Número de homicídios de adolescentes sobe 71% em somente 1 ano em Fortaleza

SITUAÇÃO ALARMANTE

Número de homicídios de adolescentes sobe 71% em somente 1 ano em Fortaleza

Só no 1º semestre deste ano, foram mortos 522 jovens de 10 a 19 anos no Ceará. Fortaleza lidera o ranking no país

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

13 de novembro de 2017 às 14:45

Há 1 semana

97% dos adolescentes assassinados em Fortaleza em 2015 são do sexo masculino (FOTO: Marcello Casal/ABr)

De acordo com o Relatório do primeiro semestre de 2017 do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, apresentado nesta segunda-feira (13), na Assembleia Legislativa, houve um aumento de 71% no número de mortes de adolescentes em Fortaleza de 2016 a 2017.

Além disso, no primeiro semestre deste ano, foram registrados 522 jovens de 10 a 19 anos assassinados no Ceará. A divulgação das informações ocorreu no mesmo dia em que quatro adolescentes foram executados no Bairro Sapiranga, em Fortaleza.

Desse total, 42,5% dos casos aconteceram na capital. Os números colocam Fortaleza em primeiro lugar no índice de Homicídios na Adolescência (IHA), segundo o pesquisador Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Conforme a análise, a taxa de homicídios de adolescentes teve um crescimento exponencial a partir de 2006, tendo o seu auge nos anos de 2013-2014. Entretanto, apresentou um queda de 30% dos homicídios de 2014 para 2015.

Até o momento, não se sabe o que causou a redução significativa, pois de 2016 a 2017 as regiões que apresentaram essa diminuição retornaram a ter altos números de entre janeiro a agosto de 2016 e 2017.

+ Leia Mais: Violências Invisíveis: Direitos básicos faltam onde a criminalidade é iminente

“Esta constatação aponta para a baixa sustentabilidade da tendência de queda anterior, caracterizando uma dinâmica ‘errática’ de ocorrência do evento, que pode estar sendo mediada, em parte, nos últimos três anos, por acordos ou desacordos entre as facções”, diz o relatório.

Nesta segunda-feira, 13, foi apresentado o primeiro boletim epidemiológico de homicídios de adolescentes de 10 a 19 anos no Ceará (FOTO: Daniel Rocha)

Para o coordenador do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de Fortaleza, Rui Aguiar, em determinados territórios da cidade em que foram notificados os crimes, há uma predominância afastamento da escola por parte dos adolescentes, precariedade da oferta de geração de emprego para o adolescente e suas famílias, e ameaças de morte.

“Grande parte dos adolescentes que foram mortos abandonou a escola por mais de seis meses, mas o histórico de abandono escolar acontece desde os 12 anos de idade. Outro fator de vulnerabilidade é que apenas 2% dos adolescentes que foram mortos tiveram a oportunidade de ter um emprego legal, oferecidos pelo mercado de trabalho a partir da lei da aprendizagem”, esclareceu o coordenador em que os adolescentes se encontravam antes de morrer. Além disso, Rui acrescenta que mais da metade dos jovens sofreram ameaças de morte.

O estudo do Comitê pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, que analisou os homicídios de meninos e meninas de 10 a 19 anos no Estado Ceará e divulgou o boletim epidemiológico com dados de 2017, aponta algumas diretrizes para prevenir a vida dos adolescentes presentes nessa realidade.

Dentre as recomendações estão o apoio e proteção às famílias vítimas de violência, ampliação da rede de programas e projetos sociais e adolescentes vulnerável ao homicídios, e busca ativa para inclusão de adolescentes no sistema escolar.

Chacina da Sapiranga

Na madrugada desta segunda-feira (13), quatro adolescentes foram executados por 20 homens. O grupo invadiu o Centro de Semiliberdade Mártir Francisca, no bairro Sapiranga, e retiraram seis internos. Quatro foram assassinados com vários tiros, na rua Firmo Ananis Cardoso, enquanto os outros dois foram liberados e retornaram para a unidade.

De acordo com o deputado Renato Roseno (PSol), o caso mostra o nível de vulnerabilidade que os centros se encontram. O parlamentar acrescenta também que, na mesma semana da realização do Comitê, a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da cidade de Washington (EUA) visita Fortaleza por conta da situação dos centros socioeducativos do Ceará.

“A Comissão Interamericana dos Direitos Humanos emitiu medidas cautelares ao Brasil por violações graves dos Direitos Humanos por conta dos Centros Socioeducativos cearenses. Quando vai para a Comissão, não é o estado do Ceará porque não tem representatividade jurídica internacional. Quem responde é o País. O Estado Brasileiro recebeu essas cautelares em razão do que acontece no Ceará”, ressaltou Roseno.

Segundo o deputado, representantes da Comissão devem chegar ao Ceará até o fim desta semana em virtude das condições do Centro Socioeducativo do Estado. “A semana começa mostrando a fragilidade do sistema”, pontua.

Conforme o documento da medida cautelar emitida pela Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, o governo brasileiro deve oferecer infraestrutura e pessoal suficientes para os centros, medidas de salvaguarda a vida e a integridade dos adolescentes detidos nos centros socioeducativos e a implementação de programas que garanta o bem-estar e a integridade física, psíquica e moral dos jovens.

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SITUAÇÃO ALARMANTE

Número de homicídios de adolescentes sobe 71% em somente 1 ano em Fortaleza

Só no 1º semestre deste ano, foram mortos 522 jovens de 10 a 19 anos no Ceará. Fortaleza lidera o ranking no país

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

13 de novembro de 2017 às 14:45

Há 1 semana

97% dos adolescentes assassinados em Fortaleza em 2015 são do sexo masculino (FOTO: Marcello Casal/ABr)

De acordo com o Relatório do primeiro semestre de 2017 do Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, apresentado nesta segunda-feira (13), na Assembleia Legislativa, houve um aumento de 71% no número de mortes de adolescentes em Fortaleza de 2016 a 2017.

Além disso, no primeiro semestre deste ano, foram registrados 522 jovens de 10 a 19 anos assassinados no Ceará. A divulgação das informações ocorreu no mesmo dia em que quatro adolescentes foram executados no Bairro Sapiranga, em Fortaleza.

Desse total, 42,5% dos casos aconteceram na capital. Os números colocam Fortaleza em primeiro lugar no índice de Homicídios na Adolescência (IHA), segundo o pesquisador Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Conforme a análise, a taxa de homicídios de adolescentes teve um crescimento exponencial a partir de 2006, tendo o seu auge nos anos de 2013-2014. Entretanto, apresentou um queda de 30% dos homicídios de 2014 para 2015.

Até o momento, não se sabe o que causou a redução significativa, pois de 2016 a 2017 as regiões que apresentaram essa diminuição retornaram a ter altos números de entre janeiro a agosto de 2016 e 2017.

+ Leia Mais: Violências Invisíveis: Direitos básicos faltam onde a criminalidade é iminente

“Esta constatação aponta para a baixa sustentabilidade da tendência de queda anterior, caracterizando uma dinâmica ‘errática’ de ocorrência do evento, que pode estar sendo mediada, em parte, nos últimos três anos, por acordos ou desacordos entre as facções”, diz o relatório.

Nesta segunda-feira, 13, foi apresentado o primeiro boletim epidemiológico de homicídios de adolescentes de 10 a 19 anos no Ceará (FOTO: Daniel Rocha)

Para o coordenador do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) de Fortaleza, Rui Aguiar, em determinados territórios da cidade em que foram notificados os crimes, há uma predominância afastamento da escola por parte dos adolescentes, precariedade da oferta de geração de emprego para o adolescente e suas famílias, e ameaças de morte.

“Grande parte dos adolescentes que foram mortos abandonou a escola por mais de seis meses, mas o histórico de abandono escolar acontece desde os 12 anos de idade. Outro fator de vulnerabilidade é que apenas 2% dos adolescentes que foram mortos tiveram a oportunidade de ter um emprego legal, oferecidos pelo mercado de trabalho a partir da lei da aprendizagem”, esclareceu o coordenador em que os adolescentes se encontravam antes de morrer. Além disso, Rui acrescenta que mais da metade dos jovens sofreram ameaças de morte.

O estudo do Comitê pela Prevenção de Homicídios na Adolescência, que analisou os homicídios de meninos e meninas de 10 a 19 anos no Estado Ceará e divulgou o boletim epidemiológico com dados de 2017, aponta algumas diretrizes para prevenir a vida dos adolescentes presentes nessa realidade.

Dentre as recomendações estão o apoio e proteção às famílias vítimas de violência, ampliação da rede de programas e projetos sociais e adolescentes vulnerável ao homicídios, e busca ativa para inclusão de adolescentes no sistema escolar.

Chacina da Sapiranga

Na madrugada desta segunda-feira (13), quatro adolescentes foram executados por 20 homens. O grupo invadiu o Centro de Semiliberdade Mártir Francisca, no bairro Sapiranga, e retiraram seis internos. Quatro foram assassinados com vários tiros, na rua Firmo Ananis Cardoso, enquanto os outros dois foram liberados e retornaram para a unidade.

De acordo com o deputado Renato Roseno (PSol), o caso mostra o nível de vulnerabilidade que os centros se encontram. O parlamentar acrescenta também que, na mesma semana da realização do Comitê, a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da cidade de Washington (EUA) visita Fortaleza por conta da situação dos centros socioeducativos do Ceará.

“A Comissão Interamericana dos Direitos Humanos emitiu medidas cautelares ao Brasil por violações graves dos Direitos Humanos por conta dos Centros Socioeducativos cearenses. Quando vai para a Comissão, não é o estado do Ceará porque não tem representatividade jurídica internacional. Quem responde é o País. O Estado Brasileiro recebeu essas cautelares em razão do que acontece no Ceará”, ressaltou Roseno.

Segundo o deputado, representantes da Comissão devem chegar ao Ceará até o fim desta semana em virtude das condições do Centro Socioeducativo do Estado. “A semana começa mostrando a fragilidade do sistema”, pontua.

Conforme o documento da medida cautelar emitida pela Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, o governo brasileiro deve oferecer infraestrutura e pessoal suficientes para os centros, medidas de salvaguarda a vida e a integridade dos adolescentes detidos nos centros socioeducativos e a implementação de programas que garanta o bem-estar e a integridade física, psíquica e moral dos jovens.