ONG previne suicídio com apoio emocional a pessoas que precisam de ombro amigo


ONG previne suicídio com apoio emocional a pessoas que precisam de ombro amigo

A cada 45 minutos, um brasileiro morre vítima de suicídio. No mundo, ocorre um caso a cada 40 segundos. Na maioria, seria possível evitar

Por Thamiris Treigher em Saúde

27 de outubro de 2015 às 06:00

Há 2 anos
Nilza Viana é porta-voz do CVV em Fortaleza (Foto: Thamiris Treigher/Tribuna do Ceará)

Nilza Viana é porta-voz do CVV em Fortaleza (Foto: Thamiris Treigher/Tribuna do Ceará)

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”, disse o escritor irlandês Oscar Wilde. Viver, sonhar, brincar, namorar, conquistar, crescer, amar. Nas dificuldades, superar e renascer. Muitas dessas pessoas que “apenas existem” não querem mais tentar viver e passar por tudo isso: as dores e as delícias. Querem retirar suas vidas através do suicídio, um tema pouco falado e ainda tabu na sociedade moderna.

A cada 45 minutos um brasileiro morre vítima de suicídio. No mundo, uma pessoa se mata a cada 40 segundos. As razões podem ser bem diferentes. Muito mais gente do que se imagina já teve uma intenção comum. Segundo estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, pensaram seriamente em dar um fim à própria vida. Desses, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso. Na maioria das vezes, no entanto, é possível evitar que esses pensamentos suicidas virem realidade.

Com a missão de valorizar a vida e prevenir o suicídio, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma das organizações não-governamentais (ONG) mais antigas do Brasil. Fundada em 1962 por um grupo de voluntários, foi reconhecida como entidade de utilidade pública federal pelo decreto lei nº 73.348, de 20 de dezembro de 1973, e atua na prevenção do suicídio há 52 anos, prestando apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo.

Os mais de um milhão de atendimentos anuais são realizados por mais de 2.200 voluntários em 18 estados mais o Distrito Federal, pelo telefone 141 (24 horas), pessoalmente (nos 70 postos de atendimento nos estados) ou pelo site, via chat, Skype e e-mail.

“A pessoa liga para o voluntário seja o que for que ela esteja sentindo naquele momento. Pode ser uma alegria que ela não tem com quem compartilhar, uma tristeza, um sonho, uma expectativa, conversar sobre política, qualquer coisa que de alguma forma mexeu com essa pessoa e ela quer conversar, desabafar e às vezes até chorar”, explica Nilza Viana, porta-voz do CVV em Fortaleza.

A conversa fica entre a pessoa e o voluntário. “Ela se mantém anônima se quiser. Às vezes a pessoa diz o nome, mas isso não significa que a gente vai procurar saber quem é. Quando ela vem pra cá, diz o que está sentindo. Para o voluntário importa o que ela está sentindo naquele momento”, esclarece Nilza.

Em épocas de festas, a procura por atendimentos aumenta. “No Dia das Mães e no Natal é maior. Existem pessoas que estão comemorando, mas algumas não têm o que comemorar. Quantas pessoas perderam alguém? Perderam um ente querido?”, conta Nilza.

Quando uma doença está chegando, o público é esclarecido sobre ela. É preciso prevenir e tomar a vacina. “A gente vê que a questão do suicídio precisa também ser esclarecida da forma correta. Distribuímos cartilhas em colégios. Tratamos o tema de forma suave, esclarecendo e ensinando com cuidado como ajudar as pessoas, já que o suicídio é prevenível. A partir do momento que a pessoa conversa com alguém, com certeza vai encontrar um apoio”, afirma a porta-voz do CVV.

O posto virtual ajuda muito a juventude que é conectada e muitas vezes tem dificuldade de falar, mas não de clicar. O CVV vai  à comunidade com grupos, levando palestras.”É preciso levar à comunidade porque muitas vezes as pessoas não têm a força de buscar uma ajuda”, ressalta Nilza.

Curso para voluntários

Para se tornar voluntário do CVV é preciso ter pelo menos 18 anos, quatro horas semanais para conseguir realizar plantões e disposição em ouvir as pessoas. O voluntário aprende a conversar de forma a não julgar as emoções e intenções das pessoas, mas colocar-se à disposição para ajudá-las.

Pelo menos 9 em cada 10 suicídios poderiam ser prevenidos (Foto: MarLeah Cole/Flicker/Creative Commons)

Pelo menos 9 em cada 10 suicídios poderiam ser prevenidos (Foto:<br /> MarLeah Cole/Flicker/Creative Commons)

Pelo menos nove em cada dez suicídios poderiam ser prevenidos, e o suicida pede ajuda, ao contrário do que muitos acreditam. O tema suicídio está ausente nas conversas entre amigos, entre pais e filhos, nas aulas escolares e nos consultórios médicos.

O assunto só aparece quando uma celebridade comete o suicídio e a polêmica se restringe ao fato em si, sem o devido aprofundamento no que isso pode representar às nossas vidas. Somos nós ou as pessoas que nos cercam potenciais suicidas? Como saber identificar, como prevenir e como pedir ajuda?

Esse tipo de morte, ou tentativa, acontece em qualquer família, em qualquer cidade, com pessoas de qualquer idade. O Brasil tem visto um aumento preocupante nos índices de suicídio entre jovens.

A cada ano, mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida, o que corresponde a uma taxa de mortalidade de 16 por 100 mil habitantes, o mesmo que uma morte a cada 40 segundos, número que pode dobrar até 2020, segundo a OMS. Na faixa etária entre 15 e 29 anos, o suicídio é a segunda causa de morte. 75% dos casos no mundo ocorrem em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

Evidências em diversos países do mundo indicam que limitar o acesso aos meios mais comuns de suicídio (pesticidas e armas de fogo, por exemplo), pode prevenir o suicídio, segundo a OMS.

Ser voluntário

Naíde é voluntária do CVV e conta sobre as alegrias e dificuldade de realizar esse tipo de trabalho. “A coisa boa é poder estar disponível para ajudar o outro e sentir que está fazendo alguma coisa pelo próximo. Isso é fora de qualquer cogitação”.

As dificuldades também existem, pois não há uma disponibilidade completa para dedicar-se ao CVV, por motivos de família e trabalho. “Quando você se dispõe a ser voluntário, já está prevendo que vai ter esse tempo e é preciso se adequar a ele para oferecer disponibilidade ao Centro. É preciso alterar um pouco a rotina. Quando estamos querendo fazer o bem tudo dá certo. Não dá para negar que é um esforço extra mas dá tudo certo”, conta Naíde.

Prevenção do suicídio (Segundo a OMS)

A Organização Mundial de Saúde definiu o dia 10 de setembro como o Dia Internacional de Prevenção do Suicídio. O mês é conhecido como Setembro Amarelo. Segundo a OMS, o tabu/preconceito ainda é a maior barreira à prevenção, que poderia ser feita com:

  • Redução ao acesso de meios de prática do suicídio;
  • Reportagens da imprensa de forma responsável (falar sobre a problemática em si e não focar em detalhes de casos isoladamente);
  • Políticas de consumo de álcool;
  • Identificação precoce com tratamento e cuidados de pessoas com transtornos mentais e uso de substâncias químicas;
  • Treinamento de pessoas não especializadas em saúde sobre o comportamento suicida;
  • Acompanhamento de pessoas que tentaram suicídio e oferecer apoio à comunidade.

O Brasil é o 8º país em números absolutos de suicídio no mundo, o que equivale a uma ocorrência a cada 45 minutos (32,2 ao dia). A taxa subiu de 5,3 para 100.000 habitantes no ano para 2000 para 5,8 em 2012, um aumento de 10,4%.

Entre os anos 1998 e 2008, o total de suicídios no país teve um aumento de 33,5%, superior ao crescimento da própria população. Por isso, o Ministério da Saúde considera o tema como um problema de saúde pública. Um estudo realizado pelo IBGE, com coordenação da OMS, na região de Campinas, mostrou que ao ao longo da vida, 17,1% das pessoas “pensaram seriamente em por fim à vida”. 2,8% efetivamente tentaram o suicídio. De cada três pessoas que tentaram, apenas uma foi imediatamente atendida em um pronto socorro.

“Isso Me Faz Seguir em Frente”

O CVV lançou o  “Isso me faz seguir em frente” um movimento para estimular as pessoas a refletirem sobre suas emoções e motivações para a vida. Originalmente online, o movimento tem como base a fanpage, na qual os internautas compartilham as suas motivações para seguirem em frente, que podem ser pessoas, causas, sensações ou hábitos. Pode-se simplesmente escrever na timeline ou baixar uma das placas produzidas para o movimento  disponíveis no álbum da própria página, escrever sua motivação na placa, tirar uma foto e enviar como mensagem na fanpage. A equipe que administra a página publica a foto na sequência.

Movimento
1/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
2/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
3/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
4/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
5/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
6/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
7/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
8/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

 

O que é o CVV

O CVV é associado ao Befrienders Worldwide, entidade que congrega as instituições congêneres de todo o mundo e participou da força tarefa que elaborou a Política Nacional de Prevenção do Suicídio do Ministério da Saúde

Sua atuação baseia-se essencialmente no trabalho voluntário de milhares de pessoas distribuídas por todas as regiões do Brasil. Em 2004 e 2005 fez parte do Grupo de Trabalho do Ministério da Saúde para definição da Estratégia Nacional para Prevenção do Suicídio.

Sua principal iniciativa é o Programa de Apoio Emocional realizado pelo telefone, chat, e-mail, Skype, correspondência ou pessoalmente nos postos do CVV em todo o país. Trata-se de um serviço gratuito, oferecido por voluntários que se colocam disponíveis à outra pessoa em uma conversa de ajuda e preocupados com os sentimentos dessa pessoa.

O Centro de Valorização mantém também o Francisca Julia Saúde Mental e Dependência Química, e trouxe ao Brasil em 2004 o Programa Amigos do Zippy, de desenvolvimento emocional para crianças de seis e sete anos em escolas públicas e particulares. Após o amadurecimento do Programa, foi fundada a Associação pela Saúde Emocional de Crianças. São mais de 18.500 crianças beneficiadas por ano em 323 instituições de 39 cidades.

Suicídios nos estados do Brasil

Um levantamento foi elaborado a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. A base do SIM consolida as certidões de registro de óbito emitidas no Brasil no local da ocorrência do evento.

Para identificação das mortes por suicídio foram levantados os óbitos por causas externas, registrados segundo o CID-10 (Classificação Internacional de Doenças-10) como lesões autoprovocadas voluntariamente (categorias X60-X84).

Para cálculo do número de suicidas per capita, pela população brasileira, foram utilizadas as estimativas intercensitárias disponibilizadas pelo DATASUS que, por sua vez, utiliza fontes do IBGE. Veja ranking de estados pelo número de suicídios no Brasil:

taxa-de-suicidio-brasil-1taxa-de-suicidio-brasil-2taxa-de-suicidio-brasil-3

 

 

Informação ao povo

O CVV distribui uma cartela chamada “Falando abertamente sobre suicídio”. Confira os principais assuntos abordados:

Como definir o suicídio?

Suicídio é um gesto de autodestruição, realização do desejo de morrer ou de dar fim à própria vida. É uma escolha ou ação que tem graves implicações sociais. Pessoas de todas as idades e classes sociais cometem suicídio. De cada suicídio, de seis a dez pessoas são diretamente impactadas, sofrendo sérias consequências.

O que leva uma pessoa a se matar?

Vários motivos podem levar alguém ao suicídio. Normalmente, a pessoa tem necessidade de aliviar pressões externas como cobranças sociais, culpa, remorso, depressão, ansiedade, medo, fracasso, humilhação, etc.

Como se sente quem quer se matar?

No momento em que tem ideais suicidas, a pessoa combina dois ou mais sentimentos ou ideias conflituosas. É um estado interior chamado ambivalência. Ela busca atenção por se sentir esquecida ou ignorada e tem a sensação de estar só – uma solidão sentida como um isolamento insuportável. Muita gente tem um desejo de revide ou imposição do mesmo sentimento negativo aos outros, querendo que sintam o mesmo que ela. Outras pessoas sentem vontade de desaparecer, fugir ou de ir para um lugar ou situação melhor. Quase sempre sentem a necessidade de alcançar paz, descanso ou um final imediato aos tormentos que não terminam.

O sentimento e o impulso suicida são normais?

Pensar em suicídio é uma coisa que faz parte da natureza humana, e é estimulada pela possibilidade de escolha. O impulso também é uma reação natural, porém é mais comum nas pessoas que estão exaustas pro dentro e emocionalmente fragilizadas diante de situações que despertam possibilidade de suicídio.

Quem se mata mais: meninos ou meninas?

Os meninos normalmente se matam mais, embora elas tentem mais vezes do que os meninos. Essa tendência também acompanha os adultos, por causas culturais relacionadas a costumes e preconceitos sociais.

O suicídio está vinculado a alguma doença mental?

O suicídio resulta de uma crise de duração maior ou menor, que varia de pessoa para pessoa. Não está necessariamente ligado a uma doença mental, mas sim a um momento crítico que pode ser superado. As pessoas correm menos risco de se matar quando aceitam ajuda.

Pessoas que ameaçam se matar podem desistir da ideia?

Sim, podem. Ao receber ajuda preventiva ou oferta de socorro diante de uma crise, elas podem reverter a situação ao colocar para fora seus sentimentos, ideias e valores, alertando assim, seu estado interior. Essa ajuda pode vir de pessoas comuns, ligadas a organizações voluntárias como o CVV, que se dedicam à prevenção do suicídio. São voluntários que têm um papel importante ao ouvir quem estiver passando por um momento de desespero.

O apoio pode vir também de profissionais, contribuição muitas vezes indispensável, especialmente nos casos de descontrole. Essas duas possibilidades de ajuda são reconhecidas no mundo inteiro, pois apresentam bons resultados.

As pessoas que tentam suicídio pedem socorro?

Sim, é frequente pedir ajuda em momentos críticos, quando o suicídio parece a saída. A vontade de viver aparece sempre, resistindo ao desejo de se autodestruir. De forma inesperada, as pessoas se veem diante de sentimentos opostos, o que faz com que considerem a possibilidade de lutar para continuar vivendo. Encontrar alguém que tenha disponibilidade para ouvir e compreender os sentimentos suicidas fortalece as intenções de viver.

Quem está por perto pode ajudar? Como?

É preciso perder o medo de se aproximar de pessoas e oferecer ajuda. A pessoa que está numa crise suicida se percebe sozinha e isolada. Se um amigo se aproximar e perguntar ‘tem algo que que possa fazer para te ajudar?”, a pessoa pode sentir abertura para desabafar. Nessa hora, ter alguém para ouvi-la pode fazer toda a diferença. E qualquer um pode ser esse “ombro amigo”, que ouve sem fazer críticas ou dar conselhos. Quem decide ajudar não deve se preocupar com o que vai falar. O importante é estar preparado para ouvir.

Como o suicídio é visto pela sociedade?

O suicídio foi e continua sendo um tabu entre a maioria das pessoas. É um assunto proibido e que agride várias crenças religiosas. O tabu também se sustenta porque muitos veem o suicida como um fracassado. Por outro lado, os homens, por natureza, não se sentem confortáveis para falar de morte, pois isso expõe seus limites e suas fraquezas. Esse tabu piora a vida de muitos.

O mundo atual tem influência no número de suicídios?

As estatísticas mostram que o suicídio cresce não somente por questões demográficas e populacionais, mas também por problemas sociais que prejudicam o bem-estar de cada um e que estimulam a autodestruição. Nossa sociedade vive diversas situações de agressão, competição e insensibilidade, o que é um campo fértil para que os transtornos emocionais se desenvolvam. O antídoto para combater essa situação limita-se, no momento, ao sentimento humanitário que algumas pessoas têm.

Estatísticas sobre suicídio no Brasil

A média brasileira é de 6 a 7 mortes por 100 mil habitantes, bem abaixo da média mundial – entre 13 e 14 mortes por 100 mil pessoas. Mas o que preocupa é que, enquanto a média mundial permanece estável, esse número tem crescido no Brasil. A maior porcentagem é registrada entre jovens.

 

CVV em Fortaleza:

Rua Ministro Joaquim Bastos, 806 – Bairro de Fátima
CEP 60415-040
Telefone: (85) 3257-1084
fortaleza@cvv.org.br
Atendimento 24 horas
Publicidade

Dê sua opinião

ONG previne suicídio com apoio emocional a pessoas que precisam de ombro amigo

A cada 45 minutos, um brasileiro morre vítima de suicídio. No mundo, ocorre um caso a cada 40 segundos. Na maioria, seria possível evitar

Por Thamiris Treigher em Saúde

27 de outubro de 2015 às 06:00

Há 2 anos
Nilza Viana é porta-voz do CVV em Fortaleza (Foto: Thamiris Treigher/Tribuna do Ceará)

Nilza Viana é porta-voz do CVV em Fortaleza (Foto: Thamiris Treigher/Tribuna do Ceará)

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”, disse o escritor irlandês Oscar Wilde. Viver, sonhar, brincar, namorar, conquistar, crescer, amar. Nas dificuldades, superar e renascer. Muitas dessas pessoas que “apenas existem” não querem mais tentar viver e passar por tudo isso: as dores e as delícias. Querem retirar suas vidas através do suicídio, um tema pouco falado e ainda tabu na sociedade moderna.

A cada 45 minutos um brasileiro morre vítima de suicídio. No mundo, uma pessoa se mata a cada 40 segundos. As razões podem ser bem diferentes. Muito mais gente do que se imagina já teve uma intenção comum. Segundo estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, pensaram seriamente em dar um fim à própria vida. Desses, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso. Na maioria das vezes, no entanto, é possível evitar que esses pensamentos suicidas virem realidade.

Com a missão de valorizar a vida e prevenir o suicídio, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma das organizações não-governamentais (ONG) mais antigas do Brasil. Fundada em 1962 por um grupo de voluntários, foi reconhecida como entidade de utilidade pública federal pelo decreto lei nº 73.348, de 20 de dezembro de 1973, e atua na prevenção do suicídio há 52 anos, prestando apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo.

Os mais de um milhão de atendimentos anuais são realizados por mais de 2.200 voluntários em 18 estados mais o Distrito Federal, pelo telefone 141 (24 horas), pessoalmente (nos 70 postos de atendimento nos estados) ou pelo site, via chat, Skype e e-mail.

“A pessoa liga para o voluntário seja o que for que ela esteja sentindo naquele momento. Pode ser uma alegria que ela não tem com quem compartilhar, uma tristeza, um sonho, uma expectativa, conversar sobre política, qualquer coisa que de alguma forma mexeu com essa pessoa e ela quer conversar, desabafar e às vezes até chorar”, explica Nilza Viana, porta-voz do CVV em Fortaleza.

A conversa fica entre a pessoa e o voluntário. “Ela se mantém anônima se quiser. Às vezes a pessoa diz o nome, mas isso não significa que a gente vai procurar saber quem é. Quando ela vem pra cá, diz o que está sentindo. Para o voluntário importa o que ela está sentindo naquele momento”, esclarece Nilza.

Em épocas de festas, a procura por atendimentos aumenta. “No Dia das Mães e no Natal é maior. Existem pessoas que estão comemorando, mas algumas não têm o que comemorar. Quantas pessoas perderam alguém? Perderam um ente querido?”, conta Nilza.

Quando uma doença está chegando, o público é esclarecido sobre ela. É preciso prevenir e tomar a vacina. “A gente vê que a questão do suicídio precisa também ser esclarecida da forma correta. Distribuímos cartilhas em colégios. Tratamos o tema de forma suave, esclarecendo e ensinando com cuidado como ajudar as pessoas, já que o suicídio é prevenível. A partir do momento que a pessoa conversa com alguém, com certeza vai encontrar um apoio”, afirma a porta-voz do CVV.

O posto virtual ajuda muito a juventude que é conectada e muitas vezes tem dificuldade de falar, mas não de clicar. O CVV vai  à comunidade com grupos, levando palestras.”É preciso levar à comunidade porque muitas vezes as pessoas não têm a força de buscar uma ajuda”, ressalta Nilza.

Curso para voluntários

Para se tornar voluntário do CVV é preciso ter pelo menos 18 anos, quatro horas semanais para conseguir realizar plantões e disposição em ouvir as pessoas. O voluntário aprende a conversar de forma a não julgar as emoções e intenções das pessoas, mas colocar-se à disposição para ajudá-las.

Pelo menos 9 em cada 10 suicídios poderiam ser prevenidos (Foto: MarLeah Cole/Flicker/Creative Commons)

Pelo menos 9 em cada 10 suicídios poderiam ser prevenidos (Foto:<br /> MarLeah Cole/Flicker/Creative Commons)

Pelo menos nove em cada dez suicídios poderiam ser prevenidos, e o suicida pede ajuda, ao contrário do que muitos acreditam. O tema suicídio está ausente nas conversas entre amigos, entre pais e filhos, nas aulas escolares e nos consultórios médicos.

O assunto só aparece quando uma celebridade comete o suicídio e a polêmica se restringe ao fato em si, sem o devido aprofundamento no que isso pode representar às nossas vidas. Somos nós ou as pessoas que nos cercam potenciais suicidas? Como saber identificar, como prevenir e como pedir ajuda?

Esse tipo de morte, ou tentativa, acontece em qualquer família, em qualquer cidade, com pessoas de qualquer idade. O Brasil tem visto um aumento preocupante nos índices de suicídio entre jovens.

A cada ano, mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida, o que corresponde a uma taxa de mortalidade de 16 por 100 mil habitantes, o mesmo que uma morte a cada 40 segundos, número que pode dobrar até 2020, segundo a OMS. Na faixa etária entre 15 e 29 anos, o suicídio é a segunda causa de morte. 75% dos casos no mundo ocorrem em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

Evidências em diversos países do mundo indicam que limitar o acesso aos meios mais comuns de suicídio (pesticidas e armas de fogo, por exemplo), pode prevenir o suicídio, segundo a OMS.

Ser voluntário

Naíde é voluntária do CVV e conta sobre as alegrias e dificuldade de realizar esse tipo de trabalho. “A coisa boa é poder estar disponível para ajudar o outro e sentir que está fazendo alguma coisa pelo próximo. Isso é fora de qualquer cogitação”.

As dificuldades também existem, pois não há uma disponibilidade completa para dedicar-se ao CVV, por motivos de família e trabalho. “Quando você se dispõe a ser voluntário, já está prevendo que vai ter esse tempo e é preciso se adequar a ele para oferecer disponibilidade ao Centro. É preciso alterar um pouco a rotina. Quando estamos querendo fazer o bem tudo dá certo. Não dá para negar que é um esforço extra mas dá tudo certo”, conta Naíde.

Prevenção do suicídio (Segundo a OMS)

A Organização Mundial de Saúde definiu o dia 10 de setembro como o Dia Internacional de Prevenção do Suicídio. O mês é conhecido como Setembro Amarelo. Segundo a OMS, o tabu/preconceito ainda é a maior barreira à prevenção, que poderia ser feita com:

  • Redução ao acesso de meios de prática do suicídio;
  • Reportagens da imprensa de forma responsável (falar sobre a problemática em si e não focar em detalhes de casos isoladamente);
  • Políticas de consumo de álcool;
  • Identificação precoce com tratamento e cuidados de pessoas com transtornos mentais e uso de substâncias químicas;
  • Treinamento de pessoas não especializadas em saúde sobre o comportamento suicida;
  • Acompanhamento de pessoas que tentaram suicídio e oferecer apoio à comunidade.

O Brasil é o 8º país em números absolutos de suicídio no mundo, o que equivale a uma ocorrência a cada 45 minutos (32,2 ao dia). A taxa subiu de 5,3 para 100.000 habitantes no ano para 2000 para 5,8 em 2012, um aumento de 10,4%.

Entre os anos 1998 e 2008, o total de suicídios no país teve um aumento de 33,5%, superior ao crescimento da própria população. Por isso, o Ministério da Saúde considera o tema como um problema de saúde pública. Um estudo realizado pelo IBGE, com coordenação da OMS, na região de Campinas, mostrou que ao ao longo da vida, 17,1% das pessoas “pensaram seriamente em por fim à vida”. 2,8% efetivamente tentaram o suicídio. De cada três pessoas que tentaram, apenas uma foi imediatamente atendida em um pronto socorro.

“Isso Me Faz Seguir em Frente”

O CVV lançou o  “Isso me faz seguir em frente” um movimento para estimular as pessoas a refletirem sobre suas emoções e motivações para a vida. Originalmente online, o movimento tem como base a fanpage, na qual os internautas compartilham as suas motivações para seguirem em frente, que podem ser pessoas, causas, sensações ou hábitos. Pode-se simplesmente escrever na timeline ou baixar uma das placas produzidas para o movimento  disponíveis no álbum da própria página, escrever sua motivação na placa, tirar uma foto e enviar como mensagem na fanpage. A equipe que administra a página publica a foto na sequência.

Movimento
1/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
2/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
3/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
4/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
5/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
6/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
7/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

Movimento
8/8

Movimento “Isso Me Faz Seguir em Frente”

(Foto: Reprodução/Facebook)

 

O que é o CVV

O CVV é associado ao Befrienders Worldwide, entidade que congrega as instituições congêneres de todo o mundo e participou da força tarefa que elaborou a Política Nacional de Prevenção do Suicídio do Ministério da Saúde

Sua atuação baseia-se essencialmente no trabalho voluntário de milhares de pessoas distribuídas por todas as regiões do Brasil. Em 2004 e 2005 fez parte do Grupo de Trabalho do Ministério da Saúde para definição da Estratégia Nacional para Prevenção do Suicídio.

Sua principal iniciativa é o Programa de Apoio Emocional realizado pelo telefone, chat, e-mail, Skype, correspondência ou pessoalmente nos postos do CVV em todo o país. Trata-se de um serviço gratuito, oferecido por voluntários que se colocam disponíveis à outra pessoa em uma conversa de ajuda e preocupados com os sentimentos dessa pessoa.

O Centro de Valorização mantém também o Francisca Julia Saúde Mental e Dependência Química, e trouxe ao Brasil em 2004 o Programa Amigos do Zippy, de desenvolvimento emocional para crianças de seis e sete anos em escolas públicas e particulares. Após o amadurecimento do Programa, foi fundada a Associação pela Saúde Emocional de Crianças. São mais de 18.500 crianças beneficiadas por ano em 323 instituições de 39 cidades.

Suicídios nos estados do Brasil

Um levantamento foi elaborado a partir dos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. A base do SIM consolida as certidões de registro de óbito emitidas no Brasil no local da ocorrência do evento.

Para identificação das mortes por suicídio foram levantados os óbitos por causas externas, registrados segundo o CID-10 (Classificação Internacional de Doenças-10) como lesões autoprovocadas voluntariamente (categorias X60-X84).

Para cálculo do número de suicidas per capita, pela população brasileira, foram utilizadas as estimativas intercensitárias disponibilizadas pelo DATASUS que, por sua vez, utiliza fontes do IBGE. Veja ranking de estados pelo número de suicídios no Brasil:

taxa-de-suicidio-brasil-1taxa-de-suicidio-brasil-2taxa-de-suicidio-brasil-3

 

 

Informação ao povo

O CVV distribui uma cartela chamada “Falando abertamente sobre suicídio”. Confira os principais assuntos abordados:

Como definir o suicídio?

Suicídio é um gesto de autodestruição, realização do desejo de morrer ou de dar fim à própria vida. É uma escolha ou ação que tem graves implicações sociais. Pessoas de todas as idades e classes sociais cometem suicídio. De cada suicídio, de seis a dez pessoas são diretamente impactadas, sofrendo sérias consequências.

O que leva uma pessoa a se matar?

Vários motivos podem levar alguém ao suicídio. Normalmente, a pessoa tem necessidade de aliviar pressões externas como cobranças sociais, culpa, remorso, depressão, ansiedade, medo, fracasso, humilhação, etc.

Como se sente quem quer se matar?

No momento em que tem ideais suicidas, a pessoa combina dois ou mais sentimentos ou ideias conflituosas. É um estado interior chamado ambivalência. Ela busca atenção por se sentir esquecida ou ignorada e tem a sensação de estar só – uma solidão sentida como um isolamento insuportável. Muita gente tem um desejo de revide ou imposição do mesmo sentimento negativo aos outros, querendo que sintam o mesmo que ela. Outras pessoas sentem vontade de desaparecer, fugir ou de ir para um lugar ou situação melhor. Quase sempre sentem a necessidade de alcançar paz, descanso ou um final imediato aos tormentos que não terminam.

O sentimento e o impulso suicida são normais?

Pensar em suicídio é uma coisa que faz parte da natureza humana, e é estimulada pela possibilidade de escolha. O impulso também é uma reação natural, porém é mais comum nas pessoas que estão exaustas pro dentro e emocionalmente fragilizadas diante de situações que despertam possibilidade de suicídio.

Quem se mata mais: meninos ou meninas?

Os meninos normalmente se matam mais, embora elas tentem mais vezes do que os meninos. Essa tendência também acompanha os adultos, por causas culturais relacionadas a costumes e preconceitos sociais.

O suicídio está vinculado a alguma doença mental?

O suicídio resulta de uma crise de duração maior ou menor, que varia de pessoa para pessoa. Não está necessariamente ligado a uma doença mental, mas sim a um momento crítico que pode ser superado. As pessoas correm menos risco de se matar quando aceitam ajuda.

Pessoas que ameaçam se matar podem desistir da ideia?

Sim, podem. Ao receber ajuda preventiva ou oferta de socorro diante de uma crise, elas podem reverter a situação ao colocar para fora seus sentimentos, ideias e valores, alertando assim, seu estado interior. Essa ajuda pode vir de pessoas comuns, ligadas a organizações voluntárias como o CVV, que se dedicam à prevenção do suicídio. São voluntários que têm um papel importante ao ouvir quem estiver passando por um momento de desespero.

O apoio pode vir também de profissionais, contribuição muitas vezes indispensável, especialmente nos casos de descontrole. Essas duas possibilidades de ajuda são reconhecidas no mundo inteiro, pois apresentam bons resultados.

As pessoas que tentam suicídio pedem socorro?

Sim, é frequente pedir ajuda em momentos críticos, quando o suicídio parece a saída. A vontade de viver aparece sempre, resistindo ao desejo de se autodestruir. De forma inesperada, as pessoas se veem diante de sentimentos opostos, o que faz com que considerem a possibilidade de lutar para continuar vivendo. Encontrar alguém que tenha disponibilidade para ouvir e compreender os sentimentos suicidas fortalece as intenções de viver.

Quem está por perto pode ajudar? Como?

É preciso perder o medo de se aproximar de pessoas e oferecer ajuda. A pessoa que está numa crise suicida se percebe sozinha e isolada. Se um amigo se aproximar e perguntar ‘tem algo que que possa fazer para te ajudar?”, a pessoa pode sentir abertura para desabafar. Nessa hora, ter alguém para ouvi-la pode fazer toda a diferença. E qualquer um pode ser esse “ombro amigo”, que ouve sem fazer críticas ou dar conselhos. Quem decide ajudar não deve se preocupar com o que vai falar. O importante é estar preparado para ouvir.

Como o suicídio é visto pela sociedade?

O suicídio foi e continua sendo um tabu entre a maioria das pessoas. É um assunto proibido e que agride várias crenças religiosas. O tabu também se sustenta porque muitos veem o suicida como um fracassado. Por outro lado, os homens, por natureza, não se sentem confortáveis para falar de morte, pois isso expõe seus limites e suas fraquezas. Esse tabu piora a vida de muitos.

O mundo atual tem influência no número de suicídios?

As estatísticas mostram que o suicídio cresce não somente por questões demográficas e populacionais, mas também por problemas sociais que prejudicam o bem-estar de cada um e que estimulam a autodestruição. Nossa sociedade vive diversas situações de agressão, competição e insensibilidade, o que é um campo fértil para que os transtornos emocionais se desenvolvam. O antídoto para combater essa situação limita-se, no momento, ao sentimento humanitário que algumas pessoas têm.

Estatísticas sobre suicídio no Brasil

A média brasileira é de 6 a 7 mortes por 100 mil habitantes, bem abaixo da média mundial – entre 13 e 14 mortes por 100 mil pessoas. Mas o que preocupa é que, enquanto a média mundial permanece estável, esse número tem crescido no Brasil. A maior porcentagem é registrada entre jovens.

 

CVV em Fortaleza:

Rua Ministro Joaquim Bastos, 806 – Bairro de Fátima
CEP 60415-040
Telefone: (85) 3257-1084
fortaleza@cvv.org.br
Atendimento 24 horas