Flávia Castelo: "Desmaterializando a cultura da pobreza"

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Desmaterializando a cultura da pobreza”

Um cultura da pobreza fortalecida, entre outros fatores, pelo circuito de vida desigual: Mas o que sustenta a cultura da pobreza?

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

6 de Abril de 2018 às 15:25

Há 8 meses

Por Flávia Castelo

Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio/ Faço um quadro com moléculas de hidrogênio/ Fios de pentelho de um velho armênio/ Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta/ Teu conceito parece, à primeira vista,/ Um barrococó figurativo neo-expressionista/ Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista/ Ao cabo da revalorização da natureza morta/ Minha mãe certa vez disse-me um dia,/ Vendo minha obra exposta na galeria,/ “Meu filho, isso é mais estranho que o cu da gia/ E muito mais feio que um hipopótamo insone” (…)

Atento (?) a“O Gosto” (de Montesquieu), Zeca Baleiro canta esta letra, no estacionamento do shopping (ambiente ‘controlado e seguro’ muito atrativo em tempos de ‘Fortaleza Apavorada’) em frente à minha casa, enquanto eu reflito sobre uma das questões levantadas pelo professor Patrice Meyer-Bisch (que apesar de anti-essencialista, é essencial aos meus estudos): “Pobreza cultural existe – e o conceito de Direitos Culturais pode oferecer uma alternativa”.

Tentando não desviar minha atenção (fiquei pensando se essa música popular seria descendente dos repentes satíricos ou mesmo dos escárnios medievais, por ridicularizar as artes plásticas. E qual a relação de sua narrativa com o boom do conservadorismo vigente), inicio esta reflexão afirmando que não existe pobreza cultural, mas, cultura da pobreza. E o conceito de Direitos Culturais – que se distingue de Direito à Cultura. Este mais amplo que aqueles.

Uma cultura da pobreza fortalecida, entre outros fatores, pelo circuito de vida desigual: Mas o que sustenta a cultura da pobreza?

Resumindo a uma palavra: crise. Ética, econômica, política, ambiental, institucional, trabalhista, previdenciária… …o que nos remete a uma crise comum: a de confiança. Ninguém acredita mais em ninguém. Estamos numa crise sem precedentes. E que parece tendência: Até a fé das elites está abalada. Barômetros da verdade, vem apresentando o ranking das instituições com mais descrédito no planeta: governo, mídia, ONG e empresa. Nesta ordem. Sendo o governo, por seis anos consecutivos, a menos confiável: a superação do malaise depende, portanto, da superação da crise de confiança. Mas como?

Interrompendo o ciclo vicioso da cultura da pobreza. E neste enfrentamento, cabem os Direitos Culturais e o Direito à Cultura como instrumentos, para, respectivamente, considerar recortes (como o etário, religioso, étnico, de gênero e das nações sem Estado), numa perspectiva coletivista; bem como o acesso à arte e à cultura – no sentido de que cada pessoa tem direito (e não obrigação) de participar da vida artística e cultural, sem censura ou imposição e sem esquecer que as declarações, de Friburgo e Universal dos Direitos Humanos, “são do indivíduo e apenas acessoriamente do coletivo” (Meyer-Bisch e Bidault).

Trocando em miúdos: “se houver alguma divergência ou discrepância entre o coletivo e o indivíduo, prevalece o indivíduo” (Meyer-Bisch e Bidault), porque imperativo trocar “identidade” por “identificação” (Amartya Sen). E, porque, se onde a desigualdade se aprofunda a mobilidade tende a congelar (Amartya Sen), a ação cultural é efetivamente primordial: ela permeia de poder a questão da exclusão humana de uma maneira mais radical do que qualquer outro direito, seja o de moradia, à saúde, ao trabalho… Porque quanto mais nossas redes são eficazes, mais democrática é a política.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Um cultura da pobreza fortalecida, entre outros fatores, pelo circuito de vida desigual: Mas o que sustenta a cultura da pobreza?

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

6 de Abril de 2018 às 15:25

Há 8 meses

Por Flávia Castelo

Desmaterializando a obra de arte do fim do milênio/ Faço um quadro com moléculas de hidrogênio/ Fios de pentelho de um velho armênio/ Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta/ Teu conceito parece, à primeira vista,/ Um barrococó figurativo neo-expressionista/ Com pitadas de arte nouveau pós-surrealista/ Ao cabo da revalorização da natureza morta/ Minha mãe certa vez disse-me um dia,/ Vendo minha obra exposta na galeria,/ “Meu filho, isso é mais estranho que o cu da gia/ E muito mais feio que um hipopótamo insone” (…)

Atento (?) a“O Gosto” (de Montesquieu), Zeca Baleiro canta esta letra, no estacionamento do shopping (ambiente ‘controlado e seguro’ muito atrativo em tempos de ‘Fortaleza Apavorada’) em frente à minha casa, enquanto eu reflito sobre uma das questões levantadas pelo professor Patrice Meyer-Bisch (que apesar de anti-essencialista, é essencial aos meus estudos): “Pobreza cultural existe – e o conceito de Direitos Culturais pode oferecer uma alternativa”.

Tentando não desviar minha atenção (fiquei pensando se essa música popular seria descendente dos repentes satíricos ou mesmo dos escárnios medievais, por ridicularizar as artes plásticas. E qual a relação de sua narrativa com o boom do conservadorismo vigente), inicio esta reflexão afirmando que não existe pobreza cultural, mas, cultura da pobreza. E o conceito de Direitos Culturais – que se distingue de Direito à Cultura. Este mais amplo que aqueles.

Uma cultura da pobreza fortalecida, entre outros fatores, pelo circuito de vida desigual: Mas o que sustenta a cultura da pobreza?

Resumindo a uma palavra: crise. Ética, econômica, política, ambiental, institucional, trabalhista, previdenciária… …o que nos remete a uma crise comum: a de confiança. Ninguém acredita mais em ninguém. Estamos numa crise sem precedentes. E que parece tendência: Até a fé das elites está abalada. Barômetros da verdade, vem apresentando o ranking das instituições com mais descrédito no planeta: governo, mídia, ONG e empresa. Nesta ordem. Sendo o governo, por seis anos consecutivos, a menos confiável: a superação do malaise depende, portanto, da superação da crise de confiança. Mas como?

Interrompendo o ciclo vicioso da cultura da pobreza. E neste enfrentamento, cabem os Direitos Culturais e o Direito à Cultura como instrumentos, para, respectivamente, considerar recortes (como o etário, religioso, étnico, de gênero e das nações sem Estado), numa perspectiva coletivista; bem como o acesso à arte e à cultura – no sentido de que cada pessoa tem direito (e não obrigação) de participar da vida artística e cultural, sem censura ou imposição e sem esquecer que as declarações, de Friburgo e Universal dos Direitos Humanos, “são do indivíduo e apenas acessoriamente do coletivo” (Meyer-Bisch e Bidault).

Trocando em miúdos: “se houver alguma divergência ou discrepância entre o coletivo e o indivíduo, prevalece o indivíduo” (Meyer-Bisch e Bidault), porque imperativo trocar “identidade” por “identificação” (Amartya Sen). E, porque, se onde a desigualdade se aprofunda a mobilidade tende a congelar (Amartya Sen), a ação cultural é efetivamente primordial: ela permeia de poder a questão da exclusão humana de uma maneira mais radical do que qualquer outro direito, seja o de moradia, à saúde, ao trabalho… Porque quanto mais nossas redes são eficazes, mais democrática é a política.

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.