Nove municípios do Ceará não registraram homicídios contra adolescentes nos últimos 17 anos

CASOS RAROS

Nove municípios do Ceará não registraram homicídios contra adolescentes nos últimos 17 anos

Em contrapartida, as 175 cidades restantes somam 9.511 assassinatos contra adolescentes no mesmo período. No ano passado, o Ceará bateu recorde de assassinatos

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

25 de junho de 2018 às 07:00

Há 3 semanas
Guaramiranga é uma das cidades que não registraram homicídios contra adolescentes nos últimos 17 anos

Guaramiranga é uma das cidades que não registraram homicídios contra adolescentes nos últimos 17 anos (FOTO: Reprodução/Google Street)

Nove municípios no Ceará não registraram homicídios contra adolescentes de 10 a 19 anos nos últimos 17 anos. Em um Estado com 184 municípios, as cidades se tornam exceção e chamam atenção para o cuidado com crianças e adolescentes. Os dados são do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, repassados pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (SESA).

> Leia Mais: Homicídios contra adolescentes no Ceará cresceram 500% em 17 anos

As cidades são: Palhano (Vale do Jaguaribe), Guaramiranga (Maciço do Baturité), Potiretama (Vale do Jaguaribe), Pires Ferreira (Região Norte), Moraújo (Região Norte), Senador Sá (Sertão de Sobral), Chaval (Litoral Norte), Umari (Centro Sul) e Granjeiro (Cariri).

Em comum, os 9 municípios possuem uma população abaixo de 10 mil habitantes de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em contrapartida, as 175 cidades restantes somam 9.511 assassinatos contra adolescentes no mesmo período. No ano passado, o Ceará bateu recorde de assassinatos em toda história do Estado, com mais de 5 mil homicídios.

Análise

Para o coordenador do Fundo das Nações Unidas (Unicef), Rui Aguiar, a falta de registro deve-se ao baixo número populacional. Ao comparar os registros de homicídios com os dados do SIM e do IBGE, Rui pontua que, na medida em que cresce a população, aumenta o risco de adolescentes serem vítimas de assassinatos no Ceará.

O coordenador da Unicef ressalta levantamento que mostra o crescimento da violência paralelo ao das cidades. Em 61 municípios do Ceará com uma população média de 13 mil habitantes, foram registradas de 1 a 5 mortes nos últimos 17 anos.

Nas 59 cidades com cerca de 25 mil habitantes, houve 6 assassinatos no mesmo período. Nos 42 municípios com população média de 33 mil habitantes, o número chega a uma morte por ano, totalizando 17 mortes. Já em 12 municípios, cuja a média populacional é de 106 mil habitantes, foram contabilizados mais de 80 assassinatos. O maior registro foi na cidade de Caucaia, com 549 mortes.

“Na medida em que cresce a população, cresce o risco de homicídio contra adolescente”

> Leia Mais: Vale Rapadura: por que o ceará tem as 24 melhores escolas públicas de ensino fundamental do Brasil?

O coordenador aponta que as maiores cidades do Ceará não têm infraestrutura adequada, o que resulta em problemas sociais que ainda não estão presentes nas cidades menores.

“Nas grandes cidades no interior do Ceará, há periferias com suas desigualdades sociais, falta saneamento básico, esporte e cultura. Esse cenário já não é presente nas cidades pequenas”, ressalta o especialista.

Avanço do crime

Projetil em referência a morte de criança no bairro Bom Jardim

Segundo promotor, o crime organizado tem avançado cidades menores nos últimos anos (FOTO: Reprodução)

O promotor da Comarca de Pacoti (município a 40 quilômetros de Fortaleza) desde 2013, João Pereira Filho, que também atende Guaramiranga, cidade vizinha, destaca que a população da cidade conta com serviços básicos, como educação, saúde e segurança, o que favorece o baixo índice de mortalidade.

“A gente tem uma rede de proteção social, tem um conselho tutelar, um núcleo escolar com uma população pequena, tem um fórum, um juiz e um promotor. Há também agentes de saúde e unidade policial”, aponta.

Entretanto, ele acredita que esse cenário pode mudar. Segundo ele, se não houver medidas preventivas para conter o avanço do crime organizado, casos de homicídios contra adolescentes podem ser registrados nos próximos anos.

Nas cidades vizinhas, como Pacoti e Mulungu, a presença do tráfico de drogas já está presente. “É uma realidade que está se modificando negativamente. A desigualdade social na serra é gritante”, pontua.

Apesar de não ter registado homicídios, Guaramiranga possui casos de furtos e roubos nos últimos 10 anos. “É uma preocupação e precisa melhorar a prevenção nesse tipo de delito, porque é a entrada para outros crimes”, afirma João Pereira.

Como alternativa, o promotor sugere melhorias nas políticas públicas para minimizar a desigualdade social e, principalmente, nos métodos educacionais para manter o interesse dos jovens dentro das instituições de ensino.

“A escola tem que começar a perceber que os métodos tradicionais não mantêm o aluno na escola. A rua parece ser muito mais interessante. Esse é o desafio para as escolas: atualizar a sua linguagem educacional. Também deve ter atividades culturais destinadas para crianças de 5 a 8 anos”, sugere Pereira.

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CASOS RAROS

Nove municípios do Ceará não registraram homicídios contra adolescentes nos últimos 17 anos

Em contrapartida, as 175 cidades restantes somam 9.511 assassinatos contra adolescentes no mesmo período. No ano passado, o Ceará bateu recorde de assassinatos

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

25 de junho de 2018 às 07:00

Há 3 semanas
Guaramiranga é uma das cidades que não registraram homicídios contra adolescentes nos últimos 17 anos

Guaramiranga é uma das cidades que não registraram homicídios contra adolescentes nos últimos 17 anos (FOTO: Reprodução/Google Street)

Nove municípios no Ceará não registraram homicídios contra adolescentes de 10 a 19 anos nos últimos 17 anos. Em um Estado com 184 municípios, as cidades se tornam exceção e chamam atenção para o cuidado com crianças e adolescentes. Os dados são do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, repassados pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (SESA).

> Leia Mais: Homicídios contra adolescentes no Ceará cresceram 500% em 17 anos

As cidades são: Palhano (Vale do Jaguaribe), Guaramiranga (Maciço do Baturité), Potiretama (Vale do Jaguaribe), Pires Ferreira (Região Norte), Moraújo (Região Norte), Senador Sá (Sertão de Sobral), Chaval (Litoral Norte), Umari (Centro Sul) e Granjeiro (Cariri).

Em comum, os 9 municípios possuem uma população abaixo de 10 mil habitantes de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em contrapartida, as 175 cidades restantes somam 9.511 assassinatos contra adolescentes no mesmo período. No ano passado, o Ceará bateu recorde de assassinatos em toda história do Estado, com mais de 5 mil homicídios.

Análise

Para o coordenador do Fundo das Nações Unidas (Unicef), Rui Aguiar, a falta de registro deve-se ao baixo número populacional. Ao comparar os registros de homicídios com os dados do SIM e do IBGE, Rui pontua que, na medida em que cresce a população, aumenta o risco de adolescentes serem vítimas de assassinatos no Ceará.

O coordenador da Unicef ressalta levantamento que mostra o crescimento da violência paralelo ao das cidades. Em 61 municípios do Ceará com uma população média de 13 mil habitantes, foram registradas de 1 a 5 mortes nos últimos 17 anos.

Nas 59 cidades com cerca de 25 mil habitantes, houve 6 assassinatos no mesmo período. Nos 42 municípios com população média de 33 mil habitantes, o número chega a uma morte por ano, totalizando 17 mortes. Já em 12 municípios, cuja a média populacional é de 106 mil habitantes, foram contabilizados mais de 80 assassinatos. O maior registro foi na cidade de Caucaia, com 549 mortes.

“Na medida em que cresce a população, cresce o risco de homicídio contra adolescente”

> Leia Mais: Vale Rapadura: por que o ceará tem as 24 melhores escolas públicas de ensino fundamental do Brasil?

O coordenador aponta que as maiores cidades do Ceará não têm infraestrutura adequada, o que resulta em problemas sociais que ainda não estão presentes nas cidades menores.

“Nas grandes cidades no interior do Ceará, há periferias com suas desigualdades sociais, falta saneamento básico, esporte e cultura. Esse cenário já não é presente nas cidades pequenas”, ressalta o especialista.

Avanço do crime

Projetil em referência a morte de criança no bairro Bom Jardim

Segundo promotor, o crime organizado tem avançado cidades menores nos últimos anos (FOTO: Reprodução)

O promotor da Comarca de Pacoti (município a 40 quilômetros de Fortaleza) desde 2013, João Pereira Filho, que também atende Guaramiranga, cidade vizinha, destaca que a população da cidade conta com serviços básicos, como educação, saúde e segurança, o que favorece o baixo índice de mortalidade.

“A gente tem uma rede de proteção social, tem um conselho tutelar, um núcleo escolar com uma população pequena, tem um fórum, um juiz e um promotor. Há também agentes de saúde e unidade policial”, aponta.

Entretanto, ele acredita que esse cenário pode mudar. Segundo ele, se não houver medidas preventivas para conter o avanço do crime organizado, casos de homicídios contra adolescentes podem ser registrados nos próximos anos.

Nas cidades vizinhas, como Pacoti e Mulungu, a presença do tráfico de drogas já está presente. “É uma realidade que está se modificando negativamente. A desigualdade social na serra é gritante”, pontua.

Apesar de não ter registado homicídios, Guaramiranga possui casos de furtos e roubos nos últimos 10 anos. “É uma preocupação e precisa melhorar a prevenção nesse tipo de delito, porque é a entrada para outros crimes”, afirma João Pereira.

Como alternativa, o promotor sugere melhorias nas políticas públicas para minimizar a desigualdade social e, principalmente, nos métodos educacionais para manter o interesse dos jovens dentro das instituições de ensino.

“A escola tem que começar a perceber que os métodos tradicionais não mantêm o aluno na escola. A rua parece ser muito mais interessante. Esse é o desafio para as escolas: atualizar a sua linguagem educacional. Também deve ter atividades culturais destinadas para crianças de 5 a 8 anos”, sugere Pereira.