas, acho que só queria dizer: Fica, Viveiro de Castro. Seja nosso amigo. Apoie todas as luzias. Somos tão importantes quanto o fóssil humano mais antigo das Américas.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18h10.