Flávia Castelo: Contra tudo e todos

ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: Contra tudo e todos

Um convite para aquietar e inquietar

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

3 de Janeiro de 2018 às 16:48

Há 11 meses

Por Flávia Castelo

Dois e dois são quatro. Não retruque. É matemática. Você não tem forças e precisa aceitar. O ano acabou. E o final teve cheiro de chá, cafezinho ou, como diz minha filha, de um abraço quentinho. Toda manhã. Frescobol na praia e sol que muda cor. Almoço mar à vista, com afago do vento. Como é bom não saber qual é o dia nem a hora exata. No fim (?) a vida acalma. O coração também. Corpo, alma, espírito. Água de côco e diálogos à moda “guerra dos sexos”. Caminhada. Descanso: armamos a rede na varanda para escutar as crônicas de Gabriel García Márquez, entre um sonho e outro.

“Os homens, todos eles, são impotentes desde o momento em que chegam ao mundo. Alguns, a maioria, têm a grande sorte de conhecer mulheres que resolvem o problema.” Se ouvi? Foi dito. Por ele, Gabito. Talvez não no último Réveillon. Riso no deck. Família e amigos. Sentimento de culpa por um ano bom, ciente do quanto 2017 foi ruim. Amenizo com o que lembrou uma de nós: o fortalecimento do feminismo é um exemplo de algo maravilhoso diante de tudo o que passamos. Aulas sobre felicidade desesperada. Que é tudo, menos o que esperamos.

Esperança? A professora lê Valter Hugo Mãe. A outra também. Elas são diferentes, como peixe e escorpião, mas estão com o mesmo autor na cabeceira. Tem a que deita com Rubem Alves: ela quem nos impulsiona a quebrar a inércia corporal e vai aprender a nadar neste ano novo. Um varre e limpa o resultado de como lidamos com a fertilidade alheia. Há quem comanda a ceia e o que não deixa a água faltar: nem a que passarinho não bebe.

Ao todo, são seis dias, oito pessoas e três cachorros: dia primeiro, a cadela entrou no cio. Pela primeira vez. E demarcou o território dela: desejosa do exterior, nos expulsou da caiçara – também, denominação original do município das cerca de galhos. Ponta Grossa, Redonda, Peroba, Requenguela. Tudo canoa ligeira, diz o Tupi. Icapuí. Litoral e sertão.

Ser tão bom ė um pleonasmo necessário. Para veteranos e novatos. Meu irmão capturou o barulho das ondas e nosso flanar. O prazer de ouvir e assistir é tanto quanto o de lembrar: como agora. E de esquecer. Para viver o presente. Como bem anunciou um ‘Feliz 2018’ que recebi: para se inquietar. A exemplo de quando Dostoiévski investiu contra tudo e todos: ciência x superstição; progresso x atraso; razão x emoção; afirmação e negação da consciência. Aquietar e inquietar. Como as ondas do mar. “Meu amor! Tudo em volta está deserto. Tudo certo como dois e dois são cinco.” Obrigada, cineasta. Digo, anfitrião.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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Flávia Castelo: Contra tudo e todos

Um convite para aquietar e inquietar

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

3 de Janeiro de 2018 às 16:48

Há 11 meses

Por Flávia Castelo

Dois e dois são quatro. Não retruque. É matemática. Você não tem forças e precisa aceitar. O ano acabou. E o final teve cheiro de chá, cafezinho ou, como diz minha filha, de um abraço quentinho. Toda manhã. Frescobol na praia e sol que muda cor. Almoço mar à vista, com afago do vento. Como é bom não saber qual é o dia nem a hora exata. No fim (?) a vida acalma. O coração também. Corpo, alma, espírito. Água de côco e diálogos à moda “guerra dos sexos”. Caminhada. Descanso: armamos a rede na varanda para escutar as crônicas de Gabriel García Márquez, entre um sonho e outro.

“Os homens, todos eles, são impotentes desde o momento em que chegam ao mundo. Alguns, a maioria, têm a grande sorte de conhecer mulheres que resolvem o problema.” Se ouvi? Foi dito. Por ele, Gabito. Talvez não no último Réveillon. Riso no deck. Família e amigos. Sentimento de culpa por um ano bom, ciente do quanto 2017 foi ruim. Amenizo com o que lembrou uma de nós: o fortalecimento do feminismo é um exemplo de algo maravilhoso diante de tudo o que passamos. Aulas sobre felicidade desesperada. Que é tudo, menos o que esperamos.

Esperança? A professora lê Valter Hugo Mãe. A outra também. Elas são diferentes, como peixe e escorpião, mas estão com o mesmo autor na cabeceira. Tem a que deita com Rubem Alves: ela quem nos impulsiona a quebrar a inércia corporal e vai aprender a nadar neste ano novo. Um varre e limpa o resultado de como lidamos com a fertilidade alheia. Há quem comanda a ceia e o que não deixa a água faltar: nem a que passarinho não bebe.

Ao todo, são seis dias, oito pessoas e três cachorros: dia primeiro, a cadela entrou no cio. Pela primeira vez. E demarcou o território dela: desejosa do exterior, nos expulsou da caiçara – também, denominação original do município das cerca de galhos. Ponta Grossa, Redonda, Peroba, Requenguela. Tudo canoa ligeira, diz o Tupi. Icapuí. Litoral e sertão.

Ser tão bom ė um pleonasmo necessário. Para veteranos e novatos. Meu irmão capturou o barulho das ondas e nosso flanar. O prazer de ouvir e assistir é tanto quanto o de lembrar: como agora. E de esquecer. Para viver o presente. Como bem anunciou um ‘Feliz 2018’ que recebi: para se inquietar. A exemplo de quando Dostoiévski investiu contra tudo e todos: ciência x superstição; progresso x atraso; razão x emoção; afirmação e negação da consciência. Aquietar e inquietar. Como as ondas do mar. “Meu amor! Tudo em volta está deserto. Tudo certo como dois e dois são cinco.” Obrigada, cineasta. Digo, anfitrião.

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.