Tóquio: o passado presente no futuro de uma cidade feita para seus cidadãos

CIDADES EM TRANSFORMAÇÃO

Tóquio: o passado presente no futuro de uma cidade feita para seus cidadãos

Para alguns, no Brasil, a ideia da ocupação do espaço público via concessão de uso pela iniciativa privada soa como uma ofensa à cidade

Por Tribuna do Ceará em Águeda Muniz

23 de Janeiro de 2018 às 16:04

Há 10 meses

Por Águeda Muniz,

Com mais de 13 milhões de habitantes, alta densidade, passeios acessíveis, áreas verdes e espaços públicos de qualidade, Tóquio, a área urbana mais populosa do mundo, ensina as cidades brasileiras como ser uma cidade voltada para o cidadão.

Milhares de pessoas atravessam diariamente o maior cruzamento do mundo, Shibuya, onde, no horário de pico, circulam mais de três mil transeuntes. E por reunir todos os modais de transporte em seu entorno, por apresentar alta densidade representada pela verticalização – para alguns, exagerada, aliada a uma profusão de mensagens publicitárias com apelo sonoro, Shibuya é, por si só, uma atração turística, uma experiência para se viver. E como funciona! Apesar de um espaço de passagem, é também um espaço de convivência.

No Brasil o uso de peças publicitárias audiovisuais é restrito para garantir a qualidade ambiental de nossas cidades. De forma nenhuma está se fazendo apologia ao uso desmedido de tais recursos que, por vezes, poluem nossas urbes. O alerta é para a reflexão de que legislamos demais, regulamentamos demais e a regra é, muitas vezes, impossível de ser executada.

O que dizer dos edifícios icônicos em Ginza com suas fachadas iluminadas, sem nenhum recuo lateral ou frontal, mas com calçadas extralargas, acessíveis e arborizadas convidando o pedestre a protagonizar aquele cenário. Ginza fecha para os carros sua rua principal no sábado e é neste dia que a rua fica mais viva! Mesas e cadeiras dispostas em meio a pessoas caminhando, comprando, interagindo.

Tóquio - Japão
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Tóquio – Japão

Tóquio ensina as cidades brasileiras como ser uma cidade voltada para o cidadão. (Foto: Águeda Muniz)

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Tóquio ensina as cidades brasileiras como ser uma cidade voltada para o cidadão. (Foto: Águeda Muniz)

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Tóquio ensina as cidades brasileiras como ser uma cidade voltada para o cidadão. (Foto: Águeda Muniz)

Talvez a regra não deva estar no recuo, nem na altura do edifício, mas sim na possibilidade de oferecer uma cidade caminhável para todos, um espaço aprazível para o cidadão. Uma legislação urbanística, simples, que empreenda, integre e faça o cidadão sentir que é protagonista na cidade.

Não podemos deixar jamais de falar aqui da perfeita integração do antigo com o novo. Prédios seculares lado a lado da arquitetura contemporânea, mas que não deixa de abordar os traços da cultura nipônica. O que dizer dos recursos naturais em perfeita harmonia com o ambiente construído? Esta convivência é impraticável nas cidades brasileiras. Regras e mais regras impossibilitam muitas vezes o próprio Poder Público a produzir uma cidade mais plena, mais inclusiva, mais real. E assim, o informal vai sobrepujando o formal.

A antiga via férrea – muito utilizada ainda, que percorre a cidade em nível aéreo e que, em todo o seu percurso, em nível do solo, nos apresenta um dos circuitos mais movimentados da cidade com bares e restaurantes que oferecem a gastronomia local e gente, muita gente reunida, entre nativos e visitantes que convivem de forma tranquila com veículos e bicicletas que transitam de forma cuidadosa, porque o pedestre é prioridade.

Para alguns, no Brasil, a ideia da ocupação do espaço público via concessão de uso pela iniciativa privada soa como uma ofensa à cidade. E assim temos espaços degradados e subutilizados ao longo dos nossos modais de transporte, embaixo de viadutos porque muitas das vezes a regra não permite.

Para finalizar, vamos falar do lixo. Não há sequer resquício de papel ou mesmo pontas de cigarro nas ruas de Tóquio. E também não há lixeiras. O lixo que você produz é obrigação sua descartar. E assim se controla o consumo, se controla o descarte.

Sede dos Jogos Olímpicos de 2020, Tóquio se projeta para o mundo como a cidade que chegou ao futuro sem romper com sua cultura, hábitos e costumes; como a cidade que valoriza seu cidadão e que está preparada para receber delegações, autoridades e os milhares de visitantes. Podemos verificar isto nas várias experiências que a cidade proporciona.

Tóquio é a cidade perfeita? Pode não ser, mas é real, inclusiva e feita para o cidadão.

* Águeda Muniz é Doutora em Arquitetura e Urbanismo e titular da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza.

A coluna “Cidades em Transformação” é publicada no Tribuna do Ceará, às terça-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7) às 9h10 de terça-feira.

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CIDADES EM TRANSFORMAÇÃO

Tóquio: o passado presente no futuro de uma cidade feita para seus cidadãos

Para alguns, no Brasil, a ideia da ocupação do espaço público via concessão de uso pela iniciativa privada soa como uma ofensa à cidade

Por Tribuna do Ceará em Águeda Muniz

23 de Janeiro de 2018 às 16:04

Há 10 meses

Por Águeda Muniz,

Com mais de 13 milhões de habitantes, alta densidade, passeios acessíveis, áreas verdes e espaços públicos de qualidade, Tóquio, a área urbana mais populosa do mundo, ensina as cidades brasileiras como ser uma cidade voltada para o cidadão.

Milhares de pessoas atravessam diariamente o maior cruzamento do mundo, Shibuya, onde, no horário de pico, circulam mais de três mil transeuntes. E por reunir todos os modais de transporte em seu entorno, por apresentar alta densidade representada pela verticalização – para alguns, exagerada, aliada a uma profusão de mensagens publicitárias com apelo sonoro, Shibuya é, por si só, uma atração turística, uma experiência para se viver. E como funciona! Apesar de um espaço de passagem, é também um espaço de convivência.

No Brasil o uso de peças publicitárias audiovisuais é restrito para garantir a qualidade ambiental de nossas cidades. De forma nenhuma está se fazendo apologia ao uso desmedido de tais recursos que, por vezes, poluem nossas urbes. O alerta é para a reflexão de que legislamos demais, regulamentamos demais e a regra é, muitas vezes, impossível de ser executada.

O que dizer dos edifícios icônicos em Ginza com suas fachadas iluminadas, sem nenhum recuo lateral ou frontal, mas com calçadas extralargas, acessíveis e arborizadas convidando o pedestre a protagonizar aquele cenário. Ginza fecha para os carros sua rua principal no sábado e é neste dia que a rua fica mais viva! Mesas e cadeiras dispostas em meio a pessoas caminhando, comprando, interagindo.

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Tóquio ensina as cidades brasileiras como ser uma cidade voltada para o cidadão. (Foto: Águeda Muniz)

Talvez a regra não deva estar no recuo, nem na altura do edifício, mas sim na possibilidade de oferecer uma cidade caminhável para todos, um espaço aprazível para o cidadão. Uma legislação urbanística, simples, que empreenda, integre e faça o cidadão sentir que é protagonista na cidade.

Não podemos deixar jamais de falar aqui da perfeita integração do antigo com o novo. Prédios seculares lado a lado da arquitetura contemporânea, mas que não deixa de abordar os traços da cultura nipônica. O que dizer dos recursos naturais em perfeita harmonia com o ambiente construído? Esta convivência é impraticável nas cidades brasileiras. Regras e mais regras impossibilitam muitas vezes o próprio Poder Público a produzir uma cidade mais plena, mais inclusiva, mais real. E assim, o informal vai sobrepujando o formal.

A antiga via férrea – muito utilizada ainda, que percorre a cidade em nível aéreo e que, em todo o seu percurso, em nível do solo, nos apresenta um dos circuitos mais movimentados da cidade com bares e restaurantes que oferecem a gastronomia local e gente, muita gente reunida, entre nativos e visitantes que convivem de forma tranquila com veículos e bicicletas que transitam de forma cuidadosa, porque o pedestre é prioridade.

Para alguns, no Brasil, a ideia da ocupação do espaço público via concessão de uso pela iniciativa privada soa como uma ofensa à cidade. E assim temos espaços degradados e subutilizados ao longo dos nossos modais de transporte, embaixo de viadutos porque muitas das vezes a regra não permite.

Para finalizar, vamos falar do lixo. Não há sequer resquício de papel ou mesmo pontas de cigarro nas ruas de Tóquio. E também não há lixeiras. O lixo que você produz é obrigação sua descartar. E assim se controla o consumo, se controla o descarte.

Sede dos Jogos Olímpicos de 2020, Tóquio se projeta para o mundo como a cidade que chegou ao futuro sem romper com sua cultura, hábitos e costumes; como a cidade que valoriza seu cidadão e que está preparada para receber delegações, autoridades e os milhares de visitantes. Podemos verificar isto nas várias experiências que a cidade proporciona.

Tóquio é a cidade perfeita? Pode não ser, mas é real, inclusiva e feita para o cidadão.

* Águeda Muniz é Doutora em Arquitetura e Urbanismo e titular da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza.

A coluna “Cidades em Transformação” é publicada no Tribuna do Ceará, às terça-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7) às 9h10 de terça-feira.