"Estamos dormindo no cimento, sem comida nem água", afirma preso em ligação telefônica para familiar

SISTEMA CARCERÁRIO

“Estamos dormindo no cimento, sem comida nem água”, revela preso em ligação telefônica

Presos utilizaram celulares para ligar e avisar aos familiares o que estava acontecendo durante as rebeliões

Por Hayanne Narlla em Segurança Pública

24 de Maio de 2016 às 10:05

Há 2 anos
Familiares ligaram para detentos na tarde de segunda-feira (FOTO: Reprodução TV Jangadeiro)

Familiares ligaram para detentos na tarde de segunda-feira (FOTO: Reprodução TV Jangadeiro)

Onda de rebeliões nos presídios do Ceará assusta quem está dentro e fora do cárcere. Presos utilizaram celulares para ligar e avisar aos familiares o que estava acontecendo durante os atos registrados desde o último sábado (21).

A equipe do Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, conversou com alguns detentos por meio dos celulares de familiares. Em Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), detentos que estavam na CPPL 4 apontaram que foram retirados do local e estariam em outra penitenciária – complexo que engloba a CPPL 5 e 6, unidades em construção.

“Não tem onde colocar nós. Nós tamo num canto na [CPPL] 4 e, duma hora pra outra, colocaram nós na 5, tamo dentro da 6. Vamo morrer de fome, sem água. Ninguém levou nós pra comarca não. Eles estão mentindo. Eles colocaram a gente no canto, tamo dormindo no cimento, não tem comida nem água. Tão matando a gente aos poucos”, revela.

Já no Carrapicho, em Caucaia, também RMF, o clima é de terror. Familiares permaneceram durante a segunda-feira (23) na porta do presídio. Barulhos foram escutados do lado de fora, além de nuvem de fumaça.

Em conversa com outro detento do local, ele explica que alguns companheiros passaram mal durante o acontecimento.

Tão humilhando nossas visitas. Vocês, da sociedade, são cidadão, vocês não entendem esse direito não. Nós que tamo aqui nesse cativeiro, a visita é prioridade, tem muito valor, mas pra sociedade não vale nada. Aí os cara humilha, fica reprimindo nós. No estado do Ceará, tá todo mundo reunido e tá pra ficar pior. Tem que chamar os responsável, a Defensoria Pública. Eles tão entrando é pra matar os presos, e a gente não tá fazendo nada”.

Ele continua na ligação informando que não há ressocialização e comenta ainda dos problemas estruturais que a penitenciária tem.

“Tamo aqui tentando se recuperar, mas o pessoal responsável não tem coragem pra poder recuperar os presos pra sociedade. Trata o preso como animal, a gente come comida azeda. Aqui é cheio de tapuru. O estado do Ceará, que era pra recuperar o preso, tão criando é monstro. Porque nós que vive dentro do crime só temos dois caminhos: cadeia ou morte. Vieram mexer com as esposas da gente. Fizeram muito errado. Único bem que temos é nossa vida, esposas e filhos”.

Além disso, outro preso ainda afirma que a superlotação atrapalha na ressocialização. “O problema do Carrapicho e da CPPL é que os agentes não deixaram entrar visita, as senhoras, nossas esposas. A cadeia que só cabem 6 pessoas, existem 20 presos numa cela. Sem respeito, sem nenhum tipo de ressocialização. Não existe nenhum tipo de negociação pra que resolva o problema. A polícia entra com medida agressiva e repressiva com presos desarmados, atirando com munição de verdade”, conclui, sem saber se há feridos ou não no local.

Mortos

A Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará (Sejus) confirmou que houve 14 mortes de internos durante os conflitos entre os presos registrados no sábado (21) e no domingo (22). No domingo, o governador Camilo Santana solicitou o apoio da Força Nacional de Segurança, no sentido de garantir a estabilidade nos presídios, especialmente durante a recuperação das instalações, que foram destruídas por conta das rebeliões.

Nota

A Secretaria de Justiça afirma que não houve fuga de presos na última segunda. De acordo com o órgão, foi encontrado um túnel na CPPL 1, mas a escavação ainda não havia chegado à área externa da unidade. Em relação à transferência de presos para a CPPL 5, que ainda está em obras, a Sejus não se manifestou. Até agora o órgão não se posicionou também em relação à normalização das visitas aos presos que deve acontecer até o final da semana. Já a Força Nacional de Segurança, que saiu nesta terça-feira (24) cedo de Brasília, deve chegar entre terça e quarta-feira (25) a Fortaleza.

Acompanhe o caso:

23 de maio – “Sistema prisional do Ceará é uma bomba relógio”, critica Conselho Penitenciário

23 de maio – Prints de Whatsapp revelam conversa entre presos durante rebeliões no Ceará

23 de maio – Carta que seria do Comando Vermelho pede fim de matança em presídios do Ceará

22 de maio – Chega ao fim greve de agentes penitenciários após onda de rebeliões no Ceará

21 de maio – Série de rebeliões simultâneas ocorre em 8 presídios do Ceará

21 de maio – Presos compartilham vídeos de quebra-quebra em rebelião na CPPL 4

21 de maio – Ministério Público vai apurar se agentes penitenciários tiveram culpa por caos em presídios

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SISTEMA CARCERÁRIO

“Estamos dormindo no cimento, sem comida nem água”, revela preso em ligação telefônica

Presos utilizaram celulares para ligar e avisar aos familiares o que estava acontecendo durante as rebeliões

Por Hayanne Narlla em Segurança Pública

24 de Maio de 2016 às 10:05

Há 2 anos
Familiares ligaram para detentos na tarde de segunda-feira (FOTO: Reprodução TV Jangadeiro)

Familiares ligaram para detentos na tarde de segunda-feira (FOTO: Reprodução TV Jangadeiro)

Onda de rebeliões nos presídios do Ceará assusta quem está dentro e fora do cárcere. Presos utilizaram celulares para ligar e avisar aos familiares o que estava acontecendo durante os atos registrados desde o último sábado (21).

A equipe do Barra Pesada, da TV Jangadeiro/SBT, conversou com alguns detentos por meio dos celulares de familiares. Em Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), detentos que estavam na CPPL 4 apontaram que foram retirados do local e estariam em outra penitenciária – complexo que engloba a CPPL 5 e 6, unidades em construção.

“Não tem onde colocar nós. Nós tamo num canto na [CPPL] 4 e, duma hora pra outra, colocaram nós na 5, tamo dentro da 6. Vamo morrer de fome, sem água. Ninguém levou nós pra comarca não. Eles estão mentindo. Eles colocaram a gente no canto, tamo dormindo no cimento, não tem comida nem água. Tão matando a gente aos poucos”, revela.

Já no Carrapicho, em Caucaia, também RMF, o clima é de terror. Familiares permaneceram durante a segunda-feira (23) na porta do presídio. Barulhos foram escutados do lado de fora, além de nuvem de fumaça.

Em conversa com outro detento do local, ele explica que alguns companheiros passaram mal durante o acontecimento.

Tão humilhando nossas visitas. Vocês, da sociedade, são cidadão, vocês não entendem esse direito não. Nós que tamo aqui nesse cativeiro, a visita é prioridade, tem muito valor, mas pra sociedade não vale nada. Aí os cara humilha, fica reprimindo nós. No estado do Ceará, tá todo mundo reunido e tá pra ficar pior. Tem que chamar os responsável, a Defensoria Pública. Eles tão entrando é pra matar os presos, e a gente não tá fazendo nada”.

Ele continua na ligação informando que não há ressocialização e comenta ainda dos problemas estruturais que a penitenciária tem.

“Tamo aqui tentando se recuperar, mas o pessoal responsável não tem coragem pra poder recuperar os presos pra sociedade. Trata o preso como animal, a gente come comida azeda. Aqui é cheio de tapuru. O estado do Ceará, que era pra recuperar o preso, tão criando é monstro. Porque nós que vive dentro do crime só temos dois caminhos: cadeia ou morte. Vieram mexer com as esposas da gente. Fizeram muito errado. Único bem que temos é nossa vida, esposas e filhos”.

Além disso, outro preso ainda afirma que a superlotação atrapalha na ressocialização. “O problema do Carrapicho e da CPPL é que os agentes não deixaram entrar visita, as senhoras, nossas esposas. A cadeia que só cabem 6 pessoas, existem 20 presos numa cela. Sem respeito, sem nenhum tipo de ressocialização. Não existe nenhum tipo de negociação pra que resolva o problema. A polícia entra com medida agressiva e repressiva com presos desarmados, atirando com munição de verdade”, conclui, sem saber se há feridos ou não no local.

Mortos

A Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado do Ceará (Sejus) confirmou que houve 14 mortes de internos durante os conflitos entre os presos registrados no sábado (21) e no domingo (22). No domingo, o governador Camilo Santana solicitou o apoio da Força Nacional de Segurança, no sentido de garantir a estabilidade nos presídios, especialmente durante a recuperação das instalações, que foram destruídas por conta das rebeliões.

Nota

A Secretaria de Justiça afirma que não houve fuga de presos na última segunda. De acordo com o órgão, foi encontrado um túnel na CPPL 1, mas a escavação ainda não havia chegado à área externa da unidade. Em relação à transferência de presos para a CPPL 5, que ainda está em obras, a Sejus não se manifestou. Até agora o órgão não se posicionou também em relação à normalização das visitas aos presos que deve acontecer até o final da semana. Já a Força Nacional de Segurança, que saiu nesta terça-feira (24) cedo de Brasília, deve chegar entre terça e quarta-feira (25) a Fortaleza.

Acompanhe o caso:

23 de maio – “Sistema prisional do Ceará é uma bomba relógio”, critica Conselho Penitenciário

23 de maio – Prints de Whatsapp revelam conversa entre presos durante rebeliões no Ceará

23 de maio – Carta que seria do Comando Vermelho pede fim de matança em presídios do Ceará

22 de maio – Chega ao fim greve de agentes penitenciários após onda de rebeliões no Ceará

21 de maio – Série de rebeliões simultâneas ocorre em 8 presídios do Ceará

21 de maio – Presos compartilham vídeos de quebra-quebra em rebelião na CPPL 4

21 de maio – Ministério Público vai apurar se agentes penitenciários tiveram culpa por caos em presídios