Águeda Muniz: Crescimento desordenado das cidades brasileiras
CIDADES EM TRANSFORMAÇÃO

Águeda Muniz: “Crescimento desordenado das cidades brasileiras”

Tal descompasso tem estreita relação com nosso processo de colonização

Por Tribuna do Ceará em Águeda Muniz

14 de março de 2017 às 15:10

Há 5 meses

Por Águeda Muniz

É na obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, onde encontramos o início do descompasso entre o espraiamento desordenado dos centros urbanos no Brasil e as regulamentações que regem seu ordenamento territorial. Tal descompasso tem estreita relação com nosso processo de colonização.

Segundo o autor deste célebre livro, “a colonização espanhola caracterizou-se pelo que faltou à portuguesa: aplicação insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político da metrópole sobre as terras conquistadas, mediante a criação de grandes núcleos de povoação estáveis e bem ordenados. Um zelo minucioso e previdente dirigiu a fundação das cidades espanholas na América”.

Holanda afirma que os espanhóis agiam com ladrilheiros e os portugueses como semeadores. Ou seja, ao elevar a técnica como forma de conquistar e consolidar o domínio das terras, os espanhóis acabaram por formar centros urbanos mais ordenados. E vai mais além, acabaram por formar sociedades mais organizadas, mais empoderadas. Ao agir como semeadores, os portugueses dificultavam um ordenamento mais delineado e permanente em suas colônias.

E neste sentido, nossas cidades evoluíram com o passar dos tempos e tornaram-se organismos complexos de serem administrados, as quais ainda apresentam deficiências e/ou implantações tardias de processos adequados de planejamento. É nestas onde o pluralismo da sociedade mostra destacadamente sua face negativa, onde as desigualdades são visíveis por meio de episódios de violência, falta de moradia, desemprego, falta de infraestrutura, degradação ambiental e exclusão social.

Ao longo desse processo, muitos erros foram cometidos, como a falta de vínculo entre o planejamento e a gestão urbanos; ausência de previsão, orientação e localização dos investimentos; linguagem hermética especializada e propostas setoriais desvinculando o físico do social, do econômico, do tributário etc. Hoje, há uma busca incansável para superar o histórico descasamento entre leis, investimentos e gestão (operação e gerenciamento) e a formação de quadros para o planejamento e gestão urbanos implica compromisso com a ação real e concreta.

Cidades bem planejadas e geridas podem e devem estabelecer uma sociedade, que, mesmo sendo plural ela deve ser justa. E, para que se tenha uma sociedade justa, as cidades têm que primeiramente corresponder às expectativas de seus habitantes, devendo ser uma cidade saudável, segura, acessível, compartilhada, isto é, um lugar para viver bem.

* Águeda Muniz é Doutora em Arquitetura e Urbanismo e titular da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza.

A coluna “Cidades em Transformação” é publicada no Tribuna do Ceará, às terça-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7) às 9h10 de terça-feira.

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CIDADES EM TRANSFORMAÇÃO

Águeda Muniz: “Crescimento desordenado das cidades brasileiras”

Tal descompasso tem estreita relação com nosso processo de colonização

Por Tribuna do Ceará em Águeda Muniz

14 de março de 2017 às 15:10

Há 5 meses

Por Águeda Muniz

É na obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, onde encontramos o início do descompasso entre o espraiamento desordenado dos centros urbanos no Brasil e as regulamentações que regem seu ordenamento territorial. Tal descompasso tem estreita relação com nosso processo de colonização.

Segundo o autor deste célebre livro, “a colonização espanhola caracterizou-se pelo que faltou à portuguesa: aplicação insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político da metrópole sobre as terras conquistadas, mediante a criação de grandes núcleos de povoação estáveis e bem ordenados. Um zelo minucioso e previdente dirigiu a fundação das cidades espanholas na América”.

Holanda afirma que os espanhóis agiam com ladrilheiros e os portugueses como semeadores. Ou seja, ao elevar a técnica como forma de conquistar e consolidar o domínio das terras, os espanhóis acabaram por formar centros urbanos mais ordenados. E vai mais além, acabaram por formar sociedades mais organizadas, mais empoderadas. Ao agir como semeadores, os portugueses dificultavam um ordenamento mais delineado e permanente em suas colônias.

E neste sentido, nossas cidades evoluíram com o passar dos tempos e tornaram-se organismos complexos de serem administrados, as quais ainda apresentam deficiências e/ou implantações tardias de processos adequados de planejamento. É nestas onde o pluralismo da sociedade mostra destacadamente sua face negativa, onde as desigualdades são visíveis por meio de episódios de violência, falta de moradia, desemprego, falta de infraestrutura, degradação ambiental e exclusão social.

Ao longo desse processo, muitos erros foram cometidos, como a falta de vínculo entre o planejamento e a gestão urbanos; ausência de previsão, orientação e localização dos investimentos; linguagem hermética especializada e propostas setoriais desvinculando o físico do social, do econômico, do tributário etc. Hoje, há uma busca incansável para superar o histórico descasamento entre leis, investimentos e gestão (operação e gerenciamento) e a formação de quadros para o planejamento e gestão urbanos implica compromisso com a ação real e concreta.

Cidades bem planejadas e geridas podem e devem estabelecer uma sociedade, que, mesmo sendo plural ela deve ser justa. E, para que se tenha uma sociedade justa, as cidades têm que primeiramente corresponder às expectativas de seus habitantes, devendo ser uma cidade saudável, segura, acessível, compartilhada, isto é, um lugar para viver bem.

* Águeda Muniz é Doutora em Arquitetura e Urbanismo e titular da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente de Fortaleza.

A coluna “Cidades em Transformação” é publicada no Tribuna do Ceará, às terça-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7) às 9h10 de terça-feira.