Flávia Castelo: "Amamos demasiadamente humanos (?)"
ALDEIA GLOCAL

Flávia Castelo: “Amamos demasiadamente humanos (?)”

Nossa vida, nossa sociedade, nossa consciência

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

24 de maio de 2017 às 10:12

Há 5 meses

Por Flávia Castelo

Era a última pauta de trabalho do dia, quando a anfitriã me conduziu ao local da reunião: ‘sala do amor’, estava escrito na porta. Detalhes, como esse, me fazem respirar melhor.

Comentei como estávamos em harmonia e citei meu Luc Ferry que estava na bolsa: ‘Do amor’. Uma homenagem a Stendhal que está me acompanhando nas esperas da vida. Diz o subtítulo que é ‘uma filosofia para o século XXI’. Que também poderia ser: ‘por mais dedicação ao conhecimento, à moral e à política’. Mas como, no ritmo diário que nos é imposto, conseguimos acompanhar e participar de tudo que está acontecendo no país?

Não, não estou me eximindo de responsabilidades. Apenas, quero compartilhar a frustração em lidar com anestesiamento e alienação coletivos. Lembra quando Temer queria espalhar milhões de outdoors com a frase de um dono de posto homicida (além de acusado de vários crimes, como receptação dolosa, sonegação fiscal, formação de quadrilha, estelionato e despejo por falta de pagamento)? “Não fale em crise, trabalhe”, ele citou há exatamente um ano, como se tivesse medo do que estaria por vir.

(FOTO: Flávia Castelo)

(FOTO: Flávia Castelo)

Eu também estou com medo. Não por ele, claro. Mas por nós e do que estamos fazendo. O que estamos fazendo? O que estamos fazendo além de encarar todo o sistema fraudulento? Sim, há uma diferença entre saber que cada delatado e todo delator da Lava Jato é corrupto e aceitar que a indecência é inerente ao conjunto das instituições sociais da qual estamos inseridos, subordinados.

Desconsiderando o contorno europeu marxista, quando su’A ideologia alemã’ diz que “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”, e mesmo sem querer/poder ser determinista, meu temor aumenta. E me pergunto: se é a sociedade que nos muda, que nos molda, o que nos tornaremos? Na verdade, a pergunta é: com tantas ‘Cracolândias’, ‘Manchesters’ e antropocentrismo seletivo, o que nos tornamos? Ou ainda: nesse desenvolvimento insustentável, quem sou eu? Quem é você?

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.

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Flávia Castelo: “Amamos demasiadamente humanos (?)”

Nossa vida, nossa sociedade, nossa consciência

Por Tribuna do Ceará em Flávia Castelo

24 de maio de 2017 às 10:12

Há 5 meses

Por Flávia Castelo

Era a última pauta de trabalho do dia, quando a anfitriã me conduziu ao local da reunião: ‘sala do amor’, estava escrito na porta. Detalhes, como esse, me fazem respirar melhor.

Comentei como estávamos em harmonia e citei meu Luc Ferry que estava na bolsa: ‘Do amor’. Uma homenagem a Stendhal que está me acompanhando nas esperas da vida. Diz o subtítulo que é ‘uma filosofia para o século XXI’. Que também poderia ser: ‘por mais dedicação ao conhecimento, à moral e à política’. Mas como, no ritmo diário que nos é imposto, conseguimos acompanhar e participar de tudo que está acontecendo no país?

Não, não estou me eximindo de responsabilidades. Apenas, quero compartilhar a frustração em lidar com anestesiamento e alienação coletivos. Lembra quando Temer queria espalhar milhões de outdoors com a frase de um dono de posto homicida (além de acusado de vários crimes, como receptação dolosa, sonegação fiscal, formação de quadrilha, estelionato e despejo por falta de pagamento)? “Não fale em crise, trabalhe”, ele citou há exatamente um ano, como se tivesse medo do que estaria por vir.

(FOTO: Flávia Castelo)

(FOTO: Flávia Castelo)

Eu também estou com medo. Não por ele, claro. Mas por nós e do que estamos fazendo. O que estamos fazendo? O que estamos fazendo além de encarar todo o sistema fraudulento? Sim, há uma diferença entre saber que cada delatado e todo delator da Lava Jato é corrupto e aceitar que a indecência é inerente ao conjunto das instituições sociais da qual estamos inseridos, subordinados.

Desconsiderando o contorno europeu marxista, quando su’A ideologia alemã’ diz que “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”, e mesmo sem querer/poder ser determinista, meu temor aumenta. E me pergunto: se é a sociedade que nos muda, que nos molda, o que nos tornaremos? Na verdade, a pergunta é: com tantas ‘Cracolândias’, ‘Manchesters’ e antropocentrismo seletivo, o que nos tornamos? Ou ainda: nesse desenvolvimento insustentável, quem sou eu? Quem é você?

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*Flávia Castelo é Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal do Ceará e Doutora em Biotecnologia pela mesma instituição e pela Universidade de Antuérpia/Bélgica. Flávia é advogada, professora e mãe.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e às 18h10.