Especialistas associam crise na segurança à ausência de combate às facções no Ceará

ONDA DE TERROR

Especialistas associam crise na segurança à ausência de combate às facções no Ceará

Especialistas em segurança pública e membros do Governo e do Copen debateram na Rádio Tribuna Band News FM responsabilidades e soluções para a onda de terror que completa um mês no próximo dia 2

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

29 de janeiro de 2019 às 15:28

Há 3 semanas
ônibus incendiado

No próximo dia 2 de fevereiro, completa um mês do início dos ataques criminosos no Ceará (Foto: Reprodução/WhatsApp)

Facções criminosas presentes no Ceará foram responsáveis pelos quase 300 ataques em 56 municípios cearenses durante 27 dias. Na opinião de especialistas em segurança pública, a crise é resultado da ausência de ações de reconhecimento e de combate às organizações nos últimos anos por parte dos governos estadual e federal. Com isso, ganharam força e agora desafiam o poder do Estado.

Os convidados para o debate na Rádio Tribuna Band News FM foram Élcio Batista, secretário da Casa Civil; José Raimundo, professor universitário e ex-chefe da análise de estatística da Secretaria de Segurança Pública; Walmir Medeiros, coronel do Exército e advogado criminalista; e Cláudio Justa, membro do Conselho Penitenciário do Ceará (Copen).

As ações criminosas deste mês seriam uma resposta à declaração do secretário da Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuquerque, de que não reconhecia as facções criminosas e que endureceria as regras no sistema penitenciário cearense, feitas em entrevista no dia da posse do secretariado, no dia 1º. Confira abaixo.

Principais momentos do debate na Rádio Tribuna Band News:

Bloco 1

O secretário da Casa Civil, Élcio Batista, destacou a responsabilidade do Governo Federal em integrar todas as unidades federativas do País para o combate das organizações criminosas. “O Governo Federal tem um importante papel de operação nacional e integrar todos os estados brasileiros no combate ao crime organizado, dado a capilaridade que as organizações alcançaram, e isso não se alcança em um curto pedaço de tempo”, destacou.

O coronel do Exército e advogado criminalista Walmir Medeiros reforçou a responsabilidade do Governo Federal. Para ele, o Estado cedeu espaço para as facções criminosas. “As facções começaram no Rio de Janeiro e em São Paulo. O Comando Vermelho nas favelas do Rio e o PCC nos presídios paulistas. O Brasil foi cedendo espaço ao ponto desses grupos contestarem o poder do Estado”, critica.

Ao contrário dos outros especialistas, o professor José Raimundo ponderou uma responsabilidade do Governo Estadual na atual crise. Ele citou a mudança do perfil do crime no Ceará e a falta de reconhecimento do governo estadual sobre a existência das facções no Estado.

“Deixou de ser uma questão social para grupos de narcotráfico. É impossível desvincular o problema com a gestão passada, que é a mesma da atual. Contrataram um plano de segurança pública que não teve nenhuma referência aos grupos organizados. O Ceará está exorcizando um demônio criado por ele mesmo”, frisou.

Cláudio Justa, membro do Conselho Penitenciário do Ceará, frisou que o Governo iniciou tardiamente o combate efetivo das facções. “Desde 2014, no âmbito do sistema penitenciário, já identificamos narrativas de grupos organizados e encaminhávamos isso ao Governo, mas afirmavam que não existia crime organizado no Ceará”, lamentou.

Bloco 2

Segundo o secretário da Casa Civil, os presídios cearenses ainda não têm bloqueadores porque há um consenso do Governo que a responsabilidade deve ser das empresas de telefonia, e não do poder público. “Há um entendimento desde o primeiro dia do Governo que tem ser responsabilidade das empresas de telefonia. As empresas não são cobradas porque trata-se de uma legislação nacional. O Supremo Tribunal Federal (STF) diz só quem pode legislar sobre isso é o Congresso Nacional. O Estado não deve usar o dinheiro público para instalar bloqueadores. Quem deve fazer isso são as empresas”, destaca.

Cláudio Justa ressalta a necessidade de evitar que os celulares entrem nas penitenciárias e que os equipamentos têm suas ressalvas. “Sem dúvida nenhuma, o bloqueamento de celular é bastante controverso, porque ele é um equipamento que gera uma contra onda e ele não bloqueia o sinal de 3G. A questão do celular não é bloquear o sinal, é entrar. O que é cobrado por parte do Copen são agentes penitenciários na proporção adequada e baixa população carcerária. Isso permite o maior controle”, argumenta.

Já o professor José Raimundo afirma que há tecnologias eficazes de bloqueio de celulares, utilizados em outros países, e defende que o recurso seja vindo do Estado. “As pessoas não sabem que existe muita tecnologia. Em vários cantos dos Estados Unidos e de Israel, há muita tecnologia de bloqueio de celulares. Você bloqueia até o prédio e ainda cadastra um filtro de quais celulares não sejam bloqueados. Eu discordo de que se vai gastar o pobre dinheiro do Ceará. A gente tem que usar esse dinheiro para isso e para proteger a população”, defende.

Neste momento, o coronel do Exército Walmir Medeiros pontuou sobre a relação do governo estadual com a União para implementar ações de combate ao crime organizado. Segundo ele, a relação está sendo construtiva, surtindo efeitos. “O Governo do Estado e o Governo Federal entenderam que a população estava sofrendo. A prova disso é a presença da Força Nacional de Segurança”, frisou.

Bloco 3

No decorrer do debate, Cláudio Justo denunciou os casos de torturas institucionais dentro dos presídios durante as intervenções. Segundo ele, membros do Copen não estão sendo permitidos a entrar nas unidades para fiscalizar as ações.

“Existem instituições que estão entrando, mas estão sendo selecionados os locais que eles vão entrar. Naquelas unidades que estão sob intervenção disciplinar, eles não entram. Tem uma portaria da anterior Secretaria de Justiça que diz que todas as instituições de direitos humanos e de fiscalização devem acompanhar as intervenções. É justamente o contrário”, denuncia Justa.

O coronel Walmir Medeiros acredita que o Ceará será modelo para o País no combate ao crime organizado, e classifica que as declarações do atual secretário Mauro Albuquerque foram ditas em um momento inadequado.  “Ainda que tenha feito um comentário infeliz naquele momento, foi útil e necessário. Tinha que ter colocado em prática antes de falar, mas o Governo tomou rumos e corrigiu medidas”, avalia.

Já o professor universitário José Raimundo ressalta que a gestão de Camilo Santana cometeu erros gravíssimos no quesito de segurança pública. “Eu não vejo essa dinâmica da segurança do Estado com bons olhos. Essa quarta crise aconteceu porque a gestão anterior, que é a mesma atualmente, cometeu erros gravíssimos de omissão e de ação. É claro que a gente deposita esperança nos nossos gestores. Gostaria que o governo tomasse essa responsabilidade que deveria ter adotado há muito tempo”, conclui.

O secretário da Casa Civil Élcio Batista aponta que há saída para que o governo consiga superar essa crise com a integração das instituições de segurança em nível estadual e nacional. “O Brasil tem uma grande janela de oportunidade. No ano passado, foi criado o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Precisa implementar imediatamente. Convocar os governadores para que trabalhem juntos. Integrar os sistemas. Trocar informações”, defende.

Confira o debate completo:

Tribuna BandNews FM – Primeira Edição – 29.01.2019

Nonato Albuquerque e Ariane Cajazeiras entrevistam especialistas que discutem a onda de violência no Ceará

Posted by Tribuna Bandnews FM on Tuesday, January 29, 2019

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Especialistas associam crise na segurança à ausência de combate às facções no Ceará

Especialistas em segurança pública e membros do Governo e do Copen debateram na Rádio Tribuna Band News FM responsabilidades e soluções para a onda de terror que completa um mês no próximo dia 2

Por Daniel Rocha em Segurança Pública

29 de janeiro de 2019 às 15:28

Há 3 semanas
ônibus incendiado

No próximo dia 2 de fevereiro, completa um mês do início dos ataques criminosos no Ceará (Foto: Reprodução/WhatsApp)

Facções criminosas presentes no Ceará foram responsáveis pelos quase 300 ataques em 56 municípios cearenses durante 27 dias. Na opinião de especialistas em segurança pública, a crise é resultado da ausência de ações de reconhecimento e de combate às organizações nos últimos anos por parte dos governos estadual e federal. Com isso, ganharam força e agora desafiam o poder do Estado.

Os convidados para o debate na Rádio Tribuna Band News FM foram Élcio Batista, secretário da Casa Civil; José Raimundo, professor universitário e ex-chefe da análise de estatística da Secretaria de Segurança Pública; Walmir Medeiros, coronel do Exército e advogado criminalista; e Cláudio Justa, membro do Conselho Penitenciário do Ceará (Copen).

As ações criminosas deste mês seriam uma resposta à declaração do secretário da Administração Penitenciária, Luís Mauro Albuquerque, de que não reconhecia as facções criminosas e que endureceria as regras no sistema penitenciário cearense, feitas em entrevista no dia da posse do secretariado, no dia 1º. Confira abaixo.

Principais momentos do debate na Rádio Tribuna Band News:

Bloco 1

O secretário da Casa Civil, Élcio Batista, destacou a responsabilidade do Governo Federal em integrar todas as unidades federativas do País para o combate das organizações criminosas. “O Governo Federal tem um importante papel de operação nacional e integrar todos os estados brasileiros no combate ao crime organizado, dado a capilaridade que as organizações alcançaram, e isso não se alcança em um curto pedaço de tempo”, destacou.

O coronel do Exército e advogado criminalista Walmir Medeiros reforçou a responsabilidade do Governo Federal. Para ele, o Estado cedeu espaço para as facções criminosas. “As facções começaram no Rio de Janeiro e em São Paulo. O Comando Vermelho nas favelas do Rio e o PCC nos presídios paulistas. O Brasil foi cedendo espaço ao ponto desses grupos contestarem o poder do Estado”, critica.

Ao contrário dos outros especialistas, o professor José Raimundo ponderou uma responsabilidade do Governo Estadual na atual crise. Ele citou a mudança do perfil do crime no Ceará e a falta de reconhecimento do governo estadual sobre a existência das facções no Estado.

“Deixou de ser uma questão social para grupos de narcotráfico. É impossível desvincular o problema com a gestão passada, que é a mesma da atual. Contrataram um plano de segurança pública que não teve nenhuma referência aos grupos organizados. O Ceará está exorcizando um demônio criado por ele mesmo”, frisou.

Cláudio Justa, membro do Conselho Penitenciário do Ceará, frisou que o Governo iniciou tardiamente o combate efetivo das facções. “Desde 2014, no âmbito do sistema penitenciário, já identificamos narrativas de grupos organizados e encaminhávamos isso ao Governo, mas afirmavam que não existia crime organizado no Ceará”, lamentou.

Bloco 2

Segundo o secretário da Casa Civil, os presídios cearenses ainda não têm bloqueadores porque há um consenso do Governo que a responsabilidade deve ser das empresas de telefonia, e não do poder público. “Há um entendimento desde o primeiro dia do Governo que tem ser responsabilidade das empresas de telefonia. As empresas não são cobradas porque trata-se de uma legislação nacional. O Supremo Tribunal Federal (STF) diz só quem pode legislar sobre isso é o Congresso Nacional. O Estado não deve usar o dinheiro público para instalar bloqueadores. Quem deve fazer isso são as empresas”, destaca.

Cláudio Justa ressalta a necessidade de evitar que os celulares entrem nas penitenciárias e que os equipamentos têm suas ressalvas. “Sem dúvida nenhuma, o bloqueamento de celular é bastante controverso, porque ele é um equipamento que gera uma contra onda e ele não bloqueia o sinal de 3G. A questão do celular não é bloquear o sinal, é entrar. O que é cobrado por parte do Copen são agentes penitenciários na proporção adequada e baixa população carcerária. Isso permite o maior controle”, argumenta.

Já o professor José Raimundo afirma que há tecnologias eficazes de bloqueio de celulares, utilizados em outros países, e defende que o recurso seja vindo do Estado. “As pessoas não sabem que existe muita tecnologia. Em vários cantos dos Estados Unidos e de Israel, há muita tecnologia de bloqueio de celulares. Você bloqueia até o prédio e ainda cadastra um filtro de quais celulares não sejam bloqueados. Eu discordo de que se vai gastar o pobre dinheiro do Ceará. A gente tem que usar esse dinheiro para isso e para proteger a população”, defende.

Neste momento, o coronel do Exército Walmir Medeiros pontuou sobre a relação do governo estadual com a União para implementar ações de combate ao crime organizado. Segundo ele, a relação está sendo construtiva, surtindo efeitos. “O Governo do Estado e o Governo Federal entenderam que a população estava sofrendo. A prova disso é a presença da Força Nacional de Segurança”, frisou.

Bloco 3

No decorrer do debate, Cláudio Justo denunciou os casos de torturas institucionais dentro dos presídios durante as intervenções. Segundo ele, membros do Copen não estão sendo permitidos a entrar nas unidades para fiscalizar as ações.

“Existem instituições que estão entrando, mas estão sendo selecionados os locais que eles vão entrar. Naquelas unidades que estão sob intervenção disciplinar, eles não entram. Tem uma portaria da anterior Secretaria de Justiça que diz que todas as instituições de direitos humanos e de fiscalização devem acompanhar as intervenções. É justamente o contrário”, denuncia Justa.

O coronel Walmir Medeiros acredita que o Ceará será modelo para o País no combate ao crime organizado, e classifica que as declarações do atual secretário Mauro Albuquerque foram ditas em um momento inadequado.  “Ainda que tenha feito um comentário infeliz naquele momento, foi útil e necessário. Tinha que ter colocado em prática antes de falar, mas o Governo tomou rumos e corrigiu medidas”, avalia.

Já o professor universitário José Raimundo ressalta que a gestão de Camilo Santana cometeu erros gravíssimos no quesito de segurança pública. “Eu não vejo essa dinâmica da segurança do Estado com bons olhos. Essa quarta crise aconteceu porque a gestão anterior, que é a mesma atualmente, cometeu erros gravíssimos de omissão e de ação. É claro que a gente deposita esperança nos nossos gestores. Gostaria que o governo tomasse essa responsabilidade que deveria ter adotado há muito tempo”, conclui.

O secretário da Casa Civil Élcio Batista aponta que há saída para que o governo consiga superar essa crise com a integração das instituições de segurança em nível estadual e nacional. “O Brasil tem uma grande janela de oportunidade. No ano passado, foi criado o Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Precisa implementar imediatamente. Convocar os governadores para que trabalhem juntos. Integrar os sistemas. Trocar informações”, defende.

Confira o debate completo:

Tribuna BandNews FM – Primeira Edição – 29.01.2019

Nonato Albuquerque e Ariane Cajazeiras entrevistam especialistas que discutem a onda de violência no Ceará

Posted by Tribuna Bandnews FM on Tuesday, January 29, 2019