Facção expulsou moradores para usar suas casas como laboratório de drogas, acredita especialista

PODER PARALELO

Facção expulsou moradores para usar suas casas como laboratório de drogas, acredita especialista

O presidente do Conselho Penitenciário do Estado, Cláudio Justa, alerta que o crime organizado está virando um poder paralelo sem precedentes

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

5 de Janeiro de 2018 às 15:00

Há 3 semanas

Equipes do Batalhão de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (BPRaio) estão no local (Foto: Dória Girão)

Apesar da presença de equipes do Batalhão de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (BPRaio), moradores do Barroso II preferiram sair de suas casas após paredes de suas residências terem sido pichadas por criminosos, ameaçando-os de matá-los caso a “ordem” não fosse acatada.

Para o advogado e presidente do Conselho Penitenciário do Estado, Cláudio Justa, essa realidade reflete no poder que os grupos criminosos têm nessas regiões mediante a ausência do poder público, e que a presença pontual da polícia não resolverá o problema.

“Existe aí uma desproporcionalidade entre o Estado e a organização criminosa. Eles (os criminosos) conseguem cumprir as suas ameaças, enquanto o poder público não consegue impedir. É uma realidade”, ressalta Justa.

Ele acredita que os criminosos visam a desocupação das Travessas do Cano, Pelicano, Garça, Libélula e da Borboletas para criar laboratórios de refinamento de drogas ou para outros fins ilícitos. Por esse motivo, atribuem-se da intimidação para conseguir uma desocupação massiva da população.

“A finalidade é utilizar os imóveis para fins ilícitos. As pichações são para aterrorizar a população”, pontua. Segundo o presidente, essa medida tem o efeito de intimidação e inibe da população a não denunciar. Essa realidade indicada pelo especialista pode ser percebida em uma matéria do Tribuna do Ceará.

No conteúdo, um morador, que não quis se identificar, relatou que a sensação de insegurança ainda permanece mesmo com a presença da polícia. “Não posso ser visto chegando perto de nenhum policial. Aqui é cheio de olheiro. Temos que ficar calados”, relatou na entrevista.

Os moradores estavam saindo de suas casas na noite da última quarta-feira (3) (Foto: WhatsApp/Barra Pesada)

Mas por que há essa influência?

De acordo com o presidente do Conselho, o tráfico de drogas é uma atividade bastante rentável, o que possibilita a construção de uma hierarquia, compra de armas de alto calibre compatíveis com grupos de tropa de elite, tais como o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) ou o Raio.

Ao “dominar” uma região, a comunidade local fica subjugada ao poder das organizações criminosas, mesmo com a presença policial.

“Se supõe que essas facções ou organizações têm potenciais econômicos muito grandes. Eles têm armamento pesados e compatíveis com as tropas de elite. Às vezes, intimida até uma viatura da polícia”, explica Cláudio.

De acordo com o presidente, esse poder se estende aos sistemas penitenciários. As más condições estruturais, baixo quadro de funcionários, o número de detentos superior a capacidade e a divisão dos presos por facção contribuem para a extensão dessa atuação e organização desses grupos.

“O agente de penitenciário por exemplo fica vulnerável, porque você tem em média 16 agentes por unidade com mais de 1.600 presos faccionados e extremamente hierarquizados”, ressalta a dificuldade dos profissionais de agirem dentro dos presídios.

Qual é a solução?

Cláudio aponta, como medida para solucionar o problema vivenciado pelos moradores do Barroso II e por outras comunidades da capital, a implementação de políticas públicas aliado a presença policial na região. Pelas fotos e imagens das reportagens do programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, é possível ver a ausência de uma infraestrutura adequada para garantir o bem-estar da população. Segundo ele, a presença policial por si não é suficiente para solucionar o problema.

“A presença da polícia é para a retomada de poder e a permanência do Estado não é apenas policial. É preciso ter um serviço mais amplo, levando infraestrutura para a população. Quanto melhor a infraestrutura de uma região, torna-se mais difícil de uma pessoa cometer algo ilícito”, frisou.

O Tribuna do Ceará solicitou um posicionamento do Ministério Público do Estado para saber se irá exigir do poder estadual medidas mais eficazes a fim de impedir que novos moradores saiam de suas casas e para garantir o bem-estar da população, após a publicação da matéria, o ministério público enviou uma nota sobre a situação. Segue o comunicado:

“O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) está acompanhando a situação dos moradores do Barroso II através do Programa de Apoio ao Sistema Prisional (PROASP), do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) e do Núcleo de Investigação Criminal (NUINC). A instituição há tempos vem fazendo um levantamento das ações desenvolvidas por facções criminosas no Estado e recentemente desencadeou a operação Saratoga, desarticulando uma organização criminosa que vinha sendo monitorada desde 2015 pelo GAECO, com a prisão de 53 pessoas pertencentes ao crime organizado. Outras ações deverão ser desencadeadas com este mesmo desiderato tão logo sejam ultimadas investigações em curso que vêm sendo realizadas principalmente pelo GAECO, NUINC e órgãos de inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS)”.

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Facção expulsou moradores para usar suas casas como laboratório de drogas, acredita especialista

O presidente do Conselho Penitenciário do Estado, Cláudio Justa, alerta que o crime organizado está virando um poder paralelo sem precedentes

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

5 de Janeiro de 2018 às 15:00

Há 3 semanas

Equipes do Batalhão de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (BPRaio) estão no local (Foto: Dória Girão)

Apesar da presença de equipes do Batalhão de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (BPRaio), moradores do Barroso II preferiram sair de suas casas após paredes de suas residências terem sido pichadas por criminosos, ameaçando-os de matá-los caso a “ordem” não fosse acatada.

Para o advogado e presidente do Conselho Penitenciário do Estado, Cláudio Justa, essa realidade reflete no poder que os grupos criminosos têm nessas regiões mediante a ausência do poder público, e que a presença pontual da polícia não resolverá o problema.

“Existe aí uma desproporcionalidade entre o Estado e a organização criminosa. Eles (os criminosos) conseguem cumprir as suas ameaças, enquanto o poder público não consegue impedir. É uma realidade”, ressalta Justa.

Ele acredita que os criminosos visam a desocupação das Travessas do Cano, Pelicano, Garça, Libélula e da Borboletas para criar laboratórios de refinamento de drogas ou para outros fins ilícitos. Por esse motivo, atribuem-se da intimidação para conseguir uma desocupação massiva da população.

“A finalidade é utilizar os imóveis para fins ilícitos. As pichações são para aterrorizar a população”, pontua. Segundo o presidente, essa medida tem o efeito de intimidação e inibe da população a não denunciar. Essa realidade indicada pelo especialista pode ser percebida em uma matéria do Tribuna do Ceará.

No conteúdo, um morador, que não quis se identificar, relatou que a sensação de insegurança ainda permanece mesmo com a presença da polícia. “Não posso ser visto chegando perto de nenhum policial. Aqui é cheio de olheiro. Temos que ficar calados”, relatou na entrevista.

Os moradores estavam saindo de suas casas na noite da última quarta-feira (3) (Foto: WhatsApp/Barra Pesada)

Mas por que há essa influência?

De acordo com o presidente do Conselho, o tráfico de drogas é uma atividade bastante rentável, o que possibilita a construção de uma hierarquia, compra de armas de alto calibre compatíveis com grupos de tropa de elite, tais como o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) ou o Raio.

Ao “dominar” uma região, a comunidade local fica subjugada ao poder das organizações criminosas, mesmo com a presença policial.

“Se supõe que essas facções ou organizações têm potenciais econômicos muito grandes. Eles têm armamento pesados e compatíveis com as tropas de elite. Às vezes, intimida até uma viatura da polícia”, explica Cláudio.

De acordo com o presidente, esse poder se estende aos sistemas penitenciários. As más condições estruturais, baixo quadro de funcionários, o número de detentos superior a capacidade e a divisão dos presos por facção contribuem para a extensão dessa atuação e organização desses grupos.

“O agente de penitenciário por exemplo fica vulnerável, porque você tem em média 16 agentes por unidade com mais de 1.600 presos faccionados e extremamente hierarquizados”, ressalta a dificuldade dos profissionais de agirem dentro dos presídios.

Qual é a solução?

Cláudio aponta, como medida para solucionar o problema vivenciado pelos moradores do Barroso II e por outras comunidades da capital, a implementação de políticas públicas aliado a presença policial na região. Pelas fotos e imagens das reportagens do programa Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, é possível ver a ausência de uma infraestrutura adequada para garantir o bem-estar da população. Segundo ele, a presença policial por si não é suficiente para solucionar o problema.

“A presença da polícia é para a retomada de poder e a permanência do Estado não é apenas policial. É preciso ter um serviço mais amplo, levando infraestrutura para a população. Quanto melhor a infraestrutura de uma região, torna-se mais difícil de uma pessoa cometer algo ilícito”, frisou.

O Tribuna do Ceará solicitou um posicionamento do Ministério Público do Estado para saber se irá exigir do poder estadual medidas mais eficazes a fim de impedir que novos moradores saiam de suas casas e para garantir o bem-estar da população, após a publicação da matéria, o ministério público enviou uma nota sobre a situação. Segue o comunicado:

“O Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) está acompanhando a situação dos moradores do Barroso II através do Programa de Apoio ao Sistema Prisional (PROASP), do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) e do Núcleo de Investigação Criminal (NUINC). A instituição há tempos vem fazendo um levantamento das ações desenvolvidas por facções criminosas no Estado e recentemente desencadeou a operação Saratoga, desarticulando uma organização criminosa que vinha sendo monitorada desde 2015 pelo GAECO, com a prisão de 53 pessoas pertencentes ao crime organizado. Outras ações deverão ser desencadeadas com este mesmo desiderato tão logo sejam ultimadas investigações em curso que vêm sendo realizadas principalmente pelo GAECO, NUINC e órgãos de inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS)”.