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Projeto muda a vida de 2 milhões de pessoas no Pirambu, 7ª maior favela do Brasil

Projeto 4 Varas completa 25 anos e desenvolve experiência de terapia em comunidade, tendo atendido quase 2 milhões de pessoas

Violência, drogas, miséria e falta de infraestrutura. O Pirambu é visto por grande parte dos fortalezenses como uma chaga ou mazela, que deve ser ocultada de quem nos visita. É como aquela poeira que varremos para debaixo do tapete, escondendo o que realmente lá existe.

Mas poucos são os que realmente conhecem essa comunidade e sabem que há um projeto essencial para quem sofre: o 4 Varas, que completa 25 anos. Segundo Airton Barreto, um dos fundadores do projeto, o nome veio de uma velha história contada por um padre francês ainda na década de 1980. Chamado de padre Henrique, o idoso de 94 anos ouviu uma história em Crateús e a trouxe para o Ceará.

Projeto 4 Varas desenvolve a terapia comunitária para resgatar a auto estima pessoal (FOTO: Hayanne Narlla)

Projeto 4 Varas desenvolve a terapia comunitária para resgatar a auto estima pessoal (FOTO: Hayanne Narlla)

“Um pai, que estava morrendo, chamou os quatro filhos que tinha e pediu uma vara de cada um. Quando eles trouxeram, juntou as varas e pediu para que cada um as quebrassem juntas. Mas nenhum conseguiu. Daí, ele explicou que a herança que ele deixava não era dinheiro, mas essas quatro varas unidas e fortes. E assim ele pediu para que eles fossem assim durante a vida toda: unidos para serem fortes”, contou Airton.

Durante os 25 anos, o Projeto 4 Varas se fortaleceu ao desenvolver experiência de terapia em comunidade, tendo atendido quase 2 milhões de pessoas no Pirambu. Hoje, ganhou outro nome: Movimento Integrado de Saúde Mental Comunitária (MISMEC-CE). Entretanto, a maioria dos atendidos chama de 4 Varas com carinho. Dentre as atividades prestadas, estão: terapia comunitária, massoterapia, yoga, escolinha, farmácia e artes.

Como começou?

Airton foi um dos fundadores do Projeto 4 Varas (FOTO: Hayanne Narlla)

Airton foi um dos fundadores do Projeto 4 Varas (FOTO: Hayanne Narlla)

Para conhecer a história do projeto, é preciso, antes, conhecer a vida de Airton Barreto. Vindo de Canindé, ainda menino de 15 anos, Airton veio morar com os pais e os nove irmãos na cidade grande, mais precisamente no Pirambu.

“Quando cheguei aqui, escutei que Pirambu em tupi significa peixe roncador e percebi que esse nome tinha um estigma muito grande. Eu ainda garoto, que amava os Beatles e os Rolling Stones, comecei a ter vergonha do lugar em que eu morava. Para que eu dizia que morava no Pirambu, a pessoa soltava um ‘vixi!’, mas eu não conhecia a história daqui”, relembrou.

Aos poucos, o menino foi crescendo e enxergando além das barreiras que ele próprio tinha se imposto. “Cheguei a fazer engenharia civil na Unifor só para o povo me perguntar onde eu morava e eu responder que era no Pirambu. Mas aí eu vi que isso não fazia sentido, resolvi fazer direito e me formei”.

Ao conhecer um pouco da história do bairro, ele contou que o local atraía imigrantes do interior do Ceará, que se juntavam e se aglomeravam na região. Ele também lembrou a iniciativa de padre Hélio, ainda na década de 1960, que reuniu cerca de 20 mil pessoas em uma marcha até o Centro de Fortaleza. “Disseram que o Centro fechou as portas com medo de saques. Naquele dia a comissão que ia ser recebida pelo governador entrou por uma porta e o governador saiu por outra. Só no outro dia ele recebeu e disse que ia ter uma desapropriação do local para fixar as pessoas e o Pirambu existisse em lei”, disse.

Após o sentimento de posse pelo bairro, Airton comentou que uma fábrica faliu e houve uma ocupação do espaço na comunidade. No local, foi realizado uma assembleia para dar o nome aquele grupo que se aglomerava no coração do Pirambu. Foi quando o tal padre francês apareceu e você já conhece essa história.

Airton chegou a atender 15 a 20 pessoas em um turno por dia embaixo deste cajueiro (FOTO: Hayanne Narlla)

Airton chegou a atender 15 a 20 pessoas em um turno por dia embaixo deste cajueiro (FOTO: Hayanne Narlla)

Já na comunidade chamada 4 Varas, Airton, já advogado, resolveu atender a comunidade para ajudar em problemas jurídicos. “Aluguei um escritório, que só tinha um vão e um banheiro, e coloquei na parede Direitos Humanos 4 Varas. Chamei a imprensa na época e saiu assim: advogado cria na favela a 4ª Vara. E não fui. Bom, eu coloquei esperando questões jurídicas, mas apareceu problemas psicológicos e outros. Isso foi em 1986, e eu atendia cerca de 15 a 20 pessoas debaixo desse cajueiro”, disse.

Dentre os vários casos que atendeu, o advogado citou o caso de uma idosa – que mostrou o seio chagado para ele –, o de uma mulher que estava revoltada – chegou a derrubar a mesa, afirmando que ele só escutava as histórias, mas nada fazia – e o de uma mulher com baixa estima – ela se sentia feia, porque tinha perdido os dentes e não arranjava mais trabalho.

Foi quando Airton lembrou do irmão psiquiatra e professor de universidade, que o atendeu e veio, acompanhado de seus alunos, atender a comunidade. Assim, o Projeto 4 Varas se tornava uma referência de “soluções” – como Airton gosta de chamar – dentro do Pirambu. “A gente encontra a resposta dentro da própria comunidade. Aqui é um projeto de vida, de resgate”.

Motivação

Airton encontrou no Pirambu o sentido de sua vida. Ele acredita que muitas pessoas criam uma realidade e querem deletar pessoas mais pobres. Ele citou algumas histórias que o tocaram durante toda essa caminhada.

“Fui visitar uma mulher, que tinha acabado de se separar do marido, e sustentava seis filhos. E eu perguntei o porquê de ela está tão feliz. Ela me contou que tinha acabado de conseguir uma faxina. Daí, ela me contou que na hora do almoço, a patroa dela a chamou para almoçar. Mas nessa hora, a mulher falou que não ia comer, porque queria sentir a fome que os filhos sentiam. E ela pediu para levar a comida para casa, porque se comesse lá, a comida ia fazer mal. Eu tenho certeza que essa patroa se sentiu tocada profundamente. Eu queria conhecer essa patroa”, disse.

Além disso, Airton lembrou os dias em que estava doente e algumas senhoras levavam chá de capim-santo para ele. Relembrou também o amor com que foi recebido por algumas pessoas, após ser divulgado o boato de sua morte. E se questionou qual o conselho daria para uma mãe – que tinha um filho que queria roubar, pois estava cansado de sentir fome de manhã e de noite. “Onde eu vou ter esse carinho? Essa forma humana? Não tem nessas Aldetoas da vida”.

Projeto 4 Varas é localizado no Pirambu e tem uma vista privilegiada para o mar (FOTO: Hayanne Narlla)

Projeto 4 Varas é localizado no Pirambu e tem uma vista privilegiada para o mar (FOTO: Hayanne Narlla)

Sobre o Pirambu

Com mais de 42 mil moradores e 11,5 mil domicílios, a sétima maior favela do Brasil está em Fortaleza. O Pirambu consta na lista dos aglomerados subnormais mais relevantes do país, segundo o Censo Demográfico 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além disso, atualmente tem quase 80% da cobertura de esgoto no bairro.

Conteúdo extra

Abri uma brecha para falar um pouco do que vivi para fazer esta matéria. Conheci um homem que sonhava em mudar o mundo. Não conseguiu de fato. Mas pelo menos deve ter mudado o mundo de quase 2 milhões de pessoas que passaram por esse projeto. Aprendi, lá no Pirambu, que basta me sentir tocada com qualquer história de vida para mudar a minha própria. Aprendi também que o dinheiro não vale tanto quanto um bom abraço – abraço que recebi de várias pessoas, que nem me conheciam, mas abraçavam com vontade de que eu fosse feliz. Ao fim, ganhei um livro de contos, com a seguinte dedicatória: “Querida Hayanne, quem tem pouco, tem tudo. Quem não tem nada, tem a liberdade”, por Airton Barreto.

Terapia Comunitária: Quando a palavra é a cura para os sofrimentos

O professor da UFC Adalberto Barreto desempenha a metodologia da Terapia Comunitária Integrativa, criada por ele, e aplicada no Projeto 4 varas

“O remédio é a palavra”, é o que diz o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), doutor em psiquiatria e antropologia, Adalberto Barreto. Ele desempenha, há mais de 25 anos, a metodologia da Terapia Comunitária Integrativa, criada por ele, e aplicada no Projeto 4 varas, no Bairro Pirambu, em Fortaleza.

“Na Terapia Comunitária, a palavra é o remédio e a bússola para quem fala e para quem ouve. É da partilha de experiência entre as pessoas que se alivia o sofrimento das dores. A comunidade busca nela mesma as soluções para os seus problemas que, isoladamente, a pessoa, sua família e o poder público não foram capazes de sanar”, disse Adalberto Barreto.

Sobre a terapia

A Terapia Comunitária é reconhecida pelo Ministério da Saúde e, de acordo com Adalberto Barreto, consiste na troca de experiências, através de sessões de conversas, tendo um terapeuta comunitário como mediador que objetiva a valorização das histórias de vidas dos participantes, o resgate da identidade, a restauração da autoestima etc.

“Todos são convidados a serem responsáveis na busca da superação dos desafios do cotidiano ao sair da posição de vitimas, objetos para corresponsáveis, parceiros, sujeitos”, informou. Ainda segundo Adalberto, as sessões são um espaço de palavra, de escuta e de vínculo, permitindo a partir de uma situação problema, emergir de estratégias para enfrentar as inquietações.

Problemas que podem ser tratados

De acordo com Adalberto Barreto, as sessões são recomendadas para qualquer pessoa que esteja vivendo alguma preocupação ou inquietação diante da vida. ‘São pessoas que estão vivendo um sofrimento, que vivem um caos afetivo, relacional ou emocional. As partilhas ocorrem de forma circular, uma vez que o que é valorizado não são as diferenças entre os participantes, mas a variedade das experiências de vida’, pontuou.

Pesquisa realizada pela UFC, com o apoio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), identificou que 26% das pessoas que procuram as sessões da Terapia Comunitária por motivos de stress e emoções negativas. Os outros são por motivos de conflitos familiares, dependências de álcool e outras drogas, depressões e outros conflitos.

Como participar de uma sessão de terapia comunitária?

Em Fortaleza, as sessões da terapia acontecem em todas as regionais de Fortaleza através do Projeto 4 Varas. As reuniões acontecem todas as quintas-feiras, às 14 horas e é aberta ao publico. ‘As sessões são gratuitas, não precisa marcar e é só chegar e participar’, informou o professor.

Não há limite de participantes. ‘Normalmente participam das rodas de terapia comunitária 80 pessoas, mas já realizamos rodas de Terapia com mais de 200 pessoas, tudo vai depender do espaço’, completou.

O livro ‘Quando a boca cala os órgãos falam’

Em novembro, Adalberto lançou o livro ‘Quando a boca cala os órgãos falam’, que, segundo ele, é uma ferramenta para leigos e profissionais da saúde, que queiram se aprofundar e agregar valores a experiência de sofrer, ficar enfermo e cuidar. “Ele traz pistas importantes para que se possa explorar nas anamneses, aspectos específicos de determinadas enfermidades e sofrimentos”, disse.

O livro apresenta uma síntese das várias leituras psicoenergéticas e simbólicas dos sintomas gerados por diversas culturas, além de experiências de vários autores, enriquecida pela experiência do autor. “Ele nos convida a sermos decifradores de nós mesmos, das falas do nosso corpo, que com sua linguagem própria diz sobre nós, sobre o contexto vivido e sobre nossas heranças transgeracionais. Desta forma podemos transformar a doença numa oportunidade para rever valores, repensar relacionamentos e postura no mundo”, pontuou o autor.

Projeto 4 Varas

No Projeto 4 Varas, a aplicação da Terapia Comunitária visa lutar contra todo tipo de exclusão e promover a integração de pessoas no resgate da dignidade e da cidadania; Favorecer o desenvolvimento comunitário e valorizar as instituições tradicionais, portadoras de sabedoria popular e da identidade cultural entre outros objetivos.

“Nossa grande preocupação tem sido, por um lado, investir na prevenção e por outro, procurar criar um modelo de atendimento as pessoas em crise, que leve em conta os recursos e as peculiaridades da cultura local”, finalizou Adalberto.

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