Pesquisa indica que substância do cajueiro pode ser usada para evitar o refluxo

ESPERANÇA PARA MUITOS

Pesquisa indica que substância do cajueiro pode ser usada para evitar o refluxo

Pesquisadores da UFC identificaram que a substância, obtida a partir do caule do cajueiro, protege o esôfago

Por Tribuna do Ceará em Saúde

4 de Março de 2018 às 06:45

Há 4 meses
Dois homens cientistas fazendo referência a pesquisa desenvolvida em laboratório

A pesquisa, desenvolvida no LEFFAG, entrará em fase de teste em humanos neste ano (FOTO: Viktor Braga/UFC)

Por Agência UFC

Uma nova possibilidade de lidar com o refluxo está sendo investigada pelo Laboratório de Estudos da Fisiofarmacologia Gastrintestinal (Leffag), da Universidade Federal do Ceará (UFC). Trata-se de uma pesquisa, realizada em parceria com a Queen Mary University of London, que identificou uma substância obtida a partir do caule do cajueiro capaz de proteger o esôfago dos incômodos causados pela doença.

O refluxo é um distúrbio que faz os elementos do suco gástrico voltarem pelo esôfago, em vez de seguirem o fluxo normal da digestão. Isso ocorre devido a uma falha no esfíncter, estrutura muscular similar a uma válvula que impede o líquido de passar de uma parte do corpo para outra.

É justamente o contato com o suco gástrico que irrita os tecidos do esôfago e provoca sintomas como azia, queimação e regurgitação. Em alguns casos, o refluxo chega a provocar lesões no esôfago, identificadas pela endoscopia.

Comumente, o refluxo é tratado com inibidores de bomba de prótons, como o omeprazol, para controlar a acidez do estômago. Mas uma parcela considerável dos pacientes não responde adequadamente a esses tratamentos. Isso ocorre especialmente com os que apresentam a chamada doença do refluxo não erosivo, aquela em que não são identificadas lesões do esôfago pela endoscopia.

Do caule do cajueiro, os pesquisadores extraíram uma goma que pode funcionar como um novo tratamento para pacientes nessa última situação. O professor Marcellus Souza, coordenador do Leffag e orientador da pesquisa, explica que a goma não impede o refluxo de acontecer, mas anula o desconforto provocado por ele.

Ela atua protegendo a chamada barreira epitelial do esôfago, uma espécie de tecido sob o qual estão células que, quando atingidas pelo ácido gástrico, causam a sensação de dor. Ao passar por essa região do corpo, a goma do cajueiro forma uma camada protetiva que impede o ácido de ultrapassar a barreira epitelial. Assim, mesmo que haja refluxo, não ocorre a inflamação, uma vez que as células são “defendidas” pela camada de goma.

“A substância não age sobre a barreira entre o estômago e o esôfago – o esfíncter que deveria impedir o suco gástrico de passar-, mas aumenta a resistência da barreira epitelial e evita o processo inflamatório”, explica Marcellus.

A goma é formada, na maior parte, por açúcar, o que explica por que ela adere tão bem a superfícies inertes e biológicas, como a parede do esôfago. O mecanismo exato que causa a reação entre a substância do cajueiro e a barreira epitelial, entretanto, ainda é algo que vem sendo avaliado.

O material encontrado na resina do cajueiro é purificado e colocado em solução até ficar líquido. Com esse produto, o laboratório conseguiu comprovar, ainda em testes em animais, sua interação com o organismo para protegê-lo dos efeitos do refluxo não erosivo.

O modelo foi feito por meio de uma obstrução parcial no fim do estômago de camundongos. Impedido de fazer o caminho normal, o alimento em digestão acaba voltando para o esôfago. Os pesquisadores perceberam que, nesse modelo, o animal apresenta refluxo sem desenvolver a erosão.

Quando testada, a goma do cajueiro melhorou a resistência do epitélio e impediu a inflamação. Os testes também mostraram que a substância não apresentou qualquer caráter tóxico para os animais.

A prova em humanos com a doença será realizada neste ano, com uma pequena amostra inicial. A proposta do teste será avaliar a azia e a acidez de pacientes após uma refeição considerada refluxogênica com e sem a presença da goma, que também passará por processos de melhoria na próxima fase da pesquisa.

O pesquisador Lucas Nicolau, autor do trabalho, explica que a ideia é aprimorar o mecanismo de adesão do material ao passar pelo esôfago. “Ela precisa ter viscosidade porque quanto mais lentamente passar, mais terá chances de aderir”, diz. Após a modificação, novos testes de toxicidade, dessa vez em humanos, e de efeito deverão ser realizados antes de o produto finalmente chegar à indústria.

A melhor forma de apresentação da substância ainda será definida pelo estudo. “Pode ser na forma de gel, comprimido ou tablete. Mas são alterações fáceis, porque o produto básico é muito simples do ponto de vista de constituição”, afirma Lucas, que já tem recebido propostas de empresas para parcerias na comercialização do produto.

Outra vantagem da goma do cajueiro é que sua extração não leva a qualquer desmatamento da espécie vegetal, sendo uma exploração totalmente sustentável, já que a incisão feita no tronco para retirada da resina é fechada naturalmente pela própria planta. “Não há impacto ambiental, se o processo é comparado ao de outras espécies vegetais em que você precisa removê-las para utilizá-las em estudo”, justifica Lucas.

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Pesquisa indica que substância do cajueiro pode ser usada para evitar o refluxo

Pesquisadores da UFC identificaram que a substância, obtida a partir do caule do cajueiro, protege o esôfago

Por Tribuna do Ceará em Saúde

4 de Março de 2018 às 06:45

Há 4 meses
Dois homens cientistas fazendo referência a pesquisa desenvolvida em laboratório

A pesquisa, desenvolvida no LEFFAG, entrará em fase de teste em humanos neste ano (FOTO: Viktor Braga/UFC)

Por Agência UFC

Uma nova possibilidade de lidar com o refluxo está sendo investigada pelo Laboratório de Estudos da Fisiofarmacologia Gastrintestinal (Leffag), da Universidade Federal do Ceará (UFC). Trata-se de uma pesquisa, realizada em parceria com a Queen Mary University of London, que identificou uma substância obtida a partir do caule do cajueiro capaz de proteger o esôfago dos incômodos causados pela doença.

O refluxo é um distúrbio que faz os elementos do suco gástrico voltarem pelo esôfago, em vez de seguirem o fluxo normal da digestão. Isso ocorre devido a uma falha no esfíncter, estrutura muscular similar a uma válvula que impede o líquido de passar de uma parte do corpo para outra.

É justamente o contato com o suco gástrico que irrita os tecidos do esôfago e provoca sintomas como azia, queimação e regurgitação. Em alguns casos, o refluxo chega a provocar lesões no esôfago, identificadas pela endoscopia.

Comumente, o refluxo é tratado com inibidores de bomba de prótons, como o omeprazol, para controlar a acidez do estômago. Mas uma parcela considerável dos pacientes não responde adequadamente a esses tratamentos. Isso ocorre especialmente com os que apresentam a chamada doença do refluxo não erosivo, aquela em que não são identificadas lesões do esôfago pela endoscopia.

Do caule do cajueiro, os pesquisadores extraíram uma goma que pode funcionar como um novo tratamento para pacientes nessa última situação. O professor Marcellus Souza, coordenador do Leffag e orientador da pesquisa, explica que a goma não impede o refluxo de acontecer, mas anula o desconforto provocado por ele.

Ela atua protegendo a chamada barreira epitelial do esôfago, uma espécie de tecido sob o qual estão células que, quando atingidas pelo ácido gástrico, causam a sensação de dor. Ao passar por essa região do corpo, a goma do cajueiro forma uma camada protetiva que impede o ácido de ultrapassar a barreira epitelial. Assim, mesmo que haja refluxo, não ocorre a inflamação, uma vez que as células são “defendidas” pela camada de goma.

“A substância não age sobre a barreira entre o estômago e o esôfago – o esfíncter que deveria impedir o suco gástrico de passar-, mas aumenta a resistência da barreira epitelial e evita o processo inflamatório”, explica Marcellus.

A goma é formada, na maior parte, por açúcar, o que explica por que ela adere tão bem a superfícies inertes e biológicas, como a parede do esôfago. O mecanismo exato que causa a reação entre a substância do cajueiro e a barreira epitelial, entretanto, ainda é algo que vem sendo avaliado.

O material encontrado na resina do cajueiro é purificado e colocado em solução até ficar líquido. Com esse produto, o laboratório conseguiu comprovar, ainda em testes em animais, sua interação com o organismo para protegê-lo dos efeitos do refluxo não erosivo.

O modelo foi feito por meio de uma obstrução parcial no fim do estômago de camundongos. Impedido de fazer o caminho normal, o alimento em digestão acaba voltando para o esôfago. Os pesquisadores perceberam que, nesse modelo, o animal apresenta refluxo sem desenvolver a erosão.

Quando testada, a goma do cajueiro melhorou a resistência do epitélio e impediu a inflamação. Os testes também mostraram que a substância não apresentou qualquer caráter tóxico para os animais.

A prova em humanos com a doença será realizada neste ano, com uma pequena amostra inicial. A proposta do teste será avaliar a azia e a acidez de pacientes após uma refeição considerada refluxogênica com e sem a presença da goma, que também passará por processos de melhoria na próxima fase da pesquisa.

O pesquisador Lucas Nicolau, autor do trabalho, explica que a ideia é aprimorar o mecanismo de adesão do material ao passar pelo esôfago. “Ela precisa ter viscosidade porque quanto mais lentamente passar, mais terá chances de aderir”, diz. Após a modificação, novos testes de toxicidade, dessa vez em humanos, e de efeito deverão ser realizados antes de o produto finalmente chegar à indústria.

A melhor forma de apresentação da substância ainda será definida pelo estudo. “Pode ser na forma de gel, comprimido ou tablete. Mas são alterações fáceis, porque o produto básico é muito simples do ponto de vista de constituição”, afirma Lucas, que já tem recebido propostas de empresas para parcerias na comercialização do produto.

Outra vantagem da goma do cajueiro é que sua extração não leva a qualquer desmatamento da espécie vegetal, sendo uma exploração totalmente sustentável, já que a incisão feita no tronco para retirada da resina é fechada naturalmente pela própria planta. “Não há impacto ambiental, se o processo é comparado ao de outras espécies vegetais em que você precisa removê-las para utilizá-las em estudo”, justifica Lucas.